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3 Qualificação Profissional nos anos 90

3.1 Retomando o tema da qualificação profissional

As políticas de qualificação profissional no Brasil passaram por distintos recortes de acordo com o momento histórico. Uma característica marcante foi a forte presença do Estado que, de alguma maneira, sempre se fez presente. Vale anotar aqui alguns movimentos sobre tais políticas e de que forma o tema desembocou na década de 90.

Desde os primórdios do Brasil Império que as iniciativas sobre a qualificação profissional se diluíam entre uma prática “suja” do trabalho destinada a escravos, ou por outro lado, um ensino de elite que era reservado para poucos. No período dito republicano, as primeiras instituições públicas de ensino a serem fundadas no país visavam qualificar para funções de administração do Estado, ou então para o comércio nascente. O Liceu de Artes e Ofícios, criado já na segunda metade do século XIX parece refletir bem esta idéia de um ensino de elites. (MANFREDI, 2002)

A República foi marcada por três fatores que recolocam a questão: a extinção do trabalho escravo, a expansão cafeeira e os projetos de imigração. Tais ocorrências são fatores embrionários e ao mesmo tempo estruturais que acabam impulsionando a qualificação profissional, tal qual viria a ser tratada um pouco mais tarde no período industrial. A separação entre um ensino de elite e outro voltado para o efetivo exercício do trabalho predominou durante o período histórico da chamada Primeira República. A “reprodução” deste quadro entre um ensino de elite e outro voltado para a execução do trabalho perdurou e influenciou o que mais tarde teríamos como definição entre espaço público e privado acerca da qualificação profissional. Ainda que a própria concepção política de República que tivemos aglutinasse entre seus principais idealizadores ferrenhos liberais, positivistas e monarquistas, todos, segundo Cunha (2000- b), eram unânimes e acordes com a Igreja Católica, de que o “ensino de oficio” deveria servir acima de tudo como mecanismo de controle e disciplina dos setores populares.

A industrialização concentrada nos centros urbanos como São Paulo, e a introdução de mão-de-obra imigrante foram fatores decisivos na recontextualização das políticas e da própria concepção de trabalho.

A reprodução do sistema de ensino passa por este período sendo contaminada por esta relação entre um ensino de elite e outro destinado às classes populares de forma relativamente autônoma. Dessa maneira, conforme ponderam Bourdieu e Passeron (1992), a reprodução ocorre na mudança, ou seja, não se limita a uma condição fechada, “as coisas têm que mudar para continuarem como estão”, segundo estes autores. As camadas populares galgam espaço na medida em que vão se tornando relevantes como mão-de-obra assalariada. Na construção do Estado Nacional com Vargas e, mais particularmente no tocante ao arcabouço legal sobre o trabalho, estas camadas populares vão sendo absorvidas. Este fenômeno de absorção de classes é analisado dentro do contexto europeu por Giddens (2001), ao tratar do Estado de Bem Estar. Segundo o autor este seria inevitavelmente o rumo de construção do moderno Estado - Nação. Significa, portanto, que a própria estrutura jurídica e administrativa do Estado é gerida e controlada burocraticamente por um quadro administrativo que não está estruturado prioritariamente pela velha relação de classes. Capital e trabalho se diluíram dentro da estrutura de Estado. A criação de diversos conselhos tripartites visando representar interesses distintos dentro do Estado, fenômeno que ocorreu tanto dentro do modelo de Estado de Bem Estar europeu, quando com o varguismo no Brasil, corrobora a tese de Giddens (2001).

