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CAPÍTULO 1- HENRIQUE DA ROCHA LIMA, O INSTITUTO DE

1.2. Rocha Lima em Berlim (1901-1903)

A opção de Rocha Lima por Berlim como local de estudos não foi algo que fugiu dos padrões. No período da “Belle Époque” carioca, era comum que os filhos das elites estudassem ou aperfeiçoassem seus estudos na Europa, de onde provinham os modelos que balizavam as concepções de civilização e progresso. A França consistiu na principal matriz cultural para as elites brasileiras, cujos descendentes aprendiam desde a infância o idioma francês. Não surpreende que Paris fosse o principal destino para onde mandavam seus filhos estudarem. Mas com o célere desenvolvimento industrial e científico da Alemanha, logo Berlim passou a rivalizar com a capital francesa na atração de estudantes.

O motivo que atraiu Rocha Lima à capital alemã foram as potencialidades de estudos em medicina. Desde a fundação do Reich em 1870, Berlim adquirira crescente importância em virtude do crescimento industrial e do prestígio científico de suas instituições médicas. A medicina havia contribuído bastante para o crescimento da cidade, criando com ela uma relação orgânica. O Preu ische Medizinalordnung (sistema médico prussiano), criado por Rudolf Virchow para assistência de saúde da população, era visto como exemplar. A partir de 1846, ele passara a ensinar na Universidade de Berlim. Por meio de seus trabalhos e publicações, sedimentou as bases da moderna patologia, ao postular que o fundamento dos processos patológicos estavam na célula. Advogou a observação microscópica como a principal ferramenta para análise das modificações mórbidas. Desse modo, formou escola, cujos membros e sucessores pontificaram principalmente no Hospital Charité. A tradicional instituição hospitalar estava ligada desde o início do século XIX à Universidade de Berlim. Ali atuaram muitos dos professores que conferiam prestígio internacional à medicina alemã.

No Charité floresceu prolífica escola de fisiologia, cuja tradição remontava a Hermann L. F. Helmholtz e Emil Du Bois-Reymonds. A cirurgia também teve ali renomados representantes.14 No começo do século XX a reputação dos bacteriologistas alemães projetava internacionalmente a pesquisa médica do país.

Rocha Lima chegou em Berlim no auge do seu florescimento como capital do império de Guilherme II. Das largas e elegantes avenidas, que imitavam as boulevards parisienses e pretendiam superá-las em grandeza e elegância, às construções monumentais, tudo acenava para as pretensões de supremacia do Kaiser. Desde que tornou-se a capital do Reich Alemão, a outrora acanhada capital da Prússia foi modificada para assumir uma fisionomia digna do império que buscava “um lugar ao sol”. O crescimento da cidade foi rápido, alavancado pelo súbito avanço industrial que atraiu para ali populações das mais diferentes origens, tornando-a um dos principais centros da manufatura alemã. Ela reuniu em si todas as contradições que a modernidade industrial trouxe consigo, abrigando a burguesia que emergiu com o processo de modernização, a aristocracia junker e as classes operárias, que se aglomeraram nas precárias e insalubres habitações coletivas dos bairros mais distantes.

Naquele começo de século, Berlim tornara-se o protótipo da cidade grande. Em 1900 contava com quase dois milhões de habitantes. Ela manifestava o ideal de capital da alta tecnologia, que distinguia o setor de ponta da indústria alemã. O primeiro bonde elétrico do mundo começara a circular em 1881 em Lichterfelde. Desde 1896, a cidade começou a contar com uma rede de metrôs. Apesar do sistema altamente desenvolvimento de transportes, o trânsito de automóveis era um dos mais intensos da Europa. A cidade expressava ainda em suas ruas o caráter militarista do Reich. Soldados trajando os uniformes da guarda imperial podiam ser vistos por toda parte. A admiração e identificação do povo alemão com imperador podia ser notada pela predominância entre os homens dos bigodes com as pontas viradas para a cima, aprontados nos elegantes barbeiros da parte oeste da cidade.

