4 MATERIAL E MÉTODOS
5. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Não houve diferença estatística na proporção de machos e fêmeas, tanto nos eqüinos quanto nos asininos. Nos muares, esta análise não foi feita em virtude da pouca quantidade de animais (Figura 4).
Figura 4 – Equideos errantes incluído no estudo classificados por espécie e sexo. Mossoró-RN, 2009
Conforme pode-se observar na Figura 5, valores de idade extremos de alguns indivíduos influenciaram no resultado da média, impossibilitando a análise com este parâmetro. A distribuição desta variável não apresentou distribuição normal, portanto, as comparações foram feitas pelo tese Kruskal-Wallis (não paramétrico).
Houve diferença estatisticamente significante (p<0,008) dos muares em relação a eqüinos e asininos que, por sua vez, não apresentaram diferença significante entre eles, o que pode ser observado na Figura 66, mostrando a distribuição por quartis.
Os asininos apresentaram uma mediana (6,0) menor que os eqüinos (8,0) e estes tiveram uma amplitude maior de distribuição com maior número relativo de animais no último quartil. Tal fato pode ser explicado pela diferença de trabalho desempenhado por essas espécies e pelo seu modo de criação. Os eqüinos são mais aproveitados que os asininos no trabalho e, por conseqüência, circulam em menor número soltos nas ruas. Adicionalmente, observou-se no decorrer desta pesquisa que muitos dos eqüinos recolhidos pela prefeitura são resgatados por seus donos, mostrando que são animais semi-controlados e que ainda estão servindo como força de trabalho. Porém, embora não tenham ocorrido animais reincidentes na amostra estudada, sabe-se por relato pessoal que muito dos animais resgatados voltam ao curral durante o mês, pois os proprietários soltam-nos nas ruas novamente.
Mais lentos no trabalho, os asininos são aproveitados apenas na ausência de eqüinos e muares, o que pode explicar seu maior número nas vias públicas, provavelmente se reproduzindo nesta condição, dado o número representativo de animais jovens, repondo a população de susceptíveis.
Os muares foram representados em menor número e com indivíduos mais velhos, possivelmente por serem híbridos (inférteis) e, em função de sua resistência, apresentarem rendimento e longevidade no trabalho superior que as outras duas espécies. Desta forma, os muares, quando abandonados, o são mais tardiamente. No pantanal mato-grossense, há fazendeiros substituindo os cavalos de serviço por muares devido a sua maior resistência em apresentar sintomas da AIE 44. Na situação epidemiológica encontrada ali, com regiões apresentando prevalência de até 50%, torna-se menos relevante o fato dos muares estarem ou não infectados, mas não se pode dizer o mesmo dos animais em Mossoró.
Figura 6 – Distribuição em mediana e quartis da idade dos animais agrupados por espécie.
Box Plot da idade agrupada por espécie
25%-75%
Non-Outlier Range Outliers
Extremos
asinino equino muar
espécie -2 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 24 idade (anos )
Dos 150 animais analisados, todos os quatro soros positivos na IDGA foram positivos também no ELISA mas, seis soros adicionais foram positivos apenas no ELISA (Tabela 1). Estes resultados conflitantes podem ser justificados porque asininos e muares produzem títulos de anticorpos contra o VAIE abaixo do limiar de
detecção da IDGA. De fato, quando testados por Western blot, as amostras discordantes apresentaram concentrações baixas de anticorpos contra o antígeno p26, que é o marcador da IDGA**. Adicionalmente, sabe-se que anticorpos contra gp90 antígeno empregado no ELISA são detectados precocemente e em títulos mais altos que p26 25, 36, 51. Consequentemente, não se pode descartar que os resultados ora apresentados sejam de animais infectados recentemente.
Tabela 1 – Análise de concordância entre os testes sorológicos, realizados por IDGA e ELISA para o diagnóstico da AIE em asininos, equinos e muares de Mossoró-RN (2009).
IDGA TOTAL ELISA P N Eqüinos P 2 0 2 N 0 31 31 Asininos P 2 4 6 N 0 106 106 Muares P 0 2 2 N 0 3 3 TOTAL 4 146 150
Apesar do estresse sofrido por esses animais nas ruas e até mesmo no curral de recolhimento após a apreensão — sem cuidados adequados, sem alimentação nem fonte de água limpa, com superlotação e muitas vezes brigas entre os animais (Figura 7), fatores suficientes para recrudescimento da viremia 12, 43, não foi observado nenhum quadro clínico sugestivo da AIE. Os animais que por ventura já estivessem infectados no momento da coleta seriam portadores crônicos assintomáticos. Outros que se infectassem após a apreensão, durante o confinamento, não teriam tempo hábil para a manifestação dos sintomas até sua liberação ou resgate, tampouco o período em que os animais recolhidos permanecem cativos (até sete dias) permitiriam, na maioria dos casos, a detecção de anticorpos específicos pelos testes sorológicos a gp90 é detectável em 7 dpi 25.
