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Retomando conceitos para estabelecer perfis de acordo com análise das trajetórias

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CAPÍTULO III Caminhos Metodológicos

4.1. Retomando conceitos para estabelecer perfis de acordo com análise das trajetórias

No capítulo anterior, apresentamos e destacamos alguns aspectos que julgamos basilares, a respeito do lócus de estudo deste trabalho, que consiste em dois assentamentos rurais situados na região Norte Fluminense, no município de Campos dos Goytacazes,

99 denominados Ilha Grande e Che Guevara. Com isto, o que se buscou foi a exposição e análise das principais características dos locais em questão. Constatou-se então, a importância de se avaliar as trajetórias explicitadas nas entrevistas, para dar conta da multiplicidade dos perfis dos assentados, relacionando-os com seus deslocamentos e funções exercidas no mercado de trabalho urbano ou rural. Deste modo, é preciso ressaltar que falar em trajetória significa pensar em partida, estada e retorno, porém não como movimentos únicos, estanques, mas sim como fatores relacionados e variados, uma vez que pode haver muitas partidas, a estada pode ser também viagem e o retorno pode não ser algo definitivo (Augé, 1994 apud Loera, 2004). Por isso, ao falarmos de trajetória estamos abordando, especialmente, o percurso e suas implicações, dentre elas o confronto de relações e a construção e reconstrução do habitus.

A despeito das particularidades de cada caso a partir dos relatos colhidos, por meio das entrevistas realizadas no momento do trabalhado de campo e, sem menosprezar a trajetória de cada um, que será analisada de acordo com suas relações com as questões antes mencionadas, é possível traçarmos um panorama geral a respeito da classificação do processo migratório empreendido pelos assentados.

Apesar da multiplicidade de percursos, das peculiaridades presentes nos movimentos migratórios realizados por cada indivíduo e das dificuldades em encontramos uma regra para as migrações, existem características comuns ao grupo de entrevistados, o que nos permite estabelecer regularidades temáticas. Isto pode contribuir para um entendimento de fatores semelhantes, responsáveis por motivar as migrações, que podem estar associadas a circunstâncias mais amplas, tanto subjetivas quanto objetivas, e de como as representações criadas, acerca destes deslocamentos e trajetórias, cooperam para a elaboração de percepções sobre campo e cidade e sobre o assentamento, bem como colaboram com a conformação de um habitus específico.

As similitudes presentes na maioria das trajetórias puderam ser observadas ao longo dos relatos dos assentados, estruturados muitas vezes de forma bastante parecida. De certo modo, isto corroborou para compreendermos melhor como a trajetória dos assentados e as razões dos deslocamentos empreendidos até sua instalação nos assentamentos, relacionam-se com determinadas conjunturas como, por exemplo, o trabalho no corte de cana-de-açúcar, vivência nos arredores das usinas, origem rural, busca pela tranqüilidade autonomia e reconhecimento social, e as condições precárias de vida atribuídas às periferias urbanas.

Ao abordamos o campo por intermédio dos assentamentos de reforma agrária, é preciso ter em mente que estes se tratam de espaços específicos, portanto, dotados de características

100 particulares quando comparados a outros espaços que integram o rural. Deste modo, quando se retorna ao campo, ou nele se ingressa, ou mesmo se tem a possibilidade de manter-se no meio rural, em virtude da oportunidade criada pela reforma agrária, os indivíduos passam a integrar um novo espaço. De acordo com Loera (2004), neste contexto, passado, presente e futuro estão interligados, assim, “o tempo forma uma grande espiral que se cruza com outra

formada pelo espaço (Loera, 2004:114).”

O espaço então, neste caso o dos assentamentos, relaciona-se não somente com as expectativas futuras, mas com as experiências vivenciadas anteriormente. Ora, como podemos observar utilizando o conceito de habitus, existe uma dimensão (estruturada), resultante da experiência acumulada historicamente que, por sua vez, é acionada, e que se reproduz a partir da incorporação de novos fatores (estruturante) (Bourdieu, 2005). Desta forma, há um encontro da história objetivada com a história incorporada. Nos assentamentos os indivíduos experimentam um processo de mudança social, permeado por reordenações em termos de identidades, posições, reivindicações, que muitas vezes são expressas através de divergências e reciprocidades (Neves 1997b).

