4. PENSAMENTO JURÍDICO E TRABALHO (1889-1916)
4.3. Pensamento Jurídico e trabalho na Revista O Direito: um eufemismo verificado
4.3.2. Rodrigues de Carvalho e os acidentes de trabalho (1908)
Um carroceiro que um trem esmaga não póde ser equiparado ao valor de uma indemnização devida pela morte de um artista.
José Rodrigues de Carvalho349
Outro jurista que também se mostrou preocupado com as questões sociais na Revista O Direito foi José Rodrigues de Carvalho.
Rodrigues de Carvalho nasceu em Alagoinha, Paraíba, em 18 de dezembro de 1867, e faleceu em Recife, no dia 20 de dezembro de 1963. Graduado pela
347 CARVALHO DE MENDONÇA, 1906, p.8.
348 Ibidem, p.9.
349 RODRIGUES DE CARVALHO, José. Accidentes do trabalho e sua garantia juridica. O Direito:
revista mensal de legislação, doutrina e jurisprudência, Rio de Janeiro, M. Orosco e C., a. XXXVI, v.
106, pp-176-184, maio/ago. 1908, p. 181.
Faculdade Livre de Direito do Ceará, em 1906, fez parte da primeira turma daquela instituição. Tendo retornado à Paraíba, dedicou-se à advocacia, ao jornalismo e à política. Após a mudança de regime, em 1930, mudou-se para Recife, onde desenvolveu com mais afinco as suas atividades como poeta. Foi também membro da Ordem dos Advogados do Rio de Janeiro, do Instituto Histórico da Paraíba e do Instituto de Arqueologia e Geografia do Recife, do qual foi presidente, e da Academia Cearense de Letras. Dentre as suas obras jurídicas, destacam-se Do recurso extraordinário, Da liberdade de imprensa, 1918; Da tentativa (monografia); Cheque visado; e Lacunas da lei de falências, 1922.
350Crítico e atento às causas sociais, em 1908 – mesmo ano, aliás, em que o deputado Graccho Cardoso reapresentou a proposta de Medeiros e Albuquerque na Câmara – Rodrigues de Carvallho publicou artigo n’O Direito em que defendia a necessidade de confecção de uma legislação sobre acidentes de trabalho no Brasil.
Nas primeiras linhas de seu trabalho, o jurista retrata com perfeição a imagem da precariedade em que estavam inseridos os trabalhadores no início da República.
Ha mezes vi no porto de Natal um pobre rapaz de 20 annos, vir de bordo de um vapor com uma das pernas esmagada pela carga de um guindaste. Por caridade fora elle para o hospital, onde lhe amputaram aquelle membro.
Ha dias aquelle typo de caboclo do norte, outr’ora vigoroso, agil e trabalhador, appareceu-me desfeito e cadaverico, anunciando os passos ao toc toc das muletas.
Era um mendigo de mais.
A Empreza, a cujo serviço se inutilisára o desgraçado, continúa com os seus mil guindastes, a sua faina commercial e tudo mais sem alteração.351
Com o artigo, Rodrigues de Carvalho pretendia “traçar algumas linhas sobre tão momentosa questão, tomando de empréstimo algumas idéias dos mestres de além-mar, e adaptando o que de analogo exist[ia] em nosso direito”.
352Segundo o autor, no início do século XIX não estava perfeitamente formada na consciência dos povos o “direito do operário”, tal qual já se aspirava na época de confecção do artigo, com o chamado Código do Trabalho. Segundo nos relata, apenas
350 ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS. Poetas da Academia Cearense de Letras. Rodrigues de Carvalho. Disponível em: <http://www.academiacearensedeletras.org.br/revista/Colecao_Diversos /Poetas_Academia/ACL_Poetas_da_Academia_12_Rodrigues_de_Carvalho.pdf>; Acesso em: 01 mar. 2018.
351 RODRIGUES DE CARVALHO, 1908, p.176.
352 RODRIGUES DE CARVALHO, 1908, p.176.
iam aparecendo os institutos de caráter beneficente, como o Schultz-geldeu e o Social gelds, na Alemanha e na Inglaterra, respectivamente.
