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CAPÍTULO 1. CONCEITOS E CATEGORIAS ANALÍTICAS

1.1 RISCOS E PROTEÇÃO INDIVIDUAL NO SETOR DE EDIFICAÇÕES

Embora o acidente de trabalho não seja um fato recente, sua ocorrência só passou a ser objeto de atenção quando, em virtude do seu elevado número, adquiriu dimensões de um problema econômico e, conseqüentemente, social. Um processo gerado na Revolução Industrial, em face das grandes concentrações de trabalhadores em torno das empresas empregadoras de grande quantidade de mão- de-obra (FLORA apud BARTOLOMEU, 2000).

Como responsável pelo aumento dos acidentes no período da industrialização, deve-se considerar, além da concentração da mão-de-obra, a divisão técnica do trabalho, que, conforme Marx apud Holzmann8 (2002),

Incrementa a produtividade a favor do capital e fragmenta o trabalhador, impedindo o desenvolvimento integral de suas potencialidades, bem como, intensifica o ritmo de trabalho, rebaixa o valor da força de trabalho e reduz a capacidade de os trabalhadores negociarem a seu favor as condições de troca e uso de suas habilidades de trabalho (ibid, p.88).

Tereza Bartolomeu9 (2000), em um estudo no qual propõe criar um sistema- modelo de informação sobre acidentes de trabalho10 para a construção civil, afirmou, com base nas informações divulgadas pela estatística nacional por classe de atividades econômicas, que o setor de edificações da construção civil é, atualmente, um dos maiores responsáveis pela incidência de acidentes de trabalho graves e fatais no Brasil. Isso porque engloba um vasto e diversificado conjunto de atividades características que envolvem riscos variados para os trabalhadores; em geral, resultado de um ambiente de trabalho onde estão presentes, constantemente, os riscos ocupacionais físicos, químicos, biológicos e ergonômicos.

Por exemplo, os profissionais de um canteiro de obras, ao realizarem atividades variadas e corriqueiras, como de escavação, fundação, concreto armado, instalações em geral, alvenaria e fechamento, revestimento, acabamento, operações com máquinas e soldagem, tornam-se propensos a sofrer infortúnios. Estes compreendem soterramentos, quedas, choques elétricos, contusões, ferimentos,

8 Doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo, professora titular do Departamento de Sociologia e

do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS e autora do livro “Operários sem Patrão”, publicado no ano de 2001. Os textos de Lorena Holzmann consultados fazem parte da obra “Dicionário crítico sobre trabalho e tecnologia”, em que são encontrados os conceitos necessários para se compreenderem as dimensões do mundo do trabalho e da organização produtiva.

9 Professora da área de vestuário do Departamento de Economia Doméstica da Universidade Federal de

Viçosa (UFV). Teve a graduação em Economia Doméstica concluída na UFV e a Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado, na Universidade de Santa Catarina, em Engenharia de Produção.

10 Conceitua-se o acidente de trabalho, conforme Ayres e Corrêa, como aquele que ocorre durante o exercício

do trabalho, que provoca lesão corporal ou perturbação funcional que cause morte, perda ou redução permanente ou temporária da capacidade para o trabalho (2001, p.15).

problemas de posição, respingos de estilhaços e de líquidos no rosto, problemas de audição pelo excesso de ruído, doenças dermatológicas pela exposição ao sol e aos produtos químicos, resfriados pela exposição às chuvas, problemas pulmonares e riscos de asfixia, dentre outros (AYRES; CÔRREA, 2001).

Nas funções de armador e de carpinteiro, Ayres e Corrêa (2001) citaram como principais riscos, aos quais os funcionários estão expostos, os seguintes:

- Na instalação da central de formas e no preparo destas. As dificuldades maiores nos centros urbanos são a falta de espaço, muitas vezes com comprometimento da segurança. Além de estarem sujeitos a quedas de grandes alturas, os trabalhadores podem se ferir pelo manuseio da madeira e dos utensílios e, ainda, dos equipamentos, como a serra circular.

- Nas fases de escoramento e desforma, os funcionários podem estar expostos a acidentes, como imprensamento das mãos e dedos e frestas nos olhos, além de quedas de material sobre o corpo.

- Na fase de armação podem ocorrer ferimentos no momento de dobrar e cortar os vergalhões e, ainda, no transporte das armações.

- Nas atividades de concretagem, podem acontecer problemas como dermatoses e intoxicação pela exposição à elevada concentração de poeira de cimento, contato com a massa pronta, respingo do concreto no corpo e olhos e, ainda, quedas.

- Na operação de máquinas e equipamentos, a restrição do espaço físico, a proteção insuficiente das partes móveis da máquina ou equipamentos, defeitos de construção e a falta de manutenção adequada tem sido a causa freqüente dos acidentes. Além disso, citam-se as máquinas e equipamentos como fontes de desconforto térmico, ruído, vibrações, aerodispersóides, radiações e outros agentes agressivos. Dentre os inúmeros equipamentos usados na construção, tem destaque a serra circular de bancada, existente em todo o canteiro de obras e que, por ser

operada ou instalada indevidamente, tem sido motivo de muitos acidentes, com graves lesões para o trabalhador.

Mesmo que o código civil venha sendo ampliado pela implementação de medidas de segurança, os números de acidentes do trabalho que se verificam, anualmente, em todo o mundo, são bastante preocupantes. De fato, as estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT) revelam que acontecem, por ano, cerca de 250 milhões desses acidentes e 160 milhões de doenças profissionais, dos quais 1,1 milhão resulta em morte. Esse total de óbitos anuais por acidente de trabalho é superior, para efeito de comparação, aos letais por acidentes no trânsito, em torno de 900.000, e aos mortos por violência, próximos a 560.000, ou por HIV/AIDS, que atingem a cifra de 312.000. Além disso, a OIT estima que, no Brasil, por volta do ano de 2020 deverá dobrar o número de doenças relacionadas ao trabalho e, ainda, na mesma época, as atuais exposições dos trabalhadores a agentes agressivos estarão matando muita gente (AYRES; CORRÊA, 2001).

Essa a importância de se estudarem as práticas dos trabalhadores em torno dos EPIs. Para desenvolver qualquer ação de minimização dos riscos, além de considerar, das disposições legais e dos empregadores, a adoção de medidas preventivas tanto coletivas quanto individuais, torna-se necessário compreender, daqueles que utilizam o equipamento de proteção individual, as representações sobre trabalho, sobre riscos e sobre os respectivos EPIs como estratégias preventivas dos riscos do trabalho, já que disso poderá depender a adoção e a utilização desse equipamento no cotidiano do trabalho.

Nesse sentido, muito mais do que discutir novas tecnologias que propõem criar EPIs, torna-se necessário compreender como os trabalhadores, com suas visões de mundo, adquiridas pela experiência e ao mesmo tempo definidoras das práticas sociais, interagem com as invenções tecnológicas, vivenciando as mudanças em seu cotidiano. A prática dos trabalhadores deve ser pensada tanto do ponto de vista técnico quanto das representações que fazem essas mudanças adquirem validade ou não.