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2. IDE: caracterização recente e determinantes gerais

2.3. Uma análise empírica dos determinantes do IDE

2.3.3. Resultados: modelo geral de determinação do IDE

A tabela 2.7 abaixo resume os resultados econométricos para a estimação do modelo (1) utilizando-se técnicas de regressão por mínimos quadrados ordinários para equações em dados pooled cross section.

Dentre os resultados obtidos destacam-se a significativa importância das variáveis atratoras e repulsoras mais relevantes de modelos gravitacionais, a saber, uma próxy do tamanho do mercado receptor (PIB real, em poder de paridade de compra, ano a ano) e a distância entre os emissores e receptores. Ambas as variáveis, em quaisquer variantes do

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modelo, obtiveram os sinais esperados, positivo para o PIB e negativo para distância, e grande significância estatística.

Isto pode sugerir a validade da hipótese discutida no início deste capítulo de que o IDE ainda é majoritariamente associado a movimentos de internacionalização de empresas de países centrais, interpenetrando-se em busca da expansão dos mercados, numa estratégia market-seeking, na acepção de Dunning, ou horizontal, no conceito teórico de Markunsen.

A relevância e o sinal negativo da variável repulsora, a distância entre os pares de países receptores e emissores, sugere que a evidência levantada por Oman (1994) permanece válida, isto é, mesmo quando há desvio de IDE de países centrais para aqueles em desenvolvimento, há predominância do deslocamento para a periferia mais próxima. Evidentemente, modelos desagregados por países e por setores, exercício que ainda serão apresentados neste estudo, indicam especificidades. Por exemplo, o fator distância é menos relevante para o setor eletrônico, cujos custos de transporte são marginais e variações no custo de mão de obra qualificada importam, o que confirma a observação do deslocamento da produção deste setor, comandada em grande parte por ETN estadunidenses e européias, para países do oriente distante (ver item 2.4.2 abaixo).

Tabela 2.7 – Resultados da estimativa do modelo (1), para determinação dos fluxos e do estoque de IDE para 18 emissores, 44 receptores, 1990-2001

Dependente: lnFLOWij Dependente: lnSTOCKij

Variável Variável 1 2 3 4 5 6

PIB em j lnGDPj 0,399*** 0,585*** 0,768*** 0,321*** 0,537*** 0,721*** Distância entre i e j lnDISTij -0,383*** -0,636*** -0,562*** -0,209*** -0,548*** -0,421*** Custo relativo do trabalho ij labindexij 0,091 0,332*** 0,237*** 0,284*** 0,545*** 0,447*** Índice de comércio ij icomexij 10,148*** 11,930***

Dummy para ALC entre ij dFTAij -0,220* -0,397***

Índice de abertura em j abertj 0,988*** 0,924***

Constante _cons -3,519*** -6,191*** -12,362*** -0,788 -3,474*** -10,134*** * significativo a 10%; *** significativo a 1%.

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Em todas as estimativas, a variável custo relativo do trabalho foi positiva, confirmando a importância generalizada do fator market-seeking do IDE. Isto é, de maneira geral, a variável indica, quase sempre de forma estatisticamente relevante, que o custo do trabalho age como uma força atratora de IDE não porque permite explorar custos menores do fator trabalho, mas porque indica o interesse em investir em mercados cuja renda média do trabalho seja semelhante ao do país emissor. Este resultado corrobora a discussão embasada por estatísticas descritivas conduzidas no item 2.2 acima, ou seja, o movimento do IDE, durante a década de 90, continuou a ser um fenômeno concentrado nos países centrais, cujas ETN se penetram reciprocamente, procurando ampliar seus mercados de atuação, em uma expansão horizontal ou market-seeking dos negócios. A análise de dados por países e por setores permitirá informar que a importância de custos relativos menores nos países receptores é um fator determinante de atração de IDE vertical, ou effciency- seeking, como investimentos realizados em países que claramente atuam como plataformas de exportação como México (Tabela 3.8) e China (Tabela 3.9) ou aqueles realizados no setor de equipamentos eletrônicos (ver Tabela 3.15 abaixo).

