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Robert Jervis e as percepções do decisor

NOTAS DE FIM DE CAPÍTULO

3.8 Robert Jervis e as percepções do decisor

Nascido em 1940, Robert Jervis é graduado em relações internacionais pelo Oberlin College (1962), e doutorado pela University of California, Berkeley (1968). No período de 1968-74 foi Professor na Harvard University. Assumiu a cátedra de Professor de Ciência Política na University of California, Los Angeles no período de 1974-80. Foi presidente da American Political Science Association no período 2000- 01. Desde 1980 leciona na Columbia University onde é Adlai E. Stevenson Professor of International Politics e Deputy Chair of the Political Science Department at Colum- bia University

Sua obra System Effects: Complexity in Political and Social Life (Princeton, 1997), o revela como cientista social. São também de sua autoria os seguintes liv- ros: The Logic of Images in International Relations (1970); Perception and Misper- ception in International Politics (1976); Cooperation under the Security Dilemma (1978); The Meaning of the Nuclear Revolution (1989); sua publicação mais recente foi American Foreign Policy in a New Era. Mais recentemente tem escrito sobre a Doutrina Bush, da qual é um crítico. É co-editor da Cornell Studies in Security Affairs,

uma série publicada pela Cornell University Press.

Atualmente Jervis vem trabalhando em uma série de projetos sobre o impacto da Guerra Fria nas sociedades norte-americana e soviética bem como os desafios da dissuasão nuclear sob as condições da nova ordem mundial. Foi agraciado com o Lasswell Award for Lifetime Achievement from the International Society for Political Psychology. É membro da American Association for the Advancement of Science e da American Academy of Arts and Sciences.

De maneira geral, considera-se que as falsas interpretações realizadas pelos tomadores de decisão ocorrem em conseqüência de acidentes aleatórios, ou efeito da fricção clausewitziana. Para Jervis (1976), esta visão está incorreta, pois, na ver- dade, o que ocorre são erros padronizados. Quando se realiza um cuidadoso traba- lho de observação, cinco grandes falhas de comportamento humano são encontra- das quando se avalia um tomador de decisão. Dentre elas, quatro dizem respeito ao processo de levantamento de dados: prevalência do emocional sobre os fatores cognitivos; utilização de dados de apoio derivados de experiências em laboratórios; fortes desvios da política interferindo nas análises; esquecimentos e superexposi- ções das oportunidades e ameaças vislumbradas no processo. Uma quinta falha, no entanto é mais complexa de todas: por mais racional que seja o tratamento dos fato- res psicológicos aplicados às relações internacionais, não se consegue alcançar as formas pelas quais tomadores de decisão altamente inteligentes pensam sobre os problemas que os aflige. Assim, pouco auxílio se deve esperar de processos que levem em conta esses elementos, embora seja lícito considerar que não se deve descurar de tais estudos, que de uma forma ou outra podem contribuir para o con- texto geral. A razão de tal dificuldade se deve à necessidade de, mais que a Psico- logia, observar e reconhecer as falsas percepções, as ilusões (misperceptions) cria-

das pelos tomadores de decisão em seus processos intelectuais.

Para tentar evitar os problemas levantados na obra, Robert Jervis desenvol- veu uma nova abordagem mais livre e eclética, baseada em diversas partes da psi- cologia. Como o propósito do modelo por ele desenvolvido não tem maiores com- prometimentos com a psicologia em si, quando necessário, alguns ajustes foram realizados de forma a possibilitar a montagem do conjunto de peças do processo de tomada de decisão política. Existem duas limitações nas idéias desenvolvidas por Jervis: o centro das atenções está na percepção e só considera aspectos da tomada de decisão quando há relevância no que está sendo abordado. A outra limitação é a exclusão de dois aspectos do estudo das percepções: as diferenças culturais e a psicologia do ego, pois a existência de condutas que gerassem falsa percepção po- deria ser conseqüência de distúrbios psicológicos individuais, o que invalidaria o processo. Em síntese, o que se busca é saber como, porque e quando estadistas conscienciosos e inteligentes se iludem com o ambiente de formas específicas e chegam a decisões inadequadas. Esta situação ficou muito evidente durante a Guer- ra Fria, com o debate sobre teorias de dissuasão nuclear nos EUA, pois embora muito se tenha falado sobre teorias de conflitos generalizados nas relações interna- cionais, a maior parte da disputa pode ser contabilizada em termos de desentendi- mentos sobre as intenções soviéticas.

Um exame sobre esse debate revelará o significado central da percepção de intenções para a maioria dos tomadores de decisão e lançará luz sobre as causas e conseqüências de diversas ilusões comuns (JERVIS, 1976, p. 58).

A partir da premissa que moderação ou conciliação estão mais propensas aos fracos, a tendência é reagir de forma inversa, mostrando uma situação de força no

que se convencionou chamar de “jogo do galinha56”. O medo de que uma con- cessão possa ser entendida pelo outro como uma desistência inibe o jogador em fazer algo que encerre o conflito com vantagem para o oponente; assim permanece irredutível às últimas conseqüências, forçando ao outro a desistência. Nesses ter- mos, a base de todo o raciocínio é o sistema anárquico hobbesiano, onde a única garantia de sobrevivência do Estado está em sua própria potência, pois nada lhe garante que um outro Estado soberano venha a desenvolver capacidades de amea- çar seus pares.

Uma vez que um Estado cuida de aumentar sua própria segurança, algum ou- tro se sentirá ameaçado e passa a fazer o mesmo; quando ambos cuidam de acu- mular mais armas de forma a aumentar suas próprias seguranças individuais, a se- gurança de maneira geral na verdade diminui, pois qualquer deles que se sentir forte o suficiente ou extremamente ameaçado poderá utilizar seu poder para tentar subju- gar um terceiro Estado. Esse processo, na verdade, desenvolve uma dinâmica psi- cológica própria que gera uma espiral de impressões ambíguas, fruto de informa- ções discrepantes em que amigos ou neutros deixam de ser viáveis. Essa rigidez cognitiva leva a um “reforço das conseqüências da anarquia internacional” (JERVIS, 1976, p. 68). Como se pode concluir, a dissuasão nuclear gerou uma espiral de pro- fecias auto-realizáveis, ou seja, uma concepção onde afirmações originalmente fal- sas se auto-realizaram. O modelo produziu duas dificuldades: a primeira, quando a política (policy) do Estado sonda o ambiente e às vezes o altera; outra, quando as crenças sobrepujaram as intenções do oponente – nem sempre confirmadas – ge- rando um “beco-sem-saída” para o tomador de decisão. A conseqüência durante a Guerra Fria foi o pagamento de um alto preço por muito pouco.