• Nenhum resultado encontrado

RESULTADOS DA MORTALIDADE PARA O MATO GROSSO

Figura 3 – Coeficientes de mortalidade geral padronizado por Região de Saúde de Mato Grosso para os homens, nos anos de 2005 e 2015.

2005 2015

Fonte: DATASUS.

Figura 4 – Coeficientes de mortalidade geral padronizado por Região de Saúde de Mato Grosso para as mulheres, nos anos de 2005 e 2015.

2005 2015

Fonte: DATASUS.

2005 2015

2005 2015

Tabela 5 – Coeficiente de mortalidade geral padronizado por Região de Saúde de Mato Grosso, segundo sexo, nos anos de 2005 e 2015.

Região de Saúde

Homens Mulheres

2005 2015 Variação % 2005 2015 Variação %

Alto Tapajós 742,1 683,3 -7,9 419,1 410,7 -2,0

Baixada Cuiabana 823,9 765,1 -7,1 518,4 485,3 -6,4

Araguaia Xingu 477,8 489,4 2,4 304,9 286,2 -6,1

Centro Norte 846,7 678,5 -19,9 466,0 437,8 -6,0

Garças Araguaia 702,4 707,8 0,8 464,4 471,6 1,6

Médio Araguaia 524,4 600,0 14,4 284,0 389,6 37,2

Médio Norte Matogrossense 754,4 701,1 -7,1 413,5 437,8 5,9 Noroeste Matogrossense 825,8 588,6 -28,7 425,7 364,0 -14,5 Norte Araguaia Karajá 601,2 495,6 -17,6 449,2 293,0 -34,8 Norte Matogrossense 583,6 579,1 -0,8 410,1 383,6 -6,5 Oeste Matogrossense 736,1 740,5 0,6 466,2 496,1 6,4 Sudoeste Matogrossense 598,9 621,3 3,7 333,9 375,8 12,6 Sul Matogrossense 799,6 750,8 -6,1 448,4 488,3 8,9

Teles Pires 589,8 651,1 10,4 378,8 375,8 -0,8

Vale do Peixoto 667,9 687,2 2,9 455,1 412,8 -9,3

Vale dos Arinos 743,5 649,2 -12,7 388,8 348,7 -10,3

Fonte: DATASUS.

Em 2005, para os homens, a mortalidade foi maior para a faixa etária de 20 a 59 anos, enquanto que para as mulheres, para esse mesmo ano, a mortalidade foi maior para aquelas com 60 anos ou mais de idade. Em 2015, a mortalidade passa a ser maior para os homens também para aqueles com 60 anos ou mais de idade. No período avaliado, a faixa etária que apresentou o maior aumento da mortalidade, para ambos os sexos, foi a de 60 anos ou mais de idade, e de forma mais evidente para as mulheres (tabela 6).

A cor da pele/raça que apresentou a maior mortalidade nos dois anos foi a parda, para ambos os sexos. Entretanto, a cor da pele/raça que apresentou o maior aumento da mortalidade no período foi a indígena. Os homens de cor da pele/raça preta apresentaram o dobro da mortalidade das mulheres de mesma cor da pele/raça (tabela 6).

Tanto para os homens quanto para as mulheres, nos dois anos avaliados, os casados foram os que apresentaram a maior mortalidade. Apesar disso, no período analisado, houve redução da mortalidade nessa categoria para os homens e aumento para as mulheres. Também no período, para ambos os sexos, houve maior aumento para a categoria outro (tabela 6).

Quanto à escolaridade, o perfil foi semelhante ao do Brasil. Tanto para os homens quanto para as mulheres, a mortalidade foi maior para aqueles que possuíam de 1 a 7 anos de estudo para os dois anos avaliados, entretanto, aqueles que possuíam de 8 a 11 anos de estudo foram os que apresentaram o maior aumento da mortalidade no período (tabela 6).

