• Nenhum resultado encontrado

Revisando a paternidade: considerações interdisciplinares

No documento UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR (páginas 38-42)

2.3 PATERNIDADE E ADOÇÃO

2.3.1 Revisando a paternidade: considerações interdisciplinares

“A arte de viver é simplesmente a arte de conviver... Simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!” (Mario Quintana)

Ao longo do tempo, o conceito de paternidade vem sendo alterado. As

mudanças ocorridas na família decorrentes das transformações econômicas, sociais e culturais trouxeram uma nova configuração à paternidade contemporânea.

Dupuis (1989) afirma que a tomada de consciência da paternidade aconteceu lentamente na época neolítica pelos povos evoluídos. Essa descoberta ocorreu aproximadamente há sete milênios, quando as sociedades humanas descobriram que o ato sexual e a procriação estavam relacionados, o que gerou transformações lentas e profundas nas estruturas religiosas, sociais e nos comportamentos sexuais.

Segundo Dupuis (1989), antes do poder paterno e da paternidade existiam as sociedades matrilineares civilizadas, responsáveis pela educação das suas crianças. Foram necessários milênios para ocorrer uma “revolução patrilinear” e estabelecer as sociedades patrilineares. O desencadeamento das guerras concedeu aos homens a autoridade de chefes de família e senhores da sociedade, como reis e como deuses. Desse modo, a sociedade patrilinear que é fruto de um mundo voltado à guerra, vai tornar-se um dos traços marcantes da organização humana em todas as partes do mundo. Nas novas sociedades patrilineares, as mulheres perderam o poder, mas conservaram a responsabilidade pelos cuidados com sua prole. (DUPUIS, 1989)

A Grécia surge como origem do patriarcado ocidental. O pai grego encontrava-se distante da família e confiava a educação dos encontrava-seus filhos à mulher ou a um preceptor.

O pai romano foi uma continuação da cultura do pai grego, todavia esse pai exercia o direito de vida e de morte sobre seus filhos, somente com a morte do pai esse poder se extinguia. (ZOJA, 2005).

Na sociedade romana ser pai não era apenas um ato biológico, mas um ato formal, a paternidade consistia na sinalização do desejo de ser pai. Se fosse um filho homem o pai pegava o recém-nascido, girava por três vezes em torno da casa e

levantava-o publicamente indicando a sua responsabilidade. No caso de ser pai de uma menina, ordenava que ela fosse alimentada. (HURSTEL, 1999; ZOJA, 2005).

Se o pai não levantasse a criança, esta seria exposta diante da casa ou num monturo público. Assim, os filhos romanos eram aceitos ou rejeitados pelo poder do “pater famílias”. (RESENDE; ALONSO, 1995; SILVA; PICCININI, 2003).

Para Risé (2007, p.16) “a iniciação do Menino Jesus feita por seu pai José quando o apresenta na Sinagoga é um momento simbólico e relevante no desenvolvimento pessoal do menino e da emancipação parcial da dependência materna.”

Nessa esteira de pensamento, Venosa (2005, p.20) afirma que: “nem o nascimento nem a afeição foram fundamento da família romana [...] a instituição funda-se no poder paterno ou poder marital”.

Lamb (1992, p.20), afirma que:

[...] o papel do pai era visto como dominado pela responsabilidade da sua supervisão e ensinamento moral. Era do consenso popular que os pais eram, primordialmente, responsáveis por assegurar que os filhos crescessem com um sentido adequado dos valores, adquiridos essencialmente do estudo de material religioso, tal como a Bíblia.

Hurstel (1999, p. 123), alega que “em quarenta anos modificaram-se o estatuto legal e social do pai, suas imagens, seus papeis e sua vivência. Uma nova definição de paternidade está em elaboração”, o que, segundo Cerveny e Chaves (2010), torna a paternidade contemporânea um pouco incerta e em reestruturação.

Essa última década de transformações sociais, tecnológicas e econômicas propiciou alterações na estrutura, na organização e nos padrões familiares. A relação na contemporaneidade fez com que o modelo de pai tradicional, desse lugar a um “novo pai”, assim, cresce o interesse do estudo sobre a paternidade e a influência do envolvimento paterno no desenvolvimento da criança. (SILVA; PICCININI, 2003; STAUDT; WAGNER, 2008; CARVALHO; MOREIRA, 2013).

