CAPÍTULO 1 ENQUADRAMENTO TEÓRICO
1.3 RISCO E VULNERABILIDADE NAS SITUAÇÕES VIVENCIADAS
Embora o conceito de vulnerabilidade seja utilizado em diversas áreas e contextos, nesse trabalho, o enquadramento teórico se balizará pelos estudos das áreas da Saúde, Educação e Sociologia. Inicialmente o conceito é definido a partir da perspectiva de diversos autores, sendo depois relacionado às teorias relativas à Inclusão social e educacional.
16 Na esteira de Bourdieu (56), entende-se “invisibilidade” como a ausência de respostas
às situações de vulnerabilidade que possam colocar os alunos em risco de exclusão educacional, consequentemente social. Segundo esse autor, a escola, na intenção de incluir, mas sem fazer as mudanças necessárias em sua estrutura acaba por excluir de modo dissimulado em seu interior aqueles a quem se propõe incluir.
Além das diversas formas de exclusão decorrentes de AFEC, dificuldades de aprendizagem, restrições no acesso e permanência dos alunos na escola, na sua participação ou interação com os pares, existem outras situações que podem gerar ou perpetuar a exclusão. São algumas: a falta de acesso a espaços sociais, de lazer e serviços de saúde; a violência, exploração, falta de vínculos afetivos, e falta de cuidados básicos etc (14, 91).
Estar em situação de vulnerabilidade é indicativo de um amplo leque de situações, desde: desvantagens sociais, cognitivas, motoras, emocionais e sensoriais; pertença a minorias étnico-raciais e a meios socioeconômicos estigmatizados; problemas de ordem familiar, nacionalidade, língua; orientação política, sexual ou religiosa contra hegemônicas; dificuldades acentuadas de aprendizagem, dentre outros aspectos. Ter em conta estes diversos fatores exigem da escola suprema atenção no sentido de eliminar todas as barreiras que afetam os alunos (92).
Segundo Vitello et al (93) um dos principais objetivos da educação inclusiva é o de eliminar a exclusão social, que surge em boa parte em decorrência de atitudes e respostas inadequadas frente à diversidade de raça, classe social, etnia, religião, gênero e habilidade. Na lógica desses autores, a Inclusão, ancorada no respeito, representa o exercício do direito à igualdade, à diversidade e à diferença por parte de todos os alunos.
O conceito de vulnerabilidade apresenta alta capacidade heurística e aplicação diferenciada. Os autores relacionam estados de vulnerabilidade com complexos processos de fragilização Biopsicossocial ligados a fatores biológicos, existenciais e sociais (16).
Segundo os autores:
“É evidente que tanto a vulnerabilidade biológica quanto a existencial e social se apresentam como uma constelação de eventos que ameaçam conduzir a uma precipitação catastrófica, que se apresenta de duas formas: como a situação originária de uma limitação normativa vital (isso no nível biológico) ou como a impossibilidade de afirmação e exercício da liberdade e autonomia relativa (nos níveis existencial e social). Se acreditarmos que essas dimensões são inextricáveis, então, a vulnerabilidade é multidimensional e inespecífica, porque seus efeitos e desenlaces perturbam o indivíduo como um todo. ”
Após a realização de levantamento sistemático sobre o uso do conceito de vulnerabilidade, os autores informam que tal conceito ainda não está cristalizado na literatura. Para exemplificar, citam várias abordagens encontradas, como: publicações que expressam uma relação determinista entre aquilo que é considerado fator de risco como a pertença a grupos étnicos ou de orientação sexual contra hegemônicas e a situação socioeconômica dos indivíduos. Ainda segundo os autores referenciados, outros estudos associam variáveis relacionadas às condições de vida, etnia, cultura, renda, tipo de moradia, escolaridade, identidade de gênero, dentre outros, como fatores que podem colocar os indivíduos em situações de vulnerabilidade. Algumas publicações tomam como referência determinantes pouco específicos, como gênero, etnia, classe socioeconômica, baseiam-se na lógica de que a intersecção de tais variáveis poderia produzir estados de vulnerabilidade. Esses estudos ancoram-se em determinismos históricos, prendem-se nos pontos de convergência entre variáveis, visando explicações mecanicistas e deterministas a respeito das situações de vulnerabilidade que os alunos venham a enfrentar (16).
Entretanto, na perspectiva dos autores referenciados, a maioria dos estudos procura compreender como as dinâmicas sociais, educacionais e culturais agem de modo dialético com aspectos individuais, criando condições capazes de perpetuar ou expor indivíduos a situações de vulnerabilidade (16).
Embora, de difícil definição e operacionalização nos mais diversos contextos, principalmente no campo da EI, como aqui se pretende, cabe ressaltar que os sistemas escolares não podem passar inertes às situações que perpetuem ou coloquem os alunos em situações de vulnerabilidade e consequente risco de exclusão educacional, cabendo à escola e seus profissionais prover meios e recursos que deem conta de atender as especificidades de todos os alunos. Ressalta-se que a escola não é responsável pela “solução” de todas as mazelas sociais, entretanto seu papel de promotora de ações de aprendizagem e desenvolvimento de processos capazes de melhorar a qualidade de vidas das pessoas impele à escola agir na direção da redução das desigualdades sociais.