353Mas, salientava o autor, “se assim acontecia nos paizes mais adiantados, em nossa patria a cousa não podia ter igual incentivo, quando os institutos do direito eram adormecidos ainda, de accordo com as condições de nossa civilização”.
354Todo esse silêncio de nossa legislação, a seu ver “se justifica[va] pela falta industrial e economica d’aquelles tempos”.
355Corroborando aquilo que já foi exposto por nós no primeiro capítulo desse trabalho, sustentou Rodrigues de Carvalho que o ramo comercial era o que mais oferecia proteção ao trabalhador. Segundo ele:
Introduziu o legislador de 1850 um dispositivo em que se positiva claramente uma garantia jurídica em caso de accidente no trabalho (Cod. Com. Art. 79.
<<Os accidentes imprevistos e inculpados que impedirem aos prepostos o exercício de suas funcções, não interromperão o vencimento de seu salario, comtanto que a inhabilitação não exceda de tres mezes continuos>>).
Vê-se que se trata apenas de accidente parcial e periodico. O mais grave, a morte de um preposto em consequencia do trabalho (por exemplo) não mereceu attenção do legislador de ha meio século.
O nosso Cod. Commercial, é certo, encerra ainda disposições que por analogia servem de regulador em certos casos jurídicos (art. 148 e 181, mandato, e os que tratam dos trapicheiros, barqueiros, empreiteiros, etc.).356
Nesse sentido, sustentava que, naquele momento, o direito brasileiro deveria se guiar pelo direito dos povos “cultos” e pelo Direito Romano, naquilo em que a Lei da Boa Razão permitisse. Seria ali, portanto, que deveríamos buscar filiação jurídica, dando “a precisa applicação ao nosso meio”.
357358E qual seria, dentre as diversas teorias e sistemas estrangeiros, a melhor doutrina para ser aplicada no Brasil, segundo o autor?
353 Ibidem, p.177.
354 Ibidem, loc. cit..
355 Ibidem, p.178.
356 Ibidem, loc. cit..
357 Ibidem, loc. cit.
358 RODRIGUES DE CARVALHO, 1908, p.178.
Apresentando os pensamentos de Sainctelle
359, Labbé
360e Pirmez
361, Rodrigues de Carvalho sustentou que deveríamos “tomar por norma o que estabelecem as leis suisa, allemã e franceza, que, em synthese, encerram a doutrina de Sainctelle”.
362Segundo o autor, de acordo com a teoria de Sainctelle, o ônus da prova, em qualquer caso de acidente de trabalho, caberia sempre ao patrão. Isto é, caberia ao empregador, para eximir-se da responsabilidade, demonstrar: a) que o operário não agiu com a precisa aptidão e o cuidado habitual no trabalho e b) que os materiais de trabalho, os instrumentos e as condições do serviço estiveram sempre na ordem da segurança comum. Em todo caso, poderia alegar o patrão força maior ou caso fortuito, que sempre excluiriam a responsabilidade.
363Portanto, observa-se que, para Rodrigues de Carvalho, a teoria que deveria ser aplicada ao caso brasileiro não era a do risco profissional.
Embora políticos como Medeiros e Albuquerque e Graccho Cardoso sustentassem veementemente a defesa da teoria do risco profissional, vale dizer, da responsabilidade objetiva para os casos de acidente de trabalho (que já se tinha consagrado, inclusive, na lei francesa de 9 de Abril de 1898 e posteriores modificações de 22 de Março de 1902, 2 de Dezembro de 1903, 31 de Março de 1905, 2 e 17 de Abril de 1906), Rodrigues de Carvalho, mesmo assim, sustentava que havia casos para os quais o patrão não deveria ser responsabilizado.
Não podemos afirmar que o jurista – reconhecido pela sua afeição às causas sociais – desconsiderou a teoria da responsabilidade profissional por pura má-fé, ou por uma estratégia consciente e explícita de defesa dos interesses da elite industrial.
O pouco acesso aos seus escritos e à sua atuação não nos permite julgá-lo assim tão ferrenhamente. Mas cremos com alguma convicção que a construção de seu discurso
359 “O systema de Sainctelle é que o ônus da prova seja a cargo do patrão. É um systema de proteção ao operario, e que já teve sancção oficial na Allemanha e na Suissa (lei do Imp. All. de 7 de Julho de 1871, Lei Federal Suissa de 25 de Julho de 1881, Lei Franceza de 1898)”. (Ibidem, p.179).
