CAPÍTULO III – ESTUDO DE CASO
3.2 Justificativas do Projeto
3.2.1 Riscos Envolvidos
No Capítulo II item 2.3 foi demonstrado os principais riscos que envolvem um
Project Finance, procura-se aqui demonstrar a prática da teoria apresentada, isto é, como foi
elaborado o modelo de Itapebi para redução dos riscos do empreendimento.
Para o sucesso da operação, foi necessário que os potenciais riscos do projeto
estivessem cobertos. Os instrumentos de mitigação são variados, dependendo da natureza do risco que se aborda. A seguir, seguem-se os riscos mais importantes e os instrumentos com os quais eles foram mitigados na estruturação da operação.
• Risco de Construção
– Experiência Comprovada do Consórcio Construtor: as empresas componentes do Consórcio Construtor, tendo a CNO (Odebrecht) como líder, possuem grande experiência na construção de hidrelétricas. Suas atuações neste mercado são significativas, ainda mais no Brasil cujo parque gerador é predominantemente hidráulico. A ABB/ALSTOM possui grande experiência no Brasil e mundialmente, com tecnologia de fornecimento de equipamento eletromecânico, montagem e engenharia;
– Revisão por Engenheiros Independentes: os engenheiros contratados, da firma Themag Engenharia, revisaram todo o trabalho do consórcio construtor em obras civis, montagem, aspectos ambientais bem como formulação do contrato de EPC e o pacote de
seguros durante a construção. Os relatórios emitidos demonstram grande confiança no trabalho do CCI, e consideram os contratos e seguros firmados suficientes para a segurança e a conclusão do empreendimento. Por sua vez, a Themag Engenharia é uma firma muito qualificada cuja experiência inclui atividades em hidrelétricas, perfazendo um total de 10.000 MW no Brasil. Em sua experiência recente, atuou como engenheiro independente no projeto da Hidrelétrica de Machadinho, de 1.140 MW;
– Pacotes de seguros: estes cobrem diversos riscos de construção. As principais apólices são o seguro embutido no EPC que cobre os riscos de engenharia, o que garante o adiantamento do pagamento feito aos construtores, o que garante às obrigações perante a ANEEL. Segundo os engenheiros independentes, os valores dos seguros são suficientes para que o projeto atinja a fase operacional adequadamente;
– Completion Guarantee: a COELBA compromete-se, através de fiança, a cobrir quaisquer custos não orçados que porventura coloquem em risco a finalização da obra e a entrada em operação comercial da mesma;
– Histórico da Obra: até maio de 2001, a curva físico financeira da obra indicava que 63% dos trabalhos haviam sido concluídos. Todas as linhas de atuação estão em dia, destacando-se o adiantamento do desvio do rio que estava previsto para ocorrer em abril de 2001, mas foi realizado em setembro de 2000. Dentro do cronograma da obra, este adiantamento deixa maior folga de tempo para a construção da barragem, que é a atividade mais crítica de todo empreendimento;
• Risco Operacional
– Familiaridade com a tecnologia empregada: experiência comprovada da contratada (Iberdrola) para o aporte de tecnologia de Operação e Manutenção à Itapebi. Esta é oriunda de uma experiência acumulada de operação de aproximadamente 10.000 MW, em diversas usinas hidrelétricas, tanto na Espanha quanto em outros países na América Latina;
– Provedora de tecnologia de operação da usina é acionista tanto da geradora como do offtaker: a Iberdrola, como operadora da planta, possui grande interesse que a usina opere eficientemente, para entregar a energia produzida na quantidade contratada pelo PPA;
– Energia é essencial para a compradora: pelo fato da COELBA ser uma distribuidora de eletricidade, é fundamental para seu negócio a compra de energia a custos competitivos, diminuindo, assim, a necessidade de recorrência ao mercado spot de energia;
– Situação da COELBA é favorável: a empresa possui a classe residencial como principal classe de consumidor, com tarifas que oferecem maiores margens, e risco reduzido, pois é um mercado pulverizado e cativo. As demonstrações contábeis do exercício de 2000 foram extremamente sólidas, demonstrando uma nítida melhora em relação a 1999.
– Compradora da energia como acionista: a COELBA é a maior acionista da Itapebi, com 42% do capital total, demonstrando forte comprometimento para tomar toda a energia gerada a custos competitivos;
• Risco Ambiental
– Desenvolvimento de projetos ambientais: Itapebi vem desenvolvendo 15 projetos básicos ambientais para minimizar os impactos ambientais e sociais levantados no EIA, com aval da Secretaria do Meio Ambiente da Bahia. Dos 15 projetos programados, 10 já foram iniciados e estão dentro do cronograma;
– O projeto não atinge áreas indígenas, áreas densamente povoadas, pontes, estradas, ou seja, áreas de grande relevância social;
• Risco Racionamento de Energia
– Os contratos que serão celebrados possuem cláusulas que formam uma estrutura de mitigação do risco de racionamento, ou seja, que sob o Mecanismo de Realocação de Energia, a Itapebi venha a ter diminuída sua quantidade de energia assegurada. Caso isto ocorra, está prevista a revisão do preço da energia, para preservar o equilíbrio econômico-financeiro da Itapebi;
• Risco Político
– Participação do BNDES: com o grande envolvimento na transação, o governo mostra seu compromisso de fomentar a atividade de geração de energia elétrica. O projeto é de suma importância para a estratégia do governo de combater a possibilidade de déficit de
energia previsto para os próximos anos. Além disso, suprirá energia para o Nordeste, região com grande potencial de crescimento industrial e, consequentemente, de consumo de energia;
– Localização: como o projeto está localizado em uma área de pouco desenvolvimento econômico, o projeto tem uma forte conotação social, devido à geração de empregos e aumento da renda nos municípios vizinhos ao local de construção;
– O projeto Hidrelétrico de Itapebi faz parte da lista de Projetos Prioritários do Ministério de Minas e Energia;
• Risco Financeiro
– Existência de Conta Reserva para o serviço da dívida das tranches do BNDES: a estruturação financeira contempla a existência de uma Conta Reserva para o serviço da dívida das tranches do BNDES, dimensionada para cobrir o serviço da dívida (amortização do principal, mais dívidas) equivalente ao valor projetado de dois trimestres seguintes. Esta conta é utilizada em caso de default por parte da Itapebi.
– Fluxo de caixa robusto: o modelo econômico financeiro desenvolvido para o projeto mostra um fluxo de caixa extremamente forte. O Índice de Cobertura do Serviço da Dívida mínimo é 1,30X, sendo que a média é 3,0X. O excesso de caixa será distribuído para os acionistas, na medida do permitido pela legislação, na forma tanto de juros sobre capital próprio como de dividendos;
– Centralização das contas correntes e aplicações financeiras da Itapebi Geração S. A. junto ao Banco do Brasil S. A. para garantir o respeito a ordem acordada de preferência de pagamentos das obrigações de Itapebi (cash waterfall);
– Penhor das ações: as ações da Itapebi Geração de Energia S. A. serão dadas em garantia aos credores do repasse;
– Caução de recebíveis: parte dos recebíveis de Itapebi deverão ser caucionados em favor dos credores (BNDES e bancos comerciais), e parte será dada aos debenturistas, respeitando a proporção do financiamento entre repasse, BNDES direto e debêntures na data da emissão;
– Fiança da COELBA: os credores terão uma fiança desta empresa sobre o financiamento (repasse, BNDES direto e debêntures), vigente desde o fechamento financeiro até a data da put option das debêntures do BNDES ou a data de conclusão, se esta ocorrer após a data da put, ou seja, um prazo total de 39 meses.