5. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
5.3 Resultados do emprego de Prefixos Legítimos
Nesta terceira e última seção, apresentamos os resultados do emprego de palavras contendo Prefixos Legítimos, segundo o caráter prosódico, conforme Schwindt (2000). A fim de ilustrar os resultados e embasar a discussão, o Quadro 13 representa a totalização dos resultados da aplicação de tais prefixos na grafia de palavras hifenizadas e não-hifenizadas.
Quadro 13 – Resumo dos resultados do emprego de Prefixos Legítimos (PL´s) em palavras não- hifenizadas e palavras hifenizadas, nos dados do instrumento
a) Palavras não-hifenizadas b) Palavras hifenizadas
PL´s adequado Uso Uso do hífen Uso de dois vocábulos morfológicos Uso adequado Uso de um vocábulo morfológico Uso de dois vocábulos morfológicos co 51,85 48,15 - 11,11 50,00 38,89 des 91,56 8,44 - - - - re 58,33 32,87 8,33 - - - sub 39,81 30,40 29,78 47,69 26,85 25,46 trans 43,21 37,04 19,75 - - - Total - % 56,95 31,38 11,57 29,40 38,43 32,17
O Quadro 13 indica alto índice de freqüência de uso correto na grafia de palavras não- hifenizadas formadas por Prefixos Legítimos, com 56,95%, seguidos de 31,38% de freqüência do uso do hífen e 11,57% de uso de dois vocábulos morfológicos.
Nas palavras hifenizadas, encontramos nos dados 29,40% de freqüência da grafia correta, 38,43% de emprego de um vocábulo morfológico e 32,17% com dois vocábulos morfológicos.
Assim, os resultados do Quadro 13 indicam que, em se tratando do emprego de Prefixos Legítimos em palavras não-hifenizadas, há a tendência predominante do seu uso adequado, como uma só palavra morfológica, dando ao prefixo o tratamento de sílaba pretônica. No caso de palavras hifenizadas, o percentual de 38,43% indica também a predominância do uso de uma só palavra morfológica, embora esse tratamento seja inadequado na grafia, segundo a Gramática Tradicional.
Tal fato poderia ser explicado por três motivações: (a) são prefixos inacentuados, portanto, considerados sílabas átonas; (b) são prefixos que, na sua maioria, não podem ser fatorados, o que dificulta a identificação de seu significado; (c) são prefixos que não podem estabelecer-se independentemente, devendo estar ligados a uma base.
Como conseqüência, a tendência de emprego desses prefixos na grafia é de uso de uma palavra morfológica, mesmo em se tratando de palavras que são hifenizadas, segundo a Gramática Tradicional, pois a aplicação do hífen manteria, nessas palavras, a independência do prefixo. Há indícios também de que as palavras formadas por Prefixos Legítimos podem ter tendência à lexicalização, como mostram os dados, o que reforçaria a condição desses prefixos como sílabas átonas afixadas a uma base.
Assim, os dados apontam que há a inclinação para que os usuários do sistema considerem as palavras formadas com Prefixos Legítimos como uma palavra fonológica e uma palavra morfológica, havendo, por isso, a tendência à união na grafia de tais palavras, o que, na verdade, está em acordo com a Gramática Tradicional.
A fim de completar a análise das palavras formadas por Prefixos Composicionais e Prefixos Legítimos, apresentamos algumas considerações sobre o aspecto lexical dessas palavras, a partir de evidências encontradas na proposta de Schwindt (2000).
Seguindo os pressupostos da Fonologia Lexical, a proposta de Schwindt (2000) é a de que os prefixos não estão todos no mesmo nível, pois devem ser consideradas as diferenças prosódicas que os caracterizam. Dentro desse princípio, na pesquisa realizada, a partir dos
dados analisados, buscamos identificar indícios da localização dos prefixos nos níveis do léxico.
O autor propõe que todos os Prefixos Legítimos de Classe I (seção 2.7.1) são inseridos como sílabas pretônicas à esquerda de uma base, relacionando-se com bases em formação. Referimos, como exemplo, o tratamento dado a alguns prefixos que analisamos na pesquisa: co31-, des-, re- e trans-.
Segundo Schwindt (2000), os Prefixos Legítimos em PL´s de Classe I são apostos a bases em formação, estando no Nível 1 do componente lexical da língua, sendo que os PL´s de Classe II são apostos à palavra pronta, estando no Nível 2 do componente lexical da língua. Nos dados da presente trabalho, o prefixo co-, por ter sido considerado uma sílaba pretônica pelos informantes de pesquisa (Tabelas 35 e 36), que com ele formaram preferencialmente uma única palavra morfológica sem hífen, deve pertencer ao Nível 2, uma vez que, em todas as palavras em que foi empregado, estava anteposto a uma palavra pronta (co+ligação, co+obrigação, co+administração, co+autoria).
