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3. OS “INIMIGOS” DE ONTEM E DE HOJE: DAS MEMÓRIAS DA DITADURA À

3.1. REVANCHISMO: UMA NOVA ESTRATÉGIA DA ESQUERDA

uma derrota sofrida”; é dessa forma que Giorgio Bianchi (1998, p. 1116) define o verbete “revanchismo” no Dicionário de Política organizado por Norberto Bobbio. Utilizada pelo menos desde o final do século XIX em referência ao clima político manifestado por algumas nações após sofrerem sanções de guerras, a palavra possui seu significado, por certo, fortemente vinculado ao linguajar militar. Nas memórias dos oficiais da reserva o adjetivo “revanchista” é empregado de maneira ampla para se referir às memórias das esquerdas, à atuação de comissões de familiares e vítimas da repressão e aos organismos vinculados aos direitos humanos. De acordo com essa argumentação, os comunistas não teriam aceitado a sua derrota na década de 1970, passando então a “enxovalhar o regime que firmemente lhes negara o caminho para o poder” (TORRES, 1998, p. 14). Assim, segundo o coronel Souza (2006, p. 259), embora tenham sido vencidas na luta armada, as esquerdas “exibem, na prática, os galardões de uma vitória bastarda, urdidas por um revanchismo odioso”.

É importante ressaltar que no centro do que se classificou como “revanchismo” se encontra a lei 6.683, de 28 de agosto de 1979, conhecida como a Lei de Anistia, a qual se configurou como uma espécie “elemento fundador” desse discurso, na medida em que a ela se conferiu “significados específicos” e “um lugar simbólico” (MOREIRA, 2013, p. 94). Segundo a argumentação dos militares, a Lei de Anistia não estaria sendo respeitada pela esquerda, posto que, para eles, além do perdão a mesma deveria incluir o esquecimento:

Com a volta do Brasil à calma, consequência da total desarticulação das esquerdas, foi possível o estabelecimento de uma abertura lenta, gradual e segura, que terminou no Governo do General João Figueiredo, após a decretação da Lei de Anistia em 1979. Lei que, aliás, está sendo aplicada apenas a favor dos comunistas derrotados pelas armas, que estão exercendo um revanchismo a

toda prova contra seus vencedores, que os anistiaram, ignorando que a lei pela qual foram beneficiados pressupõe esquecimento e foi para os dois lados (SOUZA, 2006, p. 120)

Heloisa Amélia Greco (2003) abordou em sua tese como a própria palavra “anistia” contém em si dois significados antagônicos: anámnesis (reminiscência) e amnésia (esquecimento). A disputa entre essas duas concepções opostas e excludentes marcou o contexto da luta pela aprovação da lei, estando ainda hoje presente nos embates sobre as reminiscências da ditadura. Para o regime, tratava-se de reforçar a imposição do discurso da “reconciliação nacional”, pelo qual todos os esforços deveriam ser feitos para “se evitarem traumas à sociedade com o conhecimento de eventos que deveriam ser sepultados em nome da paz” (AUGUSTO, 2001, p. 460). Trocando por outras palavras, o que se buscava era garantir a impunidade, em uma transição lenta, gradual e, sobretudo, segura para os agentes repressivos. Em um outro sentido, para as organizações que revindicavam uma “anistia ampla, geral e irrestrita”, notadamente os Comitês Brasileiros pela Anistia (CBA) e os Movimentos Femininos pela Anistia (MFPA), tratava-se de inseri-la dentro da luta pelo “resgate da memória e direito à verdade” (GRECO, 2003, p. 359, grifo da autora) e das mobilizações por direitos sociais, então em plena ascensão (DEL PORTO, 2009), já que a própria ideia de anistia significava a possibilidade de incorporação de antigos militantes que estavam presos ou exilados nas novas lutas ensejadas pelo clima político da redemocratização.

Ainda para Greco (2003, p. 403), a dimensão “trágica da luta pela anistia” teria sido a vitória da concepção de uma anistia pautada na lógica do esquecimento, indo na contramão do que preconizavam as mobilizações populares. Diversos pontos defendidos pelos movimentos sociais não foram contemplados pela lei, tais quais a abrangência da anistia a todos os punidos pelo regime, incluindo aí aqueles que participaram da luta armada; a apuração das circunstâncias das mortes, desaparecimentos e tortura e a responsabilização dos envolvidos; a

reintegração automática aos postos de serviço; a não reciprocidade da lei.

Além de negar uma série de revindicações que visavam ampliar o escopo da anistia, a ditadura ainda buscou apresentar a aprovação da lei sob a chave de uma “dádiva”, um “presente” do Governo ao povo brasileiro – algo que será reforçado nas memórias militares. O objetivo era transmitir ao regime uma imagem de benevolência, já que, em nome da “democratização” do país e da “pacificação nacional”, o mesmo perdoou até mesmo os inimigos políticos de outrora: “Não há o que discutir. A prova maior da magnitude e do espírito democrático da Contra-Revolução está na decretação da Lei de Anistia” (SOUZA, 2006, p. 124). Ademais, tal operação também buscava apagar da memória a existência de grandes mobilizações em torno de um projeto alternativo de anistia e o fato de que foram elas que impulsionaram o Governo colocar a lei na ordem do dia.

