Jongo de caxambu1
Bom-dia, meu senhor, bom-dia, minha senhora, Bom-dia pro meu tambor, bom-dia pra quem chegô agora. Bom-dia, meu senhor, bom-dia, minha senhora, Bom-dia pro meu tambor, bom dia pra quem chegô agora.
Jongo de caxambu 2
Quando eu era caiero aê aê aê. Meu cavalo andava arrumado aê aê aê. [...] No tempo que era caeiro, meu cavalo andava arrumado [...] (repete 5 vezes).
Jongo de caxambu 3
Aê aê aê aê Na mata que eu tiro lenha aê aê aê Num deixo piá jaó aê aê aê Se piá eu ranco (arranco) o rabo pro bicho anda cotó, se piá eu ranco o rabo pro bicho anda cotó. Na mata que eu tiro lenha, num deixo piá jaó. Se piá eu ranco o rabo pro bicho andá cotó, se piá eu ranco o rabo pro bicho andá cotó. (repete 2 vezes).
Jongo de caxambu 4
Aê aê aê aê Tomara que as mata morre, pras cobra morrê de fome aê aê aê Tomara que chegue o dia das muié (mulher) caçá os homi, tomara que chegue o dia das mulé caçá os homi. Tomara que as mata morre, pras cobra morrê de fome. Tomara que chegue o dia das muié (mulher)caçá os homi, tomara que chegue o dia das muié caçá os homi. (repete 3 vezes).
De fato, as experiências vividas durante a pesquisa apontam que muitos jongueiros e caxambuzeiros de antigamente já não existem mais, porém, muito do que se sabe hoje e do que se realiza nas rodas, tanto de jongo, quanto de caxambu foi fundamentado pelos antigos e mesmo ressignificado. Tudo isso é revivido quando os grupos se reúnem ainda hoje.
Sobre o caxambu, os escritos são mais restritos ainda. São poucas as citações das práticas e registros de relatos de caxambuzeiros, no entanto podemos perceber que, na descrição encontrada no “Atlas do Atlas Folclórico do Brasil”, o caxambu é descrito como elemento de origem negra, de Angola, com função mágica, fetichista, num estilo nativo que mescla elementos de macumba e que hoje, se “[...] torna
apenas um divertimento, por não existirem os antigos jongueiros que conheciam os
fundamentos e os segredos da reunião [...]” (FUNARTE, 1982, p. 58).
Na descrição, os autores continuam apontando que:
[...] os solistas improvisam versos, numa linguagem quase sempre simbólica, expressando humor, pedindo licença, homenageando santos e pessoas, celebrando datas, apresentando e respondendo enigmas. Desafiar ou responder são traços essenciais da dança. Os mais frequentes são: tambores, a puíta (colocados fora da roda) e a angóia, usada durante o canto. Os tambores de feitura arcaica são feitos de troncos escavados e recobertos numa extremidade por uma membrana de couro de boi, veado ou cachorro. Como o tambor reveste um caráter mágico, mais pela constituição do que pela sonoridade, o couro de cachorro é considerado malévolo, sendo preferido o de boi. O Tambu ou Caxambu é o tambor maior, afunilado, com 1,5 de comprimento, colocado horizontalmente no solo, o tocador o cavalga e bate com as duas mãos no couro. O candongueiro, semelhante a uma pequena barrica, com 60cm, é colocado sob o braço esquerdo ou carregado a tiracolo, por meio de um cinto de couro [...] (FUNARTE, 1982, p. 58).
Sobre a ritualística, complementam: “[...] uma fogueira próxima à roda, além de iluminar o terreiro, serve para temperar (afinar) os tambores e esquentar as bebidas” (FUNARTE, 1982, p. 59). O mestre jongueiro inicia o ponto de pedido de licença, dirigindo-se às almas, aos assistentes, um verdadeiro ritual.
Essas comparações ou orientações foram vividas em grande parte quando investigamos a ritualística do caxambu e, posteriormente, a dos os jongos do norte. Porém, tanto nas análises do jongo, quanto nas descrições folclorísticas do caxambu encontradas, a descrição situa-se sob a “cena montada”, ou seja, a dança em si, o som, o desprendimento de todo apego histórico contido nas ações, nas crenças, nas músicas. Chegamos a um ponto na pesquisa em que a vivência, ou melhor, o trabalho de campo, vem carregado de todas essas bagagens: por um lado, o que observamos quando fizemos os levantamentos, com o instrumento de pesquisa voltado para a caracterização dos grupos; e, por outro, a necessidade de identificarmos as semelhanças e diferenças possíveis nas ritualísticas. Chamo mais uma vez a atenção para uma condição que estou colocando ao trabalhar o jongo e diferenciá-lo regionalmente no Espírito Santo como práticas culturais, de mesmo tronco “genético”, digamos assim, mas com diferenças e ressignificações geracionais (porque foram se modificando com o passar das gerações, mas
mantendo os princípios) e regionais, acopladas a todos os contextos sociais, políticos, ambientais que contribuíram para que houvesse esse hiato cultural.
O rito aqui passa a ser descrito como a “questão” pontual com o sagrado. Está presente nas procissões, como é o caso do ritual que marca o Jongo de “São Bartholomeu” ou no caxambu do “Treze de Maio”.
4.3.2 Tambor, tambu, angomas e engomas: a roda e os instrumentos musicais dos jongos e caxambus
As rodas de jongo e caxambus diferem-se conforme as regionalizações e aproximam-se em alguns detalhamentos em relação aos jongos encontrados no norte do Estado. Percebemos que há a formação inicial de uma roda, em que na frente, são colocados os tocadores – sempre homens (tamborezeiros e reco-recos) e, à frente destes, ficam a mulheres, formadas em duas fileiras paralelas para, após a chamada do jongo, iniciar as tranças e rodas umas em torno das outras.
Um jongo de abertura que se evidenciou em vários momentos iniciais diz o seguinte:
Mestre: Cadê a moça do jongo Dançadeira: Tamborê tá chamando Mestre: Cadê a moça do jongo Dançadeira: Tamborê tá chamando.
Esse jongo, cantado ao início da prática das jongueiras, afina as mulheres que estão à frente, também conhecidas por cabeceiras. É delas o comando dos passos do jongo em acordo com a chamada do mestre. Dessa forma, há nos jongos uma hierarquia de posição em que assume à frente o mestre, em seguida as cabeceiras. Há uma porta-estandarte (que segura o estandarte do grupo) e as dançadeiras. Conforme o estilo do grupo há cabeceiras que atuam no comando utilizando um bastão com fitas penduradas, e as dançadeiras observam constantemente sua movimentação para, então, continuar ou mudar os passos dançados.
Os tocadores são responsáveis por manter o ritmo da atividade, conforme a toada da música, mas rápida ou mais lenta, e fortalecem a voz do mestre cantando.
Mas a função realmente em destaque é a figura do mestre, que geralmente trabalha tocando um instrumento, muitas vezes o reco-reco, e utiliza um apito para comandar as posições do jongo.