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3 DILUINDO AS FRONTEIRAS ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO: “O

4.2 Retomando as nossas hipóteses de trabalho

À luz da discussão teórica realizada nos capítulos anteriores e da análise do desenho institucional do Pacto, retomaremos, sob a lente do federalismo brasileiro e de uma perspectiva crítica de gênero, as nossas hipóteses de pesquisa sobre quais fatores facilitaram a adesão e a institucionalização do Pacto nos estados brasileiros e no Distrito Federal.

Como vimos, não há legislações específicas que obriguem a adesão dos governos subnacionais ao Pacto. A Constituição Federal trata da questão de forma tangencial e a Lei Maria da Penha (11.340/06) estabeleceu competências concorrentes na execução das ações, programas e serviços, reafirmando a prerrogativa constitucional, para a maioria das políticas sociais, de que sua implementação depende, afinal, da decisão dos governos subnacionais. Assim, a adesão ao Pacto é completamente voluntária e, portanto, necessita de incentivos a serem perpetrados pelo governo federal, de forma a promover a priorização do tema pelos estados e municípios brasileiros.

Uma questão importante considerada em nossa análise foi o legado de políticas prévias, conforme apontado por Arretche (2002). Assim, temos a hipótese de que a existência, anterior ao Pacto, de Mecanismos Institucionais de Políticas para as Mulheres (MIM), de Conselhos Estaduais de Direitos das Mulheres e de serviços de atendimento a mulheres em situação de violência nos estados e no Distrito Federal facilita a sua adesão ao Pacto. O fato dessas políticas públicas já estarem implementadas nos estados e municípios pode diminuir os custos da adesão e incentivar a adesão ao Pacto no intuito de mantê- las ou melhorá-las com recursos federais.

O maior incentivo, presente no desenho do Pacto, para a adesão dos estados é, pois, o repasse de recursos financeiros. Neste estado, levantamos a hipótese de que quanto maior o grau de dependência fiscal do estado e do Distrito Federal em relação ao governo federal, maior a possibilidade de adesão ao Pacto, já que o estado dependente estaria à busca dos governos subnacionais por recursos externos para a realização de políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres. Se o estado não depende, ou

depende pouco, de transferências federais para compor as suas receitas, pode preferir não aderir ao Pacto e manter a sua autonomia para implementar a política a seu próprio modo.

Outro ponto fundamental refere-se à participação dos estados e munícipios na elaboração do Pacto. Vimos que, embora existam instâncias de participação e de deliberação relacionadas ao tema, como as Conferências Nacionais de Políticas para Mulheres, no âmbito das quais surgiram muitas das demandas que foram contempladas no Pacto, as instâncias de normatização e deliberação não contam com a representação dos governos subnacionais. Por outro lado, mesmo não tendo participado diretamente das decisões, as diretrizes partidárias podem tornar-se um elemento facilitador para que os governos subnacionais executem uma política pública definida em nível federal. Essa tese foi defendida também por Arretche (2012), entre outros, no que diz respeito ao comportamento legislativo dos parlamentares, que votam de acordo com a orientação de seus partidos, e pode ser verdadeira também para as decisões tomadas no âmbito do poder executivo estadual. Assim, temos como hipótese que o pertencimento político-partidário do governo estadual à coalizão que constitui a base aliada do governo federal facilita a adesão ao Pacto.

Além disso, se pensarmos, como Norris (1993), que governos de esquerda são mais permeáveis às demandas por direitos das mulheres, podemos supor que de o fato do governo estadual ser de um posicionamento político-ideológico alinhado à esquerda (ou centro-esquerda) poderia fortalecer a adesão ao Pacto e a sua institucionalização no estado. Consideramos isso relevante, visto que as políticas para as mulheres no Brasil responderam às demandas históricas dos movimentos sociais de mulheres, além de terem sofrido grande a influência das agências internacionais, especialmente as da Organização das Nações Unidas (ONU). Frente a isso, temos também como hipótese que aqueles estados governados por partidos de esquerda ou centro- esquerda são mais suscetíveis a aderirem ao Pacto.

Além dessas hipóteses, que podemos caracterizar como sendo de cunho federativo, gostaríamos de reafirmar a hipótese de que a atuação dos movimentos de mulheres e feministas no âmbito do estado afeta positivamente sua adesão ao Pacto e, assim, a sua posterior institucionalização. Como

discutimos no Capítulo 1, os movimentos de mulheres foram fortemente atuantes na criação de políticas públicas para mulheres focadas, por sua vez, na questão da violência que elas cotidianamente sofrem. Muitas ativistas desses movimentos levaram essa discussão para dentro dos seus partidos políticos e algumas vieram a ocupar espaços e cargos nos aparatos e mecanismos institucionais públicos que estavam sendo constituídos para as políticas locais voltadas para as mulheres. Dessa maneira, a questão de gênero certamente permeou as decisões e negociações acerca das políticas públicas para mulheres e, mais tarde, podem ter influenciado também as decisões referentes ao Pacto.

Outra hipótese que levantamos é a de que aqueles estados que foram designados pela SPM/PR como “prioritários” para a adesão ao Pacto tiveram maior probabilidade de aderir ao Pacto, visto que a própria SPM/PR tinha estabelecido sua adesão como meta e acompanhou o processo desde o início, buscando identificar e solucionar os entraves para a adesão.

Finalmente consideramos, como discutido no terceiro capítulo, que as contradições em relação às relações de poder existentes entre homens e mulheres podem ser entendidas como intrínsecas ao Estado moderno, e isso desde a sua gênese, tendo sido também produzidas ao longo do processo histórico que resultou no Pacto aqui no Brasil. Nossa última hipótese, portanto, é a de que o patriarcado, também presente no Estado, assim como enraizado na sociedade brasileira e manifesto na violência contra as mulheres, cria uma tensão com a própria visão de gênero presente no alicerce do Pacto, podendo gerar obstáculos para a adesão dos estados a ele.

Com base nessas hipóteses, construímos aquelas que são, enfim, as nossas variáveis independentes nesta pesquisa. Elas serão apresentadas a seguir.