O purgatório
19 Revista Espírita, janeiro de 21 Rua Saint-Jacques, 42, Paris.
Terra. O purgatório, nos ensinaram, não é possível, senão na condição de chamar assim o estado passageiro da alma que tem faltas a reparar. É bem um estado individual que se melhora à medida que o ser, aproveitando a consciência da eternidade, se depura lentamente através da progressiva perfeição. Essa verdade foi simplesmente expressa pelo “espírito Gui”, enquanto ele frequentava sua própria casa, para confiar sua triste alma aos seus sobreviventes.
Hoje, quando os meios científicos se empreenderam em pesquisar essas questões de perto, temos um melhor conhecimento de fatos que oferecem todas garantias de autenticidade e de exatidão, e podem ser submetidas a uma análise séria.
Podemos um fato que diz respeito a uma jovem moça que, graças às condições especiais onde ela se achava, em um convento, não podia ter recebido nenhuma informação de fora.
Em 29 de maio de 1907, o capitão Oldham, ao receber uma carta em que se revelava uma recusa a sua paixão amorosa, suicidava-se. A dama de seus pensamentos tinha uma jovem filha de 17 anos, afilhada do suicida, então em pensão em um convento da Bélgica.
No dia do enterro, ela se encontrava em presença de uma religiosa que conhecera como uma pensionista de suas amigas (Ela ignora ainda que esta tinha tomado o véu). A religiosa, pegou-a pelo braço, conduziu-a por uma parte interditada do convento na capela reservada e lá... ela viu vir até si o suicida que lhe tomou a mão e disse: Minnie, eu fiz uma coisa horrível, eu tirei minha vida porque a mulher que eu amava me desprezou e agora eu sofro horrivelmente. Eu não esperava por isso. Ore por mim.
É preciso ver aí, um fenômeno de exteriorização, pois a vidente viu seu corpo ficar no local que ocupava, e seu guia estava exteriorizado. Mas, eis um fato interessante: a partir desse dia, a cada manhã, o fantasma do capitão vinha visitar sua afilhada, e não lhe dirigia a palavra, mas a expressão de seu rosto se tornava pouco a pouco menos dolorosa. Enfim, no dia em que ela deixou o convento, o tio lhe apareceu em seu estado normal e não se o viu mais.
A vidente não tinha escrito a sua mãe porque, no convento católico, as cartas das pensionistas eram lidas, e as condições do convento não deixavam nenhuma possibilidade de ter recebido notícias de fora. Ela estava muito ansiosa para interrogar sua mãe ao voltar a Londres; esta não devia anunciar a morte, mas teria querido, por tudo no mundo, não falar do suicida.
senão pouco a pouco em direção a um estado melhor e que o purgatório de 1920 se apresenta bastante semelhante àquele da idade média.
Todos os santos, diz o abade Migne, e em particular os mais perfeitos, nunca cessaram de entreter, com as almas do purgatório, uma relação íntima e contínua de preces e obras de caridade.
Françoise do Santo-Sacramento recebia, dia e noite, os requisitos das almas do purgatório. O que se observa sobretudo, junto dela, é que, entre os consulentes havia defuntos de toda condição, eclesiásticos, religiosos, leigos, papas, arcebispos, abades, padres, monges, nobres plebeus, que durante sua vida tiveram um grande zelo ou tiveram praticado grandes penitências, outros que tinham tomado ao contrário, as coisas menos seriamente; grandes personagens que tinham gozado, aqui, de uma boa reputação, com outros que tinham tido um mau renome; homens que dos quais se tem chorado sua morte como pais dos pobres, com outros que morreram sobre o cadafalso, cercavam a cela de Françoise, contando-lhe suas misérias, as faltas que tinham a expiar e lhe pedindo socorro e conselhos...
Quando Françoise estava no coro, todas essas pobres almas se mantinham na entrada da igreja, próximo da água benta; uma vez terminado o ofício, elas entravam na sua cela e lhe apresentavam sua súplica. Os defuntos davam-lhe uma porção de recados que ela executava no começo com grande exatidão; mas, como essas relações se tornavam muito incômodas para o mosteiro, seus superiores as proibiram.
É evidente que essa irmã era um simples médium, ela vivia em ligação telepática com o misterioso além, que explora todos os videntes.
Catarina Emmerich vivia em comunicação constante com essas almas que a obedeciam e quando ela as esquecia, elas a chamavam à sua lembrança por batidas.
Os videntes do catolicismo poderiam fornecer informações preciosas sobre o processo da morte e das reencarnações, se suas visões fossem fielmente transcritas, infelizmente, elas são sempre interpretadas. Tal como são, elas se mostram frequentemente de acordo com a psicologia do espiritismo. Assim, Catarina Emmerich vê um homem morto subitamente, em punição de seus pecados, ele permanece preso ao campo que tinha sido o objeto de suas cobiças. Não é fácil reconhecer o monoideísmo que liga os moribundos a seus últimos pensamentos. “Eu vi — continua a Santa — alguma coisa do estado no qual a alma desse infortunado se achava desde a sua morte. Eu o vi a uma certa altura no mesmo lugar onde ele tinha morrido num círculo, numa esfera na qual todas
as imagens de suas faltas, com suas tristes consequências, lhe eram apresentadas e se uniam para torturá-lo... No momento em que era torturado por uma espécie de desespero, ela ia cair no abismo, Jesus-Cristo fez uma prece e pronunciou o nome de Nazor (assim se chamava o defunto) e ela foi reunir-se a seu corpo.”
“Entretanto, o Salvador diz aos que tinham acompanhado a esse campo: retornemos ao berço, veremos Nazor em plena vida. Ao som da voz do Salvador, colocou-se em movimento e se aproximou do corpo, sob uma forma menor que a que tinha visto primeiro, ela tinha penetrado na entrada e, no mesmo instante, o morto saindo de seu sono se pôs em cena. Eu sempre vi a alma humana, descansar de algum nodo acima do coração. Daí partem numerosos fios que a fazem comunicar-se com o cérebro.”
Temos ainda muito que aprender para chegar a um melhor conhecimento da alma; não é preciso temer juntar e confrontar as visões de todos os que são capazes de observar as almas no período que segue imediatamente a morte, na condição de observá-los como um objeto de estudo e não como revelações. Importa também fazer a distinção necessária entre as manifestações reais e as visões imaginárias. As pesquisas do Magnetismo, do Espiritismo, da Psicologia científica nos esclarecem agora com uma clareza completamente nova, elas nos permitem interpretar certas manifestações da história religiosa da qual o passado não é mais defensável.