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3. Da transição da hegemonia ao mito: o caso do centauro dos pampas

3.2. O gaúcho e os centauros

3.2.1. Rodrigo Cambará: o gaúcho-centauro

Há, em O tempo e o vento, em O continente, referências feitas a um homem, Chico Rodrigues que um dia decidiu ser Chico Cambará: “Resolvi mudar de vida, requerer sesmaria, fazer casa, parar quieto, ser um senhor estancieiro, ter mulher, gado, cavalos e filhos, todos com a minha marca. Chico Rodrigues olha para uma árvore forte, à beira da estrada e pensa. De hoje em diante vou me chamar Chico Cambará” (VERISSIMO, 1995a, p. 76).

Assim Erico Verissimo descreve esse certo Chico Rodrigues:

Um homem e seu cavalo. Me chamo Francisco Nunes Rodrigues, mais conhecido por Chico Rodrigues. Venho do planalto de Curitiba. Meus pais? Se tive, perdi. Onde nasci não me lembro. Mas dês que me tenho por gente, ando vagando mundo. Apeia na frente duma venda, entra, pede comida e pouso.

Pra onde se atira, patrício?

Pros campos do Rio Grande de São Pedro. (VERISSIMO, 1995a, p. 72)

Quando Erico nos apresenta Chico Rodrigues trocando seu nome para Cambará, ele não nos diz ipsi litteris que ele virá a ser o pai de Rodrigo Cambará, mas resta-nos inferir que ele não colocaria na sua narrativa um personagem que se torna Cambará ao encostar-se numa árvore e admirar-lhe o porte, se não fosse para ligá-lo ao personagem que introduzirá mais tarde com tantas similaridades. Erico apresenta Rodrigo com traços que lembram o homem que chega sozinho, num cavalo, numa venda a pedir comida e pouso, sem falar muito dos pais.

Também há analogias na maneira como ambos, Chico Cambará e Rodrigo, colocam suas mulheres na garupa do cavalo, com a intenção de: “mudar de vida, requerer sesmaria, fazer casa, parar quieto, ser um senhor estancieiro, ter mulher, gado, cavalos e filhos, todos com a minha marca” (VERISSIMO, 1995a, p. 76), palavras de Chico Cambará. Sua intenção é colocar-lhes sua marca até que um dia decide ficar com uma mulher branca e coloca na garupa, aquela que viria a ser a mãe de Rodrigo Cambará:

E num domingo à saída da missa ele vê Maria Rita, a de pele branca, cabelos ruivos e olhos garços. Estava cansado de índias e chinas tostadas de sol com gosto de poeira e picumã. Queria agora mulher branca. Foi por isso, só por isso que na noite daquele domingo tirou Maria Rita de casa. E agora lá vai ele com a ruiva na garupa. (VERISSIMO, 1995a, p. 76, grifo nosso)

Também vemos esse homem escolher suas companheiras com a mesma desconsideração que Rodrigo Cambará. Chico Rodrigues, assim como Rodrigo, trata as mulheres como coisas, já que sua escolha se deveu a fatores outros que não o amor. E assim, à maneira dos centauros, Chico e Rodrigo Cambará, saem com uma mulher na garupa para fazer com elas o que quisessem pelo tempo que lhes aprouvessem. Rodrigo colocava mulheres na garupa, atavicamente, e depois as deixava sem muitas considerações, pelas estradas por onde passava. Os dois, pai e fiho costumavam carregar as mulheres que escolhessem pelas estradas. Um dia Rodrigo, porém, também decidiu parar: “Quero ficar aqui. Talvez compre umas terrinhas e comece a criar o meu gadinho. Talvez até me case...” (VERISSIMO, 1995a, p. 212). E Rodrigo ficou e casou-se com Bibiana.

Podemos dizer que Rodrigo gostaria de ter possuído Bibiana sem ter que ter tido de passar pelo casamento: “Depois - concluiu ele com certa irritação - parecia que só poderia dormir com a moça se casasse com ela...” (VERÍSSIMO, 1995a, p. 201) e que isso o contrariou um pouco. Podemos também dizer que Rodrigo teve que lutar contra si mesmo e contra seus instintos selvagens para não raptar Bibiana e leva-la consigo, já que esta não seria a primeira vez que fizera isso durante sua vida.

Rodrigo bebia muito e fazia coisas das quais nem se lembrava, como conta, ao chegar em Santa Fé, o que lhe acontecera uma vez, depois de beber: “Só sei que lá pelo anoitecer acordei completamente numa cama não sei de quem, num quarto não sei onde e ao lado duma mulher não sei de quem nem de onde” (VERÍSSIMO, 1995a, p. 178).

Não muito diferente dos centauros e do homem que pode ser seu pai, agiu o capitão Rodrigo Cambará que se solidificou em nossa literatura como aquele que “representava à maravilha a mentalidade do homem do campo, da guerra e do cavalo, que não teme a Deus nem ao diabo” (VERISSIMO, 1995a, p. 157).

