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1. A Nupcialidade e o Controlo Social

2.3. Ritmos Semanais

Neste subcapítulo iremos analisar a distribuição semanal das núpcias, ou seja, os dias escolhidos pelos noivos para a sua realização. Vejamos o gráfico número 4:

Gráfico 4: Distribuição semanal dos casamentos (1630-1729)

Como vimos no capítulo 1, no universo europeu da época moderna, casava-se de preferência à segunda e à terça-feira, e os dias menos escolhidos eram a sexta-feira a quarta e a quinta.76

Na freguesia de Serpins, olhando para o gráfico número 4, percebe-se de imediato que a segunda-feira foi o dia predileto (24%) para a realização de casamentos, tal como o padrão nos indicava. Contudo, em vez de se lhe seguir a terça-feira (que conta com uma taxa de 11% de casamentos), é o domingo que domina a preferência, estando registados 18% dos casamentos. Curiosamente, os dias em que, segundo o padrão, menos pessoas contraíam matrimónio são os dias mais escolhidos pelos noivos de Serpins ao longo dos 100 anos em estudo. Sábado recolhe um total de 16% de casamentos, seguido de quinta-feira com 14% e quarta-feira com 11%. Sexta-feira é o único dia que corresponde ao padrão com um total de 6% de casamentos, fazendo com que fosse o menos requisitado pelos noivos. Ao observarmos os gráficos 11 e 12 da tese de Maria Aurora Rego, verificamos que o cenário em Gotinhães era semelhante ao de

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Tal como no gráfico número 3, também aqui temos casos sem referência, nomeadamente, 32. Durante a recolha das fontes a leitura foi impossível ou o pároco não registava o dia e/ou o mês.

0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200

Domingo Segunda Terça Quarta Quinta Sexta Sábado 137 182 80 85 107 45 124

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Serpins na mesma época77. Os dias prediletos eram, por ordem decrescente, segunda-feira, domingo e sábado. Esta preferência, como de resto mostra a autora, foi-se alterando ao longo dos séculos.

No conjunto das razões para a escolha destes dias pode estar uma consciência comunitária do trabalho, isto é, a população poderia reservar esses três dias da semana para os casamentos tendo em mente a não interrupção do trabalho nos dias seguintes -terça, quarta, quinta e sexta. A preferência por domingo é facilmente explicada, uma vez que é o Dia do Senhor, em que estava interdito o trabalho. Era dia de a população ir à missa, o que tornava a reunião das pessoas para a celebração do casamento mais fácil. A escolha da segunda-feira, como bem nota Maria Aurora Rego, pode estar relacionada com aspetos mais comerciais devido às feiras e romarias que tinham lugar ao fim de semana78. Todavia, não sabemos se tal acontecia em Serpins. Segundo as Memórias Paroquiais de 1758, a vila de Serpins tinha uma feira mensal, embora não esteja indicado o dia, e uma feira anual que se realizava no dia de São Brás, 3 de fevereiro79. As Memórias não referem a existência de uma feira semanal. Embora as memórias sejam posteriores à cronologia aqui proposta, podemos assumir que a realização de ambas tem raízes profundas, tão profundas que nos tempos que correm a feira de São Brás ainda se realiza todos os anos.

Terça e sexta-feira são então os dias com menos casamentos na freguesia de Serpins entre 1630-1729, tal como no resto da Europa de então. No capítulo anterior foram enunciados alguns dos motivos para tal acontecer. François Lebrun lembra-nos que eram dias nefastos, sobretudo a sexta-feira, pois lembrava a morte de Cristo80. O consumo de carne neste dia estava proibido, logo realizar uma boda (momento de festa e de abundância) sem carne, fazia com que os noivos optassem menos por esses dias. Um provérbio português mostra-nos o quanto estes dias eram malfadados: “às terças e sextas não cases a tua filha nem ponhas a teia”81

. Na freguesia de Góis, ainda hoje os mais idosos recordam estes dias como sendo azarentos, inclusive o próprio provérbio é

77 Rego, Maria Aurora Botão Pereira do, De Santa Marinha de Gotinhães a Vila Praia de Âncora

(1624-1924), cit., pp. 77-78.

78 Idem, ibidem, loc. cit.

79

Capela, José Viriato; Matos, Henrique, As Freguesias dos Distritos de Aveiro e Coimbra nas Memórias

Paroquiais de 1758 – Memórias, História e Património, Braga, s.n., 2011, p. 65.

80 Lebrun, François, A Vida Conjugal no Antigo Regime, cit., p. 47.

81

Rego, Maria Aurora Botão Pereira do, De Santa Marinha de Gotinhães a Vila Praia de Âncora, cit., p. 78.

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lembrado, porque pôr a teia, ou seja, pôr as linhas nos teares, nesses dias era chamar o azar. Mais uma vez lembro a proximidade entre as duas freguesias.

Vejamos alguns casos de irmãos que casaram no mesmo dia. Este ato pode entender-se como uma tentativa de rentabilizar o dinheiro da boda. Ao casarem-se no mesmo dia estavam a economizar recursos monetários e tempo, tanto da família direta dos nubentes como dos restantes convidados.

António das Neves casou com Maria João, ambos da freguesia de Serpins, a 6 de outubro de 1683, uma quarta-feira. Tendo, talvez, colocado a hipótese de rentabilizar recursos, e uma vez que a irmã de António, Francisca das Neves, estava noiva do irmão de Maria, André Dias, ambos os casais se recebem no mesmo dia. Idêntico é o caso de António Carvalho que casou com Maria João a uma quarta-feira, dia 14 de fevereiro de 1691. Tal como o caso anterior, sendo a irmã de António noiva do irmão de Maria, casaram António João e Maria Filipe no mesmo dia que os seus irmãos.

No sábado, dia 10 de Maio de 1687, Manuel Fernandes e Isabel Francisca casaram-se. Não foram os únicos. O irmão de Isabel, Manuel Francisco, aproveitou a ocasião para contrair matrimónio, nesse mesmo dia, com Maria das Neves. Numa segunda-feira de 19 de fevereiro de 1691, receberam-se como marido e mulher António Jorge e Isabel Filipe. Aproveitando o facto de o irmão se ir casar, Domingas de Matos recebe como seu marido Domingos Filipe. Embora estes dois exemplos sejam diferentes dos anteriores, uma vez que apenas uma pessoa de cada casal era parente, o resultado é o mesmo: rentabilizar tempo e, provavelmente, despesas.

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