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Parte III – O Visconde da Ribeira Brava na imprensa da época Uma primeira abordagem.

4.1. Ribeira Brava.

O Visconde da Ribeira Brava foi uma personalidade singular nessas décadas que antecederam a mudança do regime e durante a curta experiência da 1.ª República. Se é legítimo afirmar que durante o regime monárquico o balanço final da sua actuação em prol da Madeira foi um rotundo falhanço, não é menos verdade que sob o alvor da 1.ª República, o Visconde da Ribeira Brava foi das personalidades públicas que mais advogou pela resolução dos problemas da terra. Não solicitando para si empregos nem patrocinando pretensões escandalosas ou escuras negociatas, tendo pautado a sua actuação política pelo cumprimento integral dos compromissos tomados com a população madeirense736.

Como se pode verificar na Parte II, dedicada às decisões políticas tomadas pelo Visconde da Ribeira Brava, foram numerosas as propostas por si lançadas na senda do desenvolvimento do arquipélago. Evidentemente que nem todas foram concretizadas e outras, ainda, houve que não tiveram o sucesso que previa. Seja como for, justo será reconhecer que muito fez para, de acordo com as suas ideias, promover o desenvolvimento da Madeira.

Não obstante, na ilha apenas se registam homenagens à sua memória no concelho da Ribeira Brava. Na verdade, a ele muito se ficou a dever a elevação da localidade a concelho; a existência de um círculo escolar; a construção de um pequeno teatro; a rectificação do forte de S. Bento; o alargamento do cais; a abertura e o

735 A este respeito importa referir que, a actual Rua da Conceição (no Funchal), com a República passou a

designar-se Rua Correia Herédia. Por motivos desconhecidos voltou depois ao nome primitivo. Presume- se que a homenagem ao político madeirense se terá efectivado em 1922, ou seja, quatro anos após a sua morte. Cf. DN, 19 de Fevereiro de 1922; cf. tb. Apêndice Iconográfico: n.º91.

736 Em entrevista ao jornal O Mundo, de 25 de Maio de 1913, intitulada “O problema da Madeira”,

Ribeira Brava acabou por reconhecer que, durante o regime monárquico, não tinham sido secundados os seus esforços para fomentar o desenvolvimento da Madeira. Vale a pena seguir o relato no discurso directo: “Por várias vezes, durante o antigo regime, tentei fazer alguma coisa de bom pela Madeira; reconheci, porém, que seria impossível lutar com proveito e capitulei! Mas, logo que vi proclamada a República, entendi que era chegada a hora de fazer-se justiça à nossa terra, e depressa, unido com os meus inteligentes colegas drs. Carlos Olavo e Pestana Júnior, dois devotos madeirenses e lealíssimos companheiros de trabalho, arvoramos a bandeira dos melhoramentos locais nos arraiais do nosso Partido Democrático Madeirense.” [cf. Apêndice II: entrevista n.º9].

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alargamento de ruas e de estradas e a criação de um campo experimental agrícola737. Se não realizou integralmente o sonho de dar à sua terra natal uma importância que sobrelevasse a dos outros concelhos, foi porque viveu uma época de grande instabilidade política, económica e social738.

No concelho da Ribeira Brava, as homenagens a Francisco Correia de Herédia estão registadas através da placa toponímica, do monumento escultórico (busto) e da lápide comemorativa.

A Rua do Visconde, como «espinha dorsal» da vila, constitui indiscutivelmente umas das homenagens mais emblemáticas.

