3. FORMAÇÃO DOS QUADRINHOS NO RIO GRANDE DO SUL:
3.2. REVISTA DO GLOBO, A MODERNIDADE IMPRESSA
Desde sempre, a Revista do Globo abriu espaço para o desenho de humor, com maior ou menor exposição em diferentes momentos, conforme podemos atestar ao longo da leitura da pesquisa de Paula Viviane Ramos (2016). No final dos anos 1940, a revista passaria a publicar a sessão Ria por favor de autoria de José Miguel Pereira de Sampaio (1927-2017), o que representaria um novo e importante momento da produção do humor gráfico no Rio Grande do Sul.
Considerado um dos precursores da figura do cartunista profissional na imprensa gaúcha, Sampaio construiria como marca a elaboração de grandes painéis coletivos, contendo ações simultâneas e detalhes humorísticos que antecipariam em muitos anos trabalhos de diversos autores do humor gráfico e dos quadrinhos mundiais. Os cartuns de Sampaio propunham uma interatividade particular com o leitor – e, até então, rara entre os artistas do traço locais. Seu humor costumava ser leve, eventualmente assumindo certo caráter cronístico por expor situações cotidianas. Acima de tudo, a obra de Sampaio, principalmente em sua fase inicial, representa uma importante ruptura de cenário na medida em que busca a diferenciação da produção exclusivamente caricatural ou chargística, avançando, também, para outras experiências gráficas e ampliando as possibilidades de ação do artista.
Figura 51: cartum de Sampaio, datado da publicação da Revista do Globo de 26 de Junho de 1948. (Fonte: SAMPAIO, 2018, p. 28.)
Sampaio, contudo, não foi o único exemplar de autor ligado ao humor gráfico presente na história da Revista do Globo. Seu papel na história dos quadrinhos no Estado revela, por outro lado, o pioneirismo de tal publicação no que diz respeito à imprensa gaúcha. Se a
Revista do Globo não assume um papel definitivo na formação dos quadrinhos no Rio Grande
do Sul (até porque, talvez, não tenhamos esse tipo de “ponto de chegada”), seu caráter de vanguarda na imprensa ilustrada de forma geral é incontestável. Tanto na Revista quando na Editora do Globo, estavam presentes grandes artistas responsáveis por dinamizar a produção gráfica local e divulgar novas tendências do grafismo mundial, impulsionando as artes visuais para fora do segmento da imprensa.
Publicada de 1929 a 1967, a Revista do Globo foi um marco editorial da história da imprensa no Estado do Rio Grande do Sul em muitos campos – especialmente no que diz respeito à apresentação visual. Durante os anos 1930, momento em que a qualidade da produção gráfica da Revista era evidente e estava muito além da média da produção nacional, nota-se, a partir da pesquisa de Paula Ramos, que os momentos dedicados às tiras ou às charges não eram o carro-chefe das equipes de ilustração, por outro lado, o trânsito dos artistas entre diferentes vertentes gráficas acabou por possibilitar algumas criações de fato inovadoras nesse campo – bem dentro dos parâmetros de vanguarda que ditavam o segmento ilustrado da revista. Um desses momentos em que páginas dedicadas ao humorismo estiveram em destaque se deu ao longo do período em que Erico Verissimo (1905-1975) foi o diretor da revista. Ele próprio chegou a escrever e desenhar uma página dedicada ao segmento infantil dentro da Revista do Globo; intitulada Guri, a seção abraçava nitidamente a linguagem dos quadrinhos, demonstrando um interesse editorial do periódico nesse sentido. Fora dali, entretanto, Verissimo ampliou o espaço para trabalhos como a série Cartazes de Cinema, assinada por “Peli” (ou “Peli-Kano”) – na verdade, pseudônimo de Francis Pelichek (1896- 1937), pintor e artista gráfico tcheco que teve atuação destacada no campo da ilustração dentro da publicação durante a primeira metade da década de 1930. Como lembra Paula Ramos (2016, p. 172), a série apropriava-se de um formato incomum, o modelo de pôster cinematográfico, tratando o espaço da página como uma “grande avenida”, sendo tal “avenida” uma grande tira na qual os pôsteres de filmes fictícios representariam pequenos quadros internos autônomos que destilavam críticas e sátiras sociais dirigidas a políticos, figuras públicas, expressões populares, hábitos da sociedade e episódios da “província”; nesse segmento, havia até espaço para a auto ironia, quando Pelichek acabava se divertindo com lançamentos da própria Livraria do Globo.
