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A Epidemiologia pode ser definida como uma ciência relativamente jovem,

marcadamente relacionada à intervenção técnica no campo biomédico e situada na fronteira

entre disciplinas científicas muitos diversas em seus objetos e metodologias, com discussões

epistemológicas internas que delimitam a problemática de sua identidade, mas que,

simultaneamente, garantem sua legitimidade, interesse e particularidade de sua identidade

científica (CZERESNIA, 1993).

No âmbito da saúde, o conceito de risco epidemiológico trouxe contribuições

importantes na área da epidemiologia. Sinteticamente, o risco epidemiológico pode ser definido

como a probabilidade de ocorrência de um determinado evento relacionado à saúde, estimado

a partir do que ocorreu no passado. Para Castiel (2003) risco pode ser objetivado e delimitado

em termos de possíveis causas e através de estatísticas estabelecendo nexos, associações e

correlações.

A ênfase dada ao conceito de risco na epidemiologia se articulou com as contínuas

mudanças da sociedade. Neste sentido, Ayres (1997) buscou compreender as condições de

emergência histórica e as implicações práticas sobre o conceito de risco na epidemiologia. No

final do século XIX e início do XX, o conceito de risco assumiu um caráter descritivo, ou seja,

uma condição objetiva de grupos populacionais expostos às epidemias e outras condições

desfavoráveis de saúde, e que utilizava métodos matemáticos como instrumento auxiliar.

A Epidemiologia descrevia os modos de transmissão e constituiu um modelo explicativo

dominante desde o final do século XIX até os anos 50, explorando o comportamento das

doenças infecto-contagiosas. Foram com as descobertas de Pasteur, na segunda metade do

século XIX, que fundamentaram uma grande revolução conceitual em relação ao processo de

adoecimento, muito embora a noção de contágio já existisse anteriormente, ou seja, que

microorganismos específicos podem causar patologias específicas. Estas descobertas pareciam

apontar para um caminho seguro, em que para cada efeito poderia ser estabelecido por uma

causa: os fatores de natureza biológica (GUILAM, 1996).

No pós II Guerra Mundial, o conceito risco passou a designar probabilidades

quantificadas de caráter individual à suscetibilidade de agravos à saúde, em função de agentes

agressores ou protetores, vinculando-se às ciências biomédicas. Este período marcou a

incipiência da epidemiologia do risco, e indicava uma correlação entre fatores individuais e

sociais e não mais uma condição populacional. Os estudos passaram a ter um significado

associativo, com caráter especulativo entre eventos e causas, utilizando ferramentas

matemáticas para validar as categorias do modelo de estudo e garantir uma objetividade

definida. Esta estruturação foi crucial no desenvolvimento da epidemiologia de doenças não

infecciosas, onde o paradigma do contágio e da transmissão não é aplicável. Não por acaso,

neste momento emergiu o preventivismo, com práticas apoiadas nos cuidados individuais e uma

releitura dos processos saúde-doença.

Em decorrência destas mudanças, a epidemiologia ganhou estatuto de ciência (AYRES,

1997) e de validade através da consolidação do conceito de risco e estabeleceu como unidade

lógica o indivíduo, não buscando a suscetibilidade geral das comunidades em processos

específicos, mas a influência de processos gerais em indivíduos específicos. O risco, como

elemento central da argumentação, permitiu organizar em torno de si as constatações da

epidemiologia.

Pela ênfase nas associações causais entre fatores e efeitos, diversos estudos da medicina,

utilizando o método epidemiológico, focalizaram em descobrir os fatores de risco e seus

aspectos fisiopatológicos com vistas a intervir sobre os processos em saúde-doença,

transformando o sentido de risco. Assim, fatores de risco passaram a ser reconhecidos como o

sinal/sintoma, tornando-se uma entidade clínica, incorporada a um perfil patológico específico,

e segundo Almeida-Filho “no final do processo, talvez pela inércia do processo de construção

dos discursos em sua essência linguística, aparentemente cumpre-se o ciclo com risco

terminando por denotar doença” (1992, p.142).

A relação espaço-tempo foi redimensionada no sentido do adoecer: a identificação de

possíveis riscos, mesmo nas pessoas sadias, mediante técnicas sofisticadas de diagnósticos, e a

dimensão cronológica, assumiram importância no modelo explicativo de processos de

adoecimentos. No discurso biomédico vimos a condição medicalizável se tornar expoente, não

só como projeto de estender a longevidade, mas uma medicalização como consumo e

instrumento de melhoramento individual, tornando-se parte da condição de bem-estar

(BEZERRA JR., 2007).

