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1 CONTEXTUALIZANDO O OBJETO DE ESTUDO: REVISÃO DE

1.2 CONTEXTUALIZANDO A INFECÇÃO PELO HIV/AIDS

1.2.3 Revelando o diagnóstico de HIV/Aids à terceiros

Revelar o diagnóstico de HIV/Aids à família, ao companheiro e aos amigos é sempre um momento de tensão para as mulheres. Neste sentido, a orientação de um profissional de saúde para guiá-las, nesta circunstância, pode amenizar as dificuldades, uma vez que muitas optam por fazer da sorologia um segredo guardado a qualquer preço.

Este silêncio deve ser respeitado pelo profissional de saúde de acordo com a Resolução n°1.665/2003, emitida pelo Conselho Federal de Medicina, onde o artigo 10 traz que o sigilo profissional deve ser respeitado em relação aos pacientes portadores do HIV, salvo nos casos determinados por lei, isto é, a revelação do diagnóstico pode ser feita por justa causa ou por autorização expressa do paciente. A justa causa prevista no Código Penal brasileiro se refere a quando um dos cônjuges é portador de doença infecto-contagiosa, que possa acarretar danos parciais ou permanentes ao outro(a), esse tem obrigação legal de informar à parceira, porque o perigo de contágio é tipificado como crime. (BRASILb, 2004).

Para quem revelar o diagnóstico e quando revelar são dúvidas freqüentes vivenciadas pelas soropositivas, pois muitas vezes elas irão carregar este segredo por muito tempo sozinhas até que encontrem oportunidade para compartilhar com alguém. Em uma amostra de 100 pessoas com HIV/Aids, 36% delas revelaram a sua doença a, no mínimo, uma e, no máximo, cinco pessoas, isto demonstra como é restrito o círculo de amigos confiáveis ao portador com HIV/Aids (CASAES, 2007).

Escolher o melhor momento para compartilhar este segredo deve ser um direito das mulheres soropositivas, conquanto os motivos que as fazem nutrir este segredo são muitos,

dentre eles, alguns medos. São muitas as justificativas para os medos que sentem: medo de ser julgada e estigmatizada, fazendo-as isolar-se do ambiente social, recusar-se a interagir e até mesmo levá-las à depressão. Alguns dos sintomas produzidos pela depressão e que podem ser observados são: perda de interesse, humor depressivo, culpa, desvalorização, alterações do sono, apetite e perda de peso. Paradoxalmente, algumas dessas manifestações podem também ser produzidas por medicações anti-retrovirais (MALBERGIER; SCHÖFFEL, 2001).

Podendo ser um fator desencadeante para depressão, o medo é um sentimento constante na vida dessas mulheres e por conta dele, elas sofrem e se submetem a inúmeras situações, inclusive a vivência de situações de violência. Várias são as possibilidades de causas e consequências desse medo. O medo pode ser em decorrência de estarem vivenciando uma situação até então desconhecida, pois muitas vezes, o HIV/Aids era para elas uma doença que até já tinham ouvido falar, mas que era algo distante, como a doença do outro.

De acordo com Bauman (2008), medo é o nome dado a nossa incerteza, ignorância da ameaça e do que deve ser feito, é um sentimento conhecido de todos (seres humanos e animais). O medo pode ser classificado como: medo secundário que se dá em decorrência de uma experiência passada, sobrevive ao encontro e se torna fundamental na modelagem da conduta humana; e o medo de segundo grau que orienta o comportamento, quer haja ou não uma ameaça presente, o indivíduo tem o sentimento de ser susceptível, inseguro e vulnerável ao perigo. Este perigo dos quais tem medo podem ser os que ameaçam o corpo e as propriedades; a durabilidade da ordem social e a confiabilidade nela; e os que ameaçam o lugar da pessoa no mundo.

Deste modo, ter o HIV/Aids confere a mulher que vivencia o diagnóstico diversas possibilidades de medo, e este temor pode ser em decorrência do que viveu no passado, do que vive no presente ou do que viverá num futuro cheio de incertezas. O modo como vai se configuram a vida sexual e reprodutiva é algo que aflige muitas mulheres, o medo de ser abandonada pelo companheiro ou perdê-lo é imenso, logo, para que isso não aconteça, as mulheres soropositivas fazem qualquer coisa para manter a relação conjugal, desde esconder e negar que está doente até aceitar manter com seu parceiro qualquer tipo de relação mesmo que isso a machuque física e psicologicamente.

