CAPÍTULO 3 – RISCO & CONFIANÇA: UMA DIMENSÃO INTEGRATIVA
3.1. O risco e a “sociedade de risco”
A observação sociologicamente mais detida acerca da dimensão social da ideia de risco é uma empreitada relativamente recente, que se vincula, fundamental-mente, a uma relação entre probabilidade, dano, antecipação, previsibilidade e con-trole de acontecimentos não necessariamente naturais209ˉ210.
206 Em Tempos Líquidos, Bauman (2007) consigna cinco desafios da modernidade tardia que aca-bam atingindo a ordem social: a) fluidez da organização social; b) a desvinculação entre poder e política; c) o despojamento da crença na segurança da vida em comunidade; d) as necessidades de curto prazo sobre as de longo prazo; e e) a responsabilização dos indivíduos.
207 BAUMAN, op. cit., p. 32.
208 Conforme esposado na seção metodológica deste trabalho, a atenção aqui será dedicada à in terpretação exemplificativa tida pelos autores, ou seja, não exauriente de sua bibliografia e, tam -pouco, almejante de construção de uma teoria própria, abstraída de tais leituras.
209 MENDES, José Manuel. Sociologia do risco: uma breve introdução e algumas lições. Coimbra:
Imprensa da Universidade de Coimbra, 2015, p. 15.
210 Conforme afirma Beck (2011, p. 9), “contra as ameaças da natureza externa, aprendemos a construir cabanas e a acumular conhecimentos. Diante das ameaças da segunda natureza, ab-sorvida no sistema industrial, vemo-nos praticamente indefesos.”
Inicialmente, para adentrarem-se as especificidades dessa observação socio-lógica, cabe resgatar a explicação do conceito de risco, tal qual o faz Ulrich Beck211: o risco detém uma explicação sócio-histórica importante que está para antes da mo-dernidade. O autor aponta que o risco havia, na dimensão pré-moderna, como uma delimitação fundamentalmente pessoal ou local, ou seja, afligia um âmbito que era contingenciado a um espaço micro: a pessoas, cidades, regiões e locais determina-dos. Na dimensão moderna e industrial, os riscos vêm acompanhados da ideia de desenvolvimento produtivo e da ubicação translocal e transindividual de seus efeitos:
“Os riscos e ameaças atuais diferenciam-se, portanto, de seus equivalentes medievais, com frequência semelhantes por fora, fundamentalmente por conta da globalidade de seu alcance (ser humano, fauna, flora) e de suas causas modernas. São riscos da modernização. São um produto de série do maquinário industrial do progresso, sendo sistematicamente agravados com seu desenvolvimento ulterior.”212
Os riscos da modernidade projetam, pois, um contínuo agravamento da situa-ção produtiva e projetam um imaginário social que passa a considerar a sua existên-cia como parte constitutiva, a exemplo da ideia de ameaça ou perigo. Anthony Gid-dens213, na trilha do conceito, reforça a visão que vincula risco e modernidade, no que finda na derrogação entre fortuna e explicação divina para os males mundanos:
“O risco e o perigo, como vivenciados em relação à segurança ontológica, tornaram-se secularizados juntamente com a maior parte dos outros aspec-tos da vida social. Um mundo estruturado principalmente por riscos huma-namente criados tem muito pouco lugar para influências divinas, ou de fato para as propiciações mágicas de forças ou espíritos cósmicos.”
É com base nas observações supra que Beck formula sua observação social do risco, conforme cinco teses ou hipóteses214: 1) o risco se diferencia da riqueza e é ilustrado na dimensão científica e tecnológica pela radioatividade e poluição, tendo como características a irreversibilidade e a invisibilidade, as quais inculcam as subje-tividades a interpretações de causa e efeito; 2) o risco produz ameaças globalizadas que são partilhadas por todas as classes sociais (“efeito bumerangue”) e que outor-gam desníveis internacionais entre países de industrialização clássica e tardia; 3)
211 BECK, 2011, p. 25.
212 Ibid., p. 26, grifo do autor.
213 GIDDENS, 1991, p. 123.
214 BECK, op. cit., pp. 27-28.
riscos reiteram a lógica capitalista da produção (“canibalização econômica”), mas se-meiam situações sociais de ameaça e a agência política sobre os riscos; 4) riscos se relacionam à inculcação ou conhecimento deles próprios, não sendo posses, mas atribuições que afetam as sociedades; e 5) a definição social dos riscos aviva o po-tencial político que passa a dominar as pautas do que seria a sociedade de risco.