Pelichek era figura ilustre das artes plásticas praticadas no Sul do Brasil naquele período: lecionava no Instituto de Belas Artes de Porto Alegre e era figura de referência para futuros talentos locais. Nesse momento em que o humor gráfico e os quadrinhos tentavam encontrar espaço, seu trabalho acabou sendo importante ao longo da estrada em que se encontrariam talentos como o de Sampaio e de outros futuros cartunistas que atuavam em outros segmentos da Editora e Livraria do Globo. A Globo, como se pode notar, representa um capítulo fundamental na história cultural de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. A presença de Sampaio, Pelichek e outros, tanto na revista quanto na editora em questão, deflagra a importância da empresa como um espaço de atração e formação de talentos da capital gaúcha entre os anos 1930 e 194042.
Figuras 52: compilação de charges da série Cartazes de Cinema, de Francis Pelichek, assinando como “Peli”. (Fonte: RAMOS, 2016, p. 173-174).
Tanto na Revista do Globo quanto em sua editora, diferentes e importantes trabalhos eram desenvolvidos no campo da ilustração. Do desenho de humor à produção de capas e ilustrações de livros, agregavam-se experiências que seriam importantes, inclusive, para os quadrinhos que ainda seriam produzidos no Estado. Dentro desse processo de formação, o
42 Além da relação com a ilustração, a Globo foi fundamental canal de divulgação da literatura nacional e internacional, sendo pioneira ao publicar no Brasil obras de Marcel Proust, Honoré de Balzac e Aldous Huxley, além de autores gaúchos centrais, como o próprio Erico Verissimo. Aparentemente, uma noção de polissistema literário já era intuída pela editora ao promover esse verdadeiro projeto cultural para o cenário local; a discussão acerca do conceito de polissistema será a base do capítulo 5 deste trabalho.
avanço da linguagem gráfica do desenho de humor para a narrativa em quadrinhos no Rio Grande do Sul acabaria se dando de forma um tanto enviesada, por meio do trabalho de João Baptista Mottini (1923-1990).
Nascido em Santana do Livramento, Mottini desenvolve seu trabalho, primeiramente, como ilustrador de livros infanto-juvenis na Editora do Globo. Já nos anos 1940, Mottini se transfere para Buenos Aires e lá constrói uma sólida reputação como quadrinista. Na Argentina, acaba fixando, segundo Hiron Goidanich e André Kleinert (2011, p. 333), “um prestígio inabalado como um dos melhores artistas gráficos do período de ouro dos quadrinhos daquele país (1948/1958)”; lá, então, o artista passa a produzir histórias em quadrinhos para as célebres publicações de Dante Quinterno, Patoruzú e Patoruzito. As criações das revistas – notavelmente, seus personagens-título – apropriavam-se de referências da cultura daquele país, além de dialogar com os westerns e as histórias de aventura dos quadrinhos norte-americanos. Em outras palavras, o trabalho desse artista tinha particularidades ainda raras entre publicações brasileiras, em que se faziam notar
o apreço pelas artes dramáticas e por uma determinada cultura visual, que passa pelo cinema e por um tipo de filme que, não sem surpresa, ele reverencia em seu desenho, vide as expressões dos personagens, o grande dinamismo dado às cenas e o tratamento claro-escuro (RAMOS, 2016, p. 358).
Ainda que produzindo fora do seu Estado e de seu país, o trabalho de Mottini precisa ser considerado como parte da história dos quadrinhos do Rio Grande do Sul, uma vez que sua trajetória o traria novamente ao Estado anos depois da experiência argentina. Mottini foi fundamental nesse intercurso entre a produção local de quadrinhos e a produção do Prata e deu à sua obra um tratamento estético precioso a partir de referências importantes e modernas para a época. Essa abertura de possibilidades, contudo, não vinha gratuitamente: é provável que a riqueza de seu trabalho tivesse como grande influência a liberdade conquistada na Editora do Globo anos antes, que tratava a ilustração, então, como um campo de atuação artística de fato – e não somente como um trabalho complementar para a imprensa de forma geral. Esse trânsito de influências claramente serviria de base para os trabalhos posteriores de João Mottini, quando no seu retorno ao Rio Grande. Entre esses trabalhos, estaria a ousada aventura de uma cooperativa de quadrinistas que impactaria significativamente o cenário local.