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RESULTADOS E DISCUSSÃO

No documento DOI: (páginas 23-39)

Este tópico está estruturado em cinco itens, iniciando com especificidades relacionadas ao acesso a comunidade indígenas. Seguem, então, “A situa-ção-problema e alternativas de ação”, “O planejamento: parceria univer-sidade-sociedade para o desenvolvimento sustentável”, “A execução: pro-posta interdisciplinar unificada” e “Desdobramentos para pesquisa, ensi-no e extensão em Administração”. O tópico especifica uma sequência de eventos e interlocuções entre equipe acadêmica e comunidade, concluindo com a indicação de possibilidades de ações articuladas de ensino, pesquisa e extensão em Administração úteis, não apenas para o caso em pauta, mas, também, para situações congêneres no domínio da Gestão Social.

O acesso a comunidades indígenas

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO, 2014) recomenda que qualquer proposta de projeto, programa ou ação que envolva população indígena deve passar por processo de consenti-mento livre, prévio e esclarecido referendado pela liderança indígena da comunidade. Esse documento deve ser tomado como direito coletivo dos povos indígenas de tomar decisões por intermédio de seus representantes livremente eleitos e reconhecidos na comunidade e de suas instituições consuetudinárias ou outras, e de conceder ou negar consentimento peran-te qualquer ação que afeperan-te a properan-teção aos direitos humanos, controlem suas vidas, seus meios de subsistência, suas terras e outros direitos e liber-dades. O consentimento representa, portanto, compromisso da comuni-dade com a ação.

O processo de consentimento é livre por garantir a inexistência de coerção, intimidação ou manipulação; é prévio, considerando que o con-sentimento deve ser conseguido com suficiente antecedência para o inicio das atividades, devendo ser previsto no cronograma de pesquisa; é esclare-cido por proporcionar à comunidade toda a informação relacionada com a atividade, como a natureza, duração, reversibilidade do projeto proposto, finalidade do projeto, localização das áreas que serão afetadas, avaliação

preliminar dos possíveis riscos e benefícios potenciais, pessoal provável na execução e a definição dos procedimentos que possibilitem, de forma ob-jetiva, precisa e adequada, o entendimento da população indígena (FAO, 2014.p.13).

Outra exigência reside no fato de que o consentimento só deve ocor-rer após aceitação pela liderança indígena, com o devido reconhecimento do pesquisador/equipe na comunidade, o que requer período prévio de imersão, de diálogos. Neste sentido, o acesso da equipe foi facilitado pela participação de dois dos membros do referido projeto Sisan Universidades no Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA/

RN) e por reconhecimento de membro da equipe em estudo anterior (CA-LAZANS et al., 2017) envolvendo outra comunidade indígena do estado.

Além disso, a presença de ações extensionistas, por parte do Serviço de As-sistência Rural e Urbana (SAR/RN) e do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional do Rio Grande do Norte (CONSEA/RN) facilita-ram aproximações e interlocuções entre comunitários e demais membros da equipe.

A situação-problema e alternativas de ação

A pesquisa-ação em pauta teve início no mês de agosto de 2018. Contudo, a equipe precisou atender, em momento anterior, a trâmites relacionados aos requisitos necessários para trabalhos em terras indígenas, incluindo homologação no Conselho de Ética e anuência da Fundação Nacional do Índio (Funai). A pesquisa-ação aqui narrada deriva-se de investigação mais ampla em soberania e segurança alimentar demandada pelo projeto Sisan Universidades11, que se desenvolve em rede constituída por UFRN, UFPB e UFRPE. No Sisan Universidades, somente a UFRN centra a atu-ação em comunidades indígenas, o que ocorreu por sugestão Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional do Rio Grande do Norte.

No RN, é oportuno destacar, as terras indígenas não são formalmente

1 Sisan Universidades é um projeto interinstitucional (UFRN, UFPB e UFRPE) desenvolvido com o apoio do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) que visa fortalecer o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – SISAN por meio de processo de formação e mobilização de agentes públicos e da sociedade civil nos estados de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.

demarcadas, ou seja, não são reconhecidas ou protegidas pela legislação nacional. Esse fato, por si, representa ameaça à segurança alimentar, aos meios de subsistência locais e ao manejo sustentável dos recursos natu-rais, além de favorecer conflitos e abusos de poder pelas terras, contra direitos humanos.