Epistemologias e os Paradigmas da Epidemiologia

A Saúde Coletiva emergiu na década de 1970 e se formulou em meio à crítica das

tradições institucionais de matrizes biomédicas da saúde pública brasileira e convergiram com

as novas ênfases nos contextos socioeconômicos e processos de determinação social da saúde-

doença. Profissionais de saúde, acadêmicos, partidos políticos e movimentos sociais criaram

instituições de ação política e de produção científica cuja base normativa influenciou a agenda

de políticas e a construção de conceitos e valores. A institucionalização em estruturas

acadêmicas, políticas e nas políticas de saúde é a marca distintiva da Saúde Coletiva brasileira.

Construiu-se um campo híbrido, congregando tanto a produção acadêmica tradicional

da biomedicina, da epidemiologia baseada em evidências de estudos experimentais, quanto em

novas formas de produção baseadas em abordagens históricas e sociais orientadas à formulação

e à implementação de políticas. Conforme amplamente documentado na literatura (NUNES,

2009) o campo da saúde coletiva se constitui por três espaços e formações disciplinares muito

distintos: a Epidemiologia, as Ciências Humanas e Sociais, e a Política, Planejamento e Gestão.

Essa diferenciação interna ao campo ocasionou uma tensão epistemológica,

notadamente entre os enfoques epidemiológicos-biomédicos e das ciências humanas e sociais,

polarizando entre indivíduo e coletivo, biológico e social. Com isto, gerou uma cisão que

permeia o processo saúde-doença entre as diferentes racionalidades ciências sociais-ciências

naturais, em que o biológico - na esfera das ciências naturais - é do mundo das leis fixas; e o

social - na esfera das ciências sociais - é do mundo das transformações e crises (IANNI, 2008c).

A tensão entre conceitos de biológico e social marcou a discussão da Saúde Pública no

Brasil. Na discussão do projeto científico da Saúde Coletiva, Stotz (1997, p. 278) afirma que

“foi em torno da complexa relação, proposta na tradição científica ocidental, entre objetos

distintos do ponto de vista epistemológico - o biológico e o social que os desafios foram postos”.

As críticas ao paradigma biomédico foram tomadas pelas disciplinas da Saúde Coletiva, e em

meados da década de 1970, a preocupação sobre os determinantes sociais das doenças ganharam

notoriedade na Medicina Social e na Epidemiologia.

A revisão destes referenciais incorporou as ciências sociais na compreensão dos

processos saúde-doença encorpando o arcabouço conceitual, que, em sua essência, colocava em

xeque a concepção biologicista ao destaque do social.

A introdução da concepção histórico estrutural na saúde marcou a incorporação de

categorias que modificaram os marcos analíticos da Epidemiologia. As principais mudanças se

deram na substituição de causalidade biológica para determinação social, e assim, a formulação

do conceito de processo saúde-doença. Com a inclusão do conceito de determinação social, o

princípio da historicidade política, econômica e cultural passou a ser considerado, e permitiu

também superar o pensamento linear causal, de bases funcionalistas, abrindo espaço para a

compreensão dos contextos complexos e contraditórios (IANNI, 2008c).

O campo da Saúde Coletiva estruturou suas bases, portanto, na crítica ao biologicismo,

funcionalista e desvinculado do social (MENDES-GONÇALVES, 1990). A Epidemiologia

participou desse movimento construindo um marco teórico social, crítico, próprio, sob as bases

de um sujeito coletivo, denominada então de Epidemiologia Social.

O primeiro momento de constituição desta vertente consistiu basicamente em um

rearranjo das explicações causais proporcionadas pela Epidemiologia clássica. Ao se constatar

que a atomização, a homogeneização, a dissolução e a naturalização do social sob a forma de

“fatores causais” servia para obscurecê-lo, parecia óbvia a consequência de examinar tais

fatores enquanto fatos sociais dotados de sentidos, e articular uma explicação sociológica dos

“fatores causais” com a explicação epidemiológica de causação das doenças. Em um segundo

momento, ocorreu uma invasão parcial do núcleo de investigação epidemiológica por

categorias essencialmente sociológicas (MENDES-GONÇALVES, 1990).

Neste sentido as contribuições da Epidemiologia Social trouxeram uma reflexão sobre

a ótica individualizada dos modelos metodológicos de risco tradicionais, demonstrando como

o processo saúde-doença tem, efetivamente, um caráter histórico e social. A literatura desta

vertente da epidemiologia tem vasta obra de autores como Laurell, Breilh, Samaja, entre outros,

e de modo amplo, conceitualizaram a ideia de determinação articulando-a com outros processos

sociais.

As razões do (re)aparecimento desta polêmica devem ser buscadas tanto no

desenvolvimento da medicina como na sociedade com a qual ela se articula (LAURELL, 1982).

