2. O CONTEXTO E AS ESCOLHAS METODOLÓGICAS
2.4 Procedimentos da coleta de dados
2.4.1 Rodas de conversa
Quando estruturávamos os procedimentos para coleta de dados desta pesquisa, muitas foram as reflexões feitas entre mim e minha orientadora no intuito de ponderar sobre as diferentes possibilidades de recursos que poderiam ser utilizados, os objetivos
da pesquisa e o contexto prisional, a fim de definirmos a melhor escolha. Sempre tendo em vista o desejo de trazer as percepções das pessoas em situação de privação de liberdade, ainda que sob os nossos recortes, optamos pelo uso de rodas de conversa.
A Roda de Conversa é um meio profícuo de coletar informações, esclarecer ideias e posições, discutir temas emergentes e/ou polêmicos. Caracteriza-se como uma oportunidade de aprendizagem e de exploração de argumentos, sem a exigência de elaborações conclusivas. A conversa desenvolve-se num clima de informalidade, criando possibilidades de elaborações provocadas por falas e indagações (SILVA; BERNARDES, 2007, p. 54).
Constituem-se, desse modo, como uma metodologia que incentiva a participação e reflexão na qual “buscamos construir condições para um diálogo entre os participantes através de uma postura de escuta e circulação da palavra bem como com o uso de técnicas de dinamização de grupo” (AFONSO; ABADE, 2008, p.19). Trata-se, portanto, de um tipo de metodologia participativa que pode ser utilizada em diferentes contextos com o objetivo de promover a reflexão sobre os mais diversos temas.
A Roda de Conversa é um recurso metodológico semelhante ao Grupo Focal, também utilizado em pesquisas qualitativas. No Grupo Focal, se busca a pluralidade de ideias ao invés do consenso, é fundamental o registro sistemático das informações, é necessário o estabelecimento de relação de confiança entre o pesquisador e os participantes, e estimula-se o diálogo sobre determinado assunto (RESSEL et al, 2008). Todas essas características também se fazem presentes na Roda de Conversa, entretanto, o Grupo Focal apresenta organização mais sistemática, exigindo do facilitador/moderador/pesquisador clareza das questões a serem propostas para discussão (GUI, 2003). Na roda de conversa, por sua vez, os diálogos fluem de forma mais espontânea. Há um fio condutor, um planejamento, que é o tema de discussão que reúne o grupo para o diálogo, porém não há necessariamente roteiro de questões.
O Grupo Focal prevê um assistente de pesquisa que é responsável por fazer o registro e/ou manusear o equipamento de gravação, deixando o pesquisador mais livre para conduzir a mediação do diálogo. Na Roda de Conversa esse assistente pode estar presente, porém no espaço de privação de liberdade a presença de um membro desconhecido pode dificultar a abertura dos participantes para o diálogo. No nosso contexto, a presença de um assistente interferiria na relação de confiança já estabelecida entre mim e os colaboradores, prejudicando a coleta dos dados.
O próprio nome de cada um desses recursos falam um pouco por si: o Grupo Focal enfatiza o foco sobre o qual o grupo selecionado irá dialogar; e a Roda de Conversa enfatiza a formação em círculo, que iguala as posições de todos os participantes, e o diálogo que se pretende estabelecer.
Em decorrências dessas pequenas diferenças, consideramos que a Roda de Conversa se enquadrava melhor com as escolhas metodológicas assumidas nesta pesquisa e nos baseamos nela para desencadear a coleta de dados.
Com o intuito de promovermos atividades de reflexão sobre a educação escolar, o grupo de colaboradores da pesquisa se reuniu uma vez por semana, às sextas-feiras, ao longo de dez encontros de aproximadamente duas horas de duração cada, para dialogarmos em Rodas de Conversa. Entretanto, tínhamos conhecimento, devido a leituras feitas sobre esse recurso metodológico, que nem sempre a participação em Rodas de Conversa é fácil, sendo necessário que se estabeleça “condições dialógicas para que a reflexão aconteça” (AFONSO; ABADE, 2008, p.23).