No dia em que casou-se a filha de Joca Rodrigues, Rodrigo foi ao casamento e bebendo vinho, observava os locais divertindo-se e dançando no casamento e “de seu lugar Rodrigo cocava Bibiana com olhos famintos” (VERISSIMO, 1995a, p. 163). Ao aproximar-se dela, Rodrigo poderia não estar completamente bêbado, mas sentia-se alterado pelo vinho:

Rodrigo dizia para si mesmo: "Vou falar com ela hoje. Vou falar com ela hoje". Mastigava o seu churrasco com gosto, bebia o seu vinho estralando a língua. Sentia aos poucos um calor bom apoderar- se- lhe do corpo e ao mesmo tempo ficava um pouco inquieto, pensando no que poderia acontecer se ele se embriagasse e "perdesse a tramontana. (VERISSIMO, 1995a, p. 164)

Tinha sentimentos violentos e por pouco não agia como um dos centauros no casamento de Píritos, sentindo-se tentado a levar Bibiana consigo. O vinho foi um agravante na festa de casamento da narrativa mitológica, como afirma Grimal: “Eles não eram acostumados a beber vinho e logo ficaram intoxicados: estavam bêbados”18 (GRIMMAL, 2000, p. 95). Também em Santa Fé, foi um facilitador da atitude desafiadora de Rodrigo:

A bebida lhe dera uma tontura boa e quando caminhava ele tinha a impressão de que o chão lhe fugia. Mas não estava tão embriagado que não compreendesse que estava embriagado e que se não se contivesse poderia fazer alguma asneira. Não queria de modo algum entornar o caldo. Desejava falar com Bibiana sem precisar brigar com ninguém. Se provocasse algum escândalo talvez perdesse a moça para sempre. (VERISSIMO, 1995a, p. 170)

Ele não queria fazer barulho, mas sempre acabava fazendo. Essa afirmação era recorrente nele.

O padre Lara acendeu um cigarro e olhou em torno. Depois, lançando um olhar enviesado para Rodrigo, perguntou:

- Quantos copos de vinho bebeu, capitão?

- Uns dez... - Por que não vai dar um passeio na praça e depois volta pra cá? - Está com medo que eu faça alguma loucura?

- Para lhe ser franco, estou.

- Não se preocupe. Estou enxergando mui claro. Não quero fazer barulho. (VERÍSSIMO, 1995a, p. 171-172, grifo nosso)

Podemos aproximar, portanto, a figura de Rodrigo aos centauros, não somente no que tange a bebedeira, mas também pelo imenso apetite sexual e pelo desrespeito com os outros homens e com suas casas, como no caso da relação com Dona Paula, esposa de Nicolau. O capitão serviu-se de Nicolau, de sua casa e de sua esposa como e enquanto quis: “Frequentemente tinha de

18 No original: “they were unused to drinking wine and soon became intoxicated” (GRIMMAL, 2000, p. 95).

saciar o seu desejo de Bibiana no corpo magro da mulher do Nicolau, o qual começava já a desconfiar de tudo” (VERÍSSIMO, 1995a, p. 218). Assim como os centauros pareciam temíveis aos humanos, Rodrigo também provocava medo em Nicolau que não ousava enfrentá-lo e fingia não saber o que se passava.

A ideologia construída socialmente tenta justificar a dominação masculina e transformá-la em uma norma. Ao mesmo tempo em que essa ideologia é questionada o ideal da masculinidade hegemônica também enfrenta uma crise. É retirado do personagem Rodrigo Cambará o rol de marcas que o identificam na área que circunda a primazia simbólica do masculino como um ideal hegemônico: um modelo perfeito do masculino, o macho eterno, que fala de dentro da sua masculinidade hegemônica e luta pela supremacia.

Rodrigo não conseguiu, todavia, manter-se no papel de macho predominante que desejava liderar aquele povo porque era somente um símbolo de masculinidade; agia conforme um emblema idealizado, uma essência da masculinidade. No universo de Santa Fé, o personagem não consegue impor-se como modelo representante do ápice da masculinidade hegemônica, primeiro porque este é um modelo que está entrando em colapso, segundo porque à medida em que se delineia e avança na narrativa, este representante da masculinidade hegemônica fracassou e não obtém a vitória almejada sobre os Amarais nem consegue tomar posse do casarão.

A princípio seduzia quem entrava em contato com ele, mas, no percurso das relações que mantinha acabava decepcionando a todos que contavam com ele e deixava a desejar em seus relacionamentos afetivos. Desta forma, a narrativa vai abrindo fissuras na construção do personagem capitão Rodrigo Cambará e ao desconstruí-lo, contribui para desfacelar também a representação do masculino hegemônico, mas Rodrigo incorpora duas imagens que se aproximam: a do guerreiro-herói e a do gaúcho-centauro. Imagens em cima das quais sua identidade é construída, representando, assim, duas facetas: a do masculino hegemônico e a do ser mitológico. Destarte, dentro dos conflitos entre as masculinidades representadas na narrativa, o posicionamento do personagem Rodrigo diante destes conflitos nos faz reconhecer que ele deixa o campo da masculinidade hegemônica que pretendeu e pela qual travou tantos embates. Neste sentido, tanto a figura

mítica do gaúcho quanto a masculinidade do capitão são construções que se tornaram necessárias como componentes da identidade tramada pelos próprios interesses desta sociedade. Ele é uma figura masculina engendrada, que só é possível dentro do que se espera de um mito: uma quimera. E, assim, lhe é atribuído o poder e a aura mítica da figura do gaúcho-centauro, porque esta figura não surgiu naturalmente, foi arquitetada. Da figura hegemônica estilhaçada do macho emergiu e permaneceu a figura mitológica do gaúcho- centauro-herói.