Quanto ao índice de comércio bilateral, os resultados tiveram sinal esperado, isto é, verificou-se uma relação positiva entre os fluxos e/ou o estoque de IDE e a relação comercial de pares de países. Descrita na literatura como um fenômeno crescente, a complementaridade entre IDE e comércio exterior foi aqui captada, com alta relevância estatística, nas estimativas 1 e 4. De fato, as ETN cada vez mais fracionam sua operações de produção e de gestão da cadeia de suprimentos por diversos países, o que estimula os fluxos de comércio de bens intermediários (entre filiais e de fornecedores mundiais) e finais (entre filiais e matriz). O forte aumento do comércio intra-industrial e intra-firma também ilustra este processo. Note-se, por exemplo, que quando da inclusão do índice de comércio, a variável custo relativo do trabalho mantém o sinal positivo, mas perde significância. O comércio intra-industrial de direção Norte-Norte captado pelo índice de comércio diminui a

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importância da variável custo relativo do trabalho que, como foi visto, vinha sendo positivo e significativo, captando o motivo market-seeking para interpenetração de IDE entre países de renda semelhante. Neste caso, os fluxos de IDE são ainda mais análogos à proposição de Linder (1961) para os fluxos bilaterais de comércio exterior entre países de mesma dotação de fatores.

O mesmo movimento pôde ser capitado pela estimativa da variável abertura. O exercício captou que, de maneira geral, países com maior índice de abertura tendem a receber maiores fluxos e/ou estoques de IDE. A escalada generalizada da liberalização do comércio exterior durante os anos 80 e 90 ocorreu de forma paralela ao crescimento do IDE, em especial o deslocamento deste para os PED que, não por acaso, estiveram entre os países que mais aceleraram e aprofundaram a abertura (ver capítulo 1). Sem a liberalização, as estratégias de IDE efficiency-seeking ou market-seeking com produção e cadeia de suprimentos organizadas de forma fracionada por diversos países não teria sido possível. E as estimativas 3 e 6 captaram este fenômeno, atribuindo sinal positivo e relevância estatística para a variável que capta o grau de abertura do país receptor de IDE.

Nas estimativas 2 e 5, foram analisadas os efeitos de uma dummy para a existência de acordo de livre comércio entre os países que estão enviando ou recebendo IDE. Nos dois casos houve significância estatística, mas com sinal inverso ao esperado normalmente. Isto é, de acordo com os dados estimados nesta amostra, a presença de um acordo de livre comércio tenderia a desestimular o IDE. Neste caso, o acordo de integração poderia estimular mais comércio, como tem sido observado pela literatura, mas não necessariamente mais IDE. A redução dos custos de comercialização entre os países que se integram pode desestimular um tipo de investimento market-seeking previamente estimulado pela existência de barreiras comerciais (jump-the-tariff). No conjunto de dados agregados, a presença de IDE market-seeking deve compor a grande parte dos fluxos e estoques estimados, uma vez que a amostra capta a realidade mundial em que a imensa

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maioria do IDE ocorre de e para os países desenvolvidos, estimulado não por diferenciais de custo, mas pelas características e escala do mercado que se amplia pela internacionalização. E neste caso, é razoável imaginar que a presença de acordo de livre comércio, por exemplo, entre países europeus, grandes emissores e receptores de IDE, realoque as decisões de IDE e comércio intra-regional, desestimulando o primeiro em benefício do último.

Além disto, o exercício pode captar um efeito defasado, isto é, se o acordo de integração de jure reafirmar um processo prévio de integração de facto, a efetivação do AIE teria pouco efeito sobre os fluxos de IDE. Parece ser o caso do IDE estadunidense para o Canadá, uma vez que quando da assinatura do NAFTA, as ETN de origem estadunidense já investiam largamente no Canadá.

Por outro lado, processos de integração entre países com grandes diferenças na estrutura de custo podem estimular IDE do tipo efficiency-seeking, o que tornaria o país receptor numa plataforma de exportação menos custosa, dada a redução de tarifas entre os parceiros de comércio e IDE. A experiência do NAFTA mostra justamente que o aumento do IDE proveniente dos EUA em direção ao México era do tipo vertical, efficiency-seeking e foi estimulado pelo acordo de livre comércio entre os dois países. Na desagregação por países, a ser realizada no próximo capítulo, será possível observar esta ambigüidade nos resultados, em especial no caso dos EUA.

Ao final do Capítulo 3, será produzida uma síntese da avaliação do conjunto de toda a análise quantitativa, tanto a que foi realizada neste segundo capítulo, quanto as análises desagregadas que serão o objeto do capítulo 3 a seguir.

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