2. A PRÁTICA RITUALÍSTICA E A CONFIGURAÇÃO DE ESPAÇOS SAGRADOS NA
2.1. Religião e magia no espaço romano
2.1.1. Ritual e prática ritualística: a essência religiosa dos romanos
Nos vinte últimos anos de nossa era as pesquisas sobre ritual e prática ritualística têm surgido em uma outra perspectiva, como um importante foco nos estudos sobre novas formas de análise cultural. Pesquisadores acreditam, atualmente, que o ritual corresponderia a uma abertura, uma “janela” na dinâmica cultural, através da qual as pessoas fazem e ressignificam as suas vidas. Na verdade, as pesquisas que envolvem o conceito de ritual aparecem no campo das ciências humanas ainda durante o século XIX. No entanto, o olhar lançado ao ritual era secundário, estando ele subjugado a temáticas mais amplas, como religião e sociedade (BELL, 2009, p. 3-9). Assim, esta categoria, em uma visão mais ampla, define questões básicas para cultura, sociedade e religião e pelas perspectivas atuais, o estudo a respeito do conceito de ritual versa sobre várias ciências, sendo considerado um objeto, um conceito e um método trabalhado principalmente no campo da Antropologia.
Conforme afirma Catherine Bell (2009, p. 19-21), o discurso teórico que trata sobre a categoria do ritual é organizado na oposição entre pensamento e ação. Para a autora, este argumento sugere que, historicamente, o debate sobre ritual surgiu como um fenômeno discreto aos olhos de observadores sociais, no período em que a "razão" e a busca de
grupo social. Então, textos escritos, considerados enquanto fontes literárias, como o roman ce O Asno de Ouro, de Apuleio de Madaura, pode expressar o ponto de vista do autor com relação a sua experiência individual, pessoal ou de um dado grupo social ao qual o autor se insere.
conhecimento científico foram a definição de uma hegemonia particular, na vida intelectual do Ocidente. O termo ritual, neste sentido, seria visto como uma categoria de análise e de experiências, não mais no sentido isolado e sim restaurando-o para o contexto da atividade social, no geral. Um ponto importante ressaltado pela autora seria na ênfase ao uso da linguagem utilizada no processo de ritualização, como forma de controle corporal, social e expressão de poder.
Bell trabalha com o conceito de ritualização, de modo a apresentar formas estratégicas da atuação ritualizante, que surge como uma tática de diferenciação cultural particular, relacionada com determinados efeitos sociais e enraizada em uma interação distintiva de um corpo socializado e do ambiente e suas estruturas. Ritualização, portanto, é uma estratégia para a construção de uma relação de poder, que pode ser limitada e limitante (BELL, 2009, p. 7-9). Esta não é uma relação em que um grupo social tem controle absoluto sobre o outro; ela envolve simultaneamente consentimento e resistência, incompreensão e apropriação. Dessa forma, o ritual expressa algo da dinâmica social e é visto por Bell como uma forma de controle social.
Neste sentido, considerando a lógica seguida pelos romanos, sua religião em si resume-se ao ritual79 e é apenas em sua prática que ela tem sentido. Ritual e rito são
sequências complexas de ações e gestos que devem seguir uma sequência de ordem rigorosa e contínua, formando proposições e afirmações implícitas no decorrer de sua execução. De acordo com Scheid (2003, p. 82-93), no ritual praticado pelos romanos, o elemento de maior importância é o discurso, ou seja, a linguagem empregada, de caráter performativo, na medida em que os gestos vão sendo articulados. Assim, a oração que ia sendo proferida no momento do ritual era essencial para a sua execução satisfatória, pois ela afere um sentido de perfeição e eficácia ao ritual. Da mesma forma que o ritual poderia apresentar ritos distintos, o que veremos mais adiante, o significado das ações rituais também poderia variar de acordo com o contexto, podendo apresentar mais de um sentido, como no caso dos festivais religiosos e rituais associados a datas e figuras célebres. Muitos imperadores atrelavam ações ritualísticas e festivais religiosos a datas específicas. Augusto, por exemplo, associou-os aos seus projetos expansionistas, ampliando o pensamento dos romanos para o engajamento em outras atividades que não apenas de cunho ritualístico.