No campo da saúde, os estudos sobre vulnerabilidade surgiram entre as décadas de 1980 e 1990 e estavam associados à epidemia de HIV/AIDS. O principal propósito desses era identificar e descrever situações que pudessem explicar comportamentos sociais que aumentavam o perigo de transmissão. À época, foram
pensados inúmeros desenhos de intervenção com foco na atenção integral, nos processos de conscientização e mobilização social, tendo como base o exercício dos Direitos Humanos. (94,95)
Já no campo da Sociologia, os estudos sobre vulnerabilidades com foco na abordagem comportamental foram aos poucos cedendo lugar para as análises de fatores sociais e culturais que possibilitassem uma compreensão mais holística dos fenômenos: “[...] interativos e sinérgicos, como pobreza, opressão sexual, racismo, a exclusão social, genericamente descritos como formas de violência estrutural” (96).
Na mesma direção, Abramovay et al, (14), consideram que o conceito de vulnerabilidade se vincula à indivíduos que experimentam processos de exclusão de espaços sociais, como a escola e serviços de saúde; violência; exploração; falta de vínculos afetivos; inanição, drogadição; falta de cuidados básicos e insucesso escolar. Essas ideias remetem a Goffman (90) quando apontam que o preconceito com que as pessoas com deficiência lidam cotidianamente também pode constituir um fator de exclusão dos espaços sociais.
Indivíduos que experimentam algumas das situações descritas anteriormente demonstram (92):
“Autoestima consideravelmente comprometida. Estes jovens e suas famílias introjetam as falhas próprias de sua condição histórico-social como atributos negativos pessoais. De forma circular e quase inevitável, este ciclo se instala, não só no nível material, como no nível afetivo. Desde muito jovens, percebem- se como inferiores, incapazes, desvalorizados, sem o reconhecimento social mínimo que as faça crer em seu próprio potencial como ser humano. ”
No campo da educação, o conceito de vulnerabilidade sustenta-se na lógica de identificar e descrever situações que possam impor restrições à aprendizagem e participação dentro da escola ou à exclusão desse espaço social. Relaciona-se diretamente com o risco de exclusão enquanto possibilidade gerada pela ausência de resposta por parte dos sistemas escolares para situações que impactam a aprendizagem e participação, as quais os alunos estejam vivenciando.
O conceito de vulnerabilidade busca renovar estratégias de intervenção no campo da EI, ampliando a capacidade de resposta dos sistemas escolares por meio do combate às situações que possam promover barreiras/ restrições à aprendizagem
e participação e do estímulo ao trabalho colaborativo com diversos setores, como: Saúde, Assistência Social, Proteção Civil, dentre outros.
Nessa direção, o conceito de vulnerabilidade não deve respaldar-se em simplismos e determinismos, como: alunos com deficiência não alcançarão sucesso escolar devido à presença de uma AFEC ou alunos pertencentes a etnias contra hegemônicas sofrerão preconceito e serão excluídos da escola. Pelo contrário, a consciência de estados de vulnerabilidade de qualquer natureza permite elaborar um planejamento que anteveja os meios, parcerias e recursos necessários para que todos os alunos sejam incluídos na escola e tenham suas necessidades amparadas por ela.
Segundo Ferreira (97):
“Na condição de elementos-chave, os (as) educadores (as) devem transformar-se em “agentes de proteção de alunos e alunas que se encontram em situação de maior vulnerabilidade na escola”. Nesse papel, os (as) educadores (as) devem se comprometer com a identificação, a busca de soluções e a remoção das situações que geram tal vulnerabilidade, ao mesmo tempo em que asseguram sua educação em condições igualitárias. ”
Na mesma direção, Ainscow (98) sustenta que:
“O objetivo da educação inclusiva é eliminar a exclusão social que resulta de atitudes e respostas à diversidade com relação à etnia, idade, classe social, religião, gênero e habilidades. ” A escola é o espaço de todos e a todos deve servir. Cabe-lhe, por isso, prover respostas às demandas daqueles que atende, não pode estar inerte às necessidades/ características/ potencialidades, objetivando a promoção dos Direitos Humanos por meio da Inclusão e da redução das barreiras e restrições a aprendizagem, interação e participação de todos com todos, não se restringindo a grupos específicos, destinando especial atenção a todos aqueles que enfrentam situações de vulnerabilidade.
Perspectiva corroborada por Ainscow, (98) quando informa que:
“Há uma tendência crescente de se ver a exclusão na educação de forma mais ampla, em termos de superação da discriminação e da desvantagem de grupos vulneráveis a pressões excludentes. Em alguns países, esta perspectiva mais ampla está associada aos termos Inclusão social e exclusão social. Quando usada em um contexto educacional, a Inclusão social
tende a se referir a questões de grupos cujo acesso às escolas esteja sob ameaça. A linguagem da Inclusão e da exclusão social passa a ser usada mais especificamente para se referir a crianças que são (ou correm o risco de ser) excluídas da escola e salas de aula. ”
Ainda segundo o mesmo documento:
“Este uso mais amplo da linguagem da Inclusão e da exclusão é, portanto, um tanto fluido. Ele parece indicar que pode haver alguns processos comuns que ligam as diferentes formas de exclusão experimentadas por crianças com deficiências, crianças que foram excluídas de suas escolas por razões disciplinares e pessoas que vivem em comunidades pobres. Deste modo, parece haver um convite para explorar a natureza desses processos e de suas origens em estruturas sociais. ” A Inclusão representa um dos maiores desafios a serem enfrentados pela escola. A heterogeneidade de contextos, situações, características e recursos necessários transformam a Inclusão para todos num processo extremamente complexo, exigindo dos sistemas escolares respostas também complexas, especialmente para aqueles que vivenciam formas de vulnerabilidade que geram ou perpetuam processos de exclusão (99,100).