4.1 Resultados da coleção Nordeste
4.1.2 Resultados de arqueointensidade
4.1.2.1 Resultados pelo protocolo TT-ZI
O protocolo TT-ZI foi aplicado em 50 fragmentos (100 espécimes) de 9 sítios, entre
os 14 que compõem a coleção Nordeste. Foram analisados de 2 a 7 fragmentos por sítio.
Considerando o critério de seleção apresentado no Capítulo 3, 28 fragmentos (56 espécimes)
foram utilizados para os cálculos das médias, sendo que os outros fragmentos foram
descartados principalmente em função de alteração magnética detectada nos respectivos
espécimes durante os experimentos de arqueointensidade ou na determinação da taxa de
resfriamento. Estes resultados correspondem a uma taxa de sucesso de 56% (ver Tabela A1 do
Apêndice D). Nenhum espécime foi rejeitado devido à presença de grãos multidomínio (os
pTRM-tail checks foram inferiores a 5%). Além disso, nenhum fragmento foi rejeitado devido
a diferenças maiores que 5% entre valores de intensidade. Para a maioria dos espécimes, as
variações de massa medidas durante os experimentos TT-ZI foram bastante moderadas, com
perdas de massa inferiores a 5% para 90% da coleção. Alguns espécimes mais friáveis
tiveram perda de massa importante, alcançando 11%. Cada espécime teve a MRN e a MTR
corrigidas pela perda de massa, conforme proposto por Schnepp (2003). O valor de
intensidade foi deduzido a partir de um ajuste linear nos diagramas de Arai.
A Figura 4.4 mostra três exemplos de fragmentos que foram rejeitados. O espécime
SE1-121-01 foi rejeitado devido a rápida queda da MRN, nos dois primeiros passos de
aquecimento (Figura 4.4a). O espécime C06-05-01 foi rejeitado em função de alteração
magnetomineralógica durante o procedimento demonstrado pela falha dos pTRMs checks e
pelo comportamento côncavo do diagrama de Arai (Figura 4.4c). O espécime SCA-03-02,
embora tenha pTRMs checks positivos, ele não apresenta percentual de MRN suficiente para a
determinação da intensidade, pois o percentual da MRN deve ser superior a 40%, conforme os
critérios estabelecidos no Capítulo 3 (Figura 4.4e).
Figura 4.4: Experimentos de paleointensidade utilizando o protocolo TT-ZI. Exemplos de espécimes rejeitados
nas análises de paleointensidade devido a problemas nos diagramas de Arai (a, c, e) e os respectivos digramas
ortogonais (b, d, f, h). Nos diagramas de Arai, os círculos representam a MRN restante versus a MTR adquirida e
os triângulos mostram os pTRM’s checks realizados a cada 2 passos de temperatura. Nos diagramas ortogonais,
os símbolos cheios indicam o vetor magnetização projetado no plano horizontal e os símbolos vazados indicam o
vetor projetado no plano vertical (sistema de coordenadas do espécime).
A Figura 4.5 mostra quatro exemplos de diagramas de Arai e de projeção ortogonal
para espécimes que atenderam aos critérios de análise e seleção. As projeções ortogonais
mostram que em todos os fragmentos analisados a componente primária da magnetização é
isolada entre 150 °C e 600 °C (Figura 4.5b, d, f, h). A fração da magnetização com
temperaturas <150 °C corresponde à magnetização viscosa e não foi utilizada na definição da
direção da magnetização.
Figura 4.5: Determinações de intensidade pelo protocolo TT-ZI. Exemplos de diagramas de Arai (a, c, e, g) e os
respectivos digramas ortogonais (b, d, f, h). Nos diagramas de Arai, os círculos representam a MRN restante
versus a MTR adquirida e os triângulos mostram os pTRM’s checks realizados a cada 2 passos de temperatura.
Os valores de intensidade foram calculados a partir do ajuste linear dos pontos dos diagramas de Arai. Nos
diagramas ortogonais, os símbolos cheios indicam o vetor magnetização projetado no plano horizontal e os
símbolos vazados indicam o vetor projetado no plano vertical (sistema de coordenadas do espécime).
Nos diagramas de Arai, as intensidades foram calculadas no intervalo de temperatura
mais estreito possível a fim de levar em conta somente os passos de temperatura em que
nenhuma alteração magnética foi detectada (Figura 4.5c, e, g). Quando a alteração magnética
ocorreu abaixo dos 500 °C (Figura 4.5c, g), o valor de intensidade determinado foi corrigido
pelo fator de correção de anisotropia obtido em 350 °C (fator f
1). Nesses casos, que
correspondem a menos de 50% dos espécimes, foi assegurado que a porcentagem de
desmagnetização em 350 °C era superior a 40%, de modo a permitir uma determinação
confiável do tensor de anisotropia. Quando esta porcentagem foi inferior a 40% e nenhuma
alteração magnética foi observada até 500 °C, o fator f
2foi utilizado para a correção da
anisotropia (Figura 4.5a, e). Somente em um fragmento o fator de anisotropia foi calculado a
partir da média entre f
1e f
2.