Houve redução da contribuição da mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias para a mortalidade geral, tanto para os homens, quanto para as mulheres. A mortalidade por neoplasias aumentou para os dois sexos, assim como a mortalidade proporcional por doenças do metabolismo e por doenças do aparelho respiratório. As causas externas, tanto em 2005 quanto em 2015, representaram a primeira causa de morte para os homens, enquanto que para as mulheres foram as doenças do aparelho circulatório, apesar de haver redução no período analisado.

Também no período, houve aumento da mortalidade por doenças do aparelho digestivo, entretanto de forma mais evidente para as mulheres (quase duas vezes mais) (gráfico 9).

Tabela 6 - Coeficiente de mortalidade (número de óbitos/100.000 habitantes) no Mato Grosso por sexo, segundo fatores demográficos e escolaridade, nos anos de 2005 e 2015.

Fatores demográficos e escolaridade

Homens Mulheres

2005 2015 Variação% 2005 2015 Variação % Faixa etária (anos):

<20 70,7 54,1 -23,5 51,6 37,4 -27,5

20 a 59 258,5 262,9 1,7 103,7 113,2 9,2

≥ 60 248,3 320,4 29,0 175,0 250,4 43,1

Cor da pele/raça:

Branca 215,5 216,3 0,4 137,4 153,9 12,0

Parda 296,9 352,8 18,8 152,3 207,5 36,2

Preta 46,7 49,7 6,4 22,6 24,7 9,3

Amarela 2,8 1,5 -46,4 1,8 1,6 -11,1

Indígena 3,5 8,3 137,1 4,0 7,8 95,0

Estado civil:

Solteiro 193,0 204,6 6,0 79,5 82,7 4,0

Casado 231,2 222,4 -3,8 99,2 105,0 5,8

Viúvo 52,3 66,2 26,6 98,2 133,4 35,8

Outro 5,9 38,8 557,6 1,6 15,5 868,8

Escolaridade (anos de estudo):

< 1 108,0 115,1 6,6 104,4 114,2 9,4

1 a 7 291,7 318,8 9,3 128,8 169,8 31,8

8 a 11 56,2 91,3 62,5 26,3 47,2 79,5

≥ 12 19,4 23,8 22,7 13,3 18,6 39,8

Fonte: DATASUS.

Gráfico 9 - Mortalidade proporcional (%) segundo grupos de causas no Mato Grosso, para os homens (A) e para as mulheres (B), nos anos de 2005 e 2015.

Fonte: DATASUS.

6 DISCUSSÃO

Este estudo trás os resultados da análise do perfil da mortalidade masculina no Brasil e no estado do Mato Grosso, nos anos de 2005 e 2015. Os resultados mostraram, de maneira geral, menor utilização dos serviços de saúde e maior mortalidade geral padronizada para os homens quando comparados as mulheres, de acordo com esses dois recortes geográficos empregados no estudo. O perfil da mortalidade populacional é um dos componentes mais importantes do diagnóstico de saúde a ser avaliado pelos gestores do SUS, objetivando orientar as atividades de planejamento e organização da rede de atenção de saúde (MENDES, 2015).

Considerando a utilização dos serviços de saúde, a pesquisa nacional por amostra de domicílios (PNAD), realizada em 2008, confirma os achados do presente estudo. De acordo com a PNAD, 20,8% dos homens e 10,1% das mulheres com idade entre 20 a 64 anos referiram não ter realizado nenhuma consulta médica nos doze meses antecedentes a pesquisa. Além disso, as mulheres relataram maior número de consultas médicas nos últimos 12 meses (3,9), quando comparadas aos homens (1,8). As principais razões referidas pela população total para a busca de atendimento médico foram: doenças (50%), por puericultura, vacinação ou outros atendimentos de prevenção (22%), problemas odontológicos (14%) e acidentes e lesões (6%). Embora, em ambos os sexos, as doenças tenham sido as principais responsáveis pela procura por atendimento em saúde, as mulheres referiram maior busca por serviços de vacinação ou prevenção (24% e 19% entre o sexo masculino), enquanto que, entre os homens, os motivos mais frequentes para a busca de atendimento em saúde foram os acidentes e as violências (8,9% entre homens e 4,1% entre as mulheres) (IBGE, 2010).