É preciso oferecer algumas condições para incentivá-la bem como buscar superar algumas de suas dificuldades. Às vezes, as pessoas se sentem intimidadas pelo fato de terem um vocabulário diferente, de não terem educação formal, de abordar determinados temas, de revelar experiências sofridas, de expressarem opiniões e assim por diante. Nem sempre a reflexão faz parte do nosso cotidiano. Muitas pessoas vivem em contextos que não cultivam e mesmo reprimem ou não incentivam a reflexão. Em nossa sociedade, a desigualdade social traz impactos também sobre as oportunidades de expressão, comunicação e reflexão. Também são diferentes as condições que as pessoas têm de participar e refletir em seus diferentes contextos de vida. É claro que, sendo a capacidade de pensar própria do ser humano, não podemos falar em uma incapacidade, generalizada, de pensar em dados contextos. Porém, alguns contextos impõem dificuldades à reflexão, as situações de sofrimento ou de exclusão social são exemplos. Quando alguém consegue, apesar de tudo, refletir nestes contextos, via de regra traz ótimas contribuições para a compreensão do próprio ser humano (AFONSO; ABADE, 2008, p.24).
No contexto prisional, a prática da reflexão é muitas vezes reprimida, uma vez que estes espaços prezam pela obediência cega. Aprisionados que assumem postura questionadora e reflexiva acabam enfrentando dificuldade de sobreviver nestes espaços. Nesse sentido, tínhamos consciência de que esta seria uma proposta desafiadora de ser estabelecida no interior de uma unidade prisional, uma vez que “a roda de conversa deve se dar em um contexto onde as pessoas podem se expressar sem medo de punição social ou institucional” (AFONSO; ABADE, 2008, p.24) e não possuíamos mecanismos que garantissem isso. Tínhamos o sigilo assegurado pelo TCLE e o vínculo já estabelecido entre a pesquisadora e os colaboradores em decorrência de sua relação professora-alunos,
mas sabíamos que isso talvez não fosse o suficiente para fazê-los se sentir seguros em participar das rodas de conversa. Entretanto, nossas ponderações nos levaram a optar por esse recurso metodológico, pois “o que se busca na roda não é uma disputa sobre ‘quem tem razão’, mas a apreciação das diversas razões, o alargamento da visão de cada um, a ampliação dos horizontes e a possibilidade de melhor refletir sobre a questão abordada” (AFONSO; ABADE, 2008, p.24). Acreditávamos que, em diálogo com diversos colaboradores, poderíamos construir com eles alguns entendimentos sobre a educação escolar, que não pertencessem a um ou outro especificamente, mas que fosse fruto de uma reflexão com base em diversas razões. É nessa perspectiva que os dados foram analisados neste estudo, sempre como voz de colaborador não identificado que emergiu desse diálogo coletivo, também no intuito de preservar a identidade dos colaboradores.
Consideramos que:
Nas Rodas de Conversa, partimos de conhecimentos já construídos para motivar um processo de compreensão, mas também de criação. Para compreender o mundo, é preciso nos apropriamos dos significados dados e, a partir dele, construir a nossa própria resposta para os problemas atuais que somos chamados a enfrentar. Assim, ao se discutir um tema, é importante alimentar a discussão com novas informações. Mas a informação sozinha não basta. Pensamos que uma nova compreensão vai utilizar a informação em um contexto de reflexão para ir além dela e conseguir produzir com ela alguma coisa nova diante das questões que o grupo enfrenta. Existe aqui uma dialética entre compreender e analisar. Para compreender, precisamos nos sentir dentro de um referencial já construído e que somos convidados a compartilhar (AFONSO; ABADE, 2008, p.25 - 26).
Nessa perspectiva, a partir de recursos diversos (trechos de filmes, textos, imagens, sons) por nós selecionados, os colaboradores foram estimulados a refletir e dialogar sobre aspectos vinculados a educação escolar.