No decurso da investigação não nos foi possível identificar nas actas camarárias a data e os motivos que levaram à atribuição do referido nome, dado que existe um lapso de quinze anos (1914-1929) nas actas das vereações do município739. Face a esta falta de informação, optou-se por efectuar a investigação na imprensa da época, nos registos paroquiais e na correspondência dos Paços do Concelho. Foi um processo moroso, mas não de todo inglório. Se os dois últimos acervos referidos não nos permitiram responder à questão, o mesmo não aconteceu em relação aos periódicos insulares. Assim, de acordo com o Brado d´Oeste, de 12 de Setembro de 1914, foi por deliberação da municipalidade, que a Rua Direita da vila da Ribeira Brava se passou a chamar Rua do Visconde da Ribeira Brava740. Estranhamente, ou talvez não, treze anos decorridos, o Diário da Madeira também noticiou que a Câmara Municipal da Ribeira Brava (CMRB) havia deliberado atribuir à rua principal da vila o nome do falecido Visconde, “como preito de reconhecimento pelos importantes melhoramentos que aquele titular e homem público introduziu na terra onde nasceu e tão profundamente queria”741.

No Arquivo Regional da Madeira, não encontramos qualquer informação, que nos permita confirmar a(s) notícia(s). Note-se, todavia, que a actual Rua do Visconde, na segunda metade do século XIX, era denominada com dois topónimos - Rua Direita e

737 SILVA, Fernando Augusto e MENESES, Carlos Azevedo, (1998).

738 “Comemorando o cinquentenário da sua fundação”, JM, n.º9914, 07.05.1964, p.1. 739 ARM/CMRB, Descrição do Nível de Fundo, p.2.

740 “Denominação de Ruas”, Brado d´Oeste, n.º552, 12.09.1914, p.3. 741 “Duas merecidas homenagens”, DM, n.º4694, 24.02.1927, p.1.

Fig.1 Placa toponímica da Rua do Visconde, na Ribeira Brava.

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Rua do Colégio742. O que se deduz é que, em 1914, foi designada Rua do Visconde da Ribeira Brava a Rua Direita – mantendo a Rua do Colégio a sua nomenclatura. Alguns anos mais tarde, em 1927, dada a perda de identidade histórica, a Rua do Colégio foi rebaptizada com o nome de Rua do Visconde.

Certo é que as duas placas toponímicas ainda hoje se conservam, mantendo viva a sua memória ao olhar dos caminhantes.

Ao subir a Rua do Visconde deparamo- nos com o Largo dos Herédias. O nome tendo sido atribuído em 1914 – em substituição do Largo do Pé da Ladeira – assinala a primeira deliberação da então recém-criada CMRB para homenagear a família Herédia, a única, note-se, a que o político madeirense teve o privilégio de ver efectivada em vida743.

O busto, erguido na praça mais movimentada da vila, perpetua no bronze a memória do Francisco Correia de Herédia. Ainda assim, a consagração, efectivada a 6 de Maio de 1964, foi pensada pela primeira vez muito antes, mais concretamente na sessão camarária de 21 de Outubro de 1919; voltando a recuperar-se esta intenção nas sessões de 26 de Abril de 1924 e de 16 de Outubro de 1926. Durante as vereações camarárias foram criadas comissões que, por motivos desconhecidos, não chegaram a concretizar os objectivos delineados744.

A homenagem, que tardava em chegar, não passou despercebida aos periódicos madeirenses da época. Senão vejamos: em Janeiro de 1922, o DN

742 Cf. planta de António Pedro de Azevedo (1863).

743 Cf. Brado d´Oeste, 12 de Setembro de 1914: “Por deliberação da respectiva municipalidade, a Rua

Direita da vila da Ribeira Brava passa a denominar-se Rua do Visconde da Ribeira Brava e o Largo do Pé da Ladeira, Largo dos Herédias.” [cf. Apêndice Iconográfico: n.º86-95].

744 “Comemorando o cinquentenário da sua fundação”, JM, n.º9914, 07.05.1964, p.1. Fig.3 Busto de Francisco

Correia de Herédia, na Ribeira Brava.

(Fonte: autora)

Fig.2 Placa toponímica do Largo dos Herédias, na Ribeira Brava.

