PARTE I REVISITANDO QUESTÕES RELEVANTES PARA COMPREENSÃO DA TA
2. UM PANORAMA DA TA E SEUS ECOS NO ENSINO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA
2.4 REVISITANDO O CONTEXTO HISTÓRICO DA TA
Revisitar o contexto histórico da TA é também revisitar o pensamento cientifico instaurado na época de sua criação, de seu progresso e de sua evolução. Necessariamente, é revisar conceitos que vão desde os métodos e paradigmas que caracterizaram e ainda caracterizam os processos de TA, até mesmo a visão de língua e linguagem arraigada a eles, como se verá adiante na seção 2.4.2.
No que diz respeito aos métodos e paradigmas que caracterizam os variados sistemas de TA, faz-se necessário lembrar de que cada um deles está arraigado a uma concepção de TA que remete a uma determinada época. E, portanto, apresentam um determinado grau de relevância dentro daquela época em que surgiram.
Este estudo adota como caracterização de método e paradigma, no contexto da TA, a visão postulada por Silva (et. al. 2007, p. 61) ao descrever que:
Os métodos referem-se ao projeto de processamento, ou seja, à organização global do processamento e de seus vários módulos, enquanto os paradigmas referem-se aos componentes de representação de conhecimento que auxiliam o projeto de processamento global (SILVA et. al. 2007, p. 61) – Grifos do autor. Essa visão, embora tenha sido cunhada há sete anos, ainda pode ser considerada atual porque se tem nela uma visão dinâmica e atual. Dinâmica referente aos processos e componentes que caracterizam a TA como sistema de tradução. E atual, porque ainda abrange o processamento de muitos sistemas de TA nos dias de hoje.
Nesse sentido, com respeito ao projeto de processamento da TA, os métodos podem ser três: direto, por transferência e por interlíngua, agrupados em duas categorias: a direta e a indireta. E quanto aos componentes de representação de conhecimento, os paradigmas podem ser vistos sob dois ângulos: fundamental e empírico. Na categoria direta, há o método direto que corresponde, nas palavras de Silva (et. al., 2007, 62), à transformação das sentenças da língua fonte em sentenças da língua alvo da seguinte maneira:
sem utilizar representações intermediárias, procurando realizar o mínimo de processamento linguístico possível. Esse processamento pode variar, incluindo a simples substituição das palavras de uma sentença fonte por sua(s) correspondente(s) na LA (tradução palavra-por- palavra) ou a realização de tarefas mais complexas, como a reordenação das palavras na sentença-alvo e a inclusão de preposições (SILVA et. al. 2007, p. 62).
Ancorados a esse método, podem ser classificados os primeiros sistemas de TA cujo mecanismo de tradução era voltado para uma visão metáfrase da tradução, ou seja, a tradução de palavra por palavra bem como a possibilidade de inserção de alguns termos como preposições. Além disso, esse método já era capaz de reagrupar palavras no TF, um fato crucial para os refinamentos posteriores a ele, conforme pode ser apreciado na Figura a seguir, conforme explicita Silva et.al. (op.cit, p. 63):
Figura 01 - TA pelo método direto
A Figura anterior descreve o processo realizado pelo método direto. Nela LF se refere à língua fonte, e LA língua alvo. Neste estudo, por outro lado, utilizam-se os termos TF e TT13. Há uma análise do TF levando em conta sua gramática e léxico. Em seguida, ocorre a chamada
13
transformação do TF em TT. Essa transformação, por sua vez, ocorre em vista das regras de transformação e de um dicionário bilíngue de ambos TF e TT. Esse processo de análise e transformação acaba gerando o TT.
Concernente à categoria indireta, a língua fonte e a geração da língua alvo são de natureza independente. Aqui a TA pode ocorrer através de dois métodos: por transferência e por interlíngua. Por transferência, têm-se os seguintes passos: alteração estrutural, transformação e geração, conforme explica a citação abaixo:
1) alteração da estrutura e palavras da sentença de entrada resultando em uma representação intermediária da LF (fase de análise); 2) transformação dessa representação em uma estrutura intermediária da LA (fase de transferência); e 3) geração da sentença na LA (fase de geração), a partir dessa estrutura (SILVA et. al. 2007, p. 64).
Referente à TA por interlíngua, acredita-se que “a saída da análise da LF correspondesse diretamente à entrada do componente de geração na LA” (SILVA et. al. 2007, p. 64). Nesse método, compreende-se que há uma análise do TF a fim de se extrair seu possível significado e só assim representá-lo em forma de interlíngua. Por conseguinte, a geração do TF vai considerar a forma de interlíngua para demonstrar o significado semelhante.
É importante lembrar que embora esses métodos soem como ultrapassados em vista do avanço dos sistemas de TA com base em métodos estatísticos de busca. A lógica que os gerou também impulsionou o refinamento para se alcançar os atuais sistemas de TA da atualidade. A seção a seguir discute um pouco essa trajetória do avanço da TA a partir da ótica do desenvolvimento dos corpora eletrônicos enquanto metodologia de pesquisa nos ET e base de busca no processo tradutório dos sistemas de TA.
Concluindo essa discussão inicial sobre a revisão do contexto histórico da TA, há os paradigmas de natureza fundamental e empírico, e ainda os que utilizam ambas as naturezas. Por um lado, os de natureza fundamental são assim chamados por empregarem teorias linguísticas bem definidas, nele podem-se listar os seguintes sistemas com base em: regras, conhecimento, léxico, restrições, princípios, e o shake bake14.
14
A técnica shake-and-bake procura superar estes problemas, oferecendo grande modularidade dos componentes monolíngues, que podem ser escritos de
Por outro lado, os de natureza empírica, que recebem esse nome em virtude de utilizarem pouca ou nenhuma teoria linguística, tais como os com base em: estatística, exemplos, diálogos, redes neurais (SILVA et. al. 2007, p. 68-75).
2.5 TRADUÇÃO AUTOMÁTICA E CORPORA ELETRÔNICOS