**
Figura 7 - Curral de recolhimento de animais errantes da PMM, onde paralelamente às colheitas, foi realizado exame físico dos animais para verificar associação entre achados clínicos e resultados dos testes sorológicos. Fonte: Cavalcante, 2009.
Conforme relacionado no Anexo 2, dos animais positivos (seis asininos, dois muares e dois eqüinos), apenas os asininos de número 23 e 92 apresentaram pêlos grandes e sem brilho e o primeiro apresentou mucosas hipocoradas. Ambos apresentaram temperatura retal dentro dos limites normais, mas conforme descrito no experimento de Cook et al., (2001) 13, asininos inoculados com o VAIE não demonstraram picos febris em nenhum momento durante os 365 dias de observação, diferentemente dos pôneis que apresentaram vários picos febris, com alguns chegando até mais de 41° C.
Outros animais, soro-negativos, apresentaram a mesma sintomatologia dos animais 23 e 92, o que pode ter como causa outros fatores, por exemplo: verminose (exame não realizado), má alimentação crônica e idade avançada. Desta forma, embora não se possa afirmar que os sinais apresentados tenham sido em decorrência da infecção pelo VAIE, curiosamente, estes foram os asininos positivos para o ELISA e o IDGA.
Na forma como os resultados se apresentaram, ou seja, o pequeno número de animais positivos para qualquer dos testes utilizados não permitiu o cálculo dos parâmetros bayesianos como sensibilidade, especificidade e valores preditivos. Porém, baseado no desempenho dos dois testes descritos em estudos anteriores 1,
36, 44, 51, 55, assumiu-se como falsos negativos os resultados da IDGA para asininos e muares quando o resultado do ELISA for positivo. Existe relato de recrudescimento de um surto de AIE em eqüinos na França, seis anos após ter sido controlado, devido a um jumento falso negativo à IDGA 63. O ELISA não é prova aceita oficialmente no Brasil, mas por não consumir o tempo de processamento da IDGA e ser mais sensível, poderia ser empregado como teste de triagem para eqüinos ou como prova de eleição para asininos e muares.
É notória a importância do serviço de recolhimento dos animais sem controle ou semi-controlados pois a apreensão realizada pela Polícia Rodoviária Federal contribuiu para diminuir 17% os acidentes envolvendo animais nas rodovias federais no Rio Grande do Norte 64. Porém, é necessário estudar alternativas e ponderar sobre o risco de serem recolhidos animais de diferentes pontos da cidade e mantê-los agrupados em um mesmo local para que, logo em seguida, sejam soltos. Não se pode descartar a possibilidade de que algum desses animais previamente infectados atuem como fonte de infecção para outro que será solto ou resgatado por um proprietário que tenha outros animais, podendo estabelecer novas cadeias de transmissão, já que o curral, principalmente na época chuvosa (época em que a proliferação de vetores responsáveis pela transmissão da AIE é maior), pode ser um local maior de disseminação entre esses animais.
A falta de um teste diagnóstico oficial confiável para asininos e muares faz com que não haja instrumento legal para aplicação de medidas de controle. A adaptação de programas de educação sanitária já bem descritos para pequenos animais 56 podem propor medidas importantes como: posse responsável; controle populacional; substituir animais de trabalho infectados no caso de proprietários sem recursos financeiros.
Os dados apresentados neste trabalho sugerem um risco potencial de transmissão do VAIE que não pôde ser quantificado devido ao tamanho reduzido da amostra. O tempo em que os animais recolhidos permanecem cativos mas a ampliação do período de colheita e a inclusão de testes moleculares deverão fornecer mais informações sobre o tamanho da população de eqüídeos errantes, a prevalência da doença, viremia e subpopulações virais para o rastreamento da origem da transmissão.
6 CONCLUSÕES
¾ A AIE está presente nos eqüídeos errantes de Mossoró
¾ Para os eqüinos, os testes ELISA e IDGA podem ser aplicados em série: o primeiro como triagem e o segundo, confirmatório para o diagnóstico da AIE. ¾ O teste ELISA e IDGA devem ser aplicados em paralelo para o diagnóstico da
AIE em muares e asininos, tendo o ELISA como prova de eleição para estas espécies.
¾ Os equideos errantes representam risco potencial para a equideocultura de Mossoró, principalmente para a AIE, por existir animais portadores assintomáticos da doença transitando livremente perto das fazendas.
¾ Apesar de ser uma medida que diminui a quantidade de acidentes nas ruas, o recolhimento dos animais em um curral coletivo, pode favorecer a disseminação da doença entre esses animais, por não serem adotada medidas sanitárias associadas a esse serviço