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noticiava que a CMRB pensava erguer um monumento ao falecido Francisco Correia de Herédia745; três meses depois, o mesmo diário voltava a comentar que dos Paços do Concelho seguira para a Câmara Municipal de Santarém um ofício, solicitando uma verba destinada à referida construção746. Em 1928, referindo-se ao mesmo assunto, noticiava o DM que com o produto de uma subscrição, a que haviam concorrido “a Câmara Municipal de Lisboa, a Junta Geral do Funchal e amigos pessoais do extinto ilustre”, estava a ser construído na Ribeira Brava um pequeno monumento747. No Verão

de 1930, que o busto – da autoria do escultor madeirense Francisco Franco – seria erguido na praça principal da vila da Ribeira Brava748. Curiosamente, três anos mais tarde, em 1933, o mesmo periódico ainda questionava quando seria colocado o busto do Visconde no Largo dos Herédias, onde já há muito tempo havia sido levantado o plinto sobre o qual aquele deveria assentar749.

Enfim, apesar das dificuldades iniciais e da polémica em torno da questão, a homenagem chegou, quarenta e cinco anos depois, a 6 de Maio de 1964, com a inauguração do busto, realizado pelo escultor madeirense Agostinho Rodrigues750.

A CMRB aproveitou, assim, a oportunidade para comemorar o cinquentenário do concelho, prestando uma homenagem póstuma a Francisco Correia de Herédia com o descerramento do busto, sob a presidência do Governador Civil do Funchal, Comandante João Inocêncio Camacho de Freitas. O concelho assinalou, em tom festivo, a manifestação de apreço à memória do homem que fundou, prestigiou e muito desenvolveu a Ribeira Brava. Junto ao monumento, segundo a imprensa, concentraram- se muitos populares e figuras políticas, entre as quais se encontravam: o já mencionado Comandante João Inocêncio Camacho de Freitas, Governador Civil do Funchal; o Coronel Fernando Homem Costa, Presidente da Junta Geral do Funchal; José Modesto da Trindade, Presidente da CMRB; o Padre António Ponte Câmara, pároco da Ribeira Brava; Mário António Correia, Sub-inspector da PIDE; Frederico Luciano Faria, Ferdinando Gonçalves e Melim Lino Pereira, respectivamente vice-presidente e vogais do município, entre outros ilustres convidados.

Ao som do hino da Maria da Fonte, executado pela Banda Municipal da Ribeira Brava, a esposa do Governador Civil, Joana Camacho de Freitas, descerrou o busto do

745 “Monumento ao Visconde da Ribeira Brava”, DN, n.º14.331, 17.01.1922, p.1. 746 Idem, n.º14.393, 04.04.1922, p.1.

747 “Visconde da Ribeira Brava – Monumento”, DM, n.º 4955, 20.01.1928, p.1. 748 “Busto do Visconde da Ribeira Brava”, DN, n.º 16.814, 29.08.1930, p.1. 749 “Visconde da Ribeira Brava – Monumento”, DM, n.º6603, 15.10.1933, p.1.

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Visconde da Ribeira Brava751. O acto foi entusiasticamente aplaudido pela multidão, sob os acordes da filarmónica. Na base do monumento, onde, ainda hoje, se pode ler “Ao Visconde da Ribeira Brava, fundador do concelho. 6.5.1914 – 6.5.1964”, foram depositadas flores.

A cerimónia continuou na Câmara Municipal, cuja sessão solene contou com os discursos do seu presidente, Modesto da Trindade, e do Governador Civil do Funchal, ambos relembrando o político homenageado e a sua obra752.

A lápide comemorativa, que se encontra colocada no jardim à entrada do antigo solar dos Herédias, assinala a homenagem post mortem mais recente e não passa indiferente a todos os que visitam o município.

A cerimónia realizou-se aquando da inauguração das novas instalações dos Paços do Concelho, a 5 de Outubro de 1982. O acto contou com a presença do presidente da CMRB, Luís Mendes, do Presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, e de outros membros do seu executivo, além de diversas entidades e convidados753.