Com efeito, o conceito de risco de Beck exprime o notável viés sociológico da sua análise, que serve de base inderrogável para entender a sua sociologia do risco.
Conforme insculpido em seção anterior, a modernidade veio acompanhada de uma importante modificação na gestão da vida que foi a industrialização215. Aliada à ideia de industrialização, de modernização e de inovação, vem o rompimento com as certezas e a instituição de inseguranças e de medos216. Conforme lembra Giddens, acerca de uma sociedade de risco global, “uma vez que o nosso futuro pessoal é hoje em dia muito menos previsível em relação ao que se passava nas sociedades tradicionais, todo o tipo de decisões implicam riscos para os indivíduos.”217ˉ218
Tudo isso deságua numa importante constatação, a ser encabeçada pela análise sociológica de Ulrich Beck219: a transformação da sociedade industrial clássi-ca em uma sociedade de risco. A sociedade industrial tem, em confluência com as observações de Bauman, um apreço pela ideia de estabilidade e de progresso: é uma modernidade sólida220; é, pois, atrelada a uma modernização que é tida como simples221, ocorrida sobre a tradição222, cujo progresso se assenta na produção e na distribuição de riquezas, sob um norte de racionalização de primeiro grau223.
Já a sociedade pós-industrial passa a ser motivada por uma outra moderniza-ção, a ser aprofundada na seção seguinte deste trabalho, radicada numa
racionali-215 ARON, 1981.
216 BAUMAN, 2007.
217 GIDDENS, 2008, p. 69.
218 No mesmo sentido, Beck (2011, p. 25, grifo do autor) afirma que “no processo de modernização, cada vez mais forças destrutivas também acabam sendo desencadeadas, em tal medida que a imaginação humana fica desconcertada diante delas.”
219 BECK, 2011.
220 BAUMAN, 2001.
221 Beck (2011) aponta que a sociedade industrial operou uma modernização simples sobre a socie-dade pré-moderna.
222 Apercebe Giddens que “a tradição representa não apenas o que “é” feito em uma sociedade, mas o que “deve ser” feito. (…). Tradição é repetição, e pressupõe uma espécie de verdade que é a antítese da indagação racional” – neste aspecto compartilha algo com a psicologia da com-pulsão.” In: GIDDENS, Anthony. “A vida em uma sociedade pós-tradicional”. In: BECK, Ulrich;
GIDDENS, Anthony; LASH, Scott. Modernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. São Paulo: Editora Unesp, 1997, pp. 84-85.
223 BECK, op. cit.
zação de segundo grau que põe em xeque as premissas fundantes da sociedade in-dustrial que veio para substituir a ordem feudal ou pré-moderna de antes224. De acor-do com Beck, essa nova modernidade que se perfaz numa reflexividade225, torna-se avessa a um dos pilares característicos da modernização simples: o mito da socie-dade industrial. De acordo com o autor, esse seria
“o mito de que a sociedade desenvolvida, com sua articulação esquemática de trabalho e vida, seus setores produtivos, seu pensamento em categorias de crescimento econômico, sua compreensão científica e tecnológica e suas formas democráticas, constitui uma sociedade inteiramente moderna, o ápi-ce da modernidade, para além do que nada de razoável existe que possa sequer ser mencionado.”226
A sociedade de risco surge, pois, na contestação desse arcabouço mítico da sociedade industrial e passa a considerar a transnacionalização ou transescalarida-de227 dos riscos, bem como de uma ideia de destradicionalização228. Segundo José Manuel Mendes229, sociólogo português que investiga a sociologia do risco,
“o risco é, para Beck, um estádio intermédio entre a segurança e a destrui-ção, e a percepção dos riscos ameaçadores determina o pensamento e a ação. No risco o passado perde o seu poder de determinar o presente. É o futuro, algo que é construído, não existente, que constrói o presente, e os riscos são sempre locais e globais, assumindo uma dimensão transescalar.”