Com referência ao prefixo re- registramos, no corpus da pesquisa, o mesmo comportamento do prefixo co-, uma vez que todos os vocábulos em cuja formação apareceu mostraram sua aposição a uma palavra pronta. Como, em relação ao prefixo re-, houve preferencialmente o uso de um único vocábulo morfológico sem hífen, mas também houve um bom índice de seu emprego com hífen (Tabela 38), assim, é possível pensar que, diferentemente da proposta de Schwindt (2000), esse fosse também um prefixo de Nível 2 da língua.
31 O prefixo cum- do Latim passou para o Português na forma alterada com- e posteriormente foi reduzido para
No caso do prefixo des- há que se considerar uma diferença semântica, destacada pelo autor (des- com o significado de privação e des- com o significado de negação). No corpus da pesquisa identificamos apenas a segunda alternativa, pois todas as palavras formadas pelo prefixo des-, analisadas na pesquisa, têm o significado de negação. Assim, o prefixo des- estaria em conformidade com a proposta de Schwindt (2000), pertencendo ao Nível 2, ou seja, o nível da palavra.
É importante referir que a segmentação dos Prefixos Legítimos em Classes não prejudica a proposta de que eles são inseridos lexicalmente, da mesma forma que não podemos refutar tal classificação com os dados do presente trabalho, uma vez que a pesquisa se detém na manifestação escrita da língua – fato que não permite a verificação da aplicação de regras fonológicas às palavras prefixadas – e não inclui os demais prefixos mencionados pelo autor.
Em se tratando dos Prefixos Composicionais, comprovamos, com os dados desta investigação, pelo uso das palavras formadas por esses prefixos, que os informantes os identificam como palavras fonológicas independentes. Sendo assim, conforme afirma Schwindt (2000), percorrem o léxico como formas independentes. Entretanto, os dados aqui analisados mostraram também que alguns desses prefixos podem adquirir o caráter de sílabas pretônicas incorporadas a uma base, através do processo de lexicalização das palavras com eles formadas, dependendo do julgamento dos usuários do sistema. Assim, eles deixariam de percorrer o léxico como palavras fonológicas independentes e passariam a relacionar-se com a base em formação, assemelhando-se aos Prefixos Legítimos de Nível 2 – tal fato poderia estar acontecendo com palavras formadas com o prefixo inter-, por exemplo (ver Tabela 12).
Segundo Schwindt (2000), existe a possibilidade do alçamento dos Prefixos Composicionais que, depois de percorrerem o léxico até o pós-léxico, pela operação do loop sofrem a prefixação no Nível 2, submetendo-se a todos os processos fonológicos desse nível, como uma só palavra fonológica. Pelos resultados desta pesquisa, podemos interpretar que os informantes, quando grafam as palavras inadequadamente, especialmente as não-hifenizadas, e particularmente quando as escrevem como duas palavras morfológicas independentes, não utilizam esse recurso de alçamento, fazendo o vocábulo permanecer como unidade fonológica independente. Nesse caso, as palavras formadas por Prefixos Composicionais deixam de ser tratadas como palavras prefixadas, passando a ser consideradas como Compostos Lexicais, ou seja, com a presença de duas palavras fonológicas e duas palavras morfológicas.
Assim, em relação às palavras formadas por Prefixos Composicionais, os dados desta pesquisa podem levar a concluir dois fatos a partir da predominância do uso, na escrita, de vocábulos com esse tipo de prefixo, de duas palavras morfológicas ou mesmo de uma palavra morfológica hifenizada:
a) com relação ao aspecto prosódico da língua, sempre que o prefixo detém e mantém acento primário, sua identidade como palavra fonológica é preservada – esse fato fonológico parece reger o comportamento morfológico das palavras na sua manifestação escrita;
b) com relação ao aspecto morfológico, quando as palavras formadas por Prefixos Composicionais são escritas como dois vocábulos morfológicos, não parecem utilizar o recurso do loop, considerando o prefixo como do Nível 2 da língua, preferindo criar Compostos Lexicais; diferentemente, quando os usuários do sistema empregam o hífen nessas
palavras, podem estar usando o recurso do loop, reconhecendo a existência do prefixo na formação da palavra e o integrando ao Nível 2 do componente lexical da língua.