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1.1 O BARÃO DO RIO BRANCO: NASCE UM NOVO PARADIGMA DE POLÍTICA EXTERNA

1.1.3 Rio Branco e o seu legado: um paradigma formado

A passagem de Paranhos Júnior na condução da pasta das relações exteriores do Brasil constituiu um marco na história da política externa brasileira. Esse marco foi não só pelo fato do Barão ter servido a quatro diferentes presidentes, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Nilo Peçanha e Hermes da Fonseca, mas por ter ajudado a formar as relações especiais com os Estados Unidos, relações estas que continuaram por décadas como o cerne da política externa brasileira.

A percepção realista e o modo pragmático como o Barão conduziu a aproximação para com a então potência continental em expansão serviu para o Brasil alcançar seus principais objetivos internos que poderiam ser obtidos no cenário internacional, quais sejam, a busca de uma supremacia compartilhada na área sul-americana, restauração do prestígio internacional do país, intangibilidade de sua soberania, defesa da agroexportação e a solução de problemas referentes aos limites do país. Naquele momento, portanto, a melhor alternativa para o país alcançar seus interesses seria a aproximação com os norte-americanos, uma vez que, dada a conjuntura econômica e o contexto internacional, não havia uma outra opção coerente onde o país pudesse implementar sua política.

É claro que, para a persecução de suas metas, a aproximação com os norte- americanos, dentro das especificidades do momento, constituiu condição sine qua non para o

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BANDEIRA, Moniz. Relações Brasil-Estados Unidos no contexto da globalização – A presença dos Estados Unidos no Brasil. São Paulo: Ed. SENAC, 1998, pp. 167-71.

país lograr êxito. A adoção da Doutrina Monroe e do Americanismo serviram de aparato político para o alcance dos objetivos traçados em 1902, consubstanciados na aproximação pragmática com a potência continental, evidenciado pelo apoio às políticas monroístas e pela demonstração frente aos vizinhos que sua política não se constituía de caráter imperialista.

A imprensa estrangeira, mais precisamente a Argentina, expressa nos diários La

Nación e La Prensa, via as relações especiais como uma constante ameaça ao subsistema de

poder sul-americano. Exemplo que ilustra bem esse alarmismo se deu quando da reorganização naval brasileira, conforme expôs Cervo, Bueno, Moniz Bandeira. Nesse sentido, com o intuito de superar eventuais dúvidas relativas ao posicionamento imperialista brasileiro na América do Sul, Rio Branco, sempre que tinha a oportunidade, buscava aproximação com os países do subsistema. A título ilustrativo, cabe salientar o caso da solução dos limites com o Uruguai, situação em que o Brasil cedeu a este “espontaneamente e sem compensações, o condomínio da Lagoa Mirim e do Rio Jaguarão, em nome da concórdia sul-americana”53 e o ideário do Pacto ABC.

A política econômica brasileira também seguiu o americanismo. Os Estados Unidos incrementavam sua participação no comércio brasileiro, principalmente no tocante às importações, haja vista que aquele país era o maior consumidor do principal produto brasileiro de exportação: o café. Dessa forma, a percepção do Barão era no sentido de atender aos interesses dos agroexportadores e acentuar a relação com os norte-americanos, possibilitando ao Estado o alcance de seus objetivos. O prestígio internacional do país também se revigorava, na medida em que com o apoio do principal país do continente às atitudes brasileiras (ou mesmo com o seu silêncio), a visão que o país apresentava no cenário internacional era de maior credibilidade do que antes da gestão do Barão, em que as instituições da República ainda não estavam consolidadas.

