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3 A Festa religiosa e a modernidade em Natal-RN

3.1 Rio de Janeiro: exemplo de cidade moderna

A Revolução Científico-Tecnológica, em 1870, disseminou de maneira rápida pelo mundo uma grande variação de novidades tecnológicas como: veículos automotores, transatlânticos, aviões, telégrafos, telefone, iluminação elétrica, utensílios eletrodomésticos, fotografia, cinema, arranha-céus e seus elevadores, rodas-gigantes, anestesia, medidor de pressão arterial, comidas enlatadas, refrigerador e sorvetes, raios X, etc. Como podemos observar, imensa foi a gama de inovações tecnológicas criadas no período e que prometiam transformar a vida humana. Novidades que atingiram um dos seus maiores níveis na última década do século XIX e na primeira do século XX, nos países mais desenvolvidos da Europa e nos Estados Unidos, os quais foram os propagadores do ideal de ‘moderno’, que influenciou intensamente os objetivos de vida da elite brasileira logo no início do século XX355. Ou seja, muitos brasileiros detentores de patrimônio econômico e político queriam levar o Brasil a participar do seleto grupo das nações modernas e desenvolvidas como pesquisado pelo historiador Nicolau Sevcenko.

Ele argumentou que os administradores da cidade do Rio de Janeiro, capital da República, foram os primeiros a trabalhar no sentido de modernização da cidade para melhorar as condições sanitárias do espaço urbano como meio de acabar com as endemias:

355 SEVCENKO, Nicolau. Introdução. O prelúdio republicano, astúcias da ordem e ilusões do progresso. In: NOVAIS, Fenando A. (coord.). SEVCENKO, Nicolau. (Org.). História da vida privada no Brasil. São Paulo, 1998, p. 8-11.

malária, tuberculose, lepra, varíola, febre amarela; as quais assolavam a população nacional e estrangeira356. Outro grande entrave para tornar o Rio de Janeiro uma cidade moderna foi a questão da pequena capacidade do porto para as modernas embarcações como os transatlânticos. Também as vias urbanas, constituídas pelas opções das ruas do período colonial formadas por apertadas e tortuosas vielas que complicavam a passagem dos caminhões e ainda mais quando iam de encontro com veículos de tração animal nos espaços apertados, dificultando assim a ágil disseminação das mercadorias pelo país357.

Para a administração pública era urgente resolver esses problemas para que a cidade fosse melhorada estruturalmente, que a economia fosse favorecida com a ampliação do porto e que as ruas possibilitassem a rapidez no trânsito das mercadorias importadas ou exportadas do Rio de Janeiro, fator importante para a economia do país. O plano foi realizar a modernização do porto a partir do projeto de reforma estruturado pelo engenheiro Lauro Müller, nomeado pelo presidente Rodrigues Alves. Segundo, o saneamento da cidade conforme as recomendações do médico sanitarista Oswaldo Cruz também nomeado pelo presidente. Finalmente, o terceiro objetivo foi a reforma urbana conduzida pelo engenheiro Pereira Passos, que havia acompanhado a reforma urbana de Paris, a partir da iniciativa do barão de Haussmann358, cidade francesa que foi um dos grandes modelos, se não o ideal máximo, de estrutura urbana e código social que muitos brasileiros almejaram vivenciar.

Para a concretização dos projetos organizados pelos técnicos citados, o poder público forneceu poderes ilimitados para a execução de cada proposta, até mesmo, tornando-os imunes a ações judiciais de qualquer natureza. O imperioso era que a cidade fosse tornada moderna a qualquer custo. Como a história apresenta, a despesa não foi somente de natureza monetária porque caiu nas mãos da população pobre o custo de perder as suas humildes moradias no entorno do porto, e ainda sem receber qualquer indenização ou realocação. As justificativas apontadas foram que os casarões da área central eram foco de insalubridade, cerceavam o acesso ao porto, bloqueavam o livre fluxo indispensável em qualquer cidade moderna359 e, imaginamos que, talvez, não seguissem o ideal de beleza transmitido pelos estilos das construções modernas parisiense.

