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Capítulo 4. A Dimensão Educativa da prática profissional do Assistente

4.3. A proposta de trabalho com comunidades a partir do eixo “Novas

4.3.3. Resultados observados pelas profissionais

Também foram vários os resultados observados pelas depoentes quanto à operacionalização do eixo “Novas Relações Comunitárias” na cidade de Campinas desde 2001.

Um resultado observado por algumas delas é a facilitação do acesso da população aos serviços, na medida em que ficaram mais próximos das suas residências.

“Facilita o acesso da população às políticas de uma forma mais direta”. (Célia)

Também possibilitou, segundo entrevistadas, a ampliação de atendimentos individuais no sentido de orientações feitas para uma demanda espontânea.

Hoje as pessoas procuram mais o serviço. Eu acho que quando cheguei, era mais o programa e o atendimento era mais exclusivo no dia do plantão. As

pessoas só iam ao serviço no dia do plantão. Hoje não, a gente tem sempre que ter um serviço de orientação para as pessoas, orientação mesmo. Ampliou, também, a participação das pessoas no processo, também de não usuários diretos dos serviços.

“Acho que veio uma coisa muito legal que foi o envolvimento de algumas pessoas da comunidade na comissão de gerenciamento, de algumas pessoas de um condomínio próximo”. (Patrícia)

Uma depoente também faz uma comparação com o processo pedagógico desenvolvido no Programa Renda Mínima na sua região anteriormente, avaliando a qualidade da participação nos grupos sem a obrigatoriedade de contrapartida vinculada a um subsídio financeiro ou a um recurso material.

Na verdade, a gente tinha cerca de 900 atendimentos mês, de todas as pessoas que a gente conseguia visitar e das pessoas que participavam dos grupos. Então, fazendo um parênteses, você já viu quanto, apesar de ainda atingir um grupo pequeno da população, como os beneficiários são muito mais visíveis, muito mais efetivos do que a gente tinha no Renda Mínima, que era uma relação de contrapartida, que era uma relação muito diferente do que a gente tem no grupo. Ali a gente não oferece nada, ali não dou cesta básica, não dou renda mínima, não dou nada. Eles estão aí porque querem estar e o quanto isso é diferente, de você construir essa relação. (Paula)

Segundo várias depoentes, as pessoas ampliaram a sua percepção de protagonistas, de sujeitos.

Eu acho que tem uma grande possibilidade de você ver o retorno, o crescimento das pessoas dentro do teu espaço, e o movimento que ela começa a fazer a partir do momento que você começa a trabalhar com ela no coletivo. Você começa a ver o crescimento visível, tanto pessoal quanto de participação (...). Aquela pessoa que nem abria a boca ali no cantinho quando você conheceu e que, de repente, começa a reivindicar. (Paula)

Elas também ampliaram seus conhecimentos dentro de um processo amplo, de um trabalho em conjunto com outros serviços e Secretarias, segundo uma depoente.

“Acho que a população, hoje, tem um outro nível de conhecimento e eu acho que isso faz parte de toda uma construção que foi feita no município, é um trabalho de conjunto”. (Célia)

Gramsci (apud Abreu, 2002, p. 133) afirma que há três graus no processo de politização das relações sociais no movimento histórico, quais sejam: a) caracteriza-se pela manifestação da solidariedade entre os membros de um mesmo grupo; b) a consciência da solidariedade de interesses ainda é restrita ao campo econômico; e c) o mais político, se concretiza na consciência da solidariedade entre os diferentes grupos subordinados, traduzida na unidade dos fins econômicos e políticos, intelectual e moral.

O início de uma consciência de solidariedade entre os membros dos grupos também foi trazido como fruto do trabalho educativo, principalmente no sentido das pessoas começarem a conhecer melhor a realidade do outro, orientar quanto a direitos que conheceram no grupo e até mesmo trazerem as pessoas para participar.

Então essa coisa de rede de solidariedade é muito pequeno, caseiro, muito da vizinha ainda, mas que vai ajudando as pessoas a terem consciência dos direitos que muitas pessoas ainda não sabem, que existe uma série de benefícios que elas podem estar acessando, pode estar ajudando para elas saírem dessa situação. (...) Por exemplo, é muito comum, hoje, as pessoas que participam do grupo trazerem pessoas que elas detectaram na comunidade que estão passando por uma situação difícil. (Paula)

A percepção do próprio potencial (e não apenas das dificuldades) pelas pessoas também foi lembrada por uma entrevistada.

“Com adolescentes a gente está conseguindo muito pouco, mas já está conseguindo que eles vejam que eles também têm potencial”. (Virgínia)

O processo de transcender do individual para o coletivo também foi apontado como fruto importante.

