• Nenhum resultado encontrado

Retroprojetor, de Moriel Adriano da Costa e Dazaranha.

3 ANÁLISE DAS CANÇÕES

3.3 Retroprojetor, de Moriel Adriano da Costa e Dazaranha.

A canção Retroprojetor, lançada no disco Tribo da Lua (Atração – 1998)

traz em seu nome uma problemática relacionada à eficiência dos métodos didáticos

aplicados na instituição social escola. Comenta também aqueles componentes

mitológicos presentes no imaginário cultural do habitante da Ilha de Santa Catarina e

que já haviam sido trabalhados em algumas obras plásticas do artista Meyer Filho como

o “galo”. Abre novamente um debate sobre a música brasileira e suas influências.

sentido principalmente das melodias do violino. Logo no início da canção o dueto de

violino e percussão, que até é cantado na letra, marca este influxo. A música pode ser

repartida em cinco dinâmicas diferentes: a introdução, como já comentada, realizada

pelo violino e pela percussão, a base do canto, o refrão, o solo de violino e o final com

coro de vozes seguido pelo solo de guitarra.

Ninguém trepa mais que o galo Ninguém samba mais que os anjos Corajoso é kamikase, prostituto é povo adulto

E eu acorrentado na pupila de um golfinho açoriano

Agudo é violino, leve é piano, grave é o vírus E eu, iê galo cantor,

iê cocorocô

Antididático é retroprojetor Eu me peso na balança da praia de

Moçambique

E destaco da revista uma receita de tabule O filho de régua "T" reclamou por não ter

E não poder comer pavê

Errado é o pai do pai que desafina a gaita fole do filho

Regula o fino Let the dolphins live

E eu, iê galo cantor, iê cocorocô

Antididático é retroprojetor Necrofilia é piração, sentido tesão é o tato

Tatu é o bicho, tá tudo legal, tá tum percussão

Violino e percussão

Andar e respirar é um percurso da percussão Não é, Naná

Não é, Naná Vasconcelos E eu, iê galo cantor,

iê cocorocô

Antididático é retroprojetor Samba Sada Shiva Samba Shivô Hará

Com o uso de assonâncias e aliterações, a letra trata de inúmeros matizes

do cotidiano. Dos métodos didáticos e da própria educação formal. Dos elementos de

características mitológicas, retornam as temáticas do galo, dos anjos, do golfinho

melódicos utilizando a alternância de palhetadas rápidas e outras mais lentas com

momentos de pausa e ataque. As escalas e as sequências intervalares utilizadas lembram

temas da música oriental, não somente nesta guitarra, mas em quase todos os

instrumentos. Enquanto isto, na base da canção, encontra-se uma levada de reggae,

talvez até um ska num andamento mais lento. A guitarra base preenche o espaço do

contratempo, com o contrabaixo presente fazendo curvas melódicas sinuosas.

Assim como faziam João Gilberto, Antônio Carlos Jobim e Newton

Mendonça, em canções como Desafinado e Samba de uma nota só, a letra da canção

descreve algumas de suas principais características musicais como o violino interagindo

com a percussão, tanto no início quanto também em outros momentos determinados da

harmonia. Os músicos citam o percussionista Naná Vasconcelos, referência

internacional em seus instrumentos inovadores, maneiras de tocar, domínio e

conhecimento de variados tipos de ritmos. A maneira com que Zé Roberto (Baixinho)

toca a percussão também forma uma melodia que referencia as percussões orientais. Em

combinação com o violino, extraordinário ficou o efeito sonoro, potencializando logo na

introdução que o ouvinte pode aguardar um influxo moçárabe nas harmonias.

A canção tem uma linguagem baseada em melodias que lembram sons

utilizados na música moura, tão influente em estilos de músicas ibéricas como o

flamenco. Segundo Mário de Andrade, os lusitanos instituíram o tonalismo harmônico

brasileiro. Também a quadratura estrófica, a síncope que provavelmente se especializou

no Brasil em vários tipos, formas e conteúdos. Muitos instrumentos foram trazidos para

o território brasileiro como a guitarra (guitarra espanhola ou violão), o cavaquinho, a

viola, os instrumentos de arcos (violino, viola e violoncelo), a flauta, o piano, o

oficleide. Numa variedade de manifestações da cultura popular brasileira tradicionais e

mamão, o boi-bumbá e o bumba-meu-boi aparecem os arabescos melódicos lusitanos.