Em setembro de 1901, depois de ter passado uns dias em Hamburgo e já estabelecido em Berlim, Rocha Lima registrou as primeiras impressões da capital alemã ao amigo e colega da Faculdade de Medicina Hugo Werneck.15 Descreveu a admiração que sentiu na forma

14 Sobre a história do Charité e um panorama da medicina em Berlim a partir do renomado hospital, ver Jaeckel, 1999 e Bleker & Hess, 2010.

15 Hugo Werneck nasceu em 28 de setembro de 1878, filho de renomado médico e político Francisco Furquim Werneck. Formou-se em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1901. Antes mesmo de

irônica que já lhe era característica. Vale a longa citação como demonstrativo do seu entusiasmo naquele momento:

Há um mês que estou no país dos bárbaros de cabelos vermelhos, como chamam os chineses a este povo atrasado, bem mais atrasado do que o nosso, pois ainda não adotaram muitas das nossas maneiras de viver. Imagina que as leis aqui são cumpridas, e que para a fiscalização disto há uma policia; e quando um soldado de polícia diz uma coisa qualquer a um cidadão, por melhor trajado que esteja, este é tão tolo, que imediatamente cumpre a ordem e nem tem a idéia de perguntar ao policial se ele não sabe com quem está falando, que ele (cidadão) não é qualquer vagabundo, etc e outras respostas que o nosso progresso introduziu. O policial, que não é nenhum letrado, nem Dr. em direito, é pessoa tão importante, que nem cumprimenta os oficiais, aqui, onde um oficial é um graúdo, no entanto, chegando-se a um destes figurões, e pedindo uma indicação, eles tiram do bolso um livro de informações e procuram o que se pede, sem fazer cara feia ou ares de importância. Também aqui não é muito difícil manter a ordem, pois esta gente nem mesmo sob a ação do alcool faz rolo, o alemão na chuva dorme ou canta mas não provoca ninguem. É uma gente tão pouco esperta que em vez de irem pela rua ou calçada, cada um por onde tem vontade, vão todos sempre pelo lado direito. Nos bondes também se pode apreciar este povo ou por outra a diferença entre ele e o nosso, pois quando o bonde pára em um ponto há muita gente esperando e os lugares são poucos, pois esta gente em vez de avançar e empurrar os outros, espera que as pessoas que tem de descer desçam, para depois entrar, acontece sempre entrar então gente demais, mas o condutor convida estes a saírem o que eles fazem sem resmungar ou dizer que o dinheiro deles é tão bom como o dos outros, etc, os que ficam recebem todos sem exceção o recibo da passagem e ninguem diz que é desaforo, ou que não é fiscal da companhia; coitados! Que atraso! Quando é que o nosso povinho se sujeitaria a coisas tão deprimentes !? (...)Aqui ha tempos quebrou um banco, e os banqueiros em vez de gozar a liberdade que os seus semelhantes gozam entre nós, foram trancafiados e dois outros suicidaram-se. Que tirania! Não têm noção da liberdade!! Passemos aos soldados, que são como o resto do povo muito certos, pois em vez de marcharem do modo o mais cômodo, vão todos duros e fazem tudo ao mesmo tempo, quando um encosta o pé direito no chão todos estão fazendo a mesma coisa, enfim parecem bonecos de corda principalmente quando o official comanda qualquer evolução, como por exemplo quando manda descansar as armas, ouve-se um só barulho que é o de todas as espingardas batendo no chão ao mesmo tempo – qualquer soldado aqui dá-se o luxo de andar mais limpo do que qualquer dos nossos oficiais. Os oficiais, então, são de uma elegancia extraordinária. (Carta de Rocha Lima a Hugo Werneck de 01.09.1901)

