Capítulo 5 – Resultados e Discussão
5. Resultados e Discussão
Os dados geofísicos foram adquiridos em uma área que engloba uma duna blow out que apresenta direção preferencial NW-SE, concordante com a direção predominân- cia dos ventos. As aquisições geofísicas foram efetuadas nos dias 24 e 25 de outubro de 2013, consistindo em duas linhas GPR, levantadas com antena de 200 MHz, longitudi- nalmente ao transporte sedimentar, com extensões respectivas de 370 m (LG 1) e 330 m (LG 3). E quatro transversais, com direção NE-SW, e comprimento aproximado de 84 m, para a TRANS_3; 83 m para a TRANS_4; 81 m para a TRANS_5; e, de 88 m para a TRANS_6. A profundidade atingida na investigação chegou a 30 m.
A apresentação completa dos radargramas encontra-se disponibilizada no APÊN- DICE I, visto a dificuldade de apresentá-los em uma escala adequada. Entretanto, serão mostrados alguns trechos de forma parcial, chamando atenção para os pontos comenta- dos.
A interpretação das secções GPR foi baseada em alguns conceitos da sismoestra- tigrafia, utilizados para auxiliar na montagem do arcabouço cronoestratigráfico. Foram observadas as terminações junto dos refletores para identificar e delimitar as superfícies limitantes. Dentre os conceitos utilizados no trabalho estão os de onlap, downlap, toplap e truncation (truncamento erosivo), descritos no capítulo anterior. Esses conceitos ajuda- ram a visualizar, realizar e hierarquizar os principais refletores.
A interpretação desses refletores também foi auxiliada pela disponibilidade de um testemunho de sondagem na área de trabalho. As coordenadas do mesmo são: UTM_E 252479,142 e UTM_N 9379255,853. Os dados obtidos no testemunho permitiram a iden- tificação do limite superior das rochas da Formação Potengi e o contato entre estes litoti- pos e os do Grupo Barreiras nos radargramas.
Para separar e hierarquizar as superfícies limitantes de acordo com as suas respec- tivas ordens foram observados as terminações dos refletores. Foram atribuídas cores nas representações finais da interpretação para distingui-las de acordo com as suas ordens. Para as superfícies de 1ª ordem foi atribuída a cor vermelha, para as de 2ª ordem a cor azul e a cor verde para as de 3ª ordem.
Devido a variação de cota das dunas, e com a observação dos dados do GPR em campo, esperava-se que os pacotes de areia possuíssem uma espessura elevada. Entre- tanto, foram encontradas espessuras menores do que o esperado, com espessura máxima
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Imageamento com GPR de Geometrias Internas de Dunas Eólicas, no Litoral Oriental do RN 34 de cerca de 10 m de areia. As dunas estão limitadas abaixo por uma superfície de 1ª or- dem, que representa o contato com as rochas da Formação Potengi (Figura 5.1 A).
Araújo et. al. (2005) trabalhando na região de Nísia-Floresta/RN interpretaram uma superfície limitante de 1ª ordem relacionada ao contato entre as dunas e o limite superior das rochas do Grupo Barreiras. Semelhante ao trabalho de Araújo et. al. (op cit.), neste relatório a superfície de 1ª ordem também não representa uma superfície de inter- duna, como proposto por Kocurek (1988 e 1996). Essa superfície apresenta algumas das características típicas de superfícies de 1ª ordem, tais como se apresentar planar a sub planar, apresentar mudança de espessura e angularidade e longa extensão (Figura 5.1).
A relação dos refletores nos radargramas e as superfícies correspondentes nos de- pósitos das dunas com a superfície limitante de 1ª ordem se manifesta através de termi- nações em downlap (Figura 5.1 A e B). Os downlaps representam as terminações, mer- gulho abaixo, das estratificações cruzadas sobre as rochas da Formação Potengi, no sen- tido de migração da duna.
A delimitação desse contato representado pela superfície de 1ª ordem é facilitada pela existência de afloramentos da Formação Potengi ao longo de toda a área e principal- mente próximo ao término das seções longitudinais.
Figura 5.1 – Seção GPR Longitudinal 1 mostrando no detalhe A o contato do pacote de areia das dunas com as rochas
da Formação Potengi, em sua região de maior espessura. Em B são visíveis os refletores com terminação em donwlap sobre a superfície de 1ª ordem (vermelha), mostrados com setas. Para maiores detalhes ver apêndice I.
