3 EITHER THIS OU AQUILO: UMA SELETA
3.1 O CAVALINHO BRANCO
3.1.2 Rimas
As rimas são uma das características poéticas mais significativas deste poema. Da mesma maneira como o ritmo neste “Cavalinho” é feito com alternância entre versos longos e breves, no esquema rímico as rimas se alternam entre incompletas (toantes) e completas, acompanhando a alternância dos versos: toantes entre dois versos ímpares/longos e completas entre dois versos pares/breves. Acredito que consegui boas correspondências para todas as rimas, embora, para tanto, também tenha lançado mão de acréscimos, coloridos com realces azuis no Quadro 3.
A meu ver, dentre os acréscimos neste poema, o menos defensável é o primeiro, no 2º verso do 1º dístico: “castaway”, ou ‘infeliz’, ‘abandonado’, ‘inútil’. Não que o sentimento de infortúnio seja alheio ao poema ou ao cavalo. O sentimento está lá, é real – quando o cavalinho fica feliz ao se libertar dos afazeres e das rédeas para poder brincar no seu pedacinho do campo, depreendemos que ele estava infeliz antes, quando preso e subjugado ao trabalho.
Por esse ângulo, a menção à infelicidade do cavalinho por meio do ‘castaway’ pode até ser justificada. Ocorre que boa parte da beleza de um texto poético está em dizer coisas sem dizê-las, como Cecília faz neste poema: lemos sobre o cansaço do cavalinho e sobre sua alegria, não sua infelicidade, que fica na surdina, velada.
Embora o resultado seja musical e agradável aos ouvidos – há rima completa entre ‘holiday’ e ‘castaway’ – este é um dos pontos do poema a que eu volto com constância na tentativa de encontrar solução melhor. A propósito, aventei algumas alternativas a ‘holiday’ na esperança de evitar o uso de ‘castaway’, como se vê no Quadro 1. Mas estou convencida de que o uso de feriado/holiday faz parte da estratégia da autora de indicar que a voz poética pertence a uma criança que faz uso da língua de maneira livre e lúdica. Feriados ocorrem no tempo, não no espaço, mas neste poema tempo e espaço se confundem: o cavalo é solto no pasto ao fim do dia e sua felicidade ali é tamanha que ‘onde’ e ‘quando’ se fundem e ‘onde’ é o próprio feriado. É preciso usar holiday. Ou, no máximo, Sunday74.
74Esse caso do “pedacinho de campo onde é sempre feriado” lembra o poema
“Manuel em pelote domingueiro” que Cecília dedicou a Manuel Bandeira (ver pp. 57-58 deste estudo), em que ela diz: “O pelote foi-lhe dado/ para o domingo somente./ Mas bem sabe toda gente/ que é domingo e feriado/ se Manuel está presente.”.
Pensei recentemente em outra opção para rimar com “holiday” (e assim evitar o uso de “castaway”), que estou cada vez mais inclinada a usar: “grey”. Em última instância, grey também remete a “tristonho”, mas, sobretudo, remete à própria cor do cavalo, abrindo as possibilidades de leitura em lugar de fechá-las (como “castaway” parece fazer). A ideia de que um cavalo branco se sinta “cinzento” ao fim do dia, me parece acrescentar algo de enigmático a seu cansaço.
Considero simpática a próxima alteração que ousei no 11º e 12º versos. O original diz “e ele ensina aos ventos/ a alegria de sentir livres/ seus movimentos”. Aventei outras ideias e opções tradutórias, como a que se vê na terceira coluna do Quadro 1 (and the four winds learn /the joy of having freedom /to move without concern), mas ao evoluir do geral (seus movimentos) para o concreto particular (nos verbos amble, trot, sprint), tive a chance de tornar mais dinâmica a imagem de um cavalo em movimento75, e rimar ‘wind’ em full assonance com o verbo ‘sprint’, incluindo, dessa maneira, mais um vocábulo com [ ] na versão em inglês, para recompor o som vocálico mais recorrente no original, como veremos na seção “Efeitos fônicos”, logo mais.