360 “O systema de Labbe [...] é que se não deve admitir uma obrigação absoluta de garantia. [...] Labbé atenua a obrigação do patrão com a apreciação da correlação que deve existir entre o accidente e as suas causas eficientes. Um operario é mutilado no trabalho ou morre por accidente ali, é preciso que em bem do seu direito, se faça a prova da negligencia do patrão ou da sua incúria; e ainda que, ao mesmo tempo, se evidencie a diligencia habitual, o cuidado, a applicação e o zelo do ofendido.” (Ibidem, loc. cit.).
361 “Admitte a responsabilidade nos termos da velha legislação, excluindo o accidente ocorrido em consequencia do desarranjo de um aparelho pelas suas próprias condições.” (Ibidem, loc. cit.).
362 Ibidem, p.181.
363 Ibidem, p.180.
(menos radicalmente crítico, mais brando, que luta pelo reconhecimento social de sua legitimidade para dizer o direito), revela algumas pistas de que também o seu texto estaria inserido dentro daquela estrutura “eufemizadora”, que é característica especial do discurso dos juristas que se propuseram a refletir sobre as questões relativas ao trabalho na Revista O Direito.
Aliás, foi também dentro dessa lógica que o autor refletiu sobre as situações que se deveria levar em conta para aferir o quantum indenizatório do operário acidentado.
Segundo o jurista paraibano, para fins de apuração da indenização, o julgador deveria sopesar, por exemplo, se a incapacidade era absoluta, parcial ou temporária.
364Mas, para além desses quesitos, embora sustentasse que a tarifação do quantum era um critério que “não deixa[va] de ser deshumano ou muito mercantilizado”
365, por outro, admitia claramente um discrímen bastante questionável que se baseava justamente nos “tipos” de trabalho desenvolvidos. Vejamos o que dizia o jurista:
Um carroceiro que um trem esmaga não póde ser equiparado ao valor de uma indemnisação devida pela morte de um artista, como a Duse, para citar mais de perto o valor daqulles dons moraes que se transformam em utilidades materiaes com mais facilidade que outros.
O carroceiro póde ganhar cinco mil reis em o mesmo espaço de tempo em que o artista gênio póde ganhar contos de reis.366
Noutro tópico, também percebemos novamente como seu discurso se insere dentro daquele modus operandi norteado pela busca do reconhecimento de seus pares. Ao elucubrar sobre as novas questões trazidas pelas teorias socialistas
367, o jurista questiona como se valoraria a indenização quando, por exemplo, um menor acidentado morresse. Transcrevemos os questionamentos do autor:
será [neste caso] diferente a responsabilidade do patrão em caso de accidente? [E] se [o menor] ganhava pouco pela sua diminuta habilitação e [possuía] pouca força physica?368
364 RODRIGUES DE CARVALHO, 1908, p.181.
365 Ibidem, loc. cit..
366 Ibidem, loc. cit..
367 “Entre as questões de ordem socialista, figura a de proteção aos fracos: mulheres, crianças e velhos.
Diminuição das horas de trabalho, o serviço mais leve, as occupações em logares mais hygienicos; eis uma grande inspiração da questão socialista em favor daquelles entes.” (Ibidem, p. 183).
368 RODRIGUES DE CARVALHO, 1908, p.183.
Sem trazer nenhuma argumentação concreta, mas, ao mesmo tempo, sugerindo que eventualmente o menor deveria ganhar um valor diminuto, o jurista aconchegou-se na confortável resposta que transferia para o julgador a valoração da indenização:
E’ um ponto que só ao julgador cabe resolver, prezando as considerações adistrictas ao fato. Póde este menor ser o arrimo único de um lar orphanado;
póde tratar-se de uma verdadeira manifestação genial para certo ramo de utilidade humana; e sendo revestido de taes circumstancias o caso da morte de um menor em accidente toma proporções especialissimas, que só o Juiz pode apreciar.369