Dados do inquérito nacional de saúde dos Estados Unidos, realizado em 2010, com adultos maiores de 17 anos, apontaram que 27% dos homens e 14% das mulheres não realizaram nenhuma visita ao consultório médico ou a outros profissionais de saúde nos 12 meses antecedentes à pesquisa. Ao contrário do Brasil, os homens americanos relataram maior número de consultas (3,0) do que as mulheres (2,8), possivelmente devido ao sistema de saúde conveniado aos locais de trabalho (CDC, 2012).

A questão de gênero também é colocada como um diferencial ao acesso de serviços de saúde em muitos estudos de demanda, privilegiando a população feminina. Entre as causas estão os valores subjetivos como a incompatibilidade da demonstração de fraqueza, medo com a masculinidade; o papel histórico de que homem não pode adoecer porque tem que sustentar a família; e a falta de identificação masculina com os serviços de saúde devido às ações preventivas se dirigir quase que exclusivamente para mulheres, os horários de atendimento não beneficiarem os trabalhadores e utilizarem as farmácias ou prontos-socorros porque esses responderiam mais objetivamente às suas demandas (GOMES et al., 2007;

TRAVASSOS, 2002).

Nos países desenvolvidos, e também no Brasil, é sabido que as mulheres vivem mais do que os homens. Indicando este fato, a Esperança de Vida ao Nascer (EVN) de mulheres em países como França, Canadá e Estados Unidos, já na década de 80, era de 7 e 8 anos maior do que a dos homens. Em 1965, esta diferença situava-se entre 5 e 7 anos, o que demonstra o aumento da distância entre as EVN de homens e mulheres, nas últimas décadas, nesses países (BANCO MUNDIAL, 1990).

O Censo de 2010, realizado pelo IBGE, trouxe, pela primeira vez, detalhes sobre os registros de mortalidade no Brasil. Entre agosto de 2009 e julho de 2010 foram contabilizados, no país, 1.034.418 óbitos, sendo 591.252 para o sexo masculino e 443.166 para o feminino, uma razão de 1,3 (IBGE, 2011). O Brasil, seguindo o padrão mundial, vem apresentando maiores níveis de EVN para as mulheres desde a década de 40 (CHOR et al., 1992).

Buscando-se explicações para o diferencial de mortalidade entre homens e mulheres, a ligação entre condições sociais e experiência biológica é trazida a tona.

Se, por um lado, é quase intuitiva a relação entre a magnitude e a causa do óbito com as diferentes inserções sociais, o que implica diferentes exposições a situações de risco (JOHNSON, 1977; GOVE e HUGHES, 1979), não é possível excluir a participação das diferenças biológicas do modelo explicativo. A sobremortalidade masculina desde o período pré-natal e a infância (VALLIN e MESLÉ, 1988) aponta no sentido de uma "maior adequação biológica" das mulheres (WINGARD, 1982).

No entanto, também nestes dois períodos de vida, há dificuldade em estabelecer limites precisos entre o que é consequência das condições sociais e o que é efeito de diferenças biológicas. A razão de sexo (número de homens por 100 mulheres) ao

nascer, pode ser indiretamente influenciada por fatores sociais, que atingem o feto no útero. Como os fetos masculinos têm maior risco de abortamento e natimortalidade, devido à maior incidência de alterações genéticas, as populações que apresentam maiores índices de abortamento espontâneos e natimortalidade apresentam número relativamente menor de nascidos vivos do sexo masculino. É reconhecida a determinação social da frequência de abortamentos e natimortalidade, seja pela precária assistência pré-natal ou pela situação de saúde da mulher (CHOR et al., 1992).

Considerando os dados de mortalidade para o Brasil, no ano de 2005 percebe-se maior mortalidade masculina nas UF das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Em 2015, mantém-se o Centro-Oeste, porém atingindo, agora, a maior parte das UF da região Nordeste e Norte. No Mato Grosso, a mortalidade masculina parece ser maior no sul do estado.