A indústria, e o comércio voltado para bens de produção industrial reproduzem, (PASSERON; BOURDIEU, 1992) esta relação entre execução do trabalho e formação de quadros dirigentes (geralmente formação universitária). A absorção dos conflitos e interesses antagônicos entre capital e trabalho por parte do Estado no Brasil acontece, portanto, junto com o processo de industialização. Temos, portanto, uma situação em que os quadros de comando e alta qualificação estavam reservados a poucas pessoas. Já os cursos técnicos de rápida formação eram voltados para os executores de tarefas rotineiras, repetitivas e de baixa qualificação. Este processo de absorção das camadas populares e de reprodução entre um ensino de elite e outro voltado para o exercício do trabalho rotineiro, enfadonho e de baixa qualificação, conforme vimos anteriormente, da maneira que o conhecemos, sob a forma de um “fordismo tropical”, tem início com a construção do Estado Nacional.

Ainda que os sobressaltos trazidos com este processo tenham sido muitos, este quadro de “reprodução” podia ser claramente percebido no início da década de setenta:

Até o início da década de 70 o mundo do trabalho exigia uma formação pré- definida e segmentada em todos os níveis de qualificação. Um grupo relativamente pequeno de profissionais qualificados, com certificado de especialização diploma técnico ou nível universitário, convivia no mesmo processo de trabalho com mão-de-obra pouco, ou nada, qualificada. Esse panorama valia para a indústria, comércio, serviços e, até certo ponto, para a agricultura. (DIEESE, 1998, p. 17)

Neste quadro de divisão precisa entre educação formal e educação para o trabalho, o ensino formal reproduzia esta segmentação com os chamados “níveis de escolaridade”. Tais níveis de escolaridade serviam de fato para determinar a inserção no mundo do trabalho, todavia reproduzia-se um quadro em que de um lado tínhamos um número menor de trabalhadores altamente qualificados e “certificados”, geralmente em postos de comando; e de outro, trabalhadores de diferentes setores cumprindo tarefas rotineiras, mecânicas, pré- definidas e que, geralmente, eram treinados para as atividades que exerciam nos seus próprios postos de trabalho. Eram estes trabalhadores pouco qualificados que engrossavam as fileiras dos sindicatos, principalmente os sindicatos urbanos ou industriais.

Este quadro de separação entre educação e trabalho marcou fortemente o histórico da formação profissional no Brasil, reproduzindo uma situação em que o “trabalho sujo”, ou “trabalho pesado”, sempre esteve reservado à emergência das camadas populares como sujeitos e atores das relações de trabalho. Os postos de trabalho de gerência, comando ou mesmo aqueles mais diretamente ligados às tomadas de decisões continuam sendo exercidos por um número reduzido de pessoas. Tanto que estes fatores de clara distinção acabam possibilitando uma nítida separação deste quadro entre recortes e linhas de atuação sobre as políticas de qualificação profissional no Brasil.

Segundo Manfredi (2002), podemos separar três grandes troncos acerca da qualificação profissional no Brasil, pelo prisma de um recorte mais histórico. No campo das associações religiosas, temos as famosas “escolas salesianas” e o “movimento circulista”. No âmbito da sociedade civil, as experiências do Lyon Club e do Rotary, mais tarde das Organizações não Governamentais (ONGs). Já por parte do Estado tem-se a implantação do Liceu de Artes e Ofícios, Universidades e das próprias Escolas Públicas. Ainda assim, consideramos esta separação que faz Manfredi (2002) um pouco difusa, uma vez que parece difícil compor qualquer separação nítida entre principalmente sociedade civil e Estado. De qualquer forma vale para fins conceituais. Houve, por exemplo, a criação do Sistema “S” logo após o fim do Estado Novo, e todo um arcabouço sobre a formação profissional voltada para as camadas populares emergentes. Estes dois tipos de qualificação ou formação são

reproduzidas pelo Estado, uma vez que este traz para seu interior os interesses distintos entre capital e trabalho.

São estes recortes duais (capital e trabalho) do Estado, que interessa para nossa pesquisa. Uma vez que definindo um espaço público para a qualificação profissional via relações de trabalho (trabalho e capital) terá nos sindicatos os principais atores de execução de cursos de formação profissional. Partindo desta distinção feita por Manfredi (2002), que coloca no âmbito da sociedade civil as experiências sindicais, religiosas, leigas e dos movimentos populares, situamos nosso tema de estudo sobre qualificação profissional dentro do recorte sindical. Todavia, as experiências sindicais sobre qualificação profissional são experiências públicas de articulação do Estado. Por mais que Manfredi (2002), esteja se referindo a origem destes movimentos, permanece o entendimento do recorte sindical como sendo da sociedade civil. Sobre este ponto é preciso alguns esclarecimentos que terão desdobramentos mais adiante.