A situação-problema orginalmente detectada pela equipe, na esfera do projeto Sisan Universidades, foi a insegurança alimentar dos povos in-dígenas nas oito comunidades do Rio Grande do Norte. A equipe, então, optou por iniciar as atividades na maior delas, a que concentra a maior po-pulação indígena no Rio Grande do Norte, qual seja, a comunidade Men-donça do Amarelão no município de João Câmara. A insegurança alimen-tar e nutricional – resultado da descapitalização dos agricultores indígenas para práticas de circuito curto, principalmente pela presença de atravessa-dores – traz prejuízos a sistemas de produção, consumo e comercialização sustentáveis e dificulta o desenvolvimento local a partir dos recursos e po-tenciais endógenos. Na pesquisa-ação em pauta, circuito curto é “um modo de comercialização que se efectua, ou por venda directa, do produtor para o consumidor, ou por venda indirecta, com a condição de não haver mais de um intermediário (...). A este modo de comercialização associa-se pro-ximidade geográfica e relacional entre produtores e consumidores” (MA-MAOT, 2013, p. 17).

A fome causada pela precarização à alimentação adequada, destaca Calazans et al (2017), é indicador de segurança alimentar e nutricional e deve subsidiar políticas públicas. Experiências em estabelecimentos rurais evidenciam que a agricultura familiar de base agroecológica pode contri-buir para o alcance dos ODS, em nível local, notadamente na mitigação da fome e na preservação dos recursos naturais (BRUN, 2018), justificando medidas localmente pactuadas (Quadro 1). Demanda específica adveio de uma cozinha comunitária dirigida por mulheres. As matérias-primas para a cozinha são adquiridas localmente e provêm, em grande parte, de quintais produtivos, de processos de transição agroecológica. Experiência bem-su-cedida, nesse sentido, ocorre na África, conforme exposto por Petersen e Walsum (2018).

Quadro 1 Matriz de interpretação analítica derivada do diagnóstico participativo por campo realizado junto à comunidade indígena Mendonça do Amarelão (João Câmara/RN, 2018) ProblemaCausaConsequênciaAlternativa de ação -Deficiência na oferta/demanda -Falta de acesso dos produtos indígenas nos circuitos curtos de produção

-Dificuldade de irriga- ção -Baixa produtividade da lavoura -Pouco aproveitamento do manejo de animais -Pouca experiência no beneficiamento do produto -Desconhecimento dos trâmites para acesso a mercados institucio- nais -Pouco diálogo com os diversos stakeholders -Descapitalização dos agricultores -Pouco investimento na atividade agrícola -Dependência de atra- vessadores -Agricultores desmoti- vados -Pouca valorização e reconhecimento do produto indígena na região -Irregularidade da pre- sença dos produtos nas feiras do município

-Adequação da unidade de beneficia- mento dos produtos (cozinha comuni- tária) -Resgate aos quintais produtivos (capa- citação em sistemas de produção vege- tal e manejo de pequenos animais) -Capacitação em boas práticas de fabri- cação -Organização da produção (elaboração de Fichas Técnicas de Produção - FTP e receituário padrão para produtos arte- sanais) -Destinação e reutilização do resíduo alimentar da produção alimentar -Certificação do produto artesanal (identidade e adequação legal) Fonte: Dados do diagnóstico participativo por campo, 2018

Na Paraíba, na região da Borborema, em área próxima a residências, conhecida como o “arredor de casa”, quintais produtivos assumiram dife-rentes componentes e múltiplas funções. Freire (2018, p.23) verificou que

“(...) as mulheres concluíram que as atividades realizadas no arredor de casa eram determinantes para o funcionamento geral do sistema”, ou seja, além de contribuírem para o cultivo variado de hortaliças criavam peque-nos animais que alimentavam a família e realizavam a gestão da água para as atividades domésticas e de produção. Essa experiência indica o potencial que ações, como a que está aqui pautada, possui em termos de atendimen-to a requisiatendimen-tos do ODS.

Na cozinha comunitária foi detectada potencialidade para produção artesanal de alimentos, com agregação de valor, para além da prestação do serviço de refeição que vem sendo ofertado. A equipe identificou, com destaque, potencialidades para a produção de vários alimentos para o Pro-grama Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) municipal e estadual. Há concentração de produção de bolos, mas, sem foco na produção e comer-cialização ampliadas. Por um lado, a participação da comunidade no PNAE estenderá a comercialização para mercados institucionais, com consequen-tes avanços na renda das famílias, e, por outro, tem potencial para valorizar e divulgar a cultura alimentar indígena, inclusive no interior da própria escola instalada na comunidade.