O medo que domina a mulher com a HIV/Aids está combinado com diversos fatores como a rejeição pelo parceiro, a revelação do diagnóstico, a solidão e o abandono. Estes medos podem, em algum momento, fazer com que ela se submeta em determinadas situações para não ficar só, criando assim espaço para que ocorra a violência entre parceiros íntimos.

Por outro lado, o fortalecimento das interações e dos laços sociais contribui para que as mulheres que vivenciam o diagnóstico de HIV/Aids tenham um suporte que irá ajudá-las, e nos momentos de crise estas interações podem trazer efeitos protetores fazendo com que elas se sintam cuidadas, estimadas e pertencentes a uma rede social. Contudo, o estigma que atinge os soropositivos influencia na redução de suas redes sociais, fato que será desenvolvido posteriormente durante a análise dos resultados do estudo.

Ainda assim, é reconhecido que o apoio de redes sociais reduziria a percepção de ameaça, funcionando como um recurso importante no enfrentamento da situação estressante. O suporte social pode ser estrutural ou funcional, o primeiro se refere à integração da pessoa em uma rede, através da freqüência ou quantidade de relações sociais; e o segundo está relacionado à extensão do suporte, ou seja, a disponibilidade, tipo de apoio recebido e satisfação com o mesmo (SEIDL; TRÓCCOLI, 2006).

A formação das redes sociais de apoio deve ser feita a partir de uma demanda gerada pelas mulheres, a partir daí elas próprias identificam as pessoas e/ou grupos que podem ampará-las. Para elas fazerem trocas de experiências com outras mulheres através dos trabalhos em grupos, é uma dinâmica que pode ser avaliada como positiva. Em muitas áreas estas atividades já têm sido realizadas, a participação em oficinas de apoio e prevenção pode ajudar as mulheres em vários aspectos, dentre eles, aprender a acertar a partir dos erros socializados pelos outros membros do grupo, este é um dos benefícios compartilhados durante as sessões.

A idéia de união entre os membros faz dos grupos uma ferramenta importante para o suporte social. Dividir com outras pessoas seus anseios, medos, aflições, dúvidas e até mesmo alegrias é o fundamento básico destas reuniões. O grupo pode ser percebido como possuidor de realidade própria, como um produto da interação de suas partes componentes e que não se equivale à soma das mesmas. O grupo expressa uma forma de se relacionar, que tem como característica o engajamento de todos (ZANELLA, PEREIRA; 2001).

Geralmente, compostos por indivíduos soropositivos em estágios diversos da infecção e profissionais de saúde, os grupos promovem e estimulam os processos dialógicos e reflexivos sobre a vivência comum da soropositividade e funcionam como um tratamento terapêutico. A construção do apoio pode se dar em outros espaços além dos grupos, a família pode ser uma fonte de suporte social, mas pode também ser uma fonte de estresse e estigmas.

Em estudo realizado com 13 pessoas soropositivas, foi possível identificar que o grupo ofereceu oportunidade para que pudessem discutir temas de interesse comum, contar suas histórias de vida e reelaborar sua própria identidade. Todos os participantes sinalizaram os

espaços de convivência como fundamentais para o redimensionamento de valores associados à sexualidade (ZAQUIEU, 2006).

Segundo Malbergier e Schöffel (2001), a psicoterapia de grupo tem como objetivos ajudar o paciente a manter o controle sobre sua própria vida e lidar de maneira positiva com os desafios e complicações da doença; auxiliar o paciente a lidar com sentimentos de raiva, negação, respeito, culpa, vergonha; auxiliar o paciente a estabelecer um canal de comunicação com familiares, parceiros, amigos; ajudar os pacientes a lidar com as crises; e propiciar um espaço para o paciente expor suas questões a respeito da doença e da morte.

A existência do suporte social pode auxiliar as mulheres a lidarem melhor com a doença, para revelarem os seus diagnósticos aos parceiros e familiares, ou seja, podem contribuir na adaptação da mulher a sua nova condição sorológica. Além disso, podem ainda colaborar para que as mulheres se reconheçam, se valorizem, e encontrem estratégias para enfrentar as situações as quais estão expostas, ou seja, aprenderem a lidar com os estigmas, os medos ou as situações de violência psicológica, física ou sexual que vivenciam.

1.3 A VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES COM HIV/Aids