3.3 O ESTUDO DE CASO
3.3.5 RIGOR METODOLÓGICO – VALIDADE E CONFIABILIDADE
Sobre rigor e qualidade metodológica, faz-se necessário diferenciar dois constructos nas pesquisas: validade e confiabilidade. O primeiro relaciona-se com a lógica na análise das informações que subsidiam as conclusões do estudo. Em outras palavras, verifica a qualidade e veracidade das informações, análises e conclusões. A confiabilidade, por sua vez, associa-se com a capacidade de replicação do estudo por outros pesquisadores, obtendo os mesmos resultados por meio dos mesmos procedimentos (YIN, 2001).
Yin (2001) destaca 04 testes, relacionados com a qualidade da pesquisa: validade do constructo, validade interna, externa e confiabilidade.
Embora o autor defenda que a validade interna não deve ser objeto de preocupação em estudos exploratórios, argumenta-se que, nesta pesquisa, ela não deve ser negligenciada: embora este estudo caracterize-se por ser principalmente exploratório, não o é exclusivamente. Logo, entende-se que, para minimizar o erro de inferências nos processos investigados, a validade interna deve ser contemplada.
Ao contrário de pesquisas quantitativas, assegurar a validade e confiabilidade deve ser tarefa longitudinal em estudos qualitativos, sujeita a constante verificação em todas as etapas da pesquisa (MAYAN, 2001).
Neste sentido, algumas técnicas devem ser consideradas. Com relação à validade do constructo, que segundo Yin (2001, p. 56) refere-se ao estabelecimento de “medidas operacionais corretas para os conceitos que estão sob estudo”, dois procedimentos foram adotados: i) múltiplas fontes de evidência – por meio de entrevista, observação e análise documental (conforme seção anterior); e ii) revisão por participante e informante chave na organização – desenhados os esquemas interpretativos pelo pesquisador, em face das evidências colhidas, estes devem ser avaliados pelos participantes.
Objetiva-se alcançar coerência entre a realidade interpretada e a empírica, no contexto investigado.
Sobre o segundo item, alguns procedimentos aplicados neste estudo devem ser detalhados. Ainda durante as entrevistas, o pesquisador inferia sobre dados levantados e solicitava ao entrevistado a sua visão crítica,
questionando se a análise prévia “fazia sentido”. O objetivo era esclarecer qualquer eventual dúvida, para que inferências complexas pudessem ser desenvolvidas a partir de dados já verificados.
De posse das entrevistas transcritas – conforme detalhado na seção análise de dados –, o pesquisador elaborava, em até dez dias, relatório contendo análises e esquemas teóricos, assim como um resumo no formato de apresentação no programa power point. Em nova visita à empresa (geralmente agendada entre quinze e vinte dias após a entrevista inicial, conforme disponibilidade), os dois documentos eram apresentados ao entrevistado, que era convidado a criticar as análises. Em seguida, por solicitação do pesquisador, os documentos eram avaliados também por um terceiro participante (não entrevistado, mas envolvido no processo de internacionalização). Além de criticar os esquemas teóricos constantes no relatório e na apresentação, o terceiro participante (informante-chave) era convidado a contribuir com novos detalhes sobre a internacionalização, porventura ainda não observados e caso julgasse necessário. As análises que constam nesta pesquisa decorrem dos documentos revisados e criticados pelo entrevistado e pelo informante-chave.
Em geral os encontros duravam de 45 a 60 minutos, eram gravados (mediante autorização dos participantes) porém não transcritos. Ressalta-se que o propósito central era assegurar que os esquemas teóricos elaborados pelo pesquisador adequavam-se à realidade descrita pelos participantes.
No caso específico da empresa Alpha, devido principalmente à distância do pesquisador, as revisões foram realizadas em conjunto pelos próprios entrevistados (entrevistados 3, 4 e 5), via reunião remota, operacionalizada por skype. Neste sentido, as análises foram trianguladas com os próprios entrevistados, sem a necessidade do informante-chave. Ao final das críticas e avaliações, os esquemas foram revisados.
O quadro 11 detalha as datas e envolvidos na revisão de cada processo de internacionalização, no esforço de fortalecer a validade do constructo (YIN, 2001).
QUADRO 11 – REVISÕES DOS ESQUEMAS TEÓRICOS Fonte: Elaborado pelo autor (2014)
Sobre a validade interna, esta é julgada, de acordo com Godoy (2006), pelo alinhamento entre a descrição oferecida pelo pesquisador e a representatividade dos dados coletados. A descrição holística e cuidadosa dos casos investigados, além das comparações entre eles, auxiliou nesta tarefa.
Com relação à validade externa, que trata sobre a capacidade de expansão das descobertas de um estudo de caso (YIN, 2001), argumenta-se que a generalização estatística está além do alcance deste escopo. Objetiva-se, conforme Stake (2000), a generalização naturalística. Entretanto, algumas escolhas metodológicas refletem justamente a preocupação sobre este tópico, como a decisão sobre estudo de caso coletivo e a investigação de três processos de internacionalização sob distintos modos de entrada.
Um protocolo contendo questões, objetivos de pesquisa, dados sobre entrevistados e outras informações úteis foi adotado, com o propósito de conectar referencial teórico, realidade empírica e os objetivos do estudo, durante todas as atividades. Segundo Yin (2001), tal prática é fundamental para a confiabilidade: o protocolo pode auxiliar na replicação do estudo por outro pesquisador.
Outra técnica adotada neste sentido é a utilização de diário de campo, objetivando o registro fiel dos dados evidenciados.
Destaca-se ainda procedimento que deve permear todos os aspectos do rigor metodológico: a triangulação. Para Stake (2000, p. 443, tradução nossa), trata-se de “processo de utilização de múltiplas percepções para esclarecer significados, verificar a repetibilidade de uma observação ou interpretação”. A triangulação também auxilia na identificação de diferentes visões do mesmo fenômeno, ampliando o leque de pontos de vista sobre o processo de internacionalização. Nesta pesquisa, dados e informações coletadas via entrevista, observação e análise documental foram cruzadas e comparadas, principalmente – mas não exclusivamente – na etapa de revisão dos dados e
Entrevistado Informante-Chave
BXB Soft 08 de Setembro Sócio-Presidente (entrevistado 02) Gerente Administrativo Alpha Tecnologia 26 de Setembro
Cinq Technologies 05 de Dezembro Sócio-Diretor (entrevistado 06) Gerente Financeiro
Organização Data da Revisão Revisores
Gerente Administrativo (entrevistado 03), Gerente de Projetos (entrevistado 04) e Analista de Teste (entrevistado 05), mediante triangulação
esquemas teóricos. O intuito era fornecer visão holística sobre a gestão organizacional do risco no processo de internacionalização.
O quadro 12 resume os procedimentos adotados nesta pesquisa, sobre o rigor metodológico.
QUADRO 12 – RIGOR METODOLÓGICO
Fonte: elaborado pelo autor (2014), a partir de Yin (2001)