Parece haver um aumento de mortalidade nas regiões onde houve um avanço do envelhecimento da população. A região Nordeste, que tinha a esperança de vida ao nascer mais baixa em 1980 (58,25 anos) teve, em 30 anos, um incremento de 12,95 anos nesse indicador, chegando, em 2010, a 71,20 anos, ligeiramente acima da região Norte, que anteriormente estava à sua frente (de 60,75 para 70,76 anos) (IBGE, 2010).

O aumento acelerado do envelhecimento demográfico é realidade brasileira e repercute em Mato Grosso que, segundo o IBGE, passou de 5,8% em 2000 para 7,9% em 2010. O envelhecimento entre os municípios é bastante diversificado, variando aos extremos de 16,6% para o mais envelhecido e 2,8% para o menos envelhecido (IBGE, 2011).

Com relação a faixa etária, de maneira geral, tanto o Brasil quanto o Mato Grosso, apresentaram diminuição da mortalidade entre os mais jovens e aumento entre os idosos, entretanto, essas mudanças foram menos evidentes para os homens.

É importante considerar o fenômeno do envelhecimento populacional para os padrões de mortalidade, fenômeno este que ocorre de forma acelerada no Brasil e acompanha o aumento da longevidade dos indivíduos, expresso pelos ganhos na esperança de vida ao nascer, sendo os idosos a parcela da população que cresce mais rapidamente, sobretudo as mulheres idosas (GOTLIEB et al., 2011).

Ao analisar Mato Grosso, nota-se que o aumento populacional, assim como o envelhecimento populacional vem crescendo no Estado. Segundo o Censo do IBGE (2011) o Estado é o 19º mais populoso do Brasil e concentra 1,6% da população brasileira. Observa-se um crescimento populacional em todas as faixas etárias, apresentando uma taxa média de crescimento no período de 2000 a 2010 de 1,94%.

Para o Brasil, a cor de pele/raça branca foi a que apresentou os maiores coeficientes de mortalidade para os homens, entretanto foi a raça parda que apresentou o maior aumento na mortalidade. Para o Mato Grosso, a cor da pele/raça que apresentou a maior mortalidade masculina foi a parda. Também no Estado, os homens de cor da pele/raça preta apresentaram o dobro da mortalidade das mulheres de mesma cor da pele/raça.

De fato, o quadro de mortalidade de acordo com a cor da pele/raça reflete a estrutura racial do recorte geográfico considerado, pois de acordo com o Censo do IBGE de 2010 (IBGE, 2011), a maioria da população brasileira se classificou como branca (47,7%), enquanto que no Mato Grosso, a maioria da população se classificou como parda (52,4%).

Com relação ao maior aumento da mortalidade entre pardos e negros, o Atlas da Violência de 2017, mostra que a cada 100 mortos no Brasil, 71 são negros, e que jovens e negros são as principais vítimas de homicídio no país nos últimos dez anos.

De acordo com os dados do Atlas, ao se analisar a evolução das taxas de homicídios considerando se o indivíduo era negro ou não, entre 2005 e 2015, verificou-se dois cenários completamente distintos. Enquanto neste período houve um crescimento de 18,2% na taxa de homicídio de negros, a mortalidade de indivíduos não negros diminuiu 12,2%. Os autores discutem que não apenas há um triste legado histórico de discriminação pela cor da pele do indivíduo, mas, do ponto de vista da violência letal, há um problema que veio se agravando nos últimos anos.

(IPEA, 2017).

Alguns estudos tem discutido a relação entre estado civil e mortalidade adulta (LILLARD e PANIS, 1996; JOHNSON et al., 2000; MURPHY et al., 2007). No geral, em países desenvolvidos, os indivíduos casados apresentam maior sobrevivência, e essas diferenças são mais elevadas entre os homens (LILLARD e PANIS, 1996;

JOHNSON et al., 2000; MURPHY et al., 2007).