Desde o primeiro encontro, os colaboradores se envolveram com as propostas de reflexão, trazendo contribuições aos diálogos e posicionando-se sobre as questões abordadas. Alguns ocuparam mais o espaço de voz que outros, mas todos, em algum momento, trouxeram suas contribuições e impressões. Assim, os colaboradores puderam: Conhecer a sua própria realidade. Participar da produção deste conhecimento e tomar posse dele. Aprender a escrever a sua história de classe. Aprender a escrever a História através da sua história. Ter no
agente que pesquisa uma espécie de agente que serve. Uma gente aliada, armada dos conhecimentos científicos que foram sempre negados ao povo, àqueles a quem a pesquisa participante – onde afinal pesquisadores-e-pesquisados são sujeitos de um mesmo trabalho comum, ainda que com situações e tarefas diferentes – pretende ser um instrumento a mais de reconquista popular (BRANDÃO, 1986, p.11).
Enquanto refletíamos sobre questões mais abrangentes sobre a educação escolar, sentia que eu e os demais participantes da roda de conversa dialogávamos de maneira despreocupada, contudo, quando as questões eram mais relacionadas às unidades prisionais, ficávamos tensos e receosos. Havia o medo que alguém que não pertencesse ao grupo escutasse parte da conversa e fizesse uma interpretação equivocada que pudesse prejudicar algum dos colaboradores.
Percebo que quando eles entram em alguns assuntos até eu sou tomada pelo medo. Medo do que eles falarem vazar de alguma forma e eu não conseguir protege-los. Medo de acabar prejudicando eles com a pesquisa.
(Diário de campo, 04 de abril de 2014)
Em alguns momentos, fomos interrompidos pela entrada de algum ASP ou de reeducandos na sala e, em comum acordo, optamos por sempre parar o diálogo durante uma interrupção, independente do assunto que estivesse sendo discutido.
Você reparou que a gente estava aqui e que a gente foi interrompido várias vezes? (Voz de
colaborador).
Os meninos chegaram a comentar que essa interrupção era curiosidade, pois querem saber o que está acontecendo.
(Diário de campo, 04 de abril de 2014)
O medo se instaurava, pois as prisões, e não apenas este CR, são instituições historicamente construídas como espaços de imposições e não de questionamentos. E o que nos propusemos a fazer ali, reunidos, era justamente compreender/ discutir os modelos que vem sendo adotados, avaliando as alternativas que eles apresentam em relação ao modelo tradicional e seus desafios. Porém, criticar o funcionamento deste espaço parecia ser uma subversão e, portanto, errado e proibido.
Ressaltamos, contudo, que em momento algum a administração da unidade restringiu ou interferiu diretamente em nossas propostas de reflexão. O medo não vinha da situação concreta, mas das entrelinhas aprendidas na convivência dentro do espaço prisional e dos conhecimentos já produzidos sobre ele.
A cada encontro, as inseguranças foram sendo diluídas e o grupo foi se consolidando. Chegamos ao final dos dez encontros com os 11 colaboradores, sem
nenhum tipo de ameaça ou punição direta ou indireta em decorrência de suas falas e/ou participação nas rodas de conversa. Ressaltamos, entretanto, que o uso deste recurso metodológico, em nosso entender, foi positivo, em grande parte devido à relação de vínculo já estabelecida no decorrer dos meus anos de trabalho na unidade prisional, facilitando a construção de relações de confiança e possibilitando que, em pouco tempo, os colaboradores se sentissem seguros para exporem suas opiniões no grupo.
Em todos os encontros, procurei atuar como mediadora do diálogo, trazendo elementos que estimulassem a discussão. Contudo, a beleza e riqueza das rodas de conversa se apresentam justamente nos caminhos que ela assume por si só, enquanto um coletivo que dialoga. Apesar de eu vir com orientações iniciais para a discussão, os colaboradores assumiam a condução da conversa de maneira espontânea e fluida, de modo que os assuntos seguiam os caminhos daquilo que eles desejavam falar e não do que eu queria ouvir.
Eles determinam os rumos das conversas, praticamente não há espaços de silêncio. Sempre há alguém querendo dizer algo.
