5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
5.1 RESULTADOS DA PESQUISA
Serão focados, primeiramente, os resultados quanto aos entendimentos de meio ambiente, Educação Ambiental e cidadania; depois as questões relativas ao desenvolvimento da Educação Ambiental na escola e, ainda, o entendimento dos alunos quanto a meio ambiente e cidadania.
Os entendimentos dos sujeitos da pesquisa, sobre os aspectos acima, foram considerados pressupostos importantes para se compreender as práticas escolares em relação à Educação Ambiental.
Quanto ao entendimento de meio ambiente, a maioria do pessoal escolar (docentes e equipe pedagógica) apresentou uma visão genérica, denotando um discurso espontâneo e estereotípico, na linha do senso comum e evidenciando ausência de reflexão sobre essa temática. Apenas um sujeito trouxe um entendimento de meio ambiente mais elaborado e atual, sob o aspecto das relações
homem-natureza. O entendimento relacional de meio ambiente possibilita pensá-lo em sua complexidade multidimensional, imbricada por uma teia de relações dialéticas e conflitivas, desencadeadoras de problemas socioambientais em diferentes escalas e que demandam reflexão crítica sobre alternativas de sustentabilidade socioambiental, especialmente em relação aos entornos de vida dos educandos. Pôde-se verificar que a deficiência do entendimento de meio ambiente decorre da falta de formação dos sujeitos da pesquisa quanto à temática ambiental.
No que diz respeito à Educação Ambiental, não diferentemente do entendimento de meio ambiente, as respostas indicaram uma visão também na linha do senso comum, em torno da necessidade de se cuidar dos ambientes de vida, em vista do futuro das gerações. Embora esse entendimento de Educação Ambiental tenha validade, aparece sob um foco acrítico e apolítico, desvinculado de uma educação cidadã relacionada a condições de vida socioambientalmente vulneráveis da comunidade, onde está localizada a escola. Nesse sentido, destaca-se a necessidade da Educação Ambiental crítica, voltada à cidadania, desde os anos iniciais, a qual implica o desenvolvimento da conscientização e capacitação dos sujeitos-alunos, não só em identificar os problemas socioambientais locais e também globais, mas compreendê-los para refletir sobre as possíveis soluções e ações sócio comunitárias – via atividades concretas dentro e fora do espaço escolar –, em prol dos deveres, mas também dos direitos pela qualidade de vida de cada cidadão.
Já o entendimento de cidadania, pela maior parte dos sujeitos, refere-se a uma visão comum de respeito com o outro e pelo entorno local e planetário, em termos de responsabilidade solidária. É uma perspectiva importante de cidadania a ser desenvolvida na instituição escolar, na necessária busca de convivência entre os seres humanos e com a própria natureza, nos diferentes ambientes de vida. Mas essa visão de cidadania deve vir acompanhada pelo exercício de direitos e deveres do cidadão. Nesse sentido, apenas um sujeito enfocou o entendimento de cidadania sob essa ótica. Na escola em estudo, os depoimentos em geral dos sujeitos e as observações em sala de aula evidenciaram a ausência desse encaminhamento sociopedagógico, dificultando uma educação includente, especialmente necessária para os alunos que vivem numa área carente (Vila Parolin), desprotegida sob o aspecto socioambiental.
No tocante às práticas pedagógicas da escola, em relação à Educação Ambiental quanto aos objetivos, tratamento dos conteúdos, atividades e avaliação, verificou-se um trabalho incipiente, correspondendo às deficiências dos entendimentos sob o aspecto conceitual, focalizado acima.
Assim, os objetivos dos docentes, ao tratarem a temática ambiental, relacionam-se a um entendimento genérico de Educação Ambiental, ou seja:
conscientizar os alunos sobre o cuidado para com o meio ambiente em vista do futuro, sem estabelecer conexões com os problemas socioambientais do lugar de vida e, nesse contexto, com a cidadania em termos de direitos e deveres a um ambiente saudável, como previsto pela própria Constituição.
Essas evidências também apareceram no tratamento dos conteúdos quanto ao meio ambiente; os sujeitos da pesquisa referiram-se a conteúdos genéricos ligados à Geografia (paisagens, relevo) e a estratégias de Língua Portuguesa (produção e interpretação de texto); mas, ao serem questionados se trabalhavam com problemas relativos ao meio ambiente, destacaram a questão do lixo (coleta, reciclagem, destino), enfocando-a como um dos problemas da comunidade, que vive praticamente do lixo (catadores). Outros problemas presentes na escola e entorno, como a violência, a falta de perspectiva de vida, o desrespeito entre os alunos, o saneamento, as drogas, a autoestima, entre outros, foram citados pelos docentes, mas não são tratados em sala de aula – apenas o pessoal da equipe pedagógica mencionou a necessidade de se trabalhar conteúdos atitudinais ligados ao respeito próprio e ao próximo. Apesar dos sujeitos terem destacado a problemática do lixo em conexão com a vida dos educandos, verificou-se que as atividades quanto a essa questão eram esporádicas e de cunho ativista; a equipe pedagógica ainda destacou alguns projetos ligados ao meio ambiente (Salve o rio, horta, passeio pelo bairro), mas que, na realidade, não são mais desenvolvidos.
