Sendo a canção um dos principais veículos de transmissão cultural em todas as classes sociais, a canção popular parte das vivências e subjetividades, da realidade e do simbolismo, faz parte do cotidiano do grupo que lhe serve de berço e que, ao mesmo tempo, a torna conhecida. Nela são cantadas as condições de vida com seus sonhos, notícias, reivindicações, refletindo um momento histórico. A canção popular difunde processos de aprendizagem, imaginação, criação e é por meio dela que os grupos se definem, se organizam e se identificam.
Para melhor compreensão da necessidade de os Movimentos Sociais realizarem ações educativas por meio de diversas mobilizações e utilização de diferentes ferramentas, se faz necessário revisar a história de dominação, desde o início da colonização brasileira na qual se efetivam processos discriminatórios, seja por etnia, nível social, econômico, cultural e/ou religioso. De acordo com Fleuri (1998, p.45), como todos sabem,
O Brasil é um ‘país-continente’ [...] que se estende entre a longa costa atlântica e a imensa floresta amazônica, com regiões muito férteis e grandes reservas minerais e ecológicas. Uma terra que, justamente pelas suas vastas riquezas, atraiu durante os últimos cinco séculos conquistadores ávidos e enriquecimento rápido [...] extraindo ouro e pedras preciosas, ou implantando monoculturas de cana de açúcar e depois de café. [...] Esta produção foi desenvolvida durante durante quatro séculos graças aos latifúndios e ao trabalho escravo. Num primeiro momento, os colonizadores tentaram, submeter índios à escravidão [...] Mas os índios não se deixaram escravizar e foram sendo pouco a pouco exterminados. [...] Em seu lugar foram trazidos à força, como escravos, grupos de diferentes etnias de origem africana. [...] a partir da segunda metade do século XIX, foi incentivada a maciça imigração de europeus, árabes, japoneses, chineses e outros, que se dirigiram principalmente ao sul do país, contribuindo para promover a industrialização e o desenvolvimento agrícola da região, com tudo o que este fenômeno significa de enriquecimento e, ao mesmo tempo, de novos conflitos e desafios.
Pode-se, então, dizer que o Brasil é um país com uma tradição autoritária e excludente. A colônia portuguesa excluiu os indígenas, que foram escravizados. Escravizou os negros que, assim, também foram excluídos. E os próprios brancos dominadores excluíram
seus irmãos de raça que se encontravam em situação social menos favorecida: uma forma disfarçada de escravidão.
A cultura de índios, negros ou brancos imigrantes, incorporada à cultura local, mantém-se viva e expressa-se nas letras das canções populares, contando seus sonhos, cantando suas lidas, clamando por justiça, igualdade e dignidade. São canções ouvidas nas festas populares, nas manifestações políticas, nos grupos liderados pela Igreja. São canções que preservam as tradições culturais e veiculam valores para a formação de uma sociedade melhor e, dependendo do momento sócio-histórico vivido, denunciam situações opressoras.
Refletindo-se a respeito da canção popular percebe-se que muitas vezes, esta é inferiorizada em relação à erudita. Talvez porque, no sentido que lhe é comumente atribuído, “popular” está relacionado ao que é feito ou que é aprovado pelas pessoas simples, sem muita instrução. Chauí (1994, p.124) considera existir “ambigüidade ao se tratar de popular, ‘tecido
de ignorância e de saber, de atraso e de desejo de emancipação, capaz de conformismo ao resistir, capaz de resistência ao se conformar.”
De acordo com Chauí, (1989, p.43),
considerar a cultura como sendo do povo, permitiria assinalar mais claramente que ela não está simplesmente no povo, mas que é produzida por ele, enquanto a noção de ‘popular’ é totalmente ambígua para levar à suposição de que representações, normas e práticas porque são encontradas nas classes dominadas são, ipso, facto, do povo. Em suma, não é porque algo está no povo que é do povo
Assim, “popular” pode significar tudo que está relacionado às pessoas que habitam em um país, especialmente aos cidadãos qualificados para participar de uma eleição, (exemplo: voto popular, eleição popular). Entre os votantes e os candidatos, com certeza, além das pessoas com escolaridade mínima, encontram-se os mais ilustres membros da sociedade, com os mais altos graus de escolaridade.
Observada sob esse prisma, torna-se mais fácil entender a canção popular como veículo de expressão de sentimentos, aspirações e afetos, transformando-se em documento de vida de uma comunidade. Assim compreendida, mais do que qualquer outra manifestação do temperamento, da cultura ou das capacidades criadoras de uma determinada comunidade, a canção popular é um dos elementos que define a realidade psicológica e social dessa comunidade, além de, como outras formas de Arte, ser retrato poético-musical, talvez o melhor, da situação política, econômica e cultural do momento em que é criada. Portanto, naturalmente, sua maior expressividade se dá na representação dos hábitos mais comuns às pessoas da comunidade em que surge ou na descrição, em linguagem poética, dos sentimentos
e desejos dessa comunidade, em relação aos seus costumes e ao momento sócio-histórico da criação desse gênero de canção.
Concorda-se com Sakai (2004)58, quando diz que em qualquer circunstância da vida pode-se cantar, pois as canções são companheiras que podem sempre estar ao lado das pessoas, interferindo no seu comportamento, de forma consciente ou não, enquanto a memória grava as experiências da relação entre a vida e a canção, influenciando o próprio ritmo evolutivo de cada um.
Para corroborar essa assertiva, novamente concorda-se com Sakai (2004) convidando a relembrar que a canção está presente não apenas desde a infância, mas até mesmo antes dela, desde o período embrionário quando o feto já está exposto ao ritmo cadenciado dos batimentos cardíacos dele próprio e de sua mãe. Logo ao nascer, e até mesmo antes de seu nascimento, a criança, além dos outros sons, ouve canções de ninar, as quais começa a repetir logo que aprende a falar, passando, depois, para as primeiras cantigas de roda e, em seguida, sucessivamente, por vários ritmos e letras. Depois de adultas, as pessoas têm outras necessidades musicais relacionadas não só à recreação e ao prazer, mas utilizando as letras das canções como suporte psicológico e, algumas vezes, como instrumento de denúncia de atos repressivos ou de reivindicação de seus direitos. O modo como uma pessoa canta, ouve ou escolhe uma canção é uma manifestação singular da sua identidade como ser humano.