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As dunas apresentam estratificações cruzadas de grande porte, como é comum em sistemas eólicos, e superfícies limitantes que dividem diferentes gerações ou episódios de sedimentação das dunas, essas superfícies foram aqui consideradas como superfícies li- mitantes de 2ª ordem, ou superfícies de superposição (Kocurek, 1988 e 1996). Essas su- perfícies limitantes foram identificas por apresentar refletores com terminações em onlap, downlap e toplap (Figura 5.2). As terminações em onlap estão relacionadas a presença de refletores horizontalizados que truncam, mergulho acima, outras superfícies limitantes de 2ª ordem (Figura 5.2 B). Por vezes estas mesmas superfícies de 2ª ordem terminam em downlap sobre a superfície de 1ª ordem (Figura 5.2 A). Os refletores que estão abaixo dessas superfícies de 2ª ordem são truncados por elas, exibindo terminações em toplap (Figura 5.2 A)
Essas superfícies de 2ª ordem apresentam como características principal o fato de serem menos extensas que as de 1ª ordem, possuírem mergulhos moderados a baixos, preferencialmente na direção de sotavento. Essas características ajudaram a interpretar as superfícies como sendo de 2ª ordem (Figura 5.2). As mesmas representam diferentes pul- sos de sedimentação, (cavalgamento de dunas, por exemplo) podendo ser chamadas, se- gundo Kocurek (1988, 1996), de superfícies de superposição.
Na duna estuda é possível observar até cinco pulsos de sedimentação distintos separados pelas superfícies limitantes de 2ª ordem (Figura 5.3A).
Figura 5.2 – Seção GPR Longitudinal 3 onde é possível observar no detalhe em A superfícies limitantes de 2ª ordem,
ou superfícies de superposição, que foram demarcadas com auxílio das terminações em downlap e toplap, que tem alguns exemplos representados em setas. No detalhe B é possível ver refletores que truncam em onlap, também au- xiliando a delimitar as superfícies de 2ª ordem. Para maiores detalhes ver apêndice I.
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Imageamento com GPR de Geometrias Internas de Dunas Eólicas, no Litoral Oriental do RN 36 A geometria delimitada por essas superfícies de 2ª ordem tem a geometria em cunha, o que indica a migração da própria duna. Pye e Tsoar (1990) apontam que conjun- tos mais finos de estratificações em cunha tendem a ser mais comuns em direção ao topo das dunas, refletindo o fato de que os níveis superiores de uma duna são mais afetados por ventos, corte e enchimento, em resposta às mudanças nas condições de vento e pela passagem de pequenas dunas.
Nesses depósitos de dunas também são encontradas superfícies de menor expres- são truncadas pelas de 2ª ordem ou pela de 1ª ordem diretamente. Essas superfícies foram demarcadas com auxílio das terminações dos refletores, que ocorrem junto as superfícies em onlap ou em truncation, predominando esse último, visto essas superfícies estarem ligadas a momentos de erosão. É possível observar os refletores terminando abrupta e lateralmente sobre essas superfícies, constituindo essas terminações (Figura 5.4 A). Elas separam grupos de laminações dentro de conjuntos de estratificações cruzadas. Sendo definidas como superfícies de 3ª ordem ou superfícies de reativação (Figura 5.4). Brook- field (1977) argumentou que tais superfícies eram frutos de flutuações rápidas de veloci- dade e direção do vento em ambientes eólicos. Para Kocurek (1988, 1996) representa processos de deposição que foram interrompidos, por algum motivo, e sofreram erosão, sendo depois reativada a deposição dos sedimentos.
Figura 5.3 – Seção GPR Longitudinal 3 onde é possível observar no detalhe em A os 5 pulsos de sedimentação
presentes nas dunas, sendo limitados por superfícies de 2ª ordem, ou superfícies de superposição. Em B é possível ver os 3 pulsos de sedimentação presentes na Formação Potengi. Para maiores detalhes ver apêndice I.
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Para a interpretação das seções transversais também foram observadas as termi- nações dos refletores junto aos limites das superfícies limitantes, e correlacionadas com as superfícies que estão presentes nas seções longitudinais. A superfície limitante de 1ª ordem é evidenciada principalmente pela presença de terminações em downlap e onlap, das dunas sobre a Formação Potengi. As superfícies de 2ª e 3ª ordem nas seções transver- sais só puderam ser visualizadas na Formação Potengi, não sendo evidenciadas nos de- pósitos de dunas.
Para a correlação entre as seções transversais e as seções principais se faz neces- sário a elaboração de uma projeção onde as seções transversais se cruzam com as seções principais (LG1 e LG3), para correlacionar os refletores e superfícies limitantes entre es- sas seções. Para tanto, se recorreu a elaboração de um diagrama de cerca (ou em painel) mostrando, em perspectiva, seções unidas entre si por planos verticais, sendo empregados para litocorrelações, biocorrelações e cronocorrelações, como nesse trabalho (Figura 5.5). Figura 5.4 –Seção GPR Longitudinal 3 onde é possível observar superfícies limitantes de 3ª ordem, ou superfícies de reativação. Em A é possível observar um exemplo de superfície limitante de 3ª ordem na Formação Potengi, de- marcada com auxílio das terminações em onlap e truncation. Em B outro exemplo, dessa feita nas dunas, com as terminações em truncation. Para maiores detalhes ver apêndice I.