A relação, tema clássico da sociologia, entre sociedade civil e Estado é de certa forma, nos limites do nosso objeto de investigação, retomada neste trabalho. Conceitualmente, ou da maneira que entendemos este ponto, sociedade civil não é tomada aqui fora do Estado. Sociedade civil e Estado não são como na vertente clássica hegeliana, dimensões separadas. Entendemos esta relação mais próxima da vertente gramsciniana, segundo a qual a sociedade civil exerce sua hegemonia nos aparelhos de Estado. Ou então, conforme apontam Negri e Hardt (2004, p. 118): “[...] o Estado é mantido, mas subordinado à pluralidade de interesses que interagem na sociedade civil[...].” Portanto, os sindicatos como organização de classes, e que atua mediante reconhecimento do Estado não podem, bem como a qualificação profissional por eles exercida, ser concebidos como ações da sociedade civil que se contrapõe ao Estado.

Os sindicatos, desde a origem, ou mesmo nos anos noventa no Brasil, demarcam a entrada em cena de atores sociais que passam a deter a condição de acesso a partir da construção do arcabouço legal sobre o trabalho. Tais atores sociais, como antes as camadas populares, são incorporados pela regulação e regulamentação de Estado.

Conforme aponta Manfredi (2002) ao tratar do primeiro surto de industrialização do país, com a emergência das camadas populares, a classe dirigente passou a olhar para o tema da qualificação e formação profissional como um antídoto, um mecanismo de contenção e controle, e, paradoxalmente, ao mesmo tempo, como mecanismo de emancipação econômica, social e política. Já o movimento operário em formação, fundamentalmente urbano e restrito

aos grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro, passa a conceber a qualificação profissional e a educação como mecanismo de conscientização e libertação.

Ainda que em suas particularidades e recortes o tema da qualificação profissional no âmbito sindical tenha, historicamente, sido proposto sob vários ângulos, o que importa reter aqui é este fator de emergência de um novo tipo de trabalhador e exercício do trabalho, reproduzido a partir das camadas populares. Os principais atores produtivos no período industrial. Como agentes produtivos, portanto, sujeitos e cidadãos, passam a figurar como público para o qual as políticas de qualificação profissional são voltadas.

Dos sindicatos que promoviam a qualificação profissional entre o final da década de oitenta e início da de noventa, 70% de tais iniciativas provinham dos sindicatos de trabalhadores urbanos (MANFREDI, 2002). Segundo a autora, o grande salto significativo que impulsiona mudanças nas políticas de formação profissional via sindicatos ocorre a partir do emblemático ano de 1996, em virtude da liberação dos recursos do FAT, via PLANFOR/Ministério do Trabalho (MTB), quando então as centrais sindicais passaram a promover estes programas de qualificação em âmbito nacional, estabelecendo pouca distinção ou demarcação de focos que privilegiassem os ambientes rural ou urbano. Além disso, os sindicatos aparecem como a institucionalização das lutas operárias que se seguiram, e o Estado, como agente central e mediador que estabelece um ambiente e um discurso público sobre o tema da qualificação profissional dentro do seu interior.

Vale salientar que ainda que tenhamos a construção e persistência de distintos recortes sindicais, o movimento operário foi rapidamente absorvido pelo movimento sindical conforme aponta Simão (1966). Nossa pesquisa está situada neste último caso, ou seja, na qualificação profissional, o tema, tal qual vem sendo discutido dentro de um prisma sindical, ou então, a partir deste. Porém, sem a distinção clássica entre sociedade civil e Estado.