PARTE IV – INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR
5. Risco Reduzido a Nulo – toda a área baixa da Vila Nova, aplanada, fora da área de intervenção dos sectores anteriormente caracterizados (Fig 30)
5.3.5. Riscos Oceanográficos e de Tsunami 1 Generalidades
As tempestades marítimas constituem igualmente uma importante ameaça para a segurança e o bem-estar das populações ribeirinhas. Estas situações de temporal marítimo, que são consideradas como tal sempre que a altura significativa da onda (Hs) iguala ou excede os 5 m, são por vezes responsáveis por avultados prejuízos materiais, podendo estes atingir montantes dos mais elevados causados por perigos naturais (Borges, 2003).
Os tsunami são ondas de água que resultam, na sua maioria, da deslocação abrupta do fundo oceânico em consequência de atividade sísmica, ou ainda por perturbações associadas ao vulcanismo explosivo, ao colapso lateral de um estratovulcão, aos escorregamentos (submarinos ou subaéreos) e ao impacto de meteoritos com os oceanos. De um modo geral são portadores de uma quantidade de energia considerável e caracterizam-se por se propagarem através dos oceanos a altas velocidades (por vezes superiores a 450 km/h). Acresce, ainda, o facto de terem um comprimento de onda e um período muito grande, passando despercebidas em mar alto. No litoral, a cota de inundação tsunamigénica (run-up) é função não apenas das características da(s) onda(s), mas também da topografia e da batimetria da zona costeira (Borges, 2003).
5.3.5.2. Geologia Costeira da Ilha do Corvo
A ilha do Corvo, devido à sua geomorfologia, tem uma ocupação demográfica diferente das restantes. Na verdade, a população que nas restantes ilhas preferência, sempre que lhe é possível, as zonas costeiras neste caso sentiu-se compelida a ocupar exclusivamente a fajã, pelo facto de aí encontrar melhores condições de desenvolvimento socioeconómico e de segurança. O facto de o estratovulcão estar afetado profundamente pela tectónica e erosão o litoral que daí resultou é constituído essencialmente por arribas de grande declive e altura. Todo o litoral que se desenvolve desde a Rib. dos Covões (lado W) até aproximadamente à Rib. Entre Cancelas (lado E), abrangendo toda a orla Norte, inclui-se na classe de arribas com altura superior a 200m. Na realidade, a escarpa oeste, com uma falésia quase vertical com cerca de 700m de altura sobre o oceano, é uma das maiores elevações costeiras existentes no Atlântico.
Desde Entre Cancelas até à zona leste da Vila do Corvo as arribas têm alturas compreendidas entre 100m e 200m. O rebordo da fajã, até cerca do Pão de Açúcar, apresenta-se com alturas menores do que 10m. A partir do Pão de Açúcar (≈20m), a altura vai progressivamente aumentando até à Rib dos Covões.
5.3.5.3. Identificação de Perigos e Vulnerabilidades Associadas
A bacia do Atlântico Norte contribui com cerca de 2% para o total de eventos de inundação tsunamigénica conhecidos em todo o mundo. Os dados disponíveis para esta área do globo indicam cerca de 350 anos como período médio de retorno de um tsunami associado a um run-up com 7 m de altura, um intervalo relativamente curto e que estaria ligado a eventos com consequências devastadoras para a faixa costeira do arquipélago dos Açores. Desde o povoamento do arquipélago no século XV foram registados 23 tsunami que atingiram o litoral destas ilhas, o que implica um período de retorno da ordem dos 18 anos. Cerca de 50% destes eventos tsunamigénicos tiveram geração distante, enquanto os restantes foram de geração local (Borges, 2003).
Para a primeira situação merece especial destaque o tsunami de 1 de Novembro de 1755, que originou a máxima altura de run-up até hoje conhecida nos Açores (11-15 m) e que foi registada em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira. Dos eventos com geração local refira-se, a título de exemplo, os tsunami associados aos sismos de 1614 e de 1641 (ilha Terceira), de 9 de Julho de 1757 (ilha de São Jorge) ou, mais recentemente, ao sismo de 1 de Janeiro de 1980. O tsunami de 1757 causou inundações registadas no Faial, Terceira e Graciosa.