O principal motivo que deu origem ao questionamento do paradigma médico-biológico foi

interno à própria medicina, qual encontrava dificuldade de gerar um novo conhecimento que

permitisse a compreensão dos principais problemas de saúde que afligiam os países

industrializados: as enfermidades cardiovasculares e os tumores malignos. Além disso, emergia

uma crise da prática médica, especialmente no cenário latino-americano, em que a medicina

clínica não oferecia solução satisfatória para a melhoria das condições de saúde da coletividade,

fato que se demonstrou ou na estagnação dessas condições em grandes grupos ou na sua franca

deterioração.

Apesar de ter incorporado aspectos sociais à construção do objeto saúde-doença, a

Epidemiologia Social deu relevância a um aspecto do social. O conceito hegemônico de social

foi relativo as noções de estrutura, modo de produção, potencial de desenvolvimento, o aparelho

de estado e as políticas estatais e as condições de vida da população e a reprodução das

condições de classe. Ou seja, isto significa que “os conceitos e biológico e social a partir dos

quais se construiu a crítica ao objeto biomédico, são os biológicos e os sociais instituídos pela

divisão científica e disciplinar com bases no saber do século XIX” (IANNI, 2009, p.1032).

A formulação do conceito de determinação social foi construída sem que se

aprofundasse a crítica à concepção mesma de biológico, que, mesmo destacando a relevância

do social no processo saúde-doença, manteve o conceito de biológico intocado,

desconsiderando sua determinação e construção histórica. Como o conceito de biológico

permaneceu ileso - a partir de visão de concepção epistemológica – o componente do social foi

apenas incorporado ou agregado, sem uma revisão ao conceito que faz crítica.

Este fato marcou amplamente o debate sobre biológico e social que prosseguiu, em que

mesmo com imenso avanço na incorporação dos determinantes sociais dos processos saúde-

doença, não ocorreu na mesma medida um aprofundamento da discussão sobre o caráter

histórico-social dos fenômenos biológicos em si. O que vemos é uma disciplina que, em certa

medida, se torna refém do objeto clínico biomédico, sem mergulhar na crítica ao biológico e

aos atributos do social a ele inerentes (IANNI, 2009).

No bojo da discussão do social na epidemiologia, além dos tópicos já abordados, a noção

de fator de risco também se faz presente. A maioria dos fatores de risco identificados como de

natureza social - tais como “hábitos” (alimentação, lazer, exercício, fumo, álcool, etc), o

consumo de determinados bens ou serviços, a exposição a poluentes químicos ou físicos, etc -

são transformados em um conjunto inestruturado de fatores que provocam consequências sobre

os indivíduos de uma vida social que se desenvolve exteriormente a eles. Ou seja, o social não

se torna propriamente inatingível, mas alvo de intervenções tópicas, possíveis em algumas

circunstancias e não em outras, sem que se levante a possibilidade de discussão de que se trata

de decorrência da própria racionalidade da reprodução social. Isto configura a capacidade de

instrumentalização em que não se considera o social estruturado e substantivo que se oculta por

trás do social atomizado e “natural” incorporado no modelo hegemônico, o que demonstra a

dimensão social concebida da saúde e da doença sob a forma de atributos individuais

(MENDES-GONÇALVES, 1990).

Importante lembrar que a Epidemiologia só se constituiu enquanto disciplina científica

após a sistematização do conceito de doença, assim, seu objetivo se estruturou por referência

ao saber clínico. O marcante este entrelaçamento entre estas duas disciplinas é encontrado na

fonte de determinante do objeto da Clínica, localizável no campo epidemiológico, e na

definição do objeto epistemológico, subordinado ao campo da Clínica (ALMEIDA-

FILHO,1992). A construção do objeto epidemiológico inicia-se no determinante

epidemiológico – ou configuração do risco – que incide sobre dado coletivo ou população,

produzindo um subconjunto de doentes ou potencialmente doentes, especificados a partir da

perspectiva clínica. Isso significa que a Epidemiologia aborda o coletivo a partir da produção

da doença clínica, configurada a partir do indivíduo.

A Clínica e a Epidemiologia encontram-se vinculadas epistemologicamente. Ambas

tratam de corpos sociais: enquanto a primeira se refere ao sujeito considerando suas

particularidades, a segunda aborda o coletivo e busca generalidade. A atuação individualizada

da prática clínica não deixa de ser uma intervenção sobre corpos sociais por tratar de um sujeito

determinado historicamente e socialmente (ALMEIDA-FILHO,1992).