Nessa ocasião, Luís Mendes elogiou o fundador do município, afirmando mesmo que sem o Visconde “não existia hoje o concelho da Ribeira Brava”. Seguiu-se- lhe no uso da palavra a historiadora Teresa Pais que dissertou sobre a vida e a obra do político homenageado, destacando não apenas a sua acção política e a sua busca pela

751Durante a Revolução da Maria da Fonte, no início da Primavera de 1846 (não há uma indicação

unânime sobre a data do começo da sublevação), o maestro Ângelo Frondoni compôs um hino popular, que ficou conhecido pelo nome de Maria da Fonte. Por muito tempo foi o canto de guerra do Partido

Progressista em Portugal. Actualmente, o hino é normalmente utilizado para saudar altos cargos militares e ministros da República. Considerando que Ribeira Brava foi um activo militante do Partido

Progressista– tendo sido, aliás, nomeado deputado para várias legislaturas: em 1878, pelo círculo de

Santa Cruz (porém, tendo sido a eleição contestada, optou por não tomar assento); entre 1897 e 1899, pelo círculo da Ponta do Sol; em 1900, pelo círculo de Ferreira do Alentejo; e, pela última vez, para a legislatura de 1905 e 1906, pelo círculo de Faro – parece-nos válido afirmar que o hino escolhido, para engrandecer o momento, não poderia ter sido mais ajustado (João Medina, 2001:230; cf. tb. M.ª Filomena Mónica, 2005:422).

752“Comemorando o cinquentenário da sua fundação”, JM, n.º9914, 07.05.1964, p.1.

753 “Dia do Concelho da Ribeira Brava”, idem, n.º15620, 07.10.1982, p.5. [cf. Apêndice Iconográfico: n.º89-90].

Fig.4 Lápide comemorativa do Visconde da

Ribeira Brava.

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liberdade, como também a sua actuação no que diz respeito ao concelho da Ribeira Brava.

As novas instalações foram inauguradas, em seguida, pelo Alberto João Jardim e o descerramento da placa comemorativa ficou a cargo da esposa, Ângela Jardim.

Durante a sessão solene, usou da palavra o Presidente do Governo Regional que poucas palavras proferiu a respeito do político laureado. As eleições autárquicas, que deveriam decorrer daí a dois meses (12 de Dezembro), foram o tema geral do discurso eminentemente político e propagandístico.

Não admira, por isso, que sobre o Visconde tivesse deixado apenas uma breve nota: as novas instalações dos Paços do Concelho correspondem ao local onde nasceu e viveu Ribeira Brava. “Que feliz combinação! Que normal sequência!”, em sua opinião, a Câmara Municipal estar instalada no concelho que ele próprio fez nascer e onde, certamente, traçou vários projectos tendentes a fomentar o desenvolvimento da Ribeira Brava e da Madeira754.

4.2. Bragança

Em Bragança, Francisco Correia de Herédia integra o conjunto de topónimos que figuram no nome das ruas da cidade.

O plano toponímico da cidade obedece a três critérios fundamentais: 1) a proveniência histórica dos nomes dos lugares, 2) a origem tradicional veiculada pelos moradores e expressa no quotidiano 3) e a nomenclatura atribuída segundo áreas ou ideias base (histórica, política, sociológica, religiosa e cultural) 755.

Disto se depreende, portanto, que a atribuição Rua Visconde da Ribeira Brava obedeceu, embora não rigorosamente, ao factor de ordem política: “nomeação de vultos naturais eminentes que de forma activa tenham sido protagonistas de factos históricos relevantes”. Além disso, parece-nos pertinente recordar as palavras peremptórias pronunciadas pelos membros da Comissão Toponímica de

754 “Paços do Concelho da Ribeira Brava”, DN, n.º 35100, 07.10.1982, p.1. 755AMB/CMB, Relatório Toponímico, sessão de 8 de Janeiro de 1991, s.p.