Para alguns pesquisadores nacionais e internacionais (LAMB, 1992; PLECK, 1997; LAMB, 2000; STAUDT; WAGNER, 2008), o pai contemporâneo está mais envolvido nos cuidados com seus filhos do que o pai do passado, esse “novo homem” exerce sua paternidade com mais participação na vida afetiva e familiar.

No entanto, Lewis e Dessen (1999) destacam que qualquer análise da paternidade deve iniciar com a observação de que em poucas sociedades os pais

cuidam diariamente dos seus filhos. Que os homens se representam e são representados por papeis fora do núcleo das interações familiares, o que se justifica pelas pressões de trabalho, a ausência relativa de recompensa pelo seu engajamento nos cuidados com as crianças e as tênues negociações entre parceiros pela determinação das tarefas desempenhadas pelo homem. Para os autores, os pais são mais notados pela sua ausência em relação à vida de crianças pequenas, o que estabelece uma imagem negativa sobre o papel do pai na família.

Segundo Cabrera, Tamis-Le Monda, Bradley e Lamb (2000), houve uma evolução no conceito de pai ideal.

Nesse processo evolutivo da paternidade deram-se as seguintes fases: o pai colonial, provedor, moderno e envolvido, e na atualidade o pai companheiro e colaborador. (CARVALHO; MOREIRA, 2010).

O conceito de pai ideal vem sendo modificado, passou-se do pai tradicional de educação moral e disciplinar, para o pai que provê, do pai amigo para o modelo de pai nutridor e coparticipante. Atualmente, o pai não cumpre somente o papel de provedor que é necessário, porém não é suficiente. Há outras funções para o pai como: educar, brincar, auxiliar nas tarefas escolares, ser carinhoso, compreensivo e ter proximidade com seu filho. (BUSTAMANTE, 2005; CARVALHO; MOREIRA, 2013) Conforme Lamb (2000), em diferentes subculturas os pais exercem papeis diferenciados e os diversos grupos trazem contradições sobre o que significa ser um bom pai. Lamb afirma que um pai provedor pode ser de grande importância no contexto onde ele não exerça seus deveres paternos, como exemplo ter um filho de um relacionamento casual. Enquanto em outras comunidades, o suporte financeiro não é tão relevante quanto os cuidados, as supervisões, o afeto, que o pai possa exercer com o seu filho.

Essa nova expressão da paternidade na contemporaneidade surge com transformações importantes nas relações parentais, esse “novo pai” tem cada vez mais buscado seus direitos na participação dos cuidados com os seus filhos. A

Constituição Federal de 1988 trouxe para o Código Civil de 2002 a expressão “poder

familiar” o que equiparou o pai e a mãe no exercício da parentalidade. O artigo 226 § 6º igualou os filhos havidos ou não da relação do casamento ou por adoção.

No meio jurídico e social há discussões sobre os limites, deveres das obrigações dos pais em relação aos filhos, diálogos que refletem sobre o papel do pai na sociedade e que se desloca do pai provedor para o pai que valoriza a afetividade. (CERVENY; CHAVES, 2010).

Diante de tais fatores, os pesquisadores, teóricos e profissionais reconhecem que os pais podem exercer diversos papeis complexos e multidimensionais dentro da família. Existe um “novo” interesse de estudar o pai e suas relações com o cuidado infantil, afinal ele entra muito mais cedo na vida da criança. (SILVA; PICCININI, 2003).

Bastos, Pontes, Brasileiro e Serra (2013) fizeram uma revisão sobre a paternidade no contexto brasileiro e concluíram que ela é percebida como multifacetada e diversa. O pai pode ser próximo e cuidadoso com sua prole, mas também pode ser violento ou ausente, características essas que não são associadas apenas à classe social. Os autores afirmam, ainda, que os estudos iniciais sobre a paternidade brasileira não haviam dado ênfase ao “novo pai’ e, atualmente, a literatura é mais ampla sobre os temas que dizem respeito à paternidade. Porém, ressalvam que os estudos ainda são limitados pelo número reduzido de participantes e por não considerarem a diversidade relativa à classe social, localidade, etnicidade ou experiência educacional.

No documento UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR (páginas 38-42)