Na cozinha comunitária, as mulheres deliberam coletivamente, dividem tarefas e decidem a respeito da sobra financeira, o que imprime natureza de economia solidária ao empreendimento. O bolo de casta-nha, por exemplo, é conhecido na região e remete à identidade da co-munidade. Contudo, dois desafios surgem à produção e comercialização desse produto no circuito curto: 1) a matéria-prima, castanha de caju, é vocação da região que declinou em virtude da estiagem prolongada nos últimos cinco anos. Desse modo, o produto tornou-se escasso e obri-gou os indígenas a comprarem em outras comunidades, beneficiarem e venderem a produção a atravessadores; 2) o sistema de fornecimento de água é limitado, baseado em uma cisterna comunitária abastecida por carro-pipa.

A cadeia curta de comercialização, baseada na cajucultura, foi invia-bilizada em virtude do mais recente período de estiagem no Semiárido, com duração de cinco anos. Darolt et al. (2016) ressaltam que redes curtas de produção e consumo servem como estímulo para mudanças de hábi-tos alimentares, incentivo à educação para o gosto, além de formação de novos grupos de consumo responsável, dispostos, por exemplo, a suscitar campanhas contra agrotóxicos.  Todavia, requer proximidade geográfica, maior protagonismo dos consumidores na relação com produtores e polí-ticas públicas adaptadas ao contexto local. No outro ponto, Hadush (2018), em estudo na Etiópia, verificou relação direta entre escassez de recursos hídricos e elevação no custo per capita dos alimentos consumidos, afetando negativamente o bem-estar e a segurança alimentar das famílias.

Na comunidade, ingredientes como ovos e leite, por exemplo, têm produção irregular e armazenamento inadequados. Os ingredientes da co-zinha comunitária, por sua vez, são majoritariamente obtidos de comunitá-rios, e, em se tratando de participação de gênero na produção, as mulheres cultivam mais que os homens e são também protagonistas na criação de pequenos animais. A equipe da pesquisa-ação, por meio da observação in loco, diagnosticou que o bolo, produzido na cozinha comunitária e comer-cializado em feira livre local e na sede do munícipio, não possui embala-gem padronizada e nem identidade visual com rótulo, logo e informações nutricionais.

No que se refere ao potencial de comercialização, o mercado institu-cional vislumbrado, o Programa Nainstitu-cional de Alimentação Escolar (PNAE), exige, no caso de produto de origem animal ou dele derivado, padrões hi-giênico-sanitários que incluem conformidades nos sistemas de produção e nas instalações por meio de Serviço de Inspeção Municipal (SIM), Estadual (SIE) ou Federal (SIF) – a depender do alcance da comercialização (se para o município, para a unidade da federação ou para o território nacional) . Mesmo considerando que a produção artesanal tem avaliação sanitária es-pecífica, conforme determina a Resolução 49 (ANVISA, 2013), ajustes são necessários na intenção da equipe e da associação quanto à ampliação da comercialização para mercados institucionais (compras governamentais).

Araújo e Verdum (2010) destacam que, embora os povos e comunidades indígenas tenham direito de colher e comercializar bens e serviços ecossis-têmicos, esses processos podem ser prejudicados tanto por procedimentos legais de conformidade quanto pela restrição de crédito e de mercados.

Tais restrições estão presentes na comunidade em pauta.

A produção de alimentos é destinada para consumo das famílias – na noção de domesticidade de Polanyi (1980) – e, eventualmente, comerciali-zada na comunidade. Apenas uma sócia da cozinha comunitária consegue renda por venda direta semanal. Na agricultura, os principais alimentos cultivados são macaxeira, batata doce, feijão, milho, jerimum, melancia e coentro. Algumas famílias cultivam frutas como banana, goiaba, acerola, seriguela, umbu, coco e manga. Há, ainda, a criação de animais (porcos, galinhas caipiras, vacas). Nesses casos, a equipe da pesquisa-ação voltou-se para diagnósticos da alimentação fornecida aos animais, da origem dos in-sumos utilizados e do destino da produção e dos resíduos gerados.