formado, já freqüentava a Santa Casa de Misericórdia e trabalhava na Casa de Saúde Catta Preta, criada por seu pai junto com outros dois médicos. Atuou como interno no Hospital de Jurujuba e na Maternidade de Laranjeiras, onde adquiriu familiaridade com sua especialidade, a ginecologia. Devido à tuberculose, mudou-se para Belo Horizonte em 1906, depois de ter passado um período num sanatório na Suíça. Estabeleceu clínica e ganhou notabilidade local como “médico de senhoras”. Em 1908 assumiu a direção da Santa Casa de Misericórdia da capital mineira, na qual implementou uma série de medidas de modernização e otimização do atendimento médico à população. Coordenou a instalação de um pavilhão para doenças ginecológicas e outro para isolamento de tuberculosos. Participou da comissão e das discussões que redundaram na criação da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, em 1911, assumindo a cadeira de clínica ginecológica e obstetrícia. Em 1916 liderou a campanha que levou à criação da Maternidade Hilda Brandão. Entre 1925 e 1927 dirigiu a Faculdade de Medicina e participou das articulações que levaram à fundação da Universidade de Minas Gerais, criada por lei de 7 de setembro de 1927. Criou também um sanatório para tratamento de tuberculosos, cuja construção foi concluída em 1929. Werneck também fez incursões na política: foi vereador de Belo Horizonte entre 1916 e 1930 e em 1934 elegeu-se deputado estadual. Morreu no ano seguinte. (Miraglaia, 2009). Sobre a trajetória de Hugo Werneck como ginecologista e seu papel no estabelecimento da especialidade ver Marques, 2005.

Recorrendo à ironia e à inversão, Rocha Lima qualificava a cultura alemã por aquilo que ela apresentava em contraponto à brasileira. Dessa forma, estavam implícitos em seus elogios disfarçados de censura, as críticas e reservas que tinha em relação aos hábitos do seu país natal. Nota-se que os proverbiais espíritos de ordem, cidadania e senso coletivos são as principais características que ele admira no povo alemão e a ausência dos mesmos o maior motivo de crítica à cultura brasileira. “Eles são o verdadeiro oposto dos nossos males (...), pois entre nós não há o menor espírito de ordem, o menor respeito às leis e às autoridades (...) todos se julgam superiores aos outros, nenhum indivíduo se contenta em mandar na sua esfera...” comentou com o amigo. Aqui ele alude ao elemento que via como garantidor de toda aquela ordem: o senso de hierarquia. Este tornara-se um traço bastante característico do “habitus” de uma sociedade forjada pelas experiências de beligerância e, portanto, perpassada pelas características da ordem militar: “Aqui (...) o policial manda na rua, no bonde é o condutor que vale mais, no café é o dono da casa, enfim, em cada lugar há um indivíduo que é superior e os outros respeitam-no, embora sejam na sociedade em geral mais elevadamente colocados”.16

Nos primeiros dias Rocha Lima disse que achou Berlim “detestável”. Só chovia, seu único conhecido estava triste pela morte do pai e ele estava angustiado pela falta de notícias da família. Outro fator que contribuiu para acentuar o isolamento foi a dificuldade com a língua. “O alemão é uma língua dos diabos, eu achava difícil quando lá estava, agora ainda acho mais difícil”, admitiu a Werneck. Fazia aulas todos os dias, mas tinha a impressão de ainda não possuir nenhuma familiaridade com o idioma. “Admiro-me como alguns patrícios chegam aqui e tomam logo cursos, em poucos meses dizem que sabem alemão; pois eu nem esperanças tenho de vir a sabê-lo direito”, comentou. O aludido conhecido, Rodrigues, estava há um ano em Berlim, era bastante estudioso e ainda não falava muito bem. Havia ido ao teatro, mas não entendeu patavina. “Para mim o mais difícil não é falar, pois só digo o que sei, mas quando digo uma coisa que estudei com todo o cuidado, o sujeito me responde uma porção de coisas que eu não entendo, é que eu fico furioso.” Nosso personagem sofria o primeiro choque cultural e linguístico com a Alemanha. É surpreendente deparar-se com Rocha Lima tão inseguro, sabendo que anos depois ele tornar-se-ia um dos mais destacados promotores das relações germano-brasileiras exatamente em virtude do domínio que vai adquirir não só do idioma alemão, mas também do modus operandi daquela cultura.