Nesse contexto, a Educação Ambiental, apareceu como uma atividade pontual, de senso comum, acrítica e apolítica, sem conexão com a cidadania, configurando uma prática incipiente na escola em estudo. Essa ausência de uma educação cidadã não só se refere à Educação Ambiental em si, mas ao desenvolvimento da prática escolar como um todo; apesar dos esforços do pessoal escolar em conduzir o processo educacional, evidenciou-se um trabalho pedagógico mais de cunho funcionalista e conformista com o status quo da comunidade do entorno escolar, em contraposição a uma educação de qualidade, no sentido da
promoção da cidadania dos sujeitos-alunos para que tenham capacidades de gerir um digno futuro de vida.
Sob esse aspecto, ressalta-se o direito cognitivo do aluno, enquanto um direito à Educação, em vista de uma formação emancipatória e, portanto, cidadã, na linha da participação social ativa pelos direitos e deveres, em oposição ao assistencialismo e paternalismo perversos. Tal perspectiva educacional implica o desenvolvimento dos alunos – desde os anos iniciais, segundo os graus de maturidade – na leitura e interpretação da realidade em que vivem e de suas problemáticas socioambientais, capacitando-se a intervenções criteriosas em prol de transformações desejáveis. Nessa orientação educativa destaca-se a promoção de uma prática pedagógica dialógica, de alteridade, democrática e solidária, que se paute por desafios para além do individualismo – favorecendo relações sociais participativas, em termos de convivência respeitosa e amorosa consigo mesmo e com os outros seres humanos e não humanos.
No entanto, na escola em estudo, os canais de comunicação entre o pessoal escolar e alunos pouco ajudavam uma prática dialógica, de alteridade e empatia, já que as relações davam-se mais em estilo autoritário. Mas, o desenvolvimento de um trabalho escolar na perspectiva da cidadania socioambiental, depende de vivências baseadas em princípios valorativos, motivadores de uma convivência escolar harmoniosa e que considere o contexto de vida dos sujeitos-alunos, a fim de que possam desenvolver condições de se perceberem sujeitos sociais, capazes de pensar e agir responsavelmente, junto com os outros, pela qualificação dos lugares de vida e do mundo.
Apesar do empenho da escola em desenvolver projetos de interação com a comunidade e estar aberta à mesma, existia uma relação problemática, ou seja, uma quase ausência da comunidade na escola; os poucos familiares que se faziam presentes vinham apenas para pegar o leite e a bolsa-família. Nessa linha de reflexão, projetos de Educação Ambiental focados em problemas socioambientais locais, potencializam a interação entre a escola e a comunidade, na busca da prevenção e de soluções locais, a partir de um esforço comum.
Outra questão relevante, nas práticas escolares, é o processo avaliativo, pois além de explicitar a qualidade do trabalho conduzido na escola, realimenta as reflexões do pessoal escolar no sentido de melhorar e aperfeiçoar o que se pretende alcançar e o que está sendo realizado. No que se refere à Educação Ambiental, as
respostas dos sujeitos da pesquisa foram evasivas e genéricas, percebendo-se praticamente uma ausência de avaliação quanto a essa dimensão educativa, confirmando a incipiência da mesma no currículo da escola pesquisada.
As dificuldades para o desenvolvimento efetivo da Educação Ambiental relacionam-se a dois aspectos: à qualificação deficiente do pessoal escolar quanto a essa dimensão educativa; e à deficiência de orientação, pela equipe pedagógica, aos docentes relativamente à Educação Ambiental. Em termos da qualificação dos docentes e equipe pedagógica, ninguém tinha formação específica em Educação Ambiental, tanto em nível de formação inicial quanto continuada, o que é uma variável significativa para a incipiência dessa prática na escola e, inclusive, vendo-a de maneira fragmentada no currículo, ou seja, mais ligada à Geografia e a Ciências – perspectiva tradicional da Educação Ambiental. De acordo com o pessoal escolar, nenhuma oferta houve de cursos de qualificação continuada em Educação Ambiental; além do mais, a participação dos docentes em cursos da SEED, normalmente ocorre quando os mesmos recebem pontuação para progressão funcional.
A outra dificuldade, a orientação deficiente aos docentes pela equipe pedagógica quanto à Educação Ambiental é evidenciada: por uma orientação genérica e pontual aos docentes; pelo desconhecimento dos docentes do PPP e das Diretrizes Curriculares da Educação Básica do Estado do Paraná; e por um trabalho escolar de cunho mais individualista, isto é, quando os sujeitos da pesquisa afirmaram que a efetivação da Educação Ambiental está essencialmente ligada à qualificação e vontade dos docentes e não do pessoal escolar como um todo. Na medida em que houvesse uma interação mais estreita e colaborativa entre o pessoal escolar em prol do desenvolvimento das práticas curriculares, a tendência resultante no processo educativo seria um planejamento de ensino e de aprendizagem mais qualificado pedagogicamente em suas várias dimensões – objetivos, conteúdos, atividades, projetos, avaliação etc., em relação contextual com a comunidade.
