A expressão do Canto Coral para este trabalho se faz do canto em uníssono à aplicação de montagens simples a vozes, tais como cânones, contra-cantos, ostinatos,26 ou improvisações.
26 Ostinato é um procedimento musical que consiste na repetição de pequenos fragmentos rítmicos ou melódicos na construção polifônica.
O processo de construção do repertório, assim como o surgimento dos temas que serão desenvolvidos em cada programa, são discutidos em conjunto e procuram trazer à tona os assuntos que mais interessam os integrantes do grupo em um dado momento. Em geral, combina composições ou poesias criadas pelos próprios integrantes do grupo, com músicas “consagradas” no contexto da cultura brasileira, provindas do cancioneiro popular, do folclore ou da chamada MPB, e incluindo diferentes estilos, do rock ao rap, do samba à seresta, da música profana à religiosa.
A discussão a respeito do tema a ser abordado e seu desenvolvimento inclui a participação de todos, e são momentos plenos de descobertas, pois existe uma grande abertura para a vazão dos desejos e sonhos de cada um. É um momento em que todos podem fazer uso da palavra para expressar suas vontades e sentimentos, configurando um exercício cotidiano de tolerância que acontece no grupo, e que busca coadunar as forças criativas e os desejos tanto nos planos individuais quanto no coletivo.27
Busca-se, também, na pesquisa de repertório, valorizar as potencialidades individuais, como, por exemplo, a de fazer um solo, falar um texto, tocar um instrumento, ou dançar.
A partir de discussões, ocorridas durante os ensaios, busca-se, em um grupo menor, composto pela equipe coordenadora e alguns cantores, uma unidade para esse repertório, pela elaboração de um roteiro que possa nortear a futura montagem. Esse roteiro é uma organização do material musical e cênico a ser apresentado, e propõe atuações de cada um, como, por exemplo, sugestões de atribuição de papéis, inclusão de
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Essa é uma característica peculiar desse grupo, pois no exercício dessa conversa franca, todos os assuntos são levantados, da doença ao estigma, da ação política à ação cotidiana de cada um, das dores às alegrias.
textos, maneiras de construir as seqüências das canções, discussão sobre figurinos e concepção cênica.
Esse processo de pesquisa e construção de programa pode ser entendido como um processo de composição, feito a partir das necessidades e possibilidades do grupo, pois, como coloca KERR em sua apostila para regentes corais:
São trabalhos de composição:
A organização do material musical, A montagem de um roteiro,
A viabilização de um projeto sonoro.
Assim como também são trabalhos de composição:
Lidar com o disponível Organizar o som possível
Dar forma ao som idealizado. (1989, p. 14)
E, imediatamente após esta citação, fazendo uma ligação com o trabalho do Líder (regente) e seu Gesto, o mesmo autor comenta que o regente, à frente da sua comunidade, é o “articulador dos sons, identificador das capacidades musicais, animador do exercício musical, ativador da memória musical da comunidade e das pessoas. (...). Ao organizar o
som possível, o regente se exercita como compositor. Ao liderar as disponibilidades, ele se exercita como regente ( p. 15) (grifo do pesquisador).
A disponibilidade de ouvir o coro (representado aqui como comunidade), para se construir o programa, é o exercício cotidiano que se busca no trabalho com o Coral
Cênico Cidadãos Cantantes. Trata-se de um projeto sonoro oriundo da articulação da vivência do regente com a possibilidade da escuta da comunidade.
Revendo os roteiros musicais do Coral Cênico, e extraindo-se uma lista dos temas que foram abordados nos diferentes programas realizados no período de 1996 a 2004, pode-se notar que o tema da loucura e seu estigma vão, gradativamente, deixando de ocupar o primeiro plano na montagem, na medida em que o grupo se torna mais heterogêneo, e a questão da Luta Antimanicomial passa a ser vista de uma maneira mais ampla do que apenas a substituição dos hospitais psiquiátricos. Em 1996 já existiu um trabalho de resgate do potencial criativo, por meio da valorização de histórias e experiências individuais, que se seguiram ao lançamento do livro O Vôo das Borboletas (1996), de vários autores do Coral, e, em 1997, esse momento do sofrimento em hospital psiquiátrico, foi compreendido como “o Passado”, dando espaço para se falar, no presente, de necessidades básicas, tais como o amor e a inter-relação com o mundo, no sentido de trocas nos planos objetivo e subjetivo. O sentimento do medo do desconhecido (ou daquilo que não se vê... “eu vi uma onça gemer, na mata do arvoredo”, trecho trabalhado cenicamente e cantado na Toada de Boi Maranhense)28 e a captura de situações em que a loucura, assim como a catarse ou o transe, presente no repertório nas canções de orixás dos filhos de Gandhi, é socialmente aceita, foi o enfoque do programa de 1998. Em 1999 foram buscados encontros, elos, tecendo uma rede a partir de diferentes fios. Neste ano foi feito um grande congraçamento entre os corais convidados e
o Coral Cênico, formando, ao final do programa uma grande ciranda – “Essa ciranda não é minha só, ela é de todos nós, ela é de todos nós”.29
A partir de 2000, a temática passa a ser mais diversa, envolvendo, além das discussões sobre preconceito e segregação, a crítica social, o humor, a questão fundamental do trabalho, a questão da paz, e outras, que eram de interesse do grupo em determinado momento.