“A cada encontro a gente foi valorizando essa demonstração, essa preocupação que o grupo tinha a respeito da própria comunidade e não só da sua questão familiar, sua questão individual, mas o grupo ali estava demonstrando interesse na melhoria do bairro. (Joana)

É resultado, também, o fato das pessoas começarem a agregar valor à vida e ao espaço onde vivem.

“As pessoas conseguem agregar um valor na sua vida, valorizar até onde ela mora de uma forma a dar significado também a onde ela está”. (Célia)

A apropriação dos usuários pelo espaço do serviço também foi trazido como um fruto do trabalho.

“Agora os adolescentes já freqüentam o espaço independentemente se no dia tem oficina ou não. Eles vêm para aquele espaço, criaram identidade ali dentro, então é o espaço deles”. (Virgínia)

A proposta das “Novas Relações Comunitárias”, no seu braço intersetorialidade, atingiu outras áreas profissionais, ganhando espaço e legitimidade entre alguns atores.

Mas eu acredito que todo mundo está enxergando assim, não todos os trabalhadores de todos os serviços, mas existe isso pairando em todas as áreas, a palavra intersetorialidade não é tão desconhecida. (...) É um processo que vai demorar mais quatro ou mais oito anos, ou mais, mas eu acho que ele não regride. (Joana)

Até mesmo a questão do aumento do afeto da população para com as profissionais foi lembrada como resultado.

“(...) você está mais próxima da população e a população tem mais afeto por nós agora, pelas assistentes sociais”. (Amanda)

O trabalho comunitário possibilitou uma aproximação maior com lideranças comunitárias, além do reconhecimento do profissional pela população, o que foi um resultado significativo para algumas entrevistadas.

A comunidade hoje sabe o que o assistente social faz, ela sabe qual o papel da Secretaria de Assistência, não diria em sua grande maioria, mas um grande número de pessoas, hoje, já sabe e eu acho que isso é conquista da gente ter ido para a comunidade. (Paula)

O aumento do reconhecimento da Secretaria pelos serviços das outras áreas também é avaliado como fruto desse trabalho.

Com a proposta das “Novas Relações Comunitárias”, ocorreu um fortalecimento da categoria dos assistentes sociais, já que as profissionais conseguiram perceber, melhor, as possibilidades de atuação dentro do Serviço Social na Prefeitura Municipal de Campinas.

“Mas eu acho que consigo me definir mais profissionalmente, eu acho que consigo enxergar a minha atuação e a minha prática ali muito mais evidenciada do que tinha no Renda Mínima”. (Paula)

E esse fortalecimento se deu, também, na busca pela ampliação do conhecimento por meio de estudos dentro da área.

Eu acho que distribuo mais atenção a estudar e aperfeiçoar. Eu acho engraçado porque tinha muito movimento, no começo quando entrei55, de

trabalho muito com a área da psicologia, de me aperfeiçoar, por exemplo, em psicoterapia de grupo. Eu achava que eu tinha que trabalhar nessa linha, porque o trabalho tinha muito mais de terapêutico que qualquer outra coisa. (...) Agora eu tenho uma relação totalmente diferente, acho que tenho possibilidade muito mais de investir dentro da área do Serviço Social, dentro da minha profissão. (Paula)

Um outro fruto é a ampliação do conhecimento profissional, mas a partir da relação de troca estabelecida com a própria população.

55 Ela se refere ao período em que entrou para trabalhar no Programa de Garantia de Renda Familiar Mínima durante a administração anterior.

“Não é demagogo dizer que não só eles aprendem com a gente, a gente aprende muito com eles”. (Joana)

E mesmo com todas as dificuldades para a operacionalização da proposta, diante destes resultados, algumas profissionais ficaram mais felizes e realizadas.

“Mas eu sou muito mais feliz profissionalmente hoje e eu acho que a abertura que a ação comunitária me deu me faz, hoje, ser uma profissional muito mais realizada do que eu fui na época do Renda Mínima”. (Paula)

Há, porém, um resultado que aponta que há muito que se fazer ainda nesta frente de trabalho, dentro de um processo. Ele diz respeito a estabelecer estratégias pedagógicas para ampliar ainda mais o foco e envolver um número maior de pessoas coletivamente, tanto na gestão dos equipamentos quanto nas ações nos territórios, já que, na maioria das experiências, as ações ficaram restritas a alguns grupos nas comunidades.

“Eu sei que algumas questões que a gente trabalha no grupo influenciam na vida delas e vai influenciar na comunidade também. Mas, de fato, acho que ações mexam com a comunidade como um todo, que eu acho que é a ação comunitária, às vezes fica a desejar”. (Gisele)