As ilhas do arquipélago dos Açores, principalmente as dos grupos Oriental e Central (não sendo, no entanto, possível excluir as Flores e o Corvo), ocupam uma área de elevado potencial tsunamigénico, em consequência: (1) da sua localização no Atlântico, que as tornam vulneráveis a tsunami gerados ao longo da margem continental Ibérica; (2) do contexto geotectónico local, onde sismos com potencial gerador de tsunami têm probabilidade de ocorrer de 1 em cada 70 anos e (3) de estarem sujeitas a outras condições potencialmente geradoras de tsunami, como sejam os escorregamentos (subaéreos ou submarinos), a atividade vulcânica (escoadas piroclásticas, erupções submarinas, explosões vulcânicas e/ou colapso e
formação de caldeiras) e lahars. Apesar de não se conhecerem registos históricos e instrumentais de inundações de natureza tsunamigénica na ilha do Corvo, tal facto não significa que a franja costeira desta ilha não tenha sido atingida por tsunami. Na verdade, há a considerar que as condicionantes antropogénicas, geomorfológicas ou mesmo vulcânicas podem ter contribuído para que os vestígios dos mesmos estejam camuflados, ou total ou parcialmente soterrados.
.As direções preferenciais das tempestades marítimas nos Açores são de SW a NW, não sendo a ilha do Corvo uma exceção. Deste modo, há a possibilidade das zonas ribeirinhas da ilha do Corvo serem fustigadas, pelo menos uma vez por ano, por tempestades marítimas. Com efeito, a tempestuosidade no arquipélago dos Açores caracteriza-se por elevada variação interanual, sendo as tempestades de baixa intensidade as mais frequentes, mas os eventos extremos (e.g. ciclones/furacões/ tempestades tropicais e tempestades extratropicais) acontecem uma vez em cada 7 anos
A sobreelevação do nível do mar de origem meteorológica (storm surge) é um fator extremamente importante, uma vez que modifica o nível de maré previsto, sendo responsável, por si só, por galgamentos e por inundações de áreas costeiras baixas. Este fenómeno, quando associado a condições de tempestade, poderá ter efeitos mais devastadores. Contudo, não existem para os Açores dados disponíveis da magnitude deste fenómeno. Neste contexto, e pelo facto dos Açores serem ilhas vulcânicas, de acordo com a bibliografia consultada, os storm surges não constituem uma ameaça significativa, atendendo a que este tipo de ilhas emerge abruptamente do fundo oceânico e, consequentemente, não possuem uma plataforma periférica com águas pouco profundas de dimensão conveniente para empolar significativamente a superfície do oceano. O facto do litoral açoriano ser na sua maior extensão aberto diminui a pujança dos efeitos de storm surge.
O município do Corvo, no entanto, está vulnerável a qualquer um dos perigos referidos neste capítulo (tsunami, tempestades marítimas e storm surges), que afetam a faixa costeira deste município com uma frequência de incidência e ameaças diferentes.
Tendo em conta estes pressupostos, uma análise conjunta dos perigos geológicos (tsunami) e oceanográficos/meteorológicos (tempestades marítimas e storm surges) permite concluir que uma parte significativa da vila, com cotas iguais ou inferiores a 10m, pode estar sujeita a galgamentos e inundações resultantes de fenómenos deste tipo, atuando quer de uma forma isolada ou em conjunto. As zonas consideradas de elevada vulnerabilidade e que requerem, por isso, uma atenção e cuidados especiais no respetivo ordenamento são todas aquelas que apresentam cotas inferiores a 15m e que se encontram fora das classes que anteriormente se identificaram como tendo cotas superiores e que por tal facto são pouco vulneráveis.