Com efeito, essa demarcação global do risco característica da sociedade de risco é um dos pontos nevrálgicos da diferença insculpida com a sociedade industri-al, que era tida como de égide fundamentalmente local ou não global230.
Na sequência do estudo acerca da sociedade de risco, Beck pontua sobre a destradicionalização231 de culturas e tradições sociais de grandes classes e grupos
224 BECK, 2011.
225 A reflexividade, como será posto no tópico 3.2. desta monografia, é o mote fundamental à teoria de Beck, porquanto vem como uma estratégia de questionamento ou de autoconfrontação de premissas que não mais são entendidas como fonte de explicação para o contexto social pós-industrial, ou seja, para a sociedade de risco.
226 BECK, op. cit., p. 14, grifo do autor.
227 MENDES, 2015.
228 Cf. GIDDENS, 1997, pp. 123-127.
229 Ibid., p. 24.
230 BECK, op. cit.
231 Uma observação muito interessante acerca desse termo é a tecida por Anthony Giddens (1997, p. 124), principalmente no que tange à desconstrução da ideia de comunidade local. O autor propõe que essa dissolução deságua na conformação de costumes locais em relíquias (práticas e objetos dotados de significado) ou hábitos (rotinas individuais que unificam corpos, obtidas, na ordem pós-industrial, por efeito de sistemas abstratos).
sociais que eram naturalmente delineados pela sociedade industrial232. Dentro dessa questão dos costumes que passam a ser repensados, Beck disserta acerca da mi-gração institucional havida no seio da tradicional família nuclear. Aqui, a observação seminal de Beck recai sobre os papéis entre homens e mulheres e como a emanci-pação feminina engendrou efeitos decisivos sobre a estrutura familiar tradicional da ordem industrial. Segundo o autor, a família tradicional era a nuclear, fortemente cal-cada na distinção dos papéis de gênero:
“sem a distinção dos papéis de mulheres e homens, não haveria família nu-clear. Sem família nuclear, não haveria sociedade industrial em seu esque-matismo de vida e trabalho. (…) Por outro lado, essas posições desiguais estão em contradição com os princípios da modernidade e, na continuidade dos processos de modernização, tornam-se problemáticas e conflitivas. Mas no curso da equiparação efetiva de homens e mulheres, os fundamentos da família (casamento, sexualidade, paternidade, etc.) são colocados em ques-tão.”233
A modernização da sociedade de risco alterou, pois, as formas fundamentais de socialização familiar e de conformação dos laços familiares. Houve, pois, uma de-cisiva atenção ao papel das mulheres nesse processo234. Contudo, conforme propõe o autor, persiste uma problemática estrutural que recai no fato de uma instabilidade que tende ao retorno à estamental família nuclear235, pois subsistem desigualdades na relação da mulher com o trabalho, com a vida doméstica e com a família236.
Ademais da questão da família, o autor aborda o tema da individualização237. Inicialmente calcado num modelo universal triplo radicado nas dimensões da liberta-ção, do desencantamento e do controle, que ele considera como orientados pela di-mensão vertical das condições objetivas de vida238, o autor enfoca o caráter socio-histórico da individualização.
232 BECK, 2011, p. 16.
233 Ibid., p. 161.
234 Conforme, propedeuticamente, lembra Giddens (1991, p. 175), “o feminismo participa da reflexi-vidade da modernidade assim como todos os movimentos sociais.” Por constituir movimentos so-ciais, o autor pontua que o feminismo enquadra-se em uma reação de adaptação a riscos, for-mando um “engajamento radical” (GIDDENS, 1991, pp. 150-151).