Sobre sua interpretação, o ritual poderia receber significações particulares, desde que ele não fosse distorcido. A única obrigação que conduz o ritual individual é a de que ele deveria ser celebrado seguindo a ordem tradicional imposta pelos romanos, de acordo com o rito celebrado e fosse realizado em uma determinada data. Um dos focos da ação ritualística é a sua celebração com fervor e não com indiferença, mostrando respeito aos deuses e, preferencialmente, ser realizado nos templos ou em uma situação onde a comunicação com os deuses pudesse se fazer presente. Este era um dos valores imprescindíveis para a realização de um ritual (SCHEID, 2003, p. 93-96).
O sacerdote ou celebrante também tinha um papel importante, pois ele era o responsável por falar aos deuses e devia seguir todos os gestos para a sua boa realização. Outro sistema de valor inerente à realização do ritual romano era imposta pela ordem tradicional de ações e gestos, de modo a transmitir significados aos homens e aos deuses. O sacrifício é um bom exemplo deste sistema de valores, pois ele proclamava a existência de uma parceria entre homens e deuses, que partilhavam uma refeição comum. Logo, a religião romana deve ser entendida por seus rituais, pelos seus espaços ritualísticos e pelo contexto do ritual. Eis a importância de compreender as ações ritualísticas, seus significados e particularidades em um determinado espaço, colocando-o em um campo mais amplo, do contexto do ritual.
É certo que a absorção de novas divindades, em Roma e nas suas províncias (especificamente nas cidades da Itália e da Grécia), se estabeleceu como uma constante, o que era decorrente da flexibilidade romana e da habilidade do seu politeísmo relacionado ao ritual, que incluía adaptar e inovar nas representações dos outros cultos e deuses estrangeiros. Ainda, ao que parece, os grupos religiosos que habitavam Roma e o resto de suas províncias usavam formas análogas de rituais80, o que possibilitava aos romanos compreender o significado
primário de um ritual sem a ajuda de um intérprete. Ainda, era possível que uma família fosse capaz de celebrar ritos, por se assemelhar àqueles realizados em lugares públicos, que eram proferidos por magistrados ou sacerdotes. Isso acontece, pois as formas de orações, oferendas e de expressar respeito eram similares no mundo antigo (SCHEID, 2003, p. 85). Contudo, quando os rituais antigos, transmitidos pela tradição, tornavam-se antiquados ou caiam em desuso, eles passavam por um processo de ressignificação. Os rituais estrangeiros importados
80 O culto público romano funcionava como um elo de ligação entre todos os cidadãos que, embora apresentassem diferenças de cidadania, eram unidos por ele.
para Roma também poderiam passar por um processo semelhante, sendo adaptados ou readaptados.
Scheid trabalha com duas terminologias – ritus e caerimoniae – para explicar o que os romanos entendem por ritual. Ritus, o equivalente ao nomos dos gregos, designa um modo de ação, isto é, uma forma de comemorações ou celebrações festivas ou rituais religiosos tradicionais, mas não corresponde ao conteúdo dessas celebrações.81 Ele é trajado
por certas características no comportamento do celebrante e, neste sentido, é dividido em dois. O ritus se desmembra entre ritus graecus e ritus romanus, duas categorias complexas, na opinião do autor. De modo geral, os rituais religiosos e os cultos públicos eram celebrados com base nos ritos romanos e gregos que, em muitos casos, estavam vinculados.82 Os ritos
romanos caracterizavam as festas tradicionais; os ritos gregos assinalavam os cultos realizados em terras gregas, que em algum momento foram importados para Roma. É importante não confundir o rito grego com todas as demais cerimônias estrangeiras que foram trazidas para Roma durante o final da República ou associá-lo aos cultos de todas as divindades de origem grega praticados em Roma, pois certos cultos não pertencem à categoria do rito grego e nem havia apenas uma única religião grega.