Fig.5 Placa toponímica da Rua Visconde da Ribeira Brava, em

Bragança.

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Bragança, quando por nós confrontados com os motivos que levaram à atribuição do nome Visconde da Ribeira Brava a uma das ruas da cidade: “entre 18 de Dezembro de 1884 a 12 de Março de 1885, Francisco Correia de Herédia desempenhou de forma meritória o cargo de Governador Civil”756.

Refira-se que a rua localiza-se na periferia da cidade, no Bairro do Campo Redondo, precisamente na área que presta homenagem à memória dos governadores civis que ali desempenharam as suas funções757.

4.3. Vidigueira

A ligação do Visconde da Ribeira Brava à Vidigueira remonta ao ano de 1871 quando, com apenas dezanove anos, contraiu matrimónio com a “mais rica herdeira do Alentejo”, D. Joana Isabel Gil Borgia de Meneses e Macedo. Foi ali que os Viscondes da Ribeira Brava, tomando como residência o antigo Convento de Nossa Senhora das Relíquias, passaram grande parte da sua vida758.

Depois, Francisco Correia de Herédia foi, por duas vezes, presidente da Câmara Municipal da Vidigueira. O primeiro mandato começou em 1890 e durou até 1893. Eleito novamente em Janeiro de 1899, voltou a ocupar a presidência por mais três anos, desta vez, porém, de forma menos intensa, faltando a muitas das sessões, nomeadamente a todas as que se realizaram no ano de 1901759. Apesar do absentismo, Francisco Correia de Herédia não deixou de se interessar pela vila e pelo povo da Vidigueira.

Nas palavras de José Caetano: o povo “guardou-o na memória como homem de acção e de ideias avançadas, humano benfazejo, que dedicou bastante simpatia à gente laboriosa e necessitada e muito fez pelo progresso da terra.” Efectivamente, assim terá acontecido e, entre as obras mais emblemáticas, importa recordar: o abastecimento de água à Vidigueira; a criação do Hospital Civil; a construção do edifício da Câmara

756 Idem.

757Idem, Toponímia de Bragança, 2001, pp.18-19. [cf. Apêndice Iconográfico: n.º96-97]. 758 “Várias Notas”, DM, n.º2282, 20.10.1918, p.1.

759 CAETANO, José A. Palma (1994), pp. 155-158. Fig.6 Placa toponímica do Largo do Visconde da Ribeira Brava, na

Vidigueira.

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Municipal; o melhoramento das ruas e das praças da vila; a construção de estradas e o abastecimento de água a Vila dos Frades760.

Não é surpreendente, portanto, que o Visconde da Ribeira Brava tenha sido homenageado pelos vidigueirenses, em sessão da câmara municipal de Janeiro de 1964. Nesta ocasião, propôs o então presidente, Joaquim Jorge de Carvalho, que fosse dado ao Largo do Poço Novo o nome de Largo do Visconde da Ribeira Brava, por ter sido ele a dotar a “vila com o abastecimento de água, por marcos fontenários, numa época em que poucas terras desta categoria usufruíam de tal regalia e, ainda por tantos outros melhoramentos com que distinguiu este concelho”. A Câmara deliberou, por unanimidade, dar-lhe “plena” aprovação761.

760 Idem.

761 AMV/CMV, Actas, L.º3, sessão de 29 de Janeiro de 1964, p.55. [cf. Apêndice Iconográfico: n.º25- 29; 96-97].

165 Conclusão

“L´écriture de cette histoire doit garder le goût de l´inaccompli, en laissant par exemple errer les libertés après qu´elles eurent été bafouées, enrefusant de rien clore, en évitant toute forme souveraine dês savoirs acquis.”

Arlette Frage, Le goût de l´archive, Paris, Seuil, 1989, p. 146.