(Diário de campo, 04 de abril de 2014)
Entretanto, eles tinham clareza que o nosso foco de estudo era a educação, e independente dos rumos que nossas conversas assumiam, eles sempre resgatavam essa dimensão. Nos primeiros encontros, vivi alguns conflitos com relação ao meu papel no grupo e o quanto eu deveria ou não conduzir os diálogos, mas aos poucos fui compreendendo, com o auxílio de minha orientadora, que a minha principal função era ouvi-los. Busquei, assim, como ensina Paulo Freire (2007), não perder nenhuma oportunidade de assumir uma postura curiosa: “a de quem pergunta, a de quem se indaga, a de quem busca” (FREIRE, 2007, p.12). Nesse sentido, me foquei no que eles tinham a dizer e evitei durante a coleta de dados expor as minhas opiniões e entendimentos, apesar do anseio deles por conhecê-los.
Espero que no próximo encontro mais pessoas falem e que a professora, que tem o dom da retórica, expresse sua opinião sobre a educação, principalmente no CR (Reflexão escrita por
Professora, sei que combinamos que você só dará sua opinião no nosso último encontro, mas deixarei algumas perguntas para que a professora reflita e nos dê sua opinião futuramente
(Reflexão escrita por colaborador).
Nem sempre as rodas de conversa seguiram os caminhos planejados, houve distinções entre o proposto e o vivido, decorrentes de um recurso metodológico que possibilita a construção conjunta da pesquisa, permitindo, portanto, um desenho final nem sempre sobre as mesmas linhas do esboço. Mas isso não diminuiu em nada a riqueza dos dados, pelo contrário.
Tínhamos previsto dez rodas de conversa, pois imaginávamos que nas primeiras talvez os colaboradores demorassem um pouco mais para falar suas impressões e opiniões, fazendo com que fosse necessário mais tempo para estabelecer um espaço e relação de confiança. Entretanto, a confiança já estabelecida em decorrência da relação de professora com esse grupo de alunos que se tornaram colaboradores, permitiu que logo na primeira Roda de Conversa eles se soltassem e entregassem ao diálogo. Essa entrega fez com que todas as Rodas de Conversa tivessem que ser forçadamente interrompidas por conta do horário, pois sempre havia mais coisas que eles queriam dizer e conversar, em nenhuma delas o tema foi esgotado, ou concluímos o diálogo antes de acabar o tempo. Gerou-se, portanto, um grande volume de dados e tivemos que rever a quantidade de encontros. Quando estávamos com o planejamento até a sexta Roda de Conversa, conversei com minha orientadora e concordamos que o volume de dados produzidos era mais que suficiente para responder nossa questão de pesquisa. Entretanto, eu havia combinado com os colaboradores que seriam dez encontros e sabia que reduzi-los iria gerar um sentimento de frustração. Havia também mais um tema que gostaria de conversar com eles antes de encerrar os encontros. Queria que eles falassem um pouco sobre a escola ideal por considerar que deste tema talvez emergissem proposições para a educação escolar nos espaços de privação de liberdade.
Acordei então com minha orientadora que realizaríamos a sexta Roda de Conversa conforme o planejado e apenas mais uma para coleta de dados, que seria a sétima Roda de Conversa, com o tema: a escola ideal, porém manteríamos os dez encontros.
Falei com eles sobre a conversa com a Elenice de reduzir o número de Rodas de Conversa e a reação deles foi de insatisfação, como imaginava. Um deles chegou a me dizer, em tom misto de brincadeira e indignação: “Você está me tirando, né?” Mas em seguida expliquei que manteríamos o encontro, sem coletar mais dados, e todos aceitaram.
(Diário de campo, 07 de maio de 2014)
As três últimas Rodas de Conversa mantivemos para não quebrar o acordo com os colaboradores, entretanto, não se configuraram mais como coleta de dados. Nesses três últimos encontros, aproveitei para atender a demanda deles por saber a minha opinião sobre determinados assuntos e compartilhei com eles o que venho estudando sobre educação em espaços de privação e restrição de liberdade. Nesses últimos momentos, não me preocupei em apenas escutar, falei como todos eles.