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2 A COMPLEXIDADE DAS RELAÇÕES INTERSUBJETIVAS

2.4 LETRAMENTOS VERNACULARES E DOMINANTES:

2.4.2 Distinção dos conceitos dominante e vernacular: uma discussão

2.4.2.2 Retomando o foco dos letramentos vernaculares e dos

A distinção, proposta por Bakhtin (2011 [1952-53]), entre os gêneros primários e secundários, no âmbito da filosofia da linguagem, dialoga, em nossa compreensão – no simpósio que propomos aqui e sob a responsabilidade de o fazermos –, com os dois conceitos de origem da antropologia da linguagem, objeto de nossa discussão nesta ampla seção, letramentos vernaculares e letramentos dominantes. Entendemos esse diálogo possível porque, assim como os gêneros, o letramento também tem sua localização histórica e cultural justificada pelas relações intersubjetivas em dadas esferas da atividade humanas, as quais podem ser formalizadas e sistematizadas ou espontâneas e informais e, ainda, como já mencionamos, se não é possível usar a língua fora dos gêneros do discurso, os eventos de letramento necessariamente implicam tais gêneros, quer em sua condição vernacular, que em sua condição dominante.

Conforme Barton e Hamilton (1998, p. 247), Vernacular literacy practices are essentially ones

which are not regulated by the formal rules and procedures of dominant social institutions and which have their origins in everyday life. [...] vernacular literacies are in fact hybrid practices which draw on a range of practices from different domains.84

Em nossa compreensão, enquanto os letramentos dominantes têm sua existência marcada pelas condições de um convívio cultural mais complexo pautado na ideologia oficial e são materializados por meio dos gêneros do discurso secundários, os letramentos vernaculares caracterizam-se por atender a propósitos sociais mais imediatos e mais privados (BARTON; HAMILTON, 1998) dos usos da escrita que mostram suas especificidades nos gêneros do discurso primários pautados na ideologia do cotidiano.

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Tradução nossa: Práticas de letramento vernaculares são essencialmente aquelas que não são reguladas por regras formais e procedimentos das instituições sociais dominantes e que têm suas origens na vida cotidiana. [...] letramentos vernaculares são, de fato, as práticas híbridas que recorrem a uma série de práticas de diferentes domínios.

Para a ilustração de nossas reflexões, apresentamos – ainda retomando Cerutti-Rizzatti e Almeida (2013) – o diagrama a seguir (Figura 3) que constitui desdobramento do diagrama (Figura 2) apresentado anteriormente, focando, agora, a lente nas setas de múltiplas pontas já apresentadas na Figura 2. Como tentamos mostrar na representação que segue, os usos dominantes seriam sempre locais, porque situados e materializados no encontro de sujeitos corpóreos e datados, e corresponderiam ao retângulo horizontal que perpassa o meio de todas as setas. Essa representação conota o fato de que esses usos se espraiariam na horizontalidade dos encontros, fazendo parte de vários deles, mas sempre situadamente no âmbito sociogenético dos diferentes grupos culturais. O conjunto de vozes historicizaria, pois, determinados usos em um amplo espectro horizontalizado da convivência humana culturalmente situada – logo, locais, mas, pelo espectro de horizontalidade, dominantes. Nessa perspectiva, questões de poder econômico estariam implicadas na projeção no grande espaço, mas não assegurariam a projeção no grande tempo. Por outro lado, essa mesma projeção no grande tempo implicaria a projeção no grande espaço, mas requereria mais do que isso para de fato estabelecer o diálogo entre o presente o passado e o futuro.

Figura 3 - Diagrama: Os letramentos dominantes constituindo-se na horizontalidade dos universos locais

Fonte: Cerutti-Rizzatti e Almeida (2013).

Já os letramentos vernaculares corresponderiam a cada seta de múltiplas pontas tomadas em sua singularidade – não como seta isolada ou uniforme, mas como seta singular. Cada seta corresponderia a um universo sociogenético, mas suas pontas superiores ligariam esses usos vernaculares que têm lugar na sociogênese ao amplo espectro dos potenciais usos da escrita, o universo global da ontogênese. Já as pontas laterais inter-relacionariam tais usos vernaculares com os usos circunvizinhos a cada constituição sociogenética, em interprentrações que, quanto mais se horizontalizam mais facultam a conversão do que é vernacular em dominante. Trata-se, pois, não de relações dicotômicas, mas de relações dialógicas em um continuum. Quanto às pontas inferiores, representariam a abertura para a possibilidade de idiossincrasia, de absoluta singularidade nos limites do vernacular. É certo que questões de disponibilidade e de acessibilidade (KALMAN, 2003) estão amplamente implicadas no desenho sempre móvel dessas setas.

Vale considerar, enfim, que a complexidade da institucionalização dos saberes – se evocarmos a base vigotskiana de que nos apropriamos deles nas relações intersubjetivas – , é que cada sujeito traz consigo diferentes vivências que reverberam em seus conhecimentos, no modo como enxerga a si próprio e na forma como se torna variável consoante cada historicidade, a microgênese, que se constrói em determinado contexto sociogenético, o qual pode estar ideologicamente distante das representações dominantes sobre o mundo e sobre a vida, representações privilegiadas, o que pode implicar exclusão. Exclui-se porque determinadas vivências e representações foram apropriadas por certas camadas sociais que lhes imprimiram seus olhares acerca do mundo, processo sobre o qual se apuseram muitas vozes em historicização, ganhando privilegiamento sociocultural, porque, não raro, também privilegiamento econômico.

Isso significa, de acordo com Barton (2007 [1994]), que os estudiosos do letramento precisam desenvolver uma compreensão sobre os mecanismos de poder na sociedade e nos contextos em que eles se inserem para realizar suas pesquisas, de modo que, a partir daí, empreendam uma abordagem crítica que possa tornar visível aquelas relações de poder que, normalmente, estão ocultadas. Estamos seguros de que esta é uma questão substancialmente complexa, cujos contornos apenas anunciamos aqui e que, no âmbito de uma dissertação de mestrado, estamos ainda longe de esquadrinhar com o aprofundamento que ela seguramente requer.

2.4.3 Implicações da compreensão dos universos global e local e dos