Abaixo se apresenta a lista dos temas abordados no período 1996/2004.
1996 - A loucura: o confinamento e a possibilidade criativa como alternativa 1997 - Cantar é mover o dom: o Passado, o Amor, Ver o mundo
1998 - O medo, a loucura e os ritos populares 1999 - Tramando elos... encontros
2000 - 500 anos de Brasil: diversidade, cores e esperança
2001 - O trabalho, a loucura e seus estereótipos: homenagem a Raul Seixas 2002 - 10 anos de Coral Cênico Cidadãos Cantantes: uma história de resistência 2003 - Movimento das águas: a construção do guerreiro e a paz
2004 - “Lá do alto do telhado”: os gatos e a vida urbana nos grandes centros (SP 450 anos)
Essa passagem é notada pelas diferenças nas temáticas abordadas no repertório e pela maior diversificação nos locais de apresentação. Nota-se no repertório, nos anos iniciais do coro, que havia a preocupação em falar da loucura e do sofrimento causado pela exclusão, representado concretamente pela existência dos manicômios. Um exemplo dessa preocupação temática foi a encenação da música Balada do Louco, que se tornou ‘carro chefe’ do Coral, e permaneceu no repertório de 1992 a 1996. NOVAES (2005)
assinala que a mudança no repertório deu-se a partir de 1996, coincidindo com o momento em que ocorria um retrocesso na política de saúde municipal, pela imposição do PAS e abandono de muitos serviços que vinham se desenvolvendo afinados com os princípios da reforma psiquiátrica e da Luta Antimanicomial.
A partir daí, o repertório não aborda apenas o tema da loucura ou do sofrimento, mas, neste outro momento, já aparece associado ao humor ou à ironia, como se pode observar no caso de Pirex,30 música de Itamar Assumpção:
Dizem que eu sou pirex, pirex Mas pirex não sou não, não, não Não sou rolo de durex
Durex eu não sou relax Relax não é fax não Não é fax não
Pirex não é fax não, não , não Pirex não é fax não
(Abre-se um pequeno parêntese para relatar o quão marcante foi a participação de Itamar Assumpção no III Encontro Musical. O cantor e compositor, com sua irreverência característica, lentamente, em sua apresentação foi criando empatia com a platéia até chegar ao fim de sua participação. Ao som dos aplausos e pedidos de bis, inesperadamente, sobe ao palco da sala de teatro Jardel Filho, um dos cantores do Coral Cênico, Gil Pires, que, identificado com Itamar, talvez em sua negritude, humor ou loucura assumida, manifesta seu desejo de cantar uma música junto com o artista, no que
é prontamente atendido, e juntos cantam a música ainda inédita de I. Assumpção, Pirex.
No final da música, Itamar pega G. Pires no colo, o qual, em seguida, retribui o
“cumprimento” com o mesmo gesto... Este momento seguido da resposta acalorada do
público estão registradas com muita emoção no vídeo São Paulo: Dez anos de Produção
Antimanicomial, de autoria do vídeo-maker Celso MALDOS, 1999).
O caráter mais abrangente do repertório fica também expresso em outros momentos, como na temática das carências, trabalhado em 1998, que gerou a montagem de uma cena: “‘Coitadinho’ é carinho?”; ou na questão da culpa, em Ilegal, Imoral ou
Engorda, (Roberto e Erasmo Carlos); ou nas canções de Raul Seixas, dialogando com o
estereótipo do Maluco Beleza e com o incômodo da diferença, em A Mosca, entre os anos de 2000 e 2001. A questão do trabalho enfocado no Vendedor de Bananas (Jorge Benjor), da diversidade, em Alma não tem cor (André Abujamra), ambos de 2001, ou do amor, em
Eu só quero um xodó (Anastácia e Dominguinhos), do repertório de 1998.
A inclusão de canções originais ou poesias de autoria dos integrantes do grupo teve grande peso nessa passagem, pois valorizavam a produção de cada um pela capacidade, trazendo assim um aspecto positivo e, mudando o foco, do campo da loucura e exclusão, para o campo da criação e constituição de território.