CAPÍTULO III – REGIME JURÍDICO DA LOCAÇÃO FINANCEIRA RESTITUTIVA
1. ESPECIFICIDADES DO SEU REGIME JURÍDICO
1.2. RISCO DE PERDA E RISCO DE DETERIORAÇÃO DA COISA
Cumpre agora abordar o problema de saber sobre quem impende o risco de perda ou o risco de deterioração do bem locado e quais as consequências que daí advêm para o contrato de locação financeira restitutiva e para os respetivos contraentes, partindo da análise efetuada quando estamos diante de um contrato de locação financeira155.
Dispõe o art. 15º do DL nº 149/95 que, “salvo estipulação em contrário, o risco de perda ou deterioração do bem corre por conta do locatário”.
As próprias cláusulas contratuais constantes de um contrato de locação financeira traduzem, por regra, esta orientação. O locatário suporta entre outros, os riscos de destruição, de furto, de roubo, de inundação, de explosão, de desgaste prematuro ou anormal do bem locado pelo valor de reposição156. Esta opção legislativa prende-se, seguramente, com o facto de
o locatário ser o proprietário económico da coisa. Acresce que o locatário desfruta do bem na vigência do contrato e suporta, em simultâneo, os custos com a sua manutenção e com a sua
pública e aos bons costumes, aplicando-se-lhe deste modo a sanção da nulidade. De notar que o negócio usurário pode constituir simultaneamente um crime – art. 284º do CC e art. 226º do Código Penal.
155 FERNANDO DE GRAVATO MORAIS, Manual da locação financeira, ob. cit., pp. 163-168.
156Idem, p. 163. Na prática estrangeira são correntes as cláusulas deste género. Em Itália, ALESSANDRO MUNARI, “Il leasing finanziario nella teoria dei crediti di scopo”, ob. cit., p. 294 e em Espanha, MATILDE PACHECO CAÑETE, El contrato de lease-back, ob. cit., pp. 135-136. Esta última autora faz referência ao uso deste tipo de cláusulas nos contratos de lease-back.
conservação (art. 10º, nº 1, als. e) e f) do DL nº 149/95), assim como todos os encargos a ele relativos.
Ou seja, os riscos relativos ao gozo do bem ficam a cargo do locatário financeiro. Realce ainda para o facto de a propriedade jurídica da coisa servir apenas para tutelar os específicos interesses do locador, designadamente o de assegurar o risco de inadimplemento do locatário, limitando-o ao financiamento concedido157. O locatário não tem assim como escapar ao risco de
perda ou risco de deterioração do bem, ainda que a causa da perda não lhe seja imputável. E isto porque é ele também quem tem a guarda do bem locado. O que foi dito vale também necessariamente para o contrato de lease-back.
Para fazer face à disciplina consagrada, a lei impõe, porém, ao locatário a obrigação de “efetuar o seguro do bem locado, contra o risco da sua perda ou deterioração e dos danos por ele provocados” – art. 10º, nº 1, al. j) do DL nº 149/95158. A solução encontrada procura, deste
modo, evitar o prejuízo económico do locador financeiro, visto que este é o beneficiário da indemnização a pagar pela seguradora, e obstar a um grave desequilíbrio contratual em prejuízo do locatário159.
O locatário financeiro tem, pois, o dever de celebrar um contrato de seguro, na qualidade de tomador, com a entidade seguradora. Este seguro deve necessariamente cobrir na totalidade “o risco de perda ou deterioração do bem”.
No caso de perda total da coisa, são aplicáveis as regras do contrato de locação previstas no Código Civil, ou seja, o contrato de locação financeira restitutiva caduca “pela perda da coisa locada” – art. 1051º, al. e). Na maioria das situações, o clausulado contratual geralmente prevê que a resolução opera apenas para o futuro, tendo o locatário direito a receber o valor da indemnização paga pela companhia de seguros ao locador, deduzindo o montante global das prestações ainda devidas e do valor residual. Em relação ao pagamento dos valores em causa, o contrato estipula que o locador é o beneficiário da indemnização. Sendo assim, cabe-lhe receber diretamente da entidade seguradora a soma correspondente ao valor do bem. Ulteriormente, encontra-se adstrito a entregar ao locatário a quantia recebida, deduzida da
157Idem, p. 164. ISABEL ANDRADE DE MATOS refere que na locação financeira restitutiva o locador não quer fruir do bem, mas sim conceder um financiamento e garantir o retorno do seu investimento, razão pela qual a manutenção do bem compete ao locatário financeiro no caso de lease-back. É também por essa razão que o risco de perecimento ou deterioração do bem corre por conta do locatário financeiro num contrato de locação financeira restitutiva –O Pacto Comissório: Contributo para o estudo do âmbito da sua proteção, ob. cit., p. 200.
158 MATILDE PACHECO CAÑETE refere que é usual incluir nos contratos de locação financeira restitutiva cláusulas que obrigam o locatário a celebrar um contrato de seguro contra danos causados no bem locado –El contrato de lease-back, ob. cit., pp. 136-137.
importância relativa às rendas vincendas e porventura da soma correspondente ao valor residual160.
Por sua vez, em caso de mera deterioração da coisa, cabe ao locatário proceder à reparação ou à recuperação da coisa locada. Os custos decorrentes desta operação são da inteira responsabilidade do locatário. De referir que não lhe é permitido deixar de pagar as rendas estipuladas. Depois de comunicado o problema relacionado com o bem à entidade seguradora, por parte do locatário, deve, isso sim, o locador entregar a este a indemnização recebida de tal instituição (não está excluída, porém, a possibilidade do locatário subrogar-se na posição do locador e exigir, nessa sequência, diretamente da companhia de seguros a quantia indemnizatória)161.
Por fim, o contrato não se extingue em caso de mera deterioração da coisa. E isto porque, desde logo, as partes pretendem manter o contrato de locação financeira restitutiva, caso contrário não seria promovida a reparação do bem locado a qual é, de todo, incompatível com a resolução contratual.