Duas hipóteses podem estar associadas a esse quadro: a primeira é a proteção do casamento, onde um conjunto de mecanismos causais, como fatores

ambientais, econômicos, sociais e psicológicos, pode contribuir para que o indivíduo casado tenha maiores chances de sobrevivência do que indivíduos não casados. A segunda hipótese é baseada na premissa de que o casamento é seletivo, elegendo assim os indivíduos mais saudáveis, tanto física quanto psicologicamente (GOLDMAN e HU, 1993; GOLDMAN et al., 1995). Entretanto, ao contrário do que tem sido discutido na literatura, no presente estudo foi encontrada maior mortalidade masculina entre os casados. De acordo com LILLARD e PANIS (1996), JOHNSON et al. (2000) e MURPHY et al. (2007), a maior sobrevivência para os casados, por outro lado, pode diminuir com o avanço da idade. Tendo em vista o envelhecimento dos grupos estudados nesse estudo, é possível que essa vantagem tenha diminuido.

Considerando a escolaridade, aqueles que possuiam entre 1 a 7 anos de estudo apresentaram as maiores mortalidades. De acordo com Silva et al. (2016), quanto maior o nível de escolaridade da pessoa de referência do domicílio, menor é a probabilidade de morte adulta. No Brasil como um todo, a probabilidade de um homem sem instrução ou com apenas o Ensino Fundamental incompleto, com 15 anos de idade, morrer antes de completar 60 é 2,48 vezes esta probabilidade de morte entre os homens com o ensino superior completo.

Tanto em países desenvolvidos quanto naqueles em desenvolvimento, observa-se um gradiente educacional na mortalidade, de maneira que quanto maior a escolaridade menor a mortalidade, sendo que o efeito da escolaridade tem sido mais expressivo que o da renda (KITAGAWA e HOUSER, 1973; ROGERS et al., 1999).

Estudo de Silva et al. (2016), avaliou os dados do novo quesito de mortalidade domiciliar do Censo Demográfico de 2010 (IBGE, 2011), combinados com as informações do nível de escolaridade da pessoa de referência do domicílio.

Os resultados indicaram um considerável diferencial de mortalidade por grau de escolaridade, particularmente entre a população masculina. A expectativa de vida de homens com o ensino superior completo no Brasil foi 4,37 anos maior do que a média da população masculina nacional, e 6,27 anos maior do que a da população masculina com menos do que o Ensino Fundamental completo.

O padrão de mortalidade de uma dada região, definido aqui pela mortalidade específica por determinadas causas, pode refletir o grau de qualidade de vida existente e o acesso à assistência à saúde, podendo fornecer subsídios para uma

política de saúde mais eficiente e eficaz à medida que permite estabelecer normas e metas prioritárias (PAES e GOUVEIA, 2010).

A taxa de mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias (DIP) tem sofrido um acentuado declínio nos últimos anos, entretanto, verifica-se, no Brasil, que essas enfermidades ainda persistem entre as causas de morte. No presente estudo, houve diminuição da mortalidade por esse grupo de causa para os homens, mas substancial para as mulheres do Brasil. Os resultados observados demonstram que, apesar de todos os avanços na área social e econômica do país, as doenças relacionadas à pobreza continuam impactando nos indicadores de mortalidade.

Há uma relação direta entre sua ocorrência e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com um maior número de pessoas afetadas nas áreas de maior pobreza no país, havendo maior frequência dessas doenças, consequentemente, nas regiões Norte e Nordeste (LINDOSO e LINDOSO, 2009).

A prioridade no âmbito da saúde pública é essencial para impactar positiva e assertivamente. As decisões devem ser pautadas conforme os dados da mortalidade, aliados aos anos potenciais de vida perdida. Vacinas e tratamentos mais efetivos contra a dengue, por exemplo, descentralização das ações de prevenção, diagnósticos e tratamento da AIDS; avanços nas formas de diagnósticos da tuberculose e na capacitação de médicos e profissionais de saúde, desenvolvimento de antibióticos com novos mecanismos de ação devido à resistência bacteriana as drogas atuais contra tuberculose e tornar a neurocisticercose uma doença de notificação compulsória, seriam importantes passos para o planejamento de medidas de controle das DIP (ARAÚJO, 2015).