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Imageamento com GPR de Geometrias Internas de Dunas Eólicas, no Litoral Oriental do RN 38 A partir desse diagrama foi possível auxiliar na representação das superfícies li- mitantes nas seções transversais (Figura 5.6). O produto final das seções transversais pode ser visualizado no apêndice I. Portanto, também foi possível observar a superfície de 1ª ordem ligada ao contato das dunas com as rochas da Formação Potengi. Também é pos- sível inferir a existência de superfícies de 2ª e 3ª ordem. Entretanto muitas vezes não é clara a existência, isso devido a em seções transversais ao sentido de migração das dunas ser mais observados os refletores planares ou que se mostram lenticulares.
Figura 5.6 – Seção GPR Transversal 5 mostrando as superfícies limitantes que foram possíveis de serem
delimitadas a partir da montagem do diagrama em cerca e das terminações dos refletores. É possível observar os truncations na superfície limitante de 1ª ordem. A superfície limitante de 2ª ordem apresenta onlap. As de 3ª ordem são delimitadas com o auxílio de refletores em truncation e onlap.
Figura 5.5 – Visualização do diagrama em cerca produzido, o qual relaciona todas as seções adquiridas,
posicionando-as em perspectiva e cruzando os radargramas, afim de gerar visualização e correlação dos refletores das seções transversais com as seções longitudinais.
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As rochas da Formação Potengi são aqui consideradas como depositadas por pro- cessos eólicos, portanto, também é possível visualizar e demarcar nessa unidade superfí- cies limitantes (Figura 5.7).
Nas seções longitudinais é possível observar que essas rochas, provavelmente, também sofreram erosão eólica (ou outro tipo de erosão antes da deposição das dunas), portanto, também é possível ver as terminações em truncation junto às superfícies limi- tantes de 1ª e 3ª ordem. É visível nas seções longitudinais a presença de superfícies de superposição, ou de 3ª ordem, delimitadas justamente com auxílio dessas terminações em truncation.
A presença das superfícies limitantes de 2ª ordem indica que aconteceu, pelo me- nos, três pulsos de sedimentação na história dessas rochas, sendo demarcados por super- fícies de superposição (Figura 5.7 e Figura 5.3 B).
Nas seções transversais as superfícies de 2ª ordem só foram identificadas na seção GPR correspondente às rochas da Formação Potengi, sendo evidenciadas principalmente pela presença de terminações em onlap e toplap junto a essas superfícies (Figura 5.6). As superfícies de 3ª ordem são identificadas a partir das terminações, principalmente em truncation, podendo ocorrer também terminações em onlap junto a essas superfícies (Fi- gura 5.6).
Figura 5.7 – Seção GPR Longitudinal 3 onde é possível observar no detalhe em A os 3 pulsos de sedimentação
presentes nas rochas da Formação Potengi, sendo limitados por superfícies de 2ª ordem, ou superfícies de super- posição. Para maiores detalhes ver apêndice I.
Capítulo 6 – Conclusões
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6. Conclusões
O GPR se mostrou uma ferramenta eficiente para o imageamento das geometrias internas e para a elaboração do arcabouço cronoestratigráfico das dunas de blow out, recentes; e, das paleodunas da Formação Potengi, que ocorrem entre as praias de Pitangui e Jacumã, município de Ceará-Mirim/RN.
As investigações foram realizadas até profundidade de cerca de 30 m.
Foi possível inferir, nos radargramas, que o pacote de areia da duna estudada apresenta espessura máxima de 10 m.
O refletor interpretado como uma superfície limitante de 1ª ordem representa o contato entre as rochas da Formação Potengi e os sedimentos de dunas recentes.
Foram reconhecidos pelo menos 5 pulsos diferentes de sedimentação que representam as superfícies limitantes de 2ª ordem que mostram geometria em cunha.
Os períodos de não deposição e erosão nas dunas representam as superfícies limitantes de 3ª ordem, sendo evidenciadas pela mudança brusca dos ângulos das estratificações cruzadas.
A espessura interpretada para as rochas da Formação Potengi, sobrepostas às rochas do Grupo Barreiras, possuem pelo menos 12 m, na área estudada.
É possível visualizar que pelo menos 3 pulsos de sedimentação atuaram ao longo da sedimentação da Formação Potengi, também de caráter eólico. Esses pulsos são evidenciados pela presença de superfícies limitantes de 2ª ordem.
Os momentos de erosão ou não deposição que atuaram nesta formação também são visualizados pela presença de superfícies limitantes de 3ª ordem.
Portanto, as interpretações dos radargramas permitiram visualizar as estruturas tanto no âmbito das dunas, como também as estruturas presentes na Formação Potengi.
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