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4. Nos trânsitos entre o close e o respeito

4.1. Rearranjando objetos e roupas

4.1.2. Rolê com respeito

Em 2014 pude acompanhar interlocutores pelas paradas do Orgulho LGBT em São Paulo, Santo André e Guarulhos. Além dos adolescentes e jovens que me convidaram a comparecer às paradas em sua companhia, pude encontrar muitos outros nas marchas de cada uma das cidades.

Considerando as paradas como eventos que favorecem intensa visibilização da homossexualidade no espaço público, a participação de alguns interlocutores no evento de Guarulhos permite destaque a como eles podem lidar com exposição ou ocultamento de condutas homossexuais em seus trânsitos pela região metropolitana.

No domingo de setembro em que ocorreria a Parada de Guarulhos, eu me encontrei com Danilo no lugar que havíamos combinado, a estação de metrô República (na região central de São Paulo). O garoto é pardo, tem 22 anos, morava em Embu das Artes, cidade da região metropolitana, trabalhava em uma empresa no Morumbi, na zona sul. Ele fundou a família Fênix e era o único pai desta rede de adolescentes e jovens.

Quando eu o encontrei, Danilo trajava calça jeans, tênis, boné e uma camiseta estampada, além de portar uma mochila grande em suas costas. Chamava atenção no garoto uma maquiagem cujo desenho preenchia seu rosto inteiro e havia sido inspirada na cabeça de um gato. Ele me pediu ajuda para que pudesse trocar de roupas, calçados e acessórios em um processo que faria surgir o Fênix, uma personagem de sua criação.

Fomos a um espaço com pouca circulação de pessoas na própria estação e eu dei cobertura para que Danilo fosse guardado na mochila, como ele mesmo disse. Ele

80 Nas situações em que interlocutores eram agredidos verbal ou fisicamente eu oferecia suporte de diferentes maneiras a depender do contexto. Meu posicionamento era elaborado junto aos interlocutores de modo a organizar condições de defesa ou condições de reação a eventuais ataques.

perguntou se eu queria acompanhá-lo mesmo que ele estivesse montado. Você não tem problema de andar comigo montado? Você não tem vergonha de andar comigo? Afirmei que estava honrado pela possibilidade de acompanhá-lo daquela forma, naquele dia.

O Fênix surgiu de cartola alta vermelho escuro, blazer preto, calça legging preta e bota de cano alto com salto. A partir de então eu carreguei a mochila, pois Danilo não estava mais ali para fazê-lo.

Logo chegaram à estação República um filho e a ex-mãe da família (um garoto que fora namorado de Danilo). Eu os acompanhei pelo metrô até uma estação onde pegamos um ônibus que nos levou ao Centro de Guarulhos, onde ocorria a concentração da Parada.

Em todo o caminho pelo transporte público Fênix foi assediado para que tirasse fotos com transeuntes. Ainda que estivesse sofrendo por conta do sapato, que lhe havia sido emprestado e cujo número era dois números menor que o recomendado para seus pés, ele desfilou exibindo a si e a seus filhos. Outros membros da família se agregavam ao nosso grupo na medida em que nos encontrávamos no percurso da Parada.

Em meio à multidão de milhares, Fênix se portava de modo mais solene com sua indumentária escura sob o sol de uma tarde quente de domingo. Seus filhos se demonstravam geralmente eufóricos e dançavam quando em cada um dos trios elétricos tocava funk ou drag music.

Era noite quando pai e filhos decidiram ir embora. Eu os acompanhei. Ao chegarmos a um ponto de ônibus para aguardarmos o ônibus que nos levaria a alguma estação de metrô em São Paulo, Fênix se sentou para amenizar a dor em seus pés. Ainda extasiados por conta da Parada, seus filhos brincavam e falavam alto. Foi então que dois garotos que eram namorados e filhos de Fênix arriscaram um beijo em público na presença de seu pai. Mesmo com os pés sangrando, Fênix levantou-se e, aos brados, separou o casal de jovens: se vocês fizerem isso de novo eu vou dar um murro em vocês! Inicialmente a fala de Fênix me soou sarcástica, pois não haveria problema em alguma manifestação de afeto por parte de seus filhos enquanto estivessem ali reunidos em família e, portanto, protegidos de alguma forma.

A afirmação não me parecia séria porque eu havia flagrado situações em que Danilo e outros membros da família demonstravam afeto com outros homens nos encontros de domingo no Largo do Arouche. Como o pai era dado à zombaria, considerei que seu posicionamento perante o casal correspondia a mais uma de suas brincadeiras.

Contudo, Fênix foi enfático e sério o suficiente para que seus filhos entendessem que de fato ali em Guarulhos após a Parada não poderiam se beijar em público.

Em diálogo após o episódio no ponto de ônibus o pai da família me disse que não se deve deixar de se dar ao respeito. O beijo em público entre dois homens naquele espaço e ocasião soaria como uma afronta a heterossexuais e intensificaria a possibilidade de agressão aos adolescentes e jovens.

Excetuando a manifestação de afeto em público, Fênix defende e estimula que seus filhos deem close, ou seja, chamem atenção ou causem frisson por conta de alguma ação extravagante no contexto em que é executada81. Ele também apoia que seus filhos

adotem estilos corporais nos quais eles rearranjem roupas e acessórios convencionalmente associados a mulheres.

O caso da família Fênix na Parada de Guarulhos favorece a reflexão sobre quais níveis de exposição são desejáveis, por quais agentes e em quais espaços. Em contato com outros interlocutores notei divergência de posicionamentos entre aqueles que seriam mais afeitos à lógica do respeito e outros que se mobilizariam na lógica do close sempre que houvesse oportunidade ou menor risco de represália.