São tão extensos os estilos iberos como as quadrilhas, as rodas, os acalantos, o

fandango, a moda, o fado. 147

As influências portuguesas não são necessariamente originais do território

português. Ela vem da confluência imensurável dos povos vindos de outras localizações

da Europa, da Ásia e da África que pela Península Ibérica passaram e deixaram suas

heranças musicais. As tonalidades, os ritmos, a harmonia, as melodias vem de uma

musicalidade que os povos ibéricos assimilaram desde a antiguidade. Uma música que

representa também a característica híbrida da cultura lusitana. Seria realmente

complicado definir sua origem. Mesmo porque a própria música brasileira influenciou a

musicalidade ibérica ainda no período colonial, como é possível constatar através da

história de Domingos Caldas Barbosa, com a denominada modinha brasileira que

obteve sucesso formidável por lá. Parece evidente que as mediações são recíprocas e

interativas. Enfim, na canção Retroprojetor, todo este conteúdo está presente em cada

nota, cada acento rítmico, nos intervalos das escalas, como também na própria letra. A

figura do “galo”, presente na cultura portuguesa e que já vimos em artistas como Meyer

Filho, reaparece no contexto da música do Dazaranha. “Galo” também é uma gíria para

o sujeito que não desiste, que encara todas as aventuras, que é um “dazaranha”.

E eu, iê galo cantor, iê cocorocô Antididático é retroprojetor

Outro fato importante da canção é o que suscita o seu nome. Aponta para as

questões da educação, da massificação e da padronização aplicadas nas sociedades

escolarizadas. Como indica o sociólogo francês Pierre Bourdieu, pode-se ver o que a

147

escola representa nas sociedades ocidentais escolarizadas dentro do paradoxo da

construção e destruição da própria cultura, impondo um pensamento homogeneizado em

contraposição às idiossincrasias e singularidades de cada população, de cada cultura

local. Este processo ocorreu na Ilha de Santa Catarina e em todo o Brasil durante o

século XX.

Trata-se da questão das formas e moldes propostos pela escola: a

preparação dos comportamentos e hábitos, a legitimação e a canonização feita pela

instituição das Escolas Literárias, divisão feita para facilitar, ou melhor, classificar os

diferentes tipos de arte de acordo, muitas vezes, com critérios forjados pelos interesses

de classe social, hegemonia política. As experiências de vida, as diversidades culturais,

que cada um traz na sua história pessoal quase sempre são obscurecidas pela imposição

dos clássicos dentro dos sistemas educativos, pela imposição de um processo de

paradigmático de hábitos e costumes.

A língua e o pensamento de escola operam esta ordenação pela valorização de certos aspectos da realidade: produto específico da escola, o pensamento por “escolas” e por gêneros (designados por inúmeros conceitos terminados em ismo) permite organizar as coisas de escola, isto é, o universo das obras filosóficas, literárias, plásticas ou musicais e, além delas por intermédio, ordenar toda a experiência do real e todo o real 148.

Bourdieu evidencia que a escola possui uma função, nas sociedades

escolarizadas, similar à função dos ritos e dos mitos nas sociedades não escolarizadas.

Ela exerce uma função de integração lógica na sociedade escolarizada de modo cada

vez mais completo e exclusivo na medida em que seus conhecimentos progridem. Desta

forma, a escola acaba produzindo indivíduos programados, dotados de um arquétipo

homogêneo de percepção da realidade, de pensamento e de ação. Ao traçar

indefinidamente, um caminho normalizado que atravessa os objetos e as manifestações

148

culturais, [...] a escola transmite ao mesmo tempo as regras que definem a maneira

canônica de abordar as obras (de acordo com seu nível em uma hierarquia consagrada) e os princípios que fundam tal hierarquia 149.

Outras canções já trabalharam a problemática da escola como só para citar

duas, uma internacional e outra brasileira: Pink Floyd com Another Brick in The Wall

nos anos 70, e a Legião Urbana com Geração Coca-cola, durante os anos 80. O

antididático é retroprojetor é uma crítica a esta tentativa de moldagem dos cérebros

através do despertar da atitude ética do processo de formação do sujeito social. A escola

tem seus pontos negativos e também seus positivos. Porém, não há maneira de negar

que esta forma com que escola está inserida em toda a vida social é muito relevante e

indispensável, ao mesmo tempo em que se encontra como uma instituição falida na

avaliação de sua eficácia.

149