Enfim, a presença do Barão do Rio Branco constituiu um grande passo para mudança do eixo de dependência do Brasil de Londres para Washington, redirecionando os interesses brasileiros para o novo centro de poder que se formava e abrindo espaço para a consolidação do eixo fundamental e norteador da política externa brasileira. Tendo a amizade norte- americana como trunfo, eram evitadas dificuldades em Washington, capital que era o

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CERVO, Amado e BUENO, Clodoaldo. História da política exterior do Brasil. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, p. 197.

principal foco de intrigas contra o Brasil, abrindo margem para poder utilizá-la em seu favor.54

A morte de Rio Branco, em 10 de fevereiro de 1912, foi reconhecida unanimemente por toda a imprensa, pelo Governo, pelo povo, como uma grande perda.55 Teria início, a partir de então, o cultivo do eixo ornamental da política externa brasileira, pois os sucessores do Barão não conseguiram instrumentalizar com a mesma eficiência a relação especial que o país detinha com os Estados Unidos para o alcance dos desígnios nacionais.

Embora o Barão e em menor medida Nabuco não tenham, a rigor, promovido uma inflexão na política externa brasileira, uma vez que, apesar da maestria com que desenvolveu as relações externas do país, não tenha se afastado dos padrões monárquicos, além de ter consolidado e aprofundado tendências, cravou marcos permanentes nas subseqüentes gestões da política externa brasileira. A imersão em um novo paradigma de cunho americanista, com primazia no sentido pragmático da aproximação aos Estados Unidos, lançou sementes que germinaram ao longo de aproximadamente 50 anos, constituindo-se, portanto, no legado do Barão. Essa mesma política de aproximação foi desenvolvida, com oscilações em relação a sua desenvoltura, até meados da década de 1930. Cumpre salientar o papel de Lauro Müller após a gestão do Barão, intensificando as relações econômicas e aprofundando a amizade especial.

Dessa forma, utilizando-se dos conceitos levantados por Goldstein e Keohane56 em relação a idéias e política externa, as visões de mundo tanto de Rio Branco como de Nabuco caminhavam no mesmo sentido, uma vez que ambos tinham uma percepção da realidade semelhante, vislumbrando desde então que os Estados Unidos eram uma potência regional emergente com possibilidades de expansão econômica e política. Ademais, as percepções

normativas e de princípio, parâmetros com os quais os atores trabalham para fazer

julgamentos valorativos acerca de determinada realidade, eram análogos. Naquelas circunstâncias em que emergia uma nova potência regional, a conduta mais correta a ser adotada pelo país era aproximar-se e, conseqüentemente, extrair os benefícios dessa aproximação. A última das categorias levantadas pelos dois autores, as crenças causais, que consistem em relações de causa-efeito que levam à adoção de determinada estratégia em

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VILALVA, Mario. O Barão do Rio Branco: seu tempo, sua obra e seu legado. RBPI, Ano 38, n.º 1, 1995. CONDURU, Guilherme Frazão. O subsistema americano, Rio Branco e o ABC. RBPI, Ano 41, n.º 2, 1998. BUENO, Clodoaldo. A política externa da Primeira República: os anos de apogeu de 1902 a 1918. São Paulo: Paz e Terra, 2003, p. 155.

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AMADO, Gilberto. Rio Branco. Ministério das Relações Exteriores. Serviços de Publicação, 1947, p. 27.

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GOLDSTEIN, Judith e KEOHANE, Robert. Ideas and foreign policy: an analytical framework. In: GOLDSTEIN, Judith e KEOHANE, Robert. Ideas and foreign policy: beliefs, institutions, and political change. Ithaca and London: Cornell University Press, 1993, p. 8-11.

detrimento de outra, no caso em comento foi externalizado para a relação especial mantida pelo Brasil com os Estados Unidos. Nesse sentido, estabelecendo uma lógica de inter-relação entre as três categorias de idéias, e aplicando-as à política externa desenvolvida pelo Barão, tem-se que as crenças causais, a estratégia adotada para a atuação internacional do país, levaram à aproximação com os Estados Unidos, legitimada pelas percepções normativas de que aquela conduta era a mais acertada, que, por sua vez, só poderiam ser entendidas de acordo com as visões de mundo que tanto Rio Branco como Joaquim Nabuco tinham, ou seja, a percepção que os Estados Unidos eram uma potência emergente e que poderiam ajudar o país a alcançar seus objetivos internacionalmente.

1.2 A TRANSIÇÃO ORNAMENTAL E A CONTINUIDADE AMERICANISTA DA