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Robert Brandom e a crítica à interpretação “layer cake”

3.2 INTERPRETAÇÃO PRAGMÁTICA: PROBLEMAS, QUESTÕES E POSSIBILIDADES

3.2.2 Robert Brandom e a crítica à interpretação “layer cake”

Levando em conta o caráter disponível dos entes utensiliares pode-se considerar que eles fazem parte de uma intencionalidade pré-temática. Já os entes subsistentes ou objetivos, além do aspecto substancial de serem uma “coisa” determinada e objetiva, são o foco de uma grande parte da tradição filosófica, pois fazem parte de uma intencionalidade conceitual. Entre esses entes subsistentes estão os conceitos, as sentenças, as asserções, inferências e claro, o reconhecimento de propriedades através de tematização. A interpretação pragmática, ou “layer cake” como denomina Brandom, parte do caráter prático da cotidianidade reconhecendo tal comportamento prático como primordial, justamente porque esses comportamentos são os que o ser-aí tem a relação mais imediata com mundo e com os entes em geral. Assim como, a

75 significatividade prática que acompanha a lida com utensílios tem uma força normativa, desse modo, as normas são dadas a partir de contextos práticos e ocupacionais e não por uma força racional ou por julgamentos, antes de tudo. Essas normas, em Heidegger, são socialmente instituídas a partir desses contextos de significatividade. Basicamente o projeto pragmatista de Heidegger é explicar o saber-que (know-that) em termos do saber-como (know-how) (BRANDOM, 2002, p. 77). Mas isso significa que realmente há uma primazia do prático ante o teórico ou é apenas um método para explicitar a forma como nossos comportamentos intencionais de organizam?

Brandom indica que Heidegger desenvolve um tipo de funcionalismo prático-social (social practical functionalism), dando a entender que o comportamento prático é o mais básico e irredutível e nesse sentido, é necessário de maneira rigorosa subtrair significados do disponível a fim de ter acesso ao modo de ser da subsistência (BRANDOM, 2002, p. 77).

Diante disso uma questão se coloca: como a capacidade do ser-aí representar coisas resulta daquilo que fazemos – dos níveis intencionais pré-linguísticos, pré-proposicionais e pré- conceituais? Para Brandom, a possível resposta para essa questão está no fato do ser-aí existir imerso em uma rede holística de práticas normativas, significativas e, principalmente sociais (HEIDEGGER, 2002, p. 78). A estratégia de Heidegger para explicar como a subsistência surge de uma camada mais primordial – disponibilidade – é descrever uma prática social, implicitamente normativa, que é uma prática linguística na qual algumas performances têm o significado “disponível” de afirmações e inferências. Nesse sentido, é como se o mundo dos utensílios fosse autônomo em relação à linguagem, como se esse fenômeno fosse dispensável para a possibilidade das relações práticas e ocupacionais significativas. Para Brandom, essa seria uma concepção “layer cake” que representa a relação entre dois tipos de intencionalidade: a intencionalidade conceitual, teórica e representacional é derivada e pressupõe uma intencionalidade mais básica e autônoma em um nível pré-conceitual e prático (BRANDOM, 2002, p. 80).

A prioridade da disponibilidade ante a subsistência é indicada pelo modelo “layer cake” segundo o qual, poderia haver ser-aí e entes disponíveis sem ser necessário haver subsistência – ou o reconhecimento desse modo de ser. Dessa maneira, a subsistência surge e deriva de certas atitudes e escolhas que o ser-aí adota em suas práticas cotidianas envolvendo o uso de certos utensílios sofisticados, como enunciados e asserções, principalmente quando são usados para expressar regras, reivindicações e normas (BRANDOM, 2002, p. 328). Esse modelo interpretativo parte da afirmação de Heidegger de que “a enunciação deriva da interpretação e da compreensão” (HEIDEGGER, 2012, p, 451). Essa primazia indica a autonomia do modo de

76 ser da disponibilidade e do olhar circunspecto como modo de guiar a intencionalidade humana desde um nível mais básico e primordial.

Para Brandom, a adoção desse modelo interpretativo é um erro (BRANDOM, 2002, p. 329). Como indica Brandom, ser-aí é o ente que tematiza (BRANDOM, 2002, p. 81). Nesse sentido, a capacidade de tratar entes como subsistentes e ter acesso a esse modo de ser é um existencial, ou seja, uma característica permanente do ser do ente humano. Desse modo, há um problema em levar adiante uma concepção interpretativa que reconheça haver uma primazia assimétrica entre dois modos intencionais. Ele é taxativo, sua crítica não vai em negar a questão normativa que possibilita a inteligibilidade do sentido e das práticas cotidianas do ser-aí, apenas que uma comunidade pré-linguística não deveria contar como ser-aí (BRANDOM, 2002, p. 81). Segundo Brandom o acesso ao modo de ser da subsistência se dá através de um tipo especial de utensílio, a linguagem e em especial, o enunciado. Tratar um ente como sendo subsistente é ser capaz de fazer enunciado sobre ele (BRANDOM, 2002, p. 78)

A crítica de Brandom ao modelo “layer cake” é que ele não abrange o comprometimento de Heidegger com a afirmação de que ele faz nos §34 e §38 de Ser e Tempo, segundo a qual não há ser-aí sem linguagem, mais precisamente, que não há ser-aí sem que este trate entes como subsistentes – sem tematização. Brandom apresenta seu modelo interpretativo o qual é contrário a um modelo “layer cake” ou pragmático a respeito da articulação dos comportamentos intencionais humano.

Brandom não está sugerindo não haver situações humanas em que sejam possíveis a compreensão e o seguimento de normas sem que haja uma instância linguística e enunciativa presente. Mas, segundo ele, comunidades em que seja possível haver um nível pré-linguístico de intencionalidade não podem ser consideradas como comunidades de ser-aí. A interpretação dele vai no sentido de reconhecer que há uma dependência recíproca dos dois modos de comportamento intencional, já que o ser-aí se estrutura de maneira holística. A interpretação de Brandom em favor de uma interpretação linguística constitutiva será abordada no próximo capítulo.

A próxima seção analisa de forma mais atenta algumas evidências textuais presentes em Ser e Tempo as quais sustentam uma posição pragmática em relação aos comportamentos intencionais por parte de Heidegger.

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