A OMS aponta um conjunto de fatores sociais e comportamentais para a ocorrência dessas doenças, destacando-se uso de água não potável, saneamento inadequado e poluição ambiental, que acometem, principalmente, os setores mais pobres da sociedade em todo o mundo (WHO, 2004), o que é atestado pela quinta posição entre as causas de morte nas Américas e pela segunda, na África (WHO, 2008).

A ocorrência das DIP revela os níveis de saúde e de vida da população, devendo ser utilizados como indicadores de saúde para o planejamento de políticas públicas (PAES e GOUVEIA, 2010).

Segundo a OMS, a falta de saneamento básico no Brasil, além de estar associado ao aparecimento das DIP, também é uma das causas de doenças no

aparelho digestivo, e esse problema tem afetado, consequentemente, as populações de baixa renda. No presente estudo, houve diminuição da mortalidade dessas doenças para os homens do Brasil, mas aumento para os homens de Mato Grosso.

Uma curiosidade sobre a transição epidemiológica no Brasil, assim como em toda a América Latina é que essa não tem seguido o mesmo modelo dos países industrializados e centrais do capitalismo de substituição das DIP por doenças crônico-degenerativas, acidentes e violência. Observa-se uma transição prolongada ou polarizada, com a superposição de contextos epidemiológicos no qual permanece como desafio para a saúde pública as DIP e o aumento das doenças crônico-degenerativas e outros agravos não infecciosos. A reintrodução de processos infecciosos, como dengue, ou a persistência e o recrudescimento de outras, como a malária, a tuberculose, a hanseníase e as leishmanioses, e o surgimento de novas endemias como a AIDS, mostram a natureza não unidirecional do processo (PONTES et al., 2009).

As situações das condições de saúde revelam importância relativa crescente das condições crônicas no quadro epidemiológico. Os principais fatores determinantes do aumento das condições crônicas são as mudanças demográficas, as mudanças nos padrões de consumo e nos estilos de vida, a urbanização acelerada e as estratégias mercadológicas (MENDES, 2011).

Nesse estudo, as neoplasias, doenças do metabolismo e doenças do aparelho respiratório acometeram mais as mulheres, entretanto a mortalidade por esse grupo aumentou no Brasil e no Mato Grosso, tanto para os homens, quanto para as mulheres.

As neoplasias têm como característica principal a proliferação anormal e descontrolada das células em um tecido ou órgão (WHO/IARC, 2008); em 2008 representaram 21% do total de óbitos por doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) no mundo, o equivalente a 7,6 milhões de mortes (WHO, 2011a). As taxas de mortalidade por essas doenças por 100 mil habitantes em homens, no ano de 2008 (WHO, 2011b), observadas no Uruguai (217), África do Sul (207), Argentina (168) e Estados Unidos (141) foram maiores do que a observada no Brasil (136) no mesmo período. Em 2008, o coeficiente padronizado por idade no Brasil foi de 75,7 óbitos por 100 mil habitantes, sendo 82,7 em homens. Taxas maiores foram encontradas no sul do país e menores, no norte (GARCIA et al., 2010).

As doenças provocadas por distúrbios do metabolismo são diversas. Estas doenças são causadas por defeitos nas enzimas. Contudo, o seu surgimento é raro e quando aparecem podem ser logo identificadas e tratadas. Todas estas doenças se não forem diagnosticadas de imediato podem causar danos graves a nível físico e mental (SOARES, 2015).

Com relação as doenças respiratórias, as consequências do processo de urbanização no país, que levam a poluição do ar e o maior índice de envelhecimento, juntamente com a falta de políticas públicas que inibem a geração de poluentes e propiciem maior qualidade de vida nas cidades, são fatores que tem interferido no aparecimento dessas doenças (SOARES, 2015).

Os resultados mostraram uma estabilização das doenças do aparelho circulatório para os homens, e diminuição para as mulheres no Brasil, porém esse grupo de doença ainda representa a primeira causa de morte no Brasil. No Mato Grosso, representou a segunda causa de morte para os homens, mas a primeira para as mulheres. Houve diminuição desse grupo de causa para o Estado, tanto para os homens, quanto para as mulheres, no período entre 2005 e 2015.