É importante deixar bem definido o que os romanos compreendiam por rito grego, pois as demais características dos rituais consistiam no ritual romano e o rito grego nada mais era do que um ritual estabelecido pelos romanos, para designar costumes religiosos romanos de origem grega que foram estabelecidos ainda pelos antigos romanos, no processo de fundação. Então, o rito grego consistia em uma categoria mais ou menos artificial, criada pelos romanos durante o III ou II século a.C, com o intuito de dar nome a certos costumes religiosos e antigos cultos romanos de origem grega, que foram ressignificados ou enfatizados em Roma em algum outro momento. Seu papel era diferenciar estes antigos costumes daqueles atuais, denominados como ritos romanos. Assim a distinção entre ambos os ritos deve ser enfatizada apenas no final da República e reservada aos grandes cultos públicos em Roma (SCHEID, 2003, p. 96-102).
Para tanto, o autor diferencia os ritus: no rito grego, os celebrantes não tinham suas cabeças encobertas; eles eram coroados com coroas de louro. Ao que parece, este tipo de ritual era acompanhado por músicas, hinos cantados por pessoas - formando um coro -,
81 Este significado é entendido pelos romanos a partir do termo caerimoniae (SCHEID, 2003, p. 83-86).
82 A preocupação em distinguir o ritus graecus e ritus romanus parece ter sido importante apenas no final da República (SCHEID, 2003, p. 97).
súplicas e encenações. Scheid deixa explícito que embora estes elementos caracterizem um rito grego, não há evidência de sua exclusividade somente para este tipo de rito. Conforme Rosa (2008a, p. 16), alguns cultos romanos eram celebrados com base em um rito grego, assinalado ao fato do sacerdote realizar o sacrifício com a cabeça descoberta, diferenciando do rito romano, onde era exigido o uso da toga sobre sua cabeça. Grande parte dos cultos que se baseiam no rito grego, segundo a autora, foram internalizados em Roma graças aos Livros Sibilinos, recomendados pelo seu próprio colégio.83 Scheid continua sua diferenciação
afirmando que o rito romano, que obedece sua mitologia, criada por Enéias, tem como preceito cobrir a cabeça na realização de sacrifícios, e é precedido por um ritual preliminar, de modo a realizar um preparo e uma divisão da vítima para a realização do sacrifício (SCHEID, 2003, p. 98-99).
Enfim, tanto o rito grego quanto o rito romano são categorias extremamente romanas e fazem parte da vida religiosa de sua população. O rito grego designava a presença de componentes gregos na religião romana, que estavam presentes desde muito tempo. Então, aos olhos gregos, este tipo de rito era visto com estranheza e considerado, indubitavelmente, romano. Os dois autores trabalhados anteriormente atentam para as discussões sobre a caracterização e a distinção destes ritos. No entanto, o relevante nesta discussão é considerar que mesmo apresentando distinções e conservando as suas particularidades ritualísticas, os dois ritos faziam parte dos costumes romanos e estavam inseridos em sua religião oficial.
Quanto à terminologia caerimoniae, isto é, o conteúdo das celebrações ritualísticas, Scheid afirma que ela segue uma sequência performática; são as ações e os
83 Os Livros Sibilinos eram formados por um grupo de oráculos gregos e considerados pelos romanos como um dos textos mais sagrados. Sua origem remonta à época do rei Tarquínio e eles eram atribuídos à Sibila, uma mulher de grande sabedoria, recebida do deus Apolo. Existiam diversas Sibilas, de acordo com os diferentes territórios. Acredita-se que a Sibila da crença romana era a Sibila itálica. Os romanos contavam que uma mulher ofereceu nove dos livros ao rei Tarquínio por um preço que o rei teria achado abusivo. Ele se recusou a pagar e, em seguida, a mulher destruiu três dos nove livros e lhe ofereceu aqueles seis restantes pelo mesmo valor, em vão. A mulher, então, destruiu mais três oferecendo ao rei Tarquínio os últimos livros restantes ainda pelo mesmo valor. O rei, espantado com o acontecido, resolveu consultar os sacerdotes, que ind icaram o seu erro e o aconselharam a comprar os livros da mulher. Deste modo, o rei adquiriu os livros restantes pelo valor original dos nove livros oferecidos anteriormente.