235 BECK, op. cit., p. 180.
236 Ibid., p. 181.
237 Em perspicaz observação, Beck (2011, p. 191) diferencia a dimensão objetiva da individualização perante a dimensão subjetiva da individuação: “um dos maiores equívocos ligados ao termo “individualização” reside na equiparação (e dela se alimenta) com o campo superior direito da tabe -la [consciência/identidade subjetiva]: muitos associam “individualização” com individuação, for-mação da personalidade, singularidade, emancipação.”
238 Ibid., pp. 190-191.
Nessa toada, o autor pontua a transformação da vida privada239 que se distan-cia do livre arbítrio, para adensarem-se condicionamentos sodistan-ciais padronizados, os padrões biográficos: “em outras palavras, as individualizações conduzem as pesso-as a uma padronização e um direcionamento controlados de fora, para os quais os nichos das subculturas estamentais e familiares sempre foram estranhos.”240
Beck também alia a discussão sobre a sociedade de risco com a dimensão do trabalho: a insidiosidade que provoca a onipresença do setor produtivo na vida indi-vidual, dissolvendo “as fronteiras entre trabalho e ócio”241 e a inclusão estrutural do desemprego em massa. Aqui, o autor pontua que “assim como a família, a profissão perdeu, por sua vez, suas antigas garantias e funções tutelares.”242, no sentido de que a ideia otimizada de emprego passou, na modernidade tardia, a designar uma situação estrutural de subemprego e de flexibilização das condições de trabalho243.
Merece menção, como desfecho dessa questão, a breve exposição que Beck tece sobre a educação: no âmbito da sociedade de risco, há a contradição entre educação e trabalho, conforme uma errante estação-fantasma244. A ideia é a de que o desemprego consumiu a lógica educacional a ponto de levar as formas e sistemas de ensino a um contraponto fundamental, a exemplo do ensino profissionalizante:
“um desemprego estrutural duradouro acaba tornando contraditória a situação no sistema educacional profissionalizante.”245 Criou-se, então, uma instabilidade entre os sistemas empregatício e educacional, mas isso não findou num fatalismo: “contu-do, a educação tampouco se tornou supérflua. Pelo contrário: sem um diploma que ateste qualificação, o futuro profissional fica completamente obstruído.”246
Por fim, Beck aponta a sociedade do risco do ponto de vista da modernização reflexiva que ruma a essa nova modernidade, ou seja, ratificando-se o seu papel de
239 Acerca da vida privada, Giddens (1991, p. 137) dedica especial atenção ao que ele chama de transformação da intimidade, na direção da lealdade e da autenticidade, em afastamento às idei-as de honra e de sinceridade, conforme cinco pontos básicos: 1) a relação dialética entre os pla-nos global e local; 2) a busca pela identidade em sistemas abstratos; 3) a autorrealização pela confiança pessoal; 4) a autorrevelação; e 5) a autossatisfação com influências globalizantes.
240 BECK, 2011, p. 195, grifo do autor.
241 Ibid., p. 17.
242 Ibid., p. 205, grifo do autor.
243 Ibid.
244 Ibid., pp. 218-219.
245 Ibid., p. 219, grifo do autor.
246 Ibid., p. 224.
autor tardo-moderno: a dimensão do questionamento especializado da ciência e da política simbólica oficial.
A sociedade do risco, na contraposição à sociedade industrial, demarcou, pois, uma nova orientação de modernização: o antigo modelo de modernização sim-ples, fundado em termos gerais de classe, de estabilidade, de emprego e de pro-gresso já é ressignificado pela dimensão de uma modernização reflexiva247. Esse conceito pilar de autoria de Beck é o objeto mais detido da próxima seção e servirá como base para identificar a sua teoria de modernidade tardia e como que ela pode se aliar à perspectiva do último autor deste trabalho: Anthony Giddens.