O assentamento apresenta-se para os indivíduos como uma estrutura demandante de relações diferentes das encontradas tanto no perímetro urbano, quanto nas propriedades privadas situadas no campo, onde muitos eram empregados. Diante desta nova realidade que se anuncia, surge a necessidade do domínio e utilização de novos códigos pelo indivíduo assentando, de modo a permitir-lhe a compreensão de fatores como a linguagem e ações das instituições governamentais de assistência técnica; a maneira mais eficiente e adequada de comercializar a produção; além de possibilitar a interação com as mais diversas esferas da vida cotidiana no assentamento, como por exemplo, os órgãos fornecedores de crédito e fiscalizadores; os vizinhos; as instituições de pesquisa; etc. Estes fatores sugerem e, ao mesmo tempo permitem a conformação de um novo habitus.

Deste modo, torna-se pertinente definirmos a que tipo de espaço nos remetemos, quando debatemos a inserção de indivíduos nos assentamentos rurais. Ao buscar um significado para assentamento rural, Turatti (2001) o define como um organismo social fixo, isto é, dotado de território determinado, organização político-social estruturada e também uma realidade produtiva, apresentando-se então, como um tipo específico de unidade social pertencente ao rural brasileiro. Para Neves (1999:6) o processo de assentamento configura-se como uma “situação empírica que permite tantos olhares quanto desejados”. Neste sentido a autora estabelece algumas definições para este espaço, que afirma tratar-se de uma unidade

101 territorial, um espaço de reorganização dramática das relações e de constituição ou de reconversão de posições.

Portanto, Neves (1999) assevera que o assentamento deve ser concebido como um processo que ancora mudanças sociais desejadas, organizadas, por sua vez, pela mobilização dos aspirantes à posição de produtores agrícolas autônomos, cujo objetivo é obter a interferência do Estado na gerência de conflitos e na reforma da estrutura fundiária, assim:

O assentamento constitui uma unidade social local de construção de identidades de pertencimento, a partir da vivência de experiências comuns. Sua especificidade decorre do fato de que, neste espaço, se objetivam rupturas nas posições sociais e, por conseqüência, nas relações de poder e na visão de mundo, cujos desdobramentos são de diversas ordens. A organização social revela a constituição ou a reconstituição de posições sociais mediante jogo de forças em que se destacam as demandas e as pressões dos que se desejam beneficiários da propriedade da terra. Expressa ainda efeitos que tal aquisição assegura. Benefício cuja possibilidade depende de intervenções imediatas ou anunciadas por uma autoridade estatal, de rede de relações onde interagem seus demandantes, opositores, apoiadores e mediadores (NEVES, 1999:7).

Giuliani e Castro (1996) acrescentam que os assentamentos apresentam-se como realidades complexas que adquirem especificidades, não apenas em virtude do modelo de organização do movimento de luta pela terra em um momento anterior, mas são igualmente moldados a partir de uma série de elementos socioculturais das famílias, atrelados ao contexto regional em que estão localizados.

Ultrapassando a definição de assentamentos, Medeiros e Leite (1998) refletem acerca das conseqüências promovidas pelo estabelecimento destes espaços. Para estes autores, a constituição de um assentamento (em muitos casos, de diversos assentamentos no âmbito de um mesmo município ou região), acarreta a introdução de novos elementos e sujeitos que, por seu turno, provocam alterações nas relações locais, principalmente quando estes assentamentos são derivados de um processo de luta intenso, sedimentado por meio de ocupações e acampamentos, caso observado em Campos dos Goytacazes.

Não obstante, os autores pontuam ainda que a implantação de assentamentos rurais afeta a demografia de certas áreas, na medida em que atrai populações de fora das regiões, ou quando representa o deslocamento de populações urbanas para áreas rurais, cujo resultado é um aumento populacional ou alterações na relação população rural/população urbana. Por isso, a instituição de assentamentos tende a promover também um aumento nas pressões por

102 demanda de infra-estrutura e equipamentos sociais como escolas, postos médicos, estradas, transporte, etc.

Tendo em vista as considerações dos autores acima mencionados, sobre as características e delimitações do que vem a ser um assentamento, é preciso apresentar, ainda que de forma geral, quem são aqueles que compõem e dão contorno a estes espaços, neste caso os assentamentos onde o estudo foi desenvolvido. Ou seja, faz-se interessante evidenciar quais são os sujeitos que, conforme as observações de Bourdieu (2007) produzem e ao mesmo tempo são produtos daquele espaço.48 Para que posteriormente, seja possível analisar a partir dos pontos de vista dos assentados, observados em suas falas, em que medida a reforma agrária pode ser considerada uma ação tributária da motivação da migração destes para o campo, ou mesmo responsável por favorecer a manutenção de alguns neste espaço; as condições sociais que contribuíram para as ocupações e as implicações derivadas do processo de transformação social proporcionado pela reforma agrária na vida dos assentados.

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