Os romanos possuíam um colégio de sacerdotes (os quindecimviri sacris faciundi), que tinha como função aconselhar o Senado sobre os Livros Sibilinos, quando consultados para interpretar desastres ou prodígios. Acredita-se que este colégio era também o responsável por controlar os cultos estrangeiros na religião romana. Assim, o controle dos cultos estrangeiros estava associado aos Livros Gregos, isto é, os Livros Sibilinos e muitos dos ritos gregos foram trazidos à Roma graças a estes, sob a recomendação do colégio de sacerdotes (ROSA, 2008a, p. 15-16).
No que diz respeito à religião praticada nas províncias, os quindecimviri não tiveram muita voz. Eles estavam mais voltados à regulamentação de cultos considerados estrangeiros, utilizando os Livros Sibilinos neste processo. Por este motivo, sua atuação nas províncias foi limitada (WOOLF, 2009, p. 248).
gestos que fazem parte do cotidiano e que todos conhecem o significado primário: saudando, honrando, oferecendo, recebendo, vestindo-se de forma solene, comportando-se com humildade.84 Todo romano compartilhava e compreendia este significado primário do ritual,
por terem conhecimento das convenções ou combinações ritualísticas. No caso específico do sacrifício, que seguia um sistema de ações e gestos mais peculiares, ele só era realizado satisfatoriamente por romanos nativos. Um ponto importante no ritual é observar a organização espacial do lugar de culto, bem como a posição dos sacerdotes com relação ao altar e sua condição social. Ainda, na caerimoniae, deve ser observado os elementos manipulados pelos celebrantes, a fim de relacionar estas informações com o contexto, com a arquitetura do ambiente e com a data e seu significado no calendário romano. Enfim, é importante atentar também para as características da divindade que está sendo agraciada pelo ritual, seus nomes, codinomes, suas representações, os objetos que a cercam e a ações ritualísticas realizadas em sua homenagem (SCHEID, 2003, p. 83-86).
Sobre os espaços de culto, onde acontece a execução ritualística, Scheid (2003, p. 164-165) afirma que eles geralmente eram cercados por muros, grades ou até mesmo pedras, delimitando uma fronteira entre o espaço sagrado e aquele não sagrado. Os templos85, os mais
famosos lugares de culto, geralmente eram construídos em um terreno elevado, o que era uma característica romana. Embora a variedade de lugares de culto tenha sido uma realidade para os romanos, como veremos mais a frente, com a presença de cultos em bosques, grutas e afins, os romanos possuíam um modelo espacial de culto, que estaria dentro de um padrão. Este seria demarcado por um templo, que deveria ficar localizado em uma área aberta, contendo um altar e aposentos para a realização de rituais. As casas particulares também poderiam ser consideradas espaços propícios para a realização de cultos: as casas aristocráticas possuíam altares no átrio ou salas extras dedicadas a um culto; as mais humildes, os altares geralmente eram portáteis e na ausência de lugares específicos para a realização do ritual, os sacrifícios eram realizados no chão.
84 O comportamento oposto também era possível.
85 O termo “templo” é marcado por uma ambiguidade. Não necessariamente ele faz referência a um lugar sagrado. Poderia indicar um espaço recém-inaugurado ou ainda um edifício onde residia uma divindade. No latim, templum, além do significado esperado de “santuário” e “templo”, também é definido como “espaço amplo” (BUSARELLO, 2005, p. 266). Nesse sentido, templum, no sentido romano, não designa nem um edifício e nem um lugar sagrado, mas um espaço inaugu rado, o que significa que obteve a aprovação dos auspícios. Inaugurado significa dizer que o lugar obteve a aceitação de Júpiter, que era necessária em todas as decisões públicas. Dessa forma, para se tornar um lugar de culto e um espaço sagrado, um templum deveria passar por um processo de consagração e, assim, adquirir um significado religioso.