Figura 4.6: Correção do efeito de anisotropia da MTR. Em (a) é mostrado o diagrama com o grau de anisotropia
obtido para todos os espécimes utilizados no cálculo das médias. Em (b) é mostrado o diagrama das diferenças
entre espécimes do mesmo fragmento antes (cinza claro) e depois (cinza escuro) da correção para o efeito de
anisotropia. Em (c) e (d) são ilustrados os valores de intensidade obtidos em cada espécime antes (quadrados
vazados) e depois (quadrados cheios) da correção de anisotropia para os sítios MAS e SCA. São mostradas
também as médias de intensidade em nível de fragmento após a correção de anisotropia (quadrados em cinza).
Em ambos os sítios, a intensidade média calculada após a correção de anisotropia da MTR é mostrada com uma
linha em preto e as linhas tracejadas mostram os respectivos desvios padrão.
A distribuição do grau de anisotropia da MTR (K
1/K
3) para os espécimes analisados
revela que a maioria deles (70%) apresenta uma anisotropia relativamente baixa, com K
1/K
3entre 1,05 e 1,2, enquanto que ~30% dos tijolos analisados são mais anisotrópicos com K
1/K
3variando entre 1,2 e 1,45 (Figura 4.6a). Kovacheva et al. (2009) obtiveram uma distribuição
do grau de anisotropia similar para uma grande coleção de tijolos e telhas amostrados na
França e na Bulgária. A Figura 4.6b mostra um histograma das diferenças percentuais entre os
dois valores de intensidade obtidos em nível de espécime para um mesmo fragmento antes e
depois da correção de anisotropia. Estes resultados mostram claramente uma menor dispersão
entre os valores de intensidade no mesmo fragmento após a correção de anisotropia,
ressaltando a importância deste tipo de correção para as estimativas de intensidade. Esta
constatação é ilustrada nas Figura 4.6c e 4.6d para os fragmentos dos sítios MAS e SCA.
Figura 4.7: Correção do efeito da taxa de resfriamento na MTR. A figura (a) mostra uma comparação entre
médias de intensidade calculadas antes (quadrados vazados) e depois da correção da taxa de resfriamento para as
três taxas lentas de ~5 h (triângulos cheios), ~10 h (círculos vazados) e ~25 h (quadrados cheios), obtidas entre a
temperatura de 450 °C e a temperatura ambiente. Note que as intensidades médias foram calculadas quando pelo
menos 2 fragmentos por sítio foram analisados e que a perda de massa foi desprezível para todos os espécimes.
A figura (b) mostra o histograma da correção da MTR considerando o tempo de resfriamento lento de ~25 h.
O efeito da taxa de resfriamento na aquisição da MTR foi investigado para o
protocolo TT-ZI utilizando três taxas de resfriamento distintas de 5 h, 10 h e 25 h a partir da
temperatura de 450 °C até a temperatura ambiente. Os resultados indicam que quanto maior a
taxa de resfriamento, maior o valor de intensidade estimado. Este fato é ilustrado na Figura
4.7a onde os valores médios de intensidade obtidos em nível de sítio antes da correção da taxa
de resfriamento são sempre inferiores àqueles corrigidos. Além disso, quanto mais lenta for a
taxa de resfriamento maior será a correção para este efeito. Os dados mostram também que o
efeito da taxa de resfriamento pode ser importante se os tijolos foram resfriados mais
rapidamente, como é o caso do sítio SE, que apresenta uma variação média de 7% para a taxa
de resfriamento de 5 h. Nesta coleção de fragmentos foi escolhida uma taxa de resfriamento
de 25 h, que parece reproduzir de maneira mais próxima as condições originais de queima dos
tijolos relatadas nos trabalhos arqueológicos (Costa, 2005a). Esta escolha resulta em um
decréscimo dos dados de intensidade em nível de fragmento de 4% a 14%, com uma média de
9% (Figura 4.7b). Um ponto importante a ser considerado é que mesmo se a taxa de
resfriamento escolhida for mais lenta, o erro na determinação da intensidade não será muito
importante, conforme sugerem a proximidade dos pontos que correspondem às médias de
intensidade corrigidas para 5 h, 10 h e 25 h na Figura 4.7a.
No documento
ARQUEOMAGNETISMO NO BRASIL: VARIAÇÕES DA INTENSIDADE DO CAMPO MAGNÉTICO TERRESTRE NOS ÚLTIMOS CINCO SÉCULOS
(páginas 94-99)