Com base na sistematização dos dados coletados durante as visitas, a equipe acadêmica constatou que o maior desafio a superar repousa na escassez de água (gestão de recursos hídricos), tanto para uso doméstico quanto para a criação de animais e irrigação. A água utilizada é proveniente de poço (água salobra) ou da cisterna (água doce). Em momentos de extre-ma escassez, a água é fornecida pela Prefeitura Municipal por carro-pipa, ou, alternativamente, comprada com recursos próprios. A situação de água reproduz contexto de acesso em áreas rurais de todo o Brasil, onde, segun-do dasegun-dos segun-do IBGE (2010), apenas cerca de 30% das residências possuem redes públicas de abastecimento. No caso em pauta, há um agravante, pelo fato de se tratar de comunidade situada no Semiárido nordestino, demarca-do por longos períodemarca-dos de estiagem.

Com relação à alimentação dos animais, em todos os quintais são uti-lizadas sobras de alimentos humanos e raramente é ofertado algum tipo de ração. Apenas um dos moradores, que cultiva milho e mandioca, faz uso de tais alimentos na criação de galinhas. Não há registros dos volumes de pro-dução e nem da quantidade de animais, do número de ovos produzidos, de custos com alimentação e medicação para os animais e nem despesas

de outra natureza. A gestão da produção e de custos é, portanto, precária.

Além disso, as tecnologias de manejo estão registradas tão somente na me-mória de cada produtor, sem qualquer tipo de anotação. Além disso, o con-trole zootécnico, no caso da produção pecuária destinada a mercados insti-tucionais, é imprescindível e não há qualquer iniciativa com tal propósito.

O planejamento: parceria universidade-sociedade para o desenvolvi-mento sustentável

É notória a necessidade de organização da comunidade em virtude do in-tenso intercâmbio que possui com sistemas urbanos de comercialização, com parte significativa da população realizando negócios externamente, notadamente com atravessadores do circuito de beneficiamento de casta-nha de caju. Considerando que é objeto da Ciência Administrativa a mobi-lização de recursos visando ao alcance de resultados, a equipe acadêmica muldisciplinar dialogou alternativas via diagnóstico participativo para iden-tificar desafios e possibilidades. Ficou evidente a necessidade de abordagem para além da Administração, de modo a garantir atendimento integral e atuação integrada na resolução dos problemas surgidos. Outros departa-mentos da Instituição foram acionados e se uniram à proposta, dando di-reção ao objetivo principal de apoiar soluções endógenas de desenvolvi-mento sustentável. Três eixos foram, então, definidos: a) Fortalecidesenvolvi-mento dos quintais produtivos; b) Gestão da produção (cozinha comunitária); c) Consumo e comercialização.

O fortalecimento dos quintais produtivos foi eixo atendido por equi-pe de Engenharia Agronômica em colaboração com Zootecnia. Foi então concebido um sistema integrado de produção de aves e hortaliças. O siste-ma concebido torna possível a produção de alimentos de forsiste-ma sustentável, associada à produção de ovos e à criação de galinhas, mediante emprego de recursos locais disponíveis para a construção das instalações. Além disso, foram consideradas limitações ambientais. A água, por exemplo, passou a ser reutilizada do uso doméstico, com aplicação, pela equipe de Agro-nomia, de técnicas de reaproveitamento de águas cinzas, de irrigação e de aproveitamento de nutrientes necessários ao solo obtidos a partir de

ex-crementos dos animais em compostagens. Esta atividade envolveu capaci-tação integrada, na comunidade, com alunos de Zootecnia e Arquitetura, que atuaram em conjunto na implantação de uma unidade demonstrativa que interconecta vários ODS. Administração ficou responsável por ativi-dades de programação da aquisição de matérias-primas, levantamento de custo de produção e de insumos e definição de canais de comercialização com as mulheres da cozinha comunitária.

A equipe de Nutrição assessorou a cozinha da associação comuni-tária na definição de cardápios, na elaboração de fichas técnicas e na fa-bricação de alimentos, ao passo que Arquitetura se responsabilizou pela adaptação da cozinha com propósitos de garantir conforto e segurança às trabalhadoras. Administração focou apuração de custos enquanto Nutrição avaliava o layout necessário à manipulação de alimentos. Uma capacitação em boas práticas de fabricação, dividida em momentos teóricos e práti-cos, foi realizada pela equipe de Nutrição junto às mulheres que atuam, em regime de autogestão, na cozinha. A capacitação teve o propósito de adequação sanitária da unidade de beneficiamento dos produtos (cozinha comunitária). Ocorreu, ainda, abordagem na destinação e reutilização dos resíduos alimentares. Administração mapeou pontos de descarte do resí-duo orgânico da produção, integrando-o ao aproveitamento em compos-tagens, e delineou a destinação adequada do resíduo sólido, considerando que produtos frescos são passíveis de reaproveitamento (HAMILTON; RI-CHARDS, 2019).

