NA IGREJA CRISTÃ DE CORINTO
3. GLOSSOLALIA, ELEMENTO ESTRUTURANTE DOS VALORES IMPERIAIS NA COMUNIDADE CRISTÃ DE CORINTO
3.1 REVENDO CONCEITOS E ESTRUTURAS NAS RELAÇÕES DE PODER
Analisado em sua dinâmica histórica, o mundo social certamente é uma construção humana que não se enquadra ao pensamento Durkheiminiano no qual a continuidade, a conservação, o equilíbrio e a harmonia são vistos como bens desejáveis a partir de um consenso entre os grupos sociais184 (MARTINS, 1994, p. 46 a 47).
Na história universal são sobejas as evidências de que todas as relações sociais são marcadas por elementos e grupos em contínua tensão e luta pela dominação. Esta, que nada tem a ver com o simples desejo de elevar-se sobre outros, é a ação contínua de um indivíduo ou grupo social em afirmar sua ascendência qualitativa e empreender esforços para a naturalização do sistema de coisas que resultam desta política ideológica de coisificação e alienação de consciências.
Segundo Castro (2009, p. 126), a dominação, para Foucault, é tanto uma estrutura global de poder quanto uma situação estratégica de enfretamento duradouro entre adversários. Em termos práticos isto implica dizer que os agentes sociais – e seus valores cívicos, ética social, status quo, cultura, sistemas educacionais, estrutura jurídica, folclore, senso comum, religião, relações sociais,
184 Segundo Foucalt (2016, p. 235), “[...] não é o consenso que faz surgir o corpo social, mas a
estrutura familiar, ética individual etc. – estão em contínua relação e mútua influência e, concomitantemente, recebem controle desse sistema estruturado/estruturante, que a tudo permeia, concedendo formas e estabelecendo finalidades específicas que se harmonizam com o seu plano de dominação social.
Embora, a princípio, este projeto de poder se mostre de difícil materialização histórica, sua efetivação e eficácia despontam em vários momentos do transcurso histórico da humanidade, pois o poder não se constitui em uma forma vacilante de relação (FOUCAULT, 2016, p. 235), mas, sim, é um tipo específico que carrega em seu bojo a habilidade estratégica de deslocar-se para continuar e um nexo estrutural através do qual ele se fundamenta, desenvolve-se e busca perpetuar-se.
Sendo assim, a força do poder é ser uma realidade estruturada e estruturante. Existe neste domínio uma teia de relações que intercomunicam a macro, meso e micro estruturas sociais, com vista à manutenção do status quo, a reprodução dos valores da classe dominante e a replicação das estruturas sociais favoráveis aos que possuem o poder de mando. Segundo Foucault,
[...] uma das primeiras coisas a compreender é que o poder não está localizado no aparelho de Estado e que nada mudará na sociedade se os mecanismos de poder que funcionam fora, abaixo, ao lado dos aparelhos de Estado, em nível muito mais elementar, quotidiano, não forem modificados (2016, p. 240).
Isto quer dizer que toda dominação global, que se se realiza em processos contínuos e ininterruptos nos corpos, desejos e pensamentos nos micros espaços sociais (FOUCAULT, 2016, p. 283), se constitui em uma forma específica de predomínio, visto que é pela racionalização e operacionalização da conjuntura histórico-cultural que o desejo de poder se torna plausível e possível em dado momento histórico.
A dominação global não se repercute e se pluraliza, mas sim usa as técnicas e procedimentos de poder, os quais se fazem presentes nos níveis mais baixos da sociedade e são colonizados, transformados e anexados por fenômenos globais ao ponto de fazê-los se deslocarem e se expandirem sob a vontade e intenções da dominação (FOUCAULT, 2016, p. 285).
Neste plano, aqueles que detêm tal dominação movimentam-se a favor da manutenção desta. Há uma contínua ação por fazer prevalecer a estrutura social vigente e qualquer nota dissonante a este esquema de poder é vista com desconfiança e tratada a partir das leis185 que exigem e viabilizam a manutenção da “boa ordem social”.
Neste contexto, a ideia que subjaz à expressão “fazer prevalecer” é que o mundo social não é pacífico. Embora o poder seja de grande impacto e influência em todos os meandros da sociedade, contudo, sua presença sempre é relativa. A individualidade e subjetividade humanas sempre são espaços existenciais repletos de possiblidades de reflexão, inconformidade e subversão do status quo. Nas palavras de Foucault (2016, p. 255): “[...] porque cada um de nós é, no fundo, titular de um certo poder e, por isso, veículo de poder, o poder não tem função única de reproduzir as relações de produção”.
A eficácia do processo de dominação nos indivíduos implica na alienação desta capacidade para aqueles que estão no poder. Entretanto, visto que o ser humano é potencialmente um ser reflexivo e apto para as transformações sociais, o processo de alienação e coisificação de consciências nunca é absoluto, o que torna a luta uma realidade contínua em qualquer projeto de poder e dominação.
A partir desta constatação, na qual se afirma o poder relativo das estruturas de dominação e o contínuo esforço por se manter no poder, a classe dominante engendra meios para alcançar eficácia no seu projeto de dominação, tendo como um dos elementos relevantes a reprodução de sua ideologia a todas as camadas da sociedade.
Tal estratégia se fundamenta no princípio de que antes das composições organizacionais do poder, devem estar os valores e as ideias, pois são estes que justificam as estruturas de dominação, naturalizam o sistema social e legitimam a ordem vigente.
Isto quer dizer que a naturalização da macroestrutura de poder se constrói contínua e diminutamente pela afirmação e reprodução dos valores dominantes em cada espaço da vivência social, na qual os indivíduos são cativos nas esferas das
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As leis as quais se tem em mente aqui são tanto aquelas que possuem corpo formal e legal perante a sociedade, como aquelas que são reconhecidas no âmbito do senso comum e tradição cultural ou religiosa.
ideias, percepções de mundo, sentimentos, valores e disposições duráveis do espírito, as quais são identificadas por Bourdieu como habitus (apud CANEZIN, 2001, p. 114, 125).
Nestes campos nos quais ocorre a reprodução da cosmovisão da classe dominante, um dos elementos trabalhados é a naturalização do status quo, ou seja, a afirmação categórica de que as coisas devem ser como sempre foram e atualmente são. Subverter o estado de coisas no qual a sociedade se encontra é trazer a sociedade à condição de anomia e à barbárie.186
Isto posto, fica evidente que o processo de dominação sempre possui um discurso adequado a sua efetivação na sociedade e agentes aptos para autenticarem sua veracidade e coibirem qualquer falação contrária a este projeto. Para Foucalt, as relações de poder também se manifestam em ações discursivas e prenhes de procedimentos de exclusão e interdição187 (2014b, p. 8, 9).
Existindo dentro da lógica estruturante da dominação, o discurso não se constitui em apenas um meio de revelação da cosmovisão daqueles que estão ou desejam a dominação, e nem muito menos um mero canal através do qual realidades históricas são ocultadas. O discurso é na verdade o poder do qual os agentes sociais desejam se apoderar (FOUCAULT, 2014b, p.10). Ou seja, não basta apenas interditar, dizer quem, quando, como ou o que se poder falar, o ápice da dominação é a regulamentação do discurso e a autoafirmação de qualificação e autoridade para a sua elocução.