As doenças do aparelho circulatório são a primeira causa de morte no Brasil e no mundo, independentemente do nível de renda dos países. De acordo com a OMS, foram responsáveis por 17 milhões de mortes em 2011, o que representa três em cada dez óbitos. Desses, sete milhões de pessoas morreram por doenças isquêmicas do coração, e 6,2 milhões, por acidente vascular cerebral (SOARES, 2015).

Verifica-se que, apesar de ainda serem as principais causas de mortalidade em todo o globo, a partir do final da década de 1950, iniciou-se um declínio da mortalidade por doenças do aparelho circulatório nos países industrializados. No Brasil, essa queda começa a ser observada nos últimos anos da década de 1970, com significativa redução das taxas de mortalidade por esse grupo, apesar de existirem importantes diferenças regionais. Mato Grosso segue a tendência mundial, com período de avanços que se traduziram em melhoras em indicadores socioeconômicos, embora ainda com desigualdades sociais, que só nos últimos anos começaram a se reduzir e que precederam a queda da mortalidade por doenças do aparelho circulatório (ALMEIDA 2012).

As causas externas são classificadas como traumatismos, lesões ou quaisquer outros agravos à saúde – intencionais ou não – de início súbito e como

consequência imediata de violência ou outra causa exógena. Neste grupo, incluem-se as lesões provocadas por eventos no transporte, homicídios, agressões, quedas, afogamentos, envenenamentos, suicídios, queimaduras, lesões por deslizamento ou enchente, e outras ocorrências provocadas por circunstâncias ambientais (mecânica, química, térmica, energia elétrica e/ou radiação) (BRASIL, 2010).

Os resultados do estudo revelaram diminuição da mortalidade por esse grupo de causas para os homens do Brasil e para o Mato Grosso (tanto para os homens, quanto para as mulheres) e estabilização para as mulheres do Brasil. Acometeu muito mais os homens: terceira causa de morte para os homens do Brasil e primeira para os homens de Mato Grosso.

Portanto, ao analisar o número de mortes por causas externas em Mato Grosso, principalmente em homens, podemos afirmar que há uma predominância masculina no total de vítimas de violência fatal. Os homens representam 90,4% dos óbitos por homicídio e 82,2% dos óbitos por acidentes de transportes ocorridos no período 2001-2010. Mesmo nos casos de suicídios (mortes por lesões autoprovocadas), a predominância masculina é marcante: 78,1%. No conjunto das causas externas, a participação masculina é de 84,5% (21,998 mil óbitos masculinos num total de 26,031 mil óbitos). Por outro lado, os dados devem ser interpretados com cautela, porque as mulheres, por exemplo, morrem assassinadas por homens ou morrem ao serem envolvidas num acidente de trânsito que, geralmente, tem um homem no volante (VIEIRA e EDMAR, 2017).

A situação de Mato Grosso aponta relativa estabilidade entre 2001 e 2010 – com tendência ligeiramente declinante – nos índices de homicídios na população não jovem como um todo. Embora esses índices tenham aumentado de 1996 a 2001 (de 25,1 para 33,1 óbitos por 100 mil habitantes), declinaram desde então e encerraram 2010 em 26,7 óbitos por 100 mil habitantes, nível aproximadamente igual ao vigente em meados da década de 90. Na população jovem como um todo, a taxa de homicídios encerrou 2010 nos menos níveis de 2001, passando de 53,8 para 52,4 óbitos por 100 mil habitantes (VIEIRA e EDMAR, 2017).

As políticas públicas transversais (intersetoriais), focadas no público infanto-juvenil com a inclusão, na educação, de alternativas em esporte e lazer, qualificação profissional, projeto do primeiro emprego, apoio as famílias em situação de risco e combate ao tráfico de drogas seriam fundamentais para a diminuição das mortes por violência em Mato Grosso e no país (CARLINI 2013).