O último acréscimo do poema, no 14º verso, “till the night came”, foi realizado com o fim de compor rima com “golden mane” do último verso. O 14º verso do original é enxuto, sem verbos, “desde a madrugada!”, complementando o 13º verso, “trabalhou todo o dia tanto!” Entretanto, eu diria que o verso “from dawn till the night came” como tradução para “desde a madrugada” pode ser considerado uma “tradução com latitude”, já que o acréscimo “till the night came” não foge ao escopo do poema e “mantém o autor ao alcance dos olhos”, conforme sugerido por Franca Neto (2008b; ver também p. 110 desta dissertação). “Till the night came” de certa forma reitera algo que acaba de ser dito: se o cavalo “trabalhou todo o dia”, é porque ele trabalhou o dia inteiro: começou cedo e foi até à noitinha. Sendo assim, “from dawn till the night came” é apenas outra forma de dizê-lo, com a vantagem de resolver a correspondência rímica com a assonância entre “came” e “mane”.
75 Cecília Meireles não abusava da enumeração, mas a usava com naturalidade,
provocando uma aparente aceleração do ritmo como vimos no Capítulo 1 (p. 35 do presente estudo). “Canção da flor de pimenta” e “Procissão de pelúcia”, de Ou isto ou aquilo, fazem uso desse recurso.
3.1.3. Efeitos fônicos: assonâncias, nasalizações
“O cavalinho branco” é rico em tônicas com “i” que ecoam por todo o poema – cavalinho (2x), crina (2x), pedacinho, comprida, atira, vida, relincho, raízes, ensina, alegria, sentir, livres, dia – 15 palavras ao todo, o que contribui para lhe dar um ar de meiguice, uma vez que sons identificados com vogais agudas, como [i] ou [ ], remetem a coisas finas e esguias, que repicam e saltitam, e especialmente a coisas pequeninas, micro, mínimas (lembrando também que diminutivos em português se fazem com os sufixos inho/inha). Em inglês dá-se o mesmo: palavras com a vogal frontal aguda [i] também remetem a coisas miudinhas, esguias, little, bittie, pigmy, itsy-bitsy, teeny-weeny, thin, slim, spring; uma explicação possível é a pequena abertura da boca quando sons com “i” são pronunciados; outra é que objetos pequenos, ao cair no chão, emitem som agudo mais semelhante ao “i” (EIFRING, 2005).
Com isso em mente, algumas escolhas tradutórias foram feitas para tentar recriar a presença marcante do “i” no original: para traduzir ‘relinchar’, preferi “whinny” a “neigh”; para ‘atirar’, preferi “fling” a “throw” ou “hurl”; para ‘entre’, preferi “amid” a “among”. Um dos motivos para que eu não arredasse pé da enumeração “to amble, trot and sprint” para traduzir “seus movimentos”, a despeito das liberdades tomadas, foi o ecoar do [ ] em “sprint”. Assim, no poema traduzido temos little (3x), feels, piece, flings, giving, free, whinnies, teaches, wind, freedom, sprint, till, amid, 15 palavras com diferentes sons de “i”, mas dentro do quadrante frontal agudo e meio agudo, que parecem manter razoável correspondência em relação às 15 palavras do original português, já citadas.
Outra graciosidade deste poema cheio de pequenas gemas é a nasalização com “m” e “n”, que lhe confere um ar lírico de brandura, além dos encontros consonantais com “r” que, em contrapartida, lhe conferem certa trepidação, que poderíamos identificar com os cascos do cavalo trotando. Embora mereçam destaque pela engenhosidade, tais efeitos poéticos, por serem os mais sutis, ocuparam o último lugar na hierarquia que idealizei para tentar recriar correspondentes no poema traduzido. Enquanto no original temos 11 encontros consonantais com “r” – branco; sempre; crina; comprida; branca; estremece; alegria; livres; trabalhou; entre; madrugada –, na tradução temos apenas sete: ground; free; tremble; freedom; trot; sprint e from. Por outro lado, enquanto em português temos apenas um encontro consonantal com “l” – flores – na tradução temos seis – blond; flings; tremble; amble;