O modo pelo qual a clínica opera reduções sobre o indivíduo doente, na busca da

constituição de um conceito positivo de doença, teve impacto nas delimitações das relações do

indivíduo, e por seu próprio fundamento, a individualização dos casos. Isto expressa que a

clínica procede a uma redução ao biológico, não apenas enquanto recurso metodológico, mas

também enquanto prática de intervenção (MENDES-GONÇALVES, 1990).

Em torno da década de 80, um outro movimento ocorre nos estudos epidemiológicos

ganhando destaque: Epidemiologia Clínica ou Medicina Baseada em Evidências, estabelecendo

inter-relações entre a clínica e a epidemiologia. Barata (1996) aponta que a Epidemiologia

Clínica pretendeu superar os impasses da clínica e da epidemiologia, sugerindo uma releitura

nos imperativos da abordagem individual, obscurecendo o caráter social, próprio da disciplina.

A epidemiologia clínica apareceu como síntese entre dois campos da clínica e da

epidemiologia, retendo de um o objeto e de outro o método, respectivamente. Mas, utiliza em

seu discurso um tom ambíguo: recusa a experiência acumulada pela clínica por considerá-la

não científica e não moderna, e, até certo ponto, recusa também o conhecimento produzido pela

epidemiologia tradicional, retendo dela apenas os principais instrumentos e métodos de

investigação (BARATA, 1996). Ao se apresentar como a face científica da medicina clínica e

como a versão naturalizada da epidemiologia, a epidemiologia clínica se coloca em um papel

ideológico de delimitação daquilo que pode ou não pode ser objeto de investigação científica

no campo da saúde e da doença, ainda, de que maneira tal objeto pode ser abordado e manejado

tecnicamente.

Esta indicação da dimensão ideológica da epidemiologia clínica não pretende negar as

possíveis contribuições que a mesma possa ter trazido para a prática da investigação científica

no campo da clínica médica. Os conhecimentos produzidos nas questões relativas à validação

de procedimentos diagnósticos, eficácia de técnicas de intervenção e ao estabelecimento de

prognósticos estão modificando de maneira significativa a prática clínica. O que se quer

evidenciar aqui é o caráter ideológico de tal movimento, que se apresenta, simultaneamente,

como capaz de conferir maior “cientificidade” aos conhecimentos empíricos da clínica e aos

conhecimentos “excessivamente” contaminados pela sociologia na epidemiologia.

Entretanto, reduzir a investigação epidemiológica aos estudos de eficácia de

procedimentos diagnósticos e terapêuticos aplicados a grupos de pacientes, faz com que a

epidemiologia clínica opere sua redução mais significativa na realidade, excluindo do campo

médico os estudos em que o caráter social do processo saúde-doença possa ser evidenciado

(BARATA, 1996).

Cabe destacar, após esta breve retomada histórica da produção do conhecimento

epidemiológico que, mesmo com as modificações radicais pelas quais passou a epidemiologia,

não houve uma ruptura epistemológica na produção desse conhecimento. Ou seja, apesar das

tentativas de tornar a epidemiologia ‘mais social’, sua estrutura, conceitos e práticas ainda estão

voltadas à questão do biológico e amparada pelas biotecnologias. Ainda, a ideia de um social

como uma esfera autônoma e que a natureza no caso a biologia, é sua subordinada (COSTA &

COSTA, 1990). Esta postura provocou um distanciamento da crítica científica em pensar a

tradição instituída da clínica como objeto em si, assumindo a compreensão do biológico como

uma realidade externa e imutável, portanto, fora das interrogações da teoria do conhecimento

sobre o social e o biológico.

Na tentativa da construção do social na Epidemiologia, desenvolveu-se uma vastíssima

discussão sobre a Saúde e a Doença, em sua manifestação biológica. Nesse construto, o

biológico adquiriu uma especificidade de fenômeno mínimo aplicado na noção de

“biologicismo” (MENDES-GONÇALVES, 1990). A situação implicada parece ser, então,

reposicionar o marco da determinação biológica e social, e recolocar o que é entendido por

biológico e por social pela Epidemiologia. Este construto é marcado pela antinomia social-

biológico(natureza) e pode ser desmembrado em individual e coletivo. É assim que “a

Epidemiologia encontra no social societário, em oposição a um biológico ‘biologicista’, a

explicação do processo saúde-doença” (IANNI, 2008 p.39).

A adoção de risco como conceito inerente à epidemiologia trouxe em seu bojo tensões

sobre a saúde individual e coletiva, modelo biomédico e o da determinação social da doença.

Convivemos assim com suas ambiguidades e nesse sentido, problematizar de que modo o

conceito de risco permanece presente na sociedade, mas levando em consideração as

transformações sociais, merece uma problematização importante.

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