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Retenção indevida dos autos (arts 195 e 196 do CPC)

Os arts. 195 e 196 do Código tratam da retenção excessiva dos autos, pelo advogado, o que se configura pela simples demora em restituir-los ao cartório ou à secretaria.507-508

De acordo com a dicção legal, o advogado deve restituir os autos no prazo legal; não o fazendo, estabelece a norma sanções processuais e disciplinares. As processuais recaem sobre a parte, à medida que, esgotado o prazo em curso – caso haja –, ocorrerá a

507 MARINONI, Luiz Guilherme. Código... cit., p. 211.

508 No Código de Processo Civil de 1939: “Art. 36. Sob nenhum pretexto poderá o advogado reter, além do prazo, os autos recebidos com vista. § 1° Restituídos os autos fora do prazo, o juiz mandará riscar o que neles tiver escrito o procurador retardatário e desentranhar as alegações e documentos oferecidos, se a parte adversa o requerer”.

preclusão509 e, em consequência, o juiz mandará riscar o que haja sido escrito nos autos, e desentranhar quaisquer alegações e documentos. Já as disciplinares recaem sobre o advogado que, se não devolver os autos depois de intimado, perderá o direito à vista fora de cartório e incorrerá em multa, correspondente à metade do salário-mínimo vigente na sede do juízo, sem prejuízo de comunicação do fato à seção local da Ordem dos Advogados do Brasil para procedimento disciplinar e imposição da multa.

As sanções processuais somente incidirão quando os autos houverem sido retirados para a prática de determinado ato processual, dentro de certo prazo. Caso se trate de retirada por qualquer outro motivo, sem que haja qualquer prazo em curso, não haverá incidência da sanção.510 Assim, tem-se que o ato processual, para ser admitido, deve atender a variada gama de pressupostos técnicos, tais como aqueles de forma e prazo, bem como sua prática deve ser simultânea à devolução dos autos, sob pena de não conhecimento (desentranhamento da manifestação e documentos). Doutrinadores e jurisprudência há, entretanto, que interpretam o dispositivo no sentido de que se a manifestação processual é entregue no prazo adequado, em cartório ou na secretaria, excedendo-se apenas no que tange à entrega dos autos, não haveria que se falar em intempestividade de suas manifestações.511 Tal entendimento soa adequado às aspirações de um processo mais justo e efetivo, em que prevalecem apenas os aspectos úteis da técnica e do formalismo, à medida que “nem sempre a previsão abstrata feita pelo legislador constitui o meio mais idôneo à consecução dos objetivos do processo”.512 Com efeito, penalizar a parte de forma tão drástica pela desídia de seu defensor (ou ele próprio) na mera devolução dos autos pode constituir grave injustiça, até porque tanto a lei processual civil como a lei penal preveem mecanismos hábeis o bastante para reaver os autos nessa situação.

509 BARBI, Celso Agrícola. Op. cit., p. 162.

510 MONIZ DE ARAGÃO, Egas Dirceu. Comentários ao Código de Processo Civil, p. 163.

511 Assim: MARINONI, Luiz Guilherme. Código... cit. p. 211; e STJ, 5a T., REsp 628.974/SP, rel. Min. Gilson Dipp, DJ 08.06.2004.

As sanções disciplinares incidirão sem prejuízo da configuração do crime processual previsto no art. 356513 do CP (sonegação de papel ou objeto de valor probatório).

Nos termos do inc. XXII do art. 34 do Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil (EOAB – Lei n. 8.906/1994), constitui infração disciplinar reter abusivamente ou extraviar autos recebidos com vista ou em confiança. No art. 37 do mesmo diploma legal está prevista a sanção para tal infração: pena de suspensão, que acarreta ao advogado infrator a interdição do exercício profissional pelo prazo de 30 dias a 12 meses.

Aqui, mais uma vez, não há que se aferir o ânimo do advogado quando da não devolução. Isto porque se trata a retenção indevida de autos, de modo de procrastinação da prestação jurisdicional que a norma processual reprime de forma objetiva: aferida a demora na devolução (frise-se que a lei ainda dá o sobreprazo de 24 horas pós-intimação para devolução), incorrerá o advogado nas sanções disciplinares, sem prejuízo da responsabilização criminal cabível.

Outra sanção prevista na norma, que se pode dizer processual-disciplinar, é a perda do direito de retirada do processo. Nos termos do inc. XV do art. 7o do Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil (EOAB – Lei n. 8.906/1994), é direito do advogado ter vista do processo judicial em cartório, ou retirá-lo pelo prazo legal. Caso retire os autos e não os devolva no prazo assinalado ou após intimação, perderá o direito à vista fora de cartório, punição que será aplicada pelo juízo.

Sem prejuízo de tudo quanto exposto, há que se fazer uma importante colocação: a não devolução dos autos se subsume à oposição de resistência injustificada ao andamento do processo, tipificada no art. 17 do Código, à medida que a retenção de autos protrai no tempo o andamento, caracterizando ato de litigância de má-fé. Tendo em vista que o art. 18 prevê multa cuja natureza também assume feição punitiva, tal qual a que vem prevista no artigo ora analisado, e tendo-se em conta que um mesmo comportamento não pode ser sancionado mais de uma vez com a mesma finalidade, deve prevalecer a multa específica

513 Sonegação de papel ou objeto de valor probatório: “Art. 356 - Inutilizar, total ou parcialmente, ou deixar de restituir autos, documento ou objeto de valor probatório, que recebeu na qualidade de advogado ou procurador. Pena - detenção, de seis a três anos, e multa”.

do parágrafo único do art. 196,514 com uma ponderação: caso o juiz constate que houve conluio entre a parte e seu procurador, vale dizer, que estavam ambos unidos no propósito procrastinatório, poderá, nesse caso, haver dupla condenação – da parte, nos termos do art. 17, IV, c/c. o art. 18; e do advogado, nos termos do parágrafo único do art. 196.

19. Paralisação do processo por abandono pelo autor ou por negligência das partes