Quando Rocha Lima chegou em Berlim, a bacteriologia era uma das disciplinas hegemônicas no âmbito do pensamento médico. Seu principal mentor, Robert Koch, a havia transformado na principal orientação da higiene do Império Guilhermino. Representantes de sua “escola” ocupavam postos-chave da saúde pública e dos institutos de higiene autônomos ou ligados às universidades. Ele próprio estava desde 1876 à frente da Saúde Pública do Reich (Kaiser Gesundheistamt). Os já referidos resultados obtidos no equacionamento das doenças infecciosas garantiram o apoio das instâncias oficiais à nova especialidade médica. O autoritário Estado alemão beneficiara largamente as medidas de intervenção no espaço público preconizadas pela ciência dos germes. As metáforas beligerantes empregadas pelos discípulos de Koch no combate às doenças refletiram a atmosfera militarista da Alemanha guilhermina (Berger, 2007). Além disso, Guilherme II era um entusiasta da ciência e de suas aplicações, as quais concebia como uma das molas propulsoras da modernização do seu império e instrumento de conquista de prestígio internacional. Nesse contexto, Koch logrou tecer a rede de apoio para a sua ciência, reforçando seus laços com a medicina militar e acadêmica. Conquistou a adesão do todo-poderoso oficial do ministério da cultura Friedrich Althoff, que conduzia com mãos de ferro a política científica do Reich. Ele acompanhava as nomeações nas universidades e articulava o apoio do imperador e das indústrias para projetos e cientistas que considerava promissores. Graças a esses fortes aliados, Koch, que em 1885 fora nomeado professor de higiene da Universidade de Berlim, conseguiu obter seu próprio centro de pesquisas, o Instituto de Doenças Infecciosas, criado em 1891. Ele reuniu se os principais representantes da ciência de Koch, que no começo do século XX já não se restringia à identificação de agentes patogênicos e desenvolvimento de novas técnicas, mas incluía densas pesquisas sobre os fenômenos da imunidade e de poderosas armas terapêuticas desenvolvidas a partir deles.

Atraído pela bacteriologia já durante os meses que frequentouu em Manguinhos, Rocha Lima procurou adquirir maior familiaridade com aquela ciência em Berlim, onde pontificavam muitos de seus renomados representantes, muito embora seu objetivo inicial fosse seguir pela clínica cirúrgica. Esta foi uma tensão que o acompanhou durante todo esse primeiro período na Alemanha. Era um dilema entre o prazer que sentia em estudar os infinitamente pequenos e o pragmatismo de conseguir uma posição profissional. A clínica figurava mais promissora em termos de dinheiro e prestígio do que a bacteriologia, mas sentia enorme entusiasmo por esta. O amigo e correspondente Hugo Werneck havia optado pela clínica: mantinha um consultório de ginecologia na capital federal. Por via das dúvidas, nosso

personagem resolveu frequentar cursos em ambos os domínios da prática médica, postergando a decisão e ampliando seu espectro de possibilidades futuras.

Quando Rocha Lima chegou em Berlim, as instituições públicas ainda estavam de férias. Conforme relatou a Oswaldo Cruz, procurou o laboratório particular de um tal C.S. Engel, com quem adquiriu lições em bacteriologia e um trabalho em microscopia e química clínica. Durante 4 horas por dia, praticou o mais que pôde os métodos de coloração mais utilizados e as pesquisas clínicas e microscópicas da urina e suco gástrico. “O meu professor parece entender do ofício, mas para quem estava habituado a ver o que se fazia em Manguinhos, a técnica dele não agrada por não ser tão rigorosa”, confidenciou a Oswaldo Cruz.17 Agradeceu por ter aprendido com ele de forma meticulosa os procedimentos concernentes à ciência dos germes. O rigor da técnica foi um dos aspectos que os “discípulos de Manguinhos” destacaram como fator decisivo para o reconhecimento dos trabalhos da instituição brasileira. Rocha Lima demonstra segurança nesse sentido, e ao mesmo tempo, procura afirmar a percepção de que as práticas e realizações do Brasil eram perfeitamente condizentes com aquilo que era feito no Velho Mundo: “... acho que não é pouco poder separar o joio do trigo e não tomar por gênero de primeira qualidade uma coisa só por ter rótulo em alemão”.18 Em outubro, ele frequentou um curso de bacteriologia, no Instituto de Higiene de Berlim ,e outro de protozoologia. Pretendia tomar cursos no Instituto de Doenças Infecciosas com dois assistentes de Robert Koch, mas não encontrou vagas. Um deles sugeriu-lhe que procurasse o instituto na próxima primavera (março de 1902).