O depoimento dos alunos de 3ª. e 4ª. séries complementam os resultados da presente pesquisa, a partir de seus entendimentos de meio ambiente e cidadania.
Quanto ao meio ambiente, os alunos da 3ª. série não chegaram a dar explicações, apresentando apenas ações de cuidado para com o mesmo; e a 4ª.
série, além de trazer a necessidade de cuidado, explicou o meio ambiente como vinculado à natureza (meio natural), visão presente de modo geral no imaginário
ambiental da sociedade. Com exceção dessa explicação, os demais pronunciamentos relacionavam-se a ações prescritivas de cuidado com o meio ambiente, especialmente quanto ao destino correto do lixo. E os alunos, quando perguntados sobre a importância de aprender sobre o meio ambiente, afirmaram ser importante para proteger e dar melhores condições para as pessoas e a natureza.
Verificou-se que essas colocações conectam-se ao discurso da escola (docentes e equipe pedagógica), principalmente sob o aspecto prescritivo de cuidado com o meio ambiente, mais ligado ao lixo. Essa orientação de cunho prescritivo, denota uma prática pedagógica ativista, centrada no comportamento dos indivíduos, sem estabelecer – segundo nível de maturidade dos educandos – relação com o exercício da cidadania, em termos de responsabilização para consigo próprio, com os outros e com os ambientes de vida, em vista da sustentabilidade dos mesmos.
Com efeito, as ações prescritivas quanto ao meio ambiente na escola têm valor na medida em que vierem respaldadas por um trabalho reflexivo e dialógico sobre as problemáticas socioambientais, especialmente da comunidade e vinculadas à formação dos educandos nos valores de respeito, empatia, solidariedade, justiça etc.
– dimensões educativas deficientes na escola pesquisada.
O entendimento de cidadania pelos alunos foi explicado, basicamente, pelo respeito aos outros e entorno local. Assim como em relação às respostas relativas ao meio ambiente, as falas quanto a esse aspecto também foram convergentes com a maior parte dos depoimentos dos docentes, que focalizaram cidadania sob o foco da boa convivência entre as pessoas e os ambientes de vida. Entretanto, essa perspectiva educacional ficava na linha da prescrição autoritária, distante de uma educação em valores, apesar de que o problema da violência na comunidade foi focalizado pelo pessoal escolar (docentes e equipe pedagógica), pelos próprios alunos e constava do PPP.
E quando os alunos foram perguntados sobre o que poderia ser feito para resolver os problemas da comunidade, ressaltaram a segurança policial e de trânsito no bairro e a necessidade de parar de jogar lixo na Vila. Ainda com o objetivo de visualizar o senso de cidadania dos alunos, foi-lhes perguntado a quem competia fazer as melhorias no bairro e se eles poderiam fazer algo para melhorar o lugar em que vivem: num primeiro momento, apontaram os governantes (prefeito e governador) e Jesus, demonstrando uma visão paternalista do governo, assim como um vislumbre místico de solução dos problemas; mas ao responderem o segundo
questionamento, deram respostas positivas, no sentido de jogar o lixo em lugar apropriado, chamar a polícia, não agir com violência, colaborar com os outros.
Apareceram respostas também negativas, ou seja, resolver as situações com a violência, não respeitando os outros (furar o pneu, jogar lixo no ladrão). Com base nas respostas, os alunos revelaram um senso inicial de cidadania, ligado a deveres e não a direitos, numa perspectiva individualista em detrimento do coletivo, assim como evidenciaram a realidade precária em que vivem sob o aspecto socioambiental (falta de saneamento básico, de segurança, de abandono etc.). Mas apesar dessa condição carente, a maioria dos alunos traz uma visão esperançosa da vida, ao serem perguntados sobre a importância da aprender a ser cidadão: além de aprender a respeitar os outros, enfocaram a validade dessa aprendizagem para subir de vida.
Esse diagnóstico, tanto com o pessoal escolar quanto com os alunos, evidencia a necessidade premente de a escola repensar as práticas educacionais na linha de uma Educação crítica e, nesse contexto, o desenvolvimento da educação cidadã socioambiental. É nessa direção que a escola pesquisada poderá colaborar para a superação gradativa dos problemas e o avanço qualitativo da comunidade.
Portanto, os resultados alcançados neste estudo, respondem às questões da pesquisa e demonstram o alcance dos objetivos, na perspectiva de avaliar como a Educação Ambiental estava sendo trabalhada, ao tempo do estudo, nas séries iniciais (3ª. e 4ª.) do ensino fundamental em uma escola estadual, na Vila Parolin, sob o enfoque da cidadania socioambiental.