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Riscos e vantagens econômicas: construindo conexões

3.1 PRINCÍPIO DE LIVRE CONEXÃO

3.2.3 Riscos e vantagens econômicas: construindo conexões

Robert Putnam (2006) ressalta que a assistência mútua característica das associações voluntárias na Itália do século XIX, caracterizavam-se muito menos como um altruísmo idealista do que como uma disposição para cooperar com outras pessoas com condições similares, com a finalidade de enfrentar os riscos de uma sociedade em constante e veloz transformação. Para o autor, a reciprocidade prática é central nestas sociedades de assistência mútua, de tal forma que, se um indivíduo contribuísse com o outro seria ajudado, esforçando-se por enfrentar juntamente aos seus pares, os problemas que nenhum deles conseguiria resolver solitariamente. Nesse sentido, estas sociabilidades se assemelhavam com as comunas medievais, articuladas mais de sete séculos antes, já que estas eram organizadas com finalidade de mútua assistência,

59 contudo, a partir de uma motivação distinta, a saber, a ameaça de violência física, enquanto no século XIX combatiam-se os riscos econômicos que eclodiam.

Em um estudo comparativo de vinte anos em regiões do norte e do sul da Itália, realizado na década de 1970, Putnam (2006) buscou compreender quais os fatores decisivos para o desempenho institucional e cívico de tais regiões. Nas regiões do norte da Itália, onde houve no século XIX uma efervescência no número de associações, um crescimento expressivo de leitores de jornais e participação espontânea em referendos e eleições por parte da população, indicando maior interesse por assuntos comunitários, regionais e nacionais; havia organizações cívicas consistentes, laços de confiança interpessoais sólidos e melhor desempenho governamental. Por outro lado, nas regiões do sul, onde os vínculos de relacionamento cívico não se estabeleceram com a mesma ênfase e onde não houve tamanho interesse pelos propósitos comuns, o desempenho institucional foi bem menos eficaz. A autonomia dos cidadãos, os altos índices de confiança entre eles e sua intensa participação no desenvolvimento local nas regiões do norte manifestaram ter papel fundamental na construção de comunidades cívicas na Itália, bem como na ampliação de certas vantagens sociais e econômicas.

Tal como esses casos investigados por Putnam (2006) na Itália, o conjunto de fragmentos da vida no Rio de Janeiro oitocentista abordados aqui, denota que tanto publicistas, quanto familiares, europeus e brasileiros, manifestaram condutas que mantinham certa relação com positividades relacionadas a riscos e vantagens econômicas, a fim de se fortalecer, persistir, se conectar, obter êxitos em seus propósitos. Na própria conduta e nos discursos sobre o soberano, assim como na conduta dos comerciantes, negociantes, fabricantes, pastores, reverendos, jornalistas, publicistas etc., operava-se certa relação das pessoas consigo mesmas, com os outros e com a vida, a partir e através de positividades ligadas a uma governamentalidade liberal, reivindicando, cobrando, justificando, separando, conectando-se a partir e através de situações, condutas, relações, nas quais essas positividades se tornaram um suporte móvel, um recurso, provisório, localizado, que permitia regular relações.

O esforço por desempenhar condutas que faziam circular positividades bastante similares às valorizadas pelos membros das diversas associações e clubes, indica um movimento de inserção nesta estratégia precisa e de efeitos globais. Nesse sentido, ainda que nessas associações e clubes a colaboração, a confiança mútua e a participação

60 coletiva tivessem acontecido, e que tivessem sido necessárias, não se pode dizer que o individualismo esteve suprimido, ou que tenha sido superado em seu interior. Esse conjunto de práticas que separam os indivíduos e que os conduz, e por vezes coage, a voltar-se para si mesmos, submetendo, avaliando e julgando ao mesmo tempo a si mesmos e aos outros a partir de certas positividades, constitui o que se entende aqui como processo de individualização, ou seja, um conjunto de processos que conduzem a esse modo preciso de as pessoas se comunicarem e se relacionarem consigo mesmos e com os outros, que emerge amplamente no século XIX no Rio de Janeiro, ligadas a riscos e vantagens econômicas, e que por isso constituí parte fundamental dos processos que conduziram e conduzem à emergência do individualismo nas redes sociais no século XXI.

Assim, não se trata de optar ou localizar o individualismo conectado entre dicotomias como a distinção entre indivíduo e sociedade, coletivismo e individualismo enquanto posturas militantes, ou mesmo entre individualismo e solidariedade; de outro modo, trata-se de compreendê-lo como uma conduta produzida socialmente, em que as pessoas ocupam-se consigo mesmos e com os outros, exercem um governo sobre si mesmos e sobre os outros, cujo efeito é que cada indivíduo passa a ser distinguido quanto às vantagens e desvantagens que oferece, ao custo benefício que pode oferecer para possíveis trocas, acessos, sua utilidade em termos econômicos.

Ao mesmo tempo, no período estudado acima, o esforço pelo êxito dos propósitos do grupo, associação, clube, família a que se pertencia, antes mesmo de atender ao propósito individual, se fazia necessário. A escolha pelo grupo, família ou associação a que se iria participar estava liberada, bem como os propósitos para os quais se buscaria alcançar, contudo, os propósitos comuns demandavam prioridade para que se pudessem alcançar os propósitos individuais.

Desse modo, tratou-se de investigar e identificar até aqui o conjunto de medidas, tarefas, práticas que faziam operar e circular certas positividades relativas à governamentalidade liberal através de formas de se comunicar e se relacionar precisas. Relações estas que de forma alguma estão empoçadas, investidas e restritas a um segmento social específico, um cargo, posição social ou autoridade específica, mas que são identificáveis em diversas conexões, relações, nós, que se enredam em diversos

61 pontos e relações organizadas em espaços como clubes, associações, em publicações, laços de parentesco, dentre outros. Nesses espaços, as positividades relacionadas à governamentalidade liberal configuraram-se, portanto, como uma espécie de suporte móvel constituinte das estratégias de comunicação e de relação social, das quais sujeitos se esforçaram para desempenhar ou para se conformar. (FOUCAULT, 1984).