3 JOGO, ESPORTE E FUTEBOL
3.2 RIVALIDADE, O ENCONTRO DA IDENTIDADE COM A ALTERIDADE
No futebol, como vimos, a competição é inata. Seleções, clubes e atletas competem o tempo todo, repetidas e incessantes vezes. Mas nem todos são considerados rivais. Aliás, essa caracterização compreende um pequeno grupo que pode se considerar rival de outrem ou que desperta oposição permanente de outra torcida. Richard Davies (2010), quando lista as 10 principais rivalidades dos Estados Unidos no século XX, por exemplo, seleciona níveis profissionais (Chicago Bears e Green Bay Packers, no futebol americano) e amadores (Yale e Harvard), entre clubes (Boston Celtics e Los Angeles Lakers, no basquete) e atletas (Joe Frazier e Muhammad Ali, no pugilismo). Como é percebido, a constituição de uma rivalidade é algo complexo e imprevisível.
A rivalidade não é, em si, boa ou má. Ela pode apresentar consequências positivas e negativas. Estimular ou reprimir ações. Solidificar esta ou aquela característica identitária de um grupo. Berendt e Uhrich (2016) observaram em um estudo recente que a rivalidade tem implicações na autoestima de um grupo. Do mesmo modo, confirmaram que o aumento na desidentificação com o rival e na percepção de reciprocidade de rivalidade gera consequências positivas, como a coesão do grupo. Esse comportamento dúbio poderia, segundo os autores, ajudar os clubes e seus departamentos de marketing a estabelecer “diferentes estratégias de comunicação antes dos dérbis, procurando maneiras de se antecipar sem aumentar o risco de comportamento agressivo15” (BERENDT; UHRICH, 2016, p. 26).
Havard (2014) foi um dos primeiros a fazer uma investigação qualitativa, e não apenas quantitativa, para examinar a constituição da rivalidade no ambiente esportivo. Aplicando seu método em entrevistas com fãs de basquete e futebol americano, ele verificou que a superação ao rival direto causava mais satisfação e alegria ao torcedor do que qualquer outro tipo de vitória. O pesquisador concluiu também que os torcedores costumavam acompanhar as partidas do rival como modo de compará-lo a seu time favorito. Além disso, os torcedores relataram satisfação quando o rival perdia seus jogos para terceiros.
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No original, em inglês, different communication strategies prior to derby games, looking for ways to build anticipation without increasing the risk of aggressive behavior.
Em um profundo estudo sobre as características que ajudam a compor uma rivalidade, Tyler e Cobbs (2015) identificaram 11 elementos fundamentais: frequência de competição, momento decisivo, paridade recente, paridade histórica, estrelas, geografia, dominância relativa, competição por pessoal, similaridade cultural, diferença cultural e injustiça. Entre eles, a frequência emergiu como o fator preponderante para a cristalização de uma rivalidade. Em seguida, vieram o momento decisivo, a paridade recente e histórica, as estrelas e a competição pelo pessoal. Proximidade geográfica e semelhança cultural são destacadas, mas em menor grau.
Dentro dessas categorias, é possível caracterizar o clássico Grenal como um dos principais do país e do mundo devido à sua recorrência. São 409 dérbis em 108 anos de história. Mais do que Corinthians e Palmeiras ou Vasco e Flamengo, para citarmos dois entre os clubes mais populares do Brasil, mas menos do que Remo e Paysandu ou Atlético Mineiro e Cruzeiro. Por que, então, ressaltaríamos o Grenal como sendo mais acirrado entre todos os clássicos? Para começar, a própria contabilidade das estatísticas é um indício de reforço constante dessa rivalidade.
A existência de todo clube de futebol, como de todo clã, está baseada em auto- imagem megalômana. É para alimentá-la que toda comunidade clubística mantém atualizada sua “contabilidade de guerra”: quantos títulos na história e na temporada, quantas vitórias sobre os principais rivais, quantos torcedores possui, quanto de público leva aos estádios e à frente dos aparelhos de televisão (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 207).
Esses fatores costumam encabeçar o conceito de que, quanto mais próximos, mais antagônicos são os rivais. Franco Júnior é um dos defensores de que “a rivalidade entre os clubes de uma mesma cidade tende a ser maior do que entre clubes de cidades diferentes. Quando só há dois grandes clubes na mesma cidade o antagonismo tende a ser ainda mais agudo” (FRANCO JUNIOR, 2007, p. 204). Wisnik corrobora esta ideia, e usa a rivalidade Grenal como exemplo da divisão das comunidades em “clãs totêmicos” e da disputa ritualística em um mercado de trocas agonísticas.
Em todos os casos, a base é uma só: ganhar remete ao imaginário (a sensação plena e fugaz da completude), perder remete ao real (à experiência de um corte que devolve ao sentimento da falta), e empatar, ou voltar ao zero a zero do reinício, é o pressuposto simbólico do jogo, que o movimenta e o faz recomeçar. Quando vigora dentro dessas condições, o futebol é um elemento de elaboração de diferenças, um campo festivo e polêmico de diálogo não verbal, projetado no terreno da disputa lúdica, que atualiza a necessidade de que haja um outro para que eu seja, de que um outro me afirme ao me negar (WISNIK, 2008, p. 51).
Essa relação, para os defensores desse pensamento, teria se estabelecido desde o princípio do esporte. Como precisavam viajar menos e os encontros eram mais recorrentes, o
estreitamento de uma rivalidade local entre clãs municipais era maior do que entre grupos distantes. Ao mesmo tempo, havia o senso de defesa e preservação do grupo.
Os clubes de futebol estabelecem identidades culturais por meio da rivalidade e da oposição. As mais puras rivalidades crescem entre clãs municipais. Durante a infância do jogo, foi uma ideia de bom-senso econômico estabelecer dois times rivais da mesma localidade, cidade ou região. Esses “clássicos” garantiam multidões relativamente grandes, devido às curtas distâncias viajadas por torcedores locais. Culturalmente, os jogos dérbi se autopromoviam: os torcedores rivais viviam, trabalhavam e se reuniam uns com os outros, discutindo, rindo e teorizando indefinidamente sobre os encontros passados e futuros (GIULIANOTTI, 2010, p. 26).
Chega a ser surpreendente e até um pouco irônico que essa justificativa seja atual ainda hoje. Afinal, muitos argumentam que as discussões anteriores e posteriores à partida sejam mais importantes do que o próprio jogo. Essa seria uma das razões para que a imprensa esportiva coloque em sua agenda a alimentação diária das rivalidades. Mais uma vez, a questão não é estabelecer a rivalidade como algo bom ou ruim. Ela pode servir como causa para agressão e violência ou como promoção à solidariedade. Porém, cabe a nós buscar entender como a mídia atua no fomento desses elementos que estimulam o antagonismo esportivo e por quê.