Com relação à comercialização e ao consumo os seguintes aspectos foram considerados: separação da produção para consumo das famílias do excedente para comercialização; necessidade de ampliação da produção sob encomenda, com desenvolvimento de marca própria; rotulagem nutri-cional e divulgação local; valorização da utilização de ingredientes locais de produção da comunidade e fornecimento de serviços e produtos na própria comunidade e cidades adjacentes; formação de estoques e preço de ven-da; acesso aos mercados institucionais (compras governamentais). Desse modo, Design, Zootecnia, Agronomia e Nutrição pautavam qualidade dos produtos, rotulagem nutricional e seleção de embalagens, enquanto

Admi-nistração e Ciências Contábeis elaboravam planilhas de custo em oficina de formação de preço. O Design atuou no propósito de definir marca e iden-ticidade visual para o empreendimento, elaborando, de modo dialogado, logo, cartão de visita, folder e embalagem mediante uso de símbolos da cultura indígena local. A comunidade articulou agentes do governo local, como nutricionistas, secretarias de educação, meio-ambiente e da agricul-tura, para verificar a viabilidade de inserção de produtos em cardápios da alimentação escolar, a partir da realização de testes de aceitabilidade e ve-rificação das exigências legais. Essa iniciativa mostrou-se lenta e conflituo-sa, indicando que órgãos governamentais subestimam a força das relações sociais dos agricultores familiares (WIJAYA et al., 2018). Na contramão, es-tudos revelam avanços na intenção das pessoas em adquirirem produtos localmente, desde que atendendo a padrões de qualidade (JEKANOWSKI;

WILLIAM; SCHIEK, 2000).

Serviço Social e Psicologia trabalharam dimensões de relaciona-mentos interpessoais e relações intrafamiliares, incluindo gênero. Turismo aparece em meio à possibilidade de, no futuro, se constituir a experiência espaço para prática de turismo rural, com ênfase no ecoturismo (BOYS;

WILLIS; CARPI, 2014). Importante ressaltar que todas as iniciativas têm planejamento e atuação coletivos de docentes e discentes, incluindo, tam-bém, equipe do Curso de Gestão Tecnológica em Gestão de Cooperati-vas que se desenvolve na IES mediante fomento do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) gerenciado pelo Instituto Nacio-nal de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Mesmo considerando que terras indígenas não se enquadram como áreas de reforma agrária, o Curso tem contribuído nos encaminhamentos de acesso da população indígena a mercados institucionais de compras governamentais, via Programa Nacio-nal de Alimentação Escolar (PNAE) e Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), com o propósito de fortalecimento da agricultura familiar em cir-cuitos curtos de produção e comercialização.

O amplo conjunto de ações é amparado em formato de gestão ma-tricial em que a equipe, coletivamente, levanta demandas na comunida-de, debate e elenca possibilidades de ação, responsáveis por cada tarefa em

consonância com a área do conhecimento, e, então, retorna para diálogo com a comunidade a quem compete a decisão. Em reuniões restritas ou em assembleias, a depender do conteúdo e alcance da decisão, as matérias são abordadas, aprovadas ou modificadas e, eventualmente, rejeitadas. Dessas discussões, surgiu a possibilidade de criação de um banco comunitário de desenvolvimento (BCD), ação que se encontra em fase embrionária e que está sendo conduzida pelo grupo de Administração.

A execução: proposta interdisciplinar unificada

As ações, além de viáveis para a Universidade e a comunidade, mostram-se promissores na valorização da produção agrícola e artesanal local. Após o diagnóstico preliminar, saberes administrativos articularam-se a outros gerando unificação em torno do objetivo geral da pesquisa-ação, momento em que o projeto passou a ser ancorado na incubadora social Organização de Aprendizagem e Saberes em Iniciativas Solidárias e Estudos no Terceiro

As ações, além de viáveis para a Universidade e a comunidade, mostram-se promissores na valorização da produção agrícola e artesanal local. Após o diagnóstico preliminar, saberes administrativos articularam-se a outros gerando unificação em torno do objetivo geral da pesquisa-ação, momento em que o projeto passou a ser ancorado na incubadora social Organização de Aprendizagem e Saberes em Iniciativas Solidárias e Estudos no Terceiro

No documento DOI: (páginas 23-39)

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