356 Ibidem, p. 22.

357 Idem.

358 Ibidem, p. 22-23.

A “ditadura do bota a baixo” complicou ainda mais a situação de vida das famílias pobres da cidade, que perderam o importante bem da moradia, fosse ela digna ou não aos olhos dos mais favorecidos socialmente, os quais concebiam a derrubada como a “regeneração” como propagado pela imprensa que saudou e entendia enquanto positiva as demolições. Restou às famílias pobres procurar um outro lugar para viver, recolhidos os pertences que puderam salvar e reunidos os parentes, juntaram restos de madeira dos caixotes de mercadoria soltos no porto e com eles multidões deslocaram-se da área alvo da reforma, foram para as encostas dos morros da cidade e construíram barracões360, era o princípio das favelas que coexistirão com a cidade modernizada, segundo Nicolau Sevcenko.

Outra opção de moradia foram os “zungas”, nos quais famílias alugavam esteiras no chão e alinhadas uma ao lado da outra viviam em condições sub-humanas, também em cortiços e hotéis baratos. A “Administração da Saúde” criou batalhões de visitadores que iam para as casas acompanhados da força policial e invadiam o local para realizar uma vistoria, se fossem achados sinais de riscos sanitários os barrocões, “zungas”, cortiços eram evacuados e condenados à demolição. Os moradores foram contra as invasões e os riscos da perda da moradia, dessa forma, rebelaram-se contra a força policial e as medidas sanitárias, movimento que ficou conhecido como a Revolta da Vacina, ocorrida em 1904361.

Figura 5 avenida Central e na esquina a rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, 1906, Augusto Malta. FONTE: SEVCENKO, Nicolau, 1998, p. 29.

360 Idem.

361 SEVCENKO, Nicolau. Introdução. O prelúdio republicano, astúcias da ordem e ilusões do progresso. In: NOVAIS, Fenando A. (coord.). SEVCENKO, Nicolau. (Org.). História da vida privada no Brasil. São Paulo, 1998, p. 23-24.

A fotografia de Augusto Malta (Fig. 5), em 1906, retrata o expressivo símbolo da “regeneração” carioca, a avenida Central, a qual surgiu com a derrubada dos casarões da cidade imperial. A ampla avenida atendia ao interesse da livre circulação dos automóveis, espaços reservados ao transitar dos pedestres e juntos aos artigos das refinadas lojas, certamente as construções deviam ser exemplo da salubridade esperada pelo poder público, as fachadas eram no estilo art nouveau, feitas de mármore e cristal, com os imponentes lampiões da moderna iluminação elétrica na rua. Sevcenko informa também que os homens para andar na avenida precisavam estar vestidos a caráter: calçados, meias, calças, camisa, colarinho, casaco e chapéu. As mulheres com os mais chiques tecidos, cortes e chapéus franceses362.

Os pedestres que caminhavam pela av. Central não se cumprimentavam mais em português “mas repetiam uns aos outros: ‘Vive la France!’”363 devido o desejo pela civilidade

francesa; enquanto os pobres não podiam transitar nesse espaço público, porque só era permitido para os favorecidos socialmente. Aqueles que não estivessem de acordo com o ambiente era impedido de entrar na elegante avenida, segundo Sevcenko, esse foi um exemplo de segregação espacial pela condição financeira, estética, etiqueta social.