Esta dissertação de mestrado assumiu como objectivo fulcral conhecer a vida e a obra de Francisco Correia de Herédia, conhecido por Visconde da Ribeira Brava, título a que, aliás, renunciou logo que viu arvorada a República em Portugal. Partindo da problemática equacionada, e tendo em conta a avultada quantidade de informação e as restrições temporais inerentes à realização de uma investigação desta índole, o nosso objecto de estudo circunscreveu-se ao período compreendido entre a implantação da República (05/10/10) e a data da morte de Francisco Correia de Herédia (16/10/18) – alegadamente expresso, atrás, no próprio título desta dissertação.

Neste quadro, foram quatro as principais questões formuladas, a saber: (i) quais os principais aspectos do seu perfil biográfico; (ii) quais e qual o teor das propostas apresentadas na Câmara dos Deputados e nas corporações administrativas locais e, em particular, de que forma é que estas funcionaram como veículo das reivindicações insulares; (iii) quais foram os factos e os acontecimentos que durante a 1.ª República lhe conferiram a imagem de político combativo, empreendedor e controverso; (iv) quais as homenagens que consagraram à sua memória, em território nacional.

De forma a responder às questões, socorremo-nos dos acervos documentais e jornalísticos depositados em diferentes arquivos e bibliotecas, designadamente no Arquivo Histórico Parlamentar da Assembleia da República, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, no Arquivo Regional da Madeira, no Arquivo Municipal de Vidigueira, na Biblioteca Nacional de Portugal, na Biblioteca Pública Regional da Madeira, entre outros.

Relativamente à primeira questão, sabendo que Francisco Correia de Herédia teve uma vida repleta de acontecimentos que, pela sua natureza, lhe conferiram prestígio

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e projecção a nível local e nacional. Podemos destacar essenciais na definição do seu perfil biográfico o momento em que recebeu o título de Visconde, o seu exercício como deputado, assim como as funções de Governador Civil de Lisboa, de Beja e de Bragança. Entre os momentos mais emblemáticos destacam-se, claramente, a sua participação na dissidência chefiada por José Maria de Alpoim, o seu envolvimento nos acontecimentos de 4 e 5 de Outubro e, claro, o assassinato de que foi vítima, em Lisboa, em 1918.

No que diz respeito às propostas apresentadas na Câmara dos Deputados e nas diferentes corporações administrativas locais em que participou, verificamos que Francisco Correia de Herédia exerceu uma intensa actividade política, apresentando e reivindicando a execução de medidas que, na sua opinião, iriam contribuir, por um lado, para a resolução dos problemas que proliferavam na Madeira e, por outro, para a dotação de meios e de infra-estruturas impulsionadoras de desenvolvimento económico, social e cultural.

No Parlamento, foi autor de projectos de lei e subscreveu outras iniciativas ligadas aos interesses da Madeira, salientando-se, pela sua importância, a elevação da Ribeira Brava a concelho, a aquisição de um empréstimo para a construção de uma rede de estradas, a posposta de criação de um porto franco e a fundação da Junta Autónoma das Obras do Porto do Funchal.

A Junta Agrícola da Madeira foi, indiscutivelmente, o espaço privilegiado de Francisco Correia de Herédia para fomentar o crescimento de todos os sectores de produção da ilha. A nível agrícola, várias medidas foram empreendidas. Evidenciaram- se, pela sua repercussão e inovação, os campos experimentais, a replantação das vinhas das antigas castas madeirenses e a aquisição de mananciais de água para irrigação dos campos. A fim de fomentar a replantação das florestas, destacam-se a atribuição de prémios aos proprietários que arborizassem as suas terras, a execução de um plano de sementeira para as ilhas da Madeira e do Porto Santo e a criação de um corpo de polícia rural e florestal, para a sua fiscalização.

Desenvolver o sector turístico foi outra das suas grandes aspirações. Entre as medidas mais relevantes assinalam-se os projectos para a construção de estradas e de hotéis, a edificação de portos marítimos e a realização de uma intensa campanha de

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