Há, no Brasil, em especial nas periferias das regiões metropolitanas e dos centros urbanos, uma verdadeira guerra armada de jovens contra jovens, em sua maioria pobres, negros e do sexo masculino. Com efeito, é possível que os jovens estejam nos dois lados do problema, como vítimas ou como algozes. Assim, devemos reconhecer que é bastante tênue a linha que separa a vítima do autor da violência, pois ambos partilham as mesmas circunstâncias de socialização e experiência de vida. Todos são, no fundo, vítimas do mesmo processo sócio histórico e cultural gerador de violência, no qual se pode identificar o tráfico de drogas para alimentar o consumo das classes média e alta, o acesso fácil às armas, a desagregação familiar, a pressão consumista em meio às grandes desigualdades sociais, o fracasso escolar, a dificuldade do primeiro emprego e a ausência de alternativas (como esporte, cultura e lazer) que proporcionem aos jovens referenciais indenitários suficientemente fortes (VIEIRA e EDMAR, 2017).

Os países industrializados e considerados polo centrais da economia mundial, apresentaram mudanças significativas em seu perfil epidemiológico a partir da segunda metade do século XX (ARAÚJO, 2012). Essas mudanças, ocorridas ao longo do tempo nos padrões de mortalidade e morbidade das populações, foram denominadas de transição epidemiológica por OMRAM, em 2001. E foram norteadas por dois fatores principais: as alterações associadas à estrutura etária da população, ocorrida ao longo do processo de transição demográfica; e as alterações nos padrões de morbidade e mortalidade, havendo a substituição gradual das DIP e das deficiências nutricionais pelas doenças crônico-degenerativas e aquelas relacionadas às causas externas. (OMRAM, 2001).

Segundo CHAIMOWICZ (1997), existe uma correlação direta entre os processos de transição demográfica e epidemiológica. De um modo geral, a queda inicial da mortalidade concentrava-se, seletivamente, entre as doenças infecciosas e tendia a beneficiar os grupos mais jovens da população que, por sua vez, passaram a conviver com fatores de risco para as doenças crônico-degenerativas. Na medida em que cresce o número de idosos e aumenta a expectativa de vida, tornam-se mais frequentes as complicações dessas enfermidades, modificando-se, assim, o perfil de saúde da população.

Esse contexto está associado a aspectos como as grandes desigualdades econômicas e sociais, ao processo migratório para as grandes cidades, aos problemas ambientais e outros problemas de ordem estrutural que gerou um

panorama complexo para a saúde pública, dificultando a erradicação e/ou eliminação das DIP em curto prazo. Todo esse processo, bem como a maneira heterogênea como ele vem ocorrendo nas diversas regiões do país, decorrente das desigualdades sociais e econômicas, tornando-se um grande e complexo desafio para a saúde pública (WALDMAN, 1999).

O presente estudo fez uso de dados secundários para a análise de dados.

Esse tipo de dado apresenta como vantagens: ampla cobertura populacional, baixo custo para a coleta das informações e facilidade para o seguimento longitudinal. As maiores desvantagens estão relacionadas à falta de padronização na coleta dos dados, que afeta a qualidade dos dados registrados, a cobertura que pode variar no tempo e no espaço, e a falta de informações que podem ser importantes para as análises de interesse, incluindo variáveis de desfecho, explicativas, mediadoras, de confusão ou modificadoras de efeito (COELI, 2010).

Mediante a maior frequência de mortes masculinas e seus fatores associados, torna-se necessário recomendar que investimentos em promoção e prevenção da saúde, capacitação profissional, sensibilização da população masculina referente aos comportamentos de risco, educação em saúde nas escolas, entre outros, podem contribuir para mudança no tempo atual. Destaca-se a importância dos profissionais da saúde que, de posse dessas informações, poderão agir e instituir ações de promoção e prevenção. Importante também destacar a sensibilização dos homens para acesso aos serviços de saúde, possibilitando diagnóstico precoce e contribuindo para a redução das mortes. Para tanto, é necessário investimento em recursos humanos e materiais, melhoria das condições de trabalho dos profissionais envolvidos com os cuidados dessa população, assim como a parceria com redes de apoio (ARAÚJO, 2012).

Documentos relacionados