A Revolução Científico-Tecnológica produziu tecnologias que levaram a humanidade a ter novas experiências. Um deles foi o dramaturgo Victor Hugo, quando ele começou a viajar de trem percebeu que a perspectiva da paisagem rural que podia ver da janela causou uma impressão de que as flores se tornaram manchas. Os campos de trigo quando vistos do trem pareciam mais com “cabeleiras loiras desgrenhadas”, as cidades, as torres das igrejas e as árvores faziam “uma dança louca” fundindo-se no horizonte. A velocidade do trem era a responsável por oferecer essa nova perspectiva sobre a paisagem que Victor Hugo precisava se adaptar. A tecnologia inventada no final do século XIX criou as condições para que as pessoas tivessem novas experiências no ambiente, por isso, a tecnologia atraiu e causou muito espanto364.

O cinema foi também uma tecnologia que ofereceu uma nova experiência ao público. O filme “A chegada do trem na estação”, de Louis Limière, em 1895, foi um dos primeiros filmes exibidos na Europa. O escrito Máximo Górki assistiu e comentou ‘De repente há um estalo, tudo se apaga e um trem numa ferrovia aparece na tela. Ele dispara como uma flecha

362 Ibidem, p. 26.

363 Idem.

364 SEVCENKO, Nicolau. A capital irradiante: técnica, ritmos e ritos do rio. In: NOVAIS, Fenando A. (coord.). SEVCENKO, Nicolau. (Org.). História da vida privada no Brasil. São Paulo, 1998, p. 516.

na sua direção – cuidado!’365 Este comentário sugere a novidade, o escritor pontua uma sequência do que acontecia na sala preparada para a exibição: o estalo, a luz apagada e o trem vindo na tela é o conjunto de uma nova experiência na qual Górki observa cada detalhe e sugere ao leitor cuidado, porque parecia que o trem passaria por cima da plateia, esse era o impacto que a imagem causava e que o espectador não estava acostumado. O trem vindo em uma velocidade até então inimaginável, realmente, causou pânico e correria nos impressionados e assustados expectadores366. Tudo era muito novo, diferente e rápido. As pessoas precisavam se acostumar com tantas novidades e não demoraram para conseguir, logo nas primeiras décadas do século a cultura de muitas sociedades já estava dependente da variada tecnologia moderna367.

No Brasil, a grande expressão de cidade moderna era o Rio de Janeiro, a “metrópole- modelo”, segundo Sevcenko. Metrópoles impulsionadas pela nova velocidade de construção de prédios possibilitada pela luz noturna como informa esse historiador, a velocidade e variedade de opção de transporte de deslocamento promoveram um grande movimento migratória e uma enorme expansão das cidades transformadas em grandes centros como foi o caso do Rio de Janeiro. Nela, as pessoas poderiam experimentar muitas das inovações técnicas e sentir que estavam no centro dos acontecimentos importantes do país, porém, a urbanização trouxe também muitos males como a poluição do ar, doenças, a convivência com multidões estranhas368.

Mesmo com o aspecto negativo da poluição e com a superpopulação citadina, os governantes e moradores do estado do Rio Grande do Norte também queriam melhorar a condição material da cidade de Natal e introduzir o modo de vida moderno que fazia a fama do Rio de Janeiro. Nesse sentido, os primeiros governantes republicanos pertencentes à família Albuquerque Maranhão trabalharam para conseguir alcançar esses objetivos. Neste período, segundo os historiadores Raimundo Arrais369, Alenuska Andrade e Márcia Marinho as elites natalense, principalmente, preocuparam-se em dotar a cidade de Natal com uma nova

365 De acordo com Máximo Górki, citado por SEVCENKO, Nicolau, 1998, p. 517.

366 SEVCENKO, Nicolau. A capital irradiante: técnica, ritmos e ritos do rio. In: NOVAIS, Fenando A. (coord.). SEVCENKO, Nicolau. (Org.). História da vida privada no Brasil. São Paulo, 1998, p. 517-518.

367 Ibidem, p. 514-619.

368 Ibidem, p. 553-554.

realidade material (corpo) e imaterial (alma) que a fizesse ser inserida em um novo tempo e modo de vida próprios de uma cidade classificada como moderna.