Algumas demarcações espaciais de culto, como os santuários, continham poços ou piscinas e ambientes específicos, em locais isolados, para que sacerdotes pudessem se banhar antes de iniciar o ritual. Em alguns destes locais, onde geralmente as visitas eram prolongadas, existiam serviços de banho. Por vezes, eram realizados banhos dedicados a divindades que tinham relação com a água, para fins terapêuticos. Santuários dedicados a deusa Ísis, ao lado do templo de Iseum, localizado no Campo de Marte, traziam em sua arquitetura magníficas decorações com obeliscos e esculturas no estilo egípcio. Santuários próximo ao templo de Ísis em Pompéia traziam representações do Nilo em piscinas de água sagrada. Os templos dedicados a Ísis também possuíam quartos simples para hospedagem, lugares para sacerdotes e lugares específicos para a realização dos rituais de iniciação86.
Com relação a configuração do espaço religioso em Roma, ele era dividido de duas formas: em espaços sagrados e não sagrados. Os espaços sagrados, o que nos interessa neste trabalho, estavam divididos em dois: primeiro, aqueles que os homens dedicaram aos deuses e que foram construídos pelas suas mãos. Estas construções variavam entre simples e mais rebuscadas – haviam recintos mais simples, com um altar, e outros, mais abastados, cercados por colunatas e altares bem decorados – e, segundo, os espaços que os deuses escolheram para si e que não foram criados pelos homens. Eram apenas reconhecidos pelos sacerdotes e, portanto, considerados espaços de culto. Existia a possibilidade do ponto de vista público, de espaços construídos para uma divindade não serem considerados sagrado, por não ter passado pelo processo de consagração adequado. Logo, para um espaço ser considerado sagrado na Roma antiga, ele precisava passar por um ritual de consagração realizado por um sacerdote ou um magistrado direcionado para tal função. No ritual de consagração, após a decisão oficial de tornar um espaço sagrado, o recinto era purificado e os limites da construção eram marcados. O celebrante deveria segurar o portal ou tocar o altar e proferir uma fórmula dedicatória (lex dedicationis), representando a transferência da propriedade pública para uma propriedade divina e, portanto, sagrada (SCHEID, 2003, 160- 163).
Uma vez que se falou sobre os espaços sagrados construídos pelos homens e seu processo de consagração, é conveniente apresentar os espaços sagrados escolhidos e reconhecidos pelos próprios deuses. Estes eram áreas naturais, de grutas, bosques, cavernas, lagoas e nascentes de rios, que podiam indicar uma presença divina. Os homens, por vezes,
celebravam cultos, realizavam peregrinações e contribuíam na manutenção destas localidades. Em alguns casos, templos eram construídos nestas áreas. Geralmente, estes santuários ao ar livre, escolhidos pelos deuses, estavam localizados em Roma ou em outras cidades, podendo estar não apenas na área rural da cidade, como também em sua área urbana. Alguns santuários estavam localizados próximo ao pomerium87 ou dos portões da cidade e outros em uma área
extra-urbana, ou seja, fora da cidade.88
Falou-se que para se tornar sagrado, o espaço precisaria passar por um processo de consagração que apenas seria possível com a presença de cultos e ritos, que eram fundamentados pelo discurso, pela sua simbologia e pelos gestos performativos. No ano de 2009 foi publicado um trabalho inovador nos estudos sobre Roma, que traz como tema o papel da dança nos rituais da época imperial e seus descontentamentos. Neste sentido, Frederick G. Naerebout (2009, p. 143) afirma que a dança, em si, em sua existência, é uma atividade dinâmica. Ela é um elemento enérgico que aparece no ritual e que não se fazia ausente no Império Romano.
Sabe-se que não foram os romanos a introduzir o dinamismo na dança. Acredita- se que este fato foi resultado do processo de romanização, no sentido de abertura dos caminhos entre pessoas, mentalidades e comportamentos. Por que não falarmos em uma abertura multicultural ou em um emaranhamento entre culturas? Roma se tornou um Império e, neste sentido, o fluxo cultural era inevitável, sendo também um dos possibilitadores da expansão romana. Como afirma Scheid (2003, p. 83-86; 234-237), quando se tornavam obsoletos, os rituais eram ressignificados e, neste processo, sofreram alterações, o que inclui a presença de música, danças e outras formas de comunicação não-verbal.
87 O pomerium era uma fronteira estabelecida conforme o rito de fundação da cidade de Roma (BUSARELLO, 2005, 205). Ele estava localizado ao redor do Palatino. Seu objetivo era demarcar e preservar a integridade do