Convém ressaltar que as mobilizações pela anistia se deram em uma conjuntura política marcada pela reorganização das esquerdas e da oposição política e pelo influxo dos movimentos sociais e grevistas. Conforme pontuou Fabíola Brigante Del Porto (2009), sobretudo após o ano de 1978 o repúdio à ditadura acentuou-se de tal forma que o Governo não tinha mais como se abster das discussões sobre a anistia, como vinha fazendo até então. Assim, o que se colocava a partir daí era sob quais termos e condições a lei seria aprovada. No entanto, ao proceder reafirmando a concepção de que a anistia teria sido uma “dádiva”, os militares em suas memórias buscavam também, para além do que já foi dito, construir a ideia de que questionar a lei seria uma atitude mesquinha, que só poderia ser levada a cabo por aqueles que fazem “questão de não deixar cicatrizar as feridas” (USTRA, 2006, p. 480). Dessa forma, todas as tentativas de se romper com a imposição forçada da impunidade e do esquecimento, seja pela publicação de memórias sobre o terror e da resistência a ele, seja pelo ativismo de grupos como o Tortura Nunca Mais e a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos ou pela defesa da abertura dos arquivos e da revisão da Lei de Anistia, seriam atacadas como atitudes revanchistas. Assim,

[…] a questão do resgate do passado e da reparação histórica é colocada em conexão direta com o sentimento de vingança ou de ódio pessoal, o qual, além de mesquinho e aviltante, por definição nada tem de político, se processando no registro do particular, do privado e até do foro íntimo. O objetivo é, a partir da desqualificação e da despolitização da própria essência do contradiscurso da anistia/anamnese, escamotear as iniquidades da ditadura militar. Processa-se, assim, deslocamento semântico cujo efeito se mostra eficaz e duradouro (GRECO, 2002, p. 372- 373).

Embora a reação mais aberta e enfática contra o denominado “revanchismo” parta sobretudo de oficiais da reserva, seja por intermédio da publicação de memórias, como nos casos abordados neste trabalho, seja por meio de entidades como o Clube Militar ou Ternuma, as Forças Armadas enquanto instituição não deixaram de exercer o seu “estável poder de veto” (D’ARAUJO, 2012) sobre as questões envolvendo o passado recente, sobretudo no que diz respeito à possibilidade de revisão da Lei de Anistia. O caso do escândalo envolvendo a publicação de fotos que supostamente seriam de Vladimir Herzog pela mídia, já mencionado no primeiro capítulo deste trabalho, é ilustrativo neste sentido. O fato desencadeou a reação do então comandante do Exército, Francisco Roberto de Albuquerque, que, por meio do Serviço de Comunicação Social do Exército, publicou uma nota que justificava a ação das Forças Armadas no combate às esquerdas e reiterava a concepção da anistia enquanto esquecimento:

[...] Coerente com seu posicionamento, e cioso de seus deveres constitucionais, o Exército brasileiro, bem como as Forças coirmãs, vão demonstrando total identidade com o espírito da Lei da Anistia, cujo objetivo foi proporcionar ao nosso país um ambiente pacífico e ordeiro, propício para a

consolidação da democracia e ao nosso desenvolvimento, livre de ressentimentos e capaz de inibir a reabertura de feridas que precisam ser, definitivamente, cicatrizadas (ALBUQUERQUE, 2004, apud D’ARAUJO, 2012, p. 587-588). Apesar da intenção clara das Forças Armadas de resguardar a instituição e seus membros de punições, os militares da reserva parecem exigir desta uma atitude ainda mais contundente em relação ao passado, que passasse pela defesa pública dos ex-agentes da repressão e pela afirmação da memória dos militares e civis mortos pela guerrilha em oposição à memória das vítimas do terrorismo de Estado.

Segundo Ustra (2006, p. 480), a “passividade dos vencedores, o silêncio comprometedor das autoridades, somente fizeram crescer o revanchismo dos vencidos”. Essa suposta complacência das instituições teria feito com que os militares fossem derrotados no campo da memória e que medidas de reparação tidas como unilaterais fossem aprovadas. Ainda de acordo com o que consta nos livros desses autores, as diversas investidas do “revanchismo” não seriam inócuas e muito menos estariam restritas apenas ao terreno da memória e das disputas sobre a interpretação do passado, mas corresponderiam a uma bem articulada estratégia de desmoralização das Forças Armadas perante a opinião pública por parte dos comunistas, com vistas a tentarem tomar o poder por outros meios. Assim, mediante a mobilização dessa ideia, os autores se voltavam para o “argumento de que, assim como 1964, estariam se batendo contra ‘a ameaça comunista’” (MOREIRA, 2013, p. 128).

Por sua vez, os frutos desta estratégia teriam começado a ser colhidos com a eleição de deputados estaduais e prefeitos pelo PT na década de 1980, agravando-se ainda mais com a presença cada vez maior de ex-perseguidos políticos em cargos públicos a partir da segunda metade da década seguinte. Desde então, conforme Ustra (2006, p. 480), o revanchismo tornou-se “palavra de ordem”. Delineava- se, assim, de acordo com o discurso desses militares, os contornos de uma nova “tentativa de tomada de poder”, expressa primeiramente na atuação dos organismos de direitos humanos, nas denúncias públicas de

nomes de torturadores e na reparação de vítimas e familiares, aprofundando-se, em um segundo momento, com a chegada do PT à presidência no ano de 2003. Dessa forma, dá-se prosseguimento ao capítulo com vistas a analisar como esses dois pontos – as políticas de reparação iniciadas no governo de Fernando Henrique Cardoso e o governo do PT – são articuladas dentro das memórias militares.

3.2. OS LIVROS DOS MILITARES FRENTE ÀS POLÍTICAS DE