Ao mesmo tempo em que frequentou os cursos de microbiologia, Rocha Lima também tomou os de clínica cirúrgica, conforme relatou a Hugo Werneck. Durante um mês frequentou um, no qual disse ter visto número de casos correspondente a um curso de seis meses no Rio. Em janeiro de 1902, frequentou a clínica de Carl Jakob Adolf Christian Gerhard,19 que desde 1885 ocupava a segunda cadeira de clínica médica no Hospital Charité. Gerhardt era considerado um dos pais da pediatria, tendo escrito um manual “Handbuch der

Kinderkrankheiten”, visto como um texto basilar dessa especialidade médica. Morreria naquele mesmo ano de 1902.

17Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 19.10.1901. BR RJCOC OC-COR-CI-11 (Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, Fundo Oswaldo Cruz, Série Correspondência, Subsérie Correspondência Científica – Correspondência com Rocha Lima).

18 Idem

Rocha Lima ficou vivamente impressionado com a medicina acadêmica alemã e usou do mesmo tom irônico para elogiá-la naquilo que ela apresentava de oposto à brasileira:

Passemos dos militares aos médicos. Também o atraso é notável, pois em vez de decomporem os outros pelos jornais, estudam muito e respeitam muito os que já subiram. Quando seria muito mais fácil, em vez de perder tempo com os estudos, aproveitasse-o em desmoralisar e deprimir aqueles que estão em cima, mas aqui nem passa pela idéia de nenhum médico ir para as ruas mais frequentadas falar mal da vida pública e privada daqueles que lhe são professores. O estudante aqui venera o seu mestre, aqueles então que se dedicam a uma especialidade com um dado mestre olha para este como para um semi-deus.20

No entanto, Rocha Lima admitiu que sentia admiração por alguns grupos da comunidade médica do Rio, que mesmo a convivência com os professores alemães internacionalmente renomados não havia esmaecido. “Tanto mais quanto se deve considerar o meio, pois é sem dúvida mais fácil ser um sábio aqui do que um médico bem preparado no Rio. A facilidade de estudar aqui é incrível”, comentou com Werneck.21 E mais adiante, quando já entregue às graças da medicina experimental: “Tu não tens a menor idéia do que seja a vida de um homem de ciência em um meio científico”22

Entre novembro e dezembro de 1901, Rocha Lima frequentou o curso de bacteriologia oferecido por Phillip Martin Ficker, no Instituto de Higiene de Berlim. Ficker era conhecido principalmente por ter desenvolvido um método simplificado do diagnóstico de Gruber- Widal, empregado na detecção da febre tifóide.23 Além disso, aperfeiçoara métodos de coloração e cultura bacterianas, ocupando-se posteriormente com estudos em imunologia. Obtivera treinamento na ciência dos germes durante seus estudos em medicina como

20 Carta de Rocha Lima a Hugo Werneck de 01.09.1901. 21 Carta de Rocha Lima a Hugo Werneck de 29.10.1901. 22 Carta de Rocha Lima a Hugo Werneck de 06.07.1902.

23 Martin Ficker nasceu em Sohland no Spree em 17 de novembro de 1868. Formou-se em medicina pela Universidade de Bresslau, onde foi assistente de Karl Flügges no Instituto de Higiene. Dedicou-se à época ao ramo da pesquisa bacteriológica do ar. Entre 1896 e 1901 foi assistente de F. Hoffmann no Instituto de Higiene de Leipzig, onde defendeu livre-docência em 1898 sobre o tema “Sobre o tempo de vida e morte de germes patogênicos”. Em 1902 tornou-se diretor de departamento do Instituto de Higiene da Universidade de Berlim e no ano seguinte foi nomeado professor de higiene desta universidade. Publicou com seus professores Max Rubner e Gruber entre os anos de 1911-1923 o “Manual de Higiene”. Em 1913 foi nomeado diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo. Em virtude da Guerra, retornou em 1917 à Alemanha, quando assumiu o posto de diretor de departamento na Sociedade Kaiser Wilhelm, ocasião na qual realizou estudos sobre a toxina do antraz. Retornou a São Paulo em 1923, onde fundou um laboratório de bacteriologia que permaneceu ligado à Sociedade