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2. Da teoria à percepção dos falantes: a metodologia da pesquisa

2.1 O teste piloto

2.1.1 Os role plays selecionados para o teste

É preciso explicar que para escolher os RPs utilizados no presente estudo, que partem em todos os casos do ato de fala do pedido, foram consideradas duas das principais variáveis que, segundo Brown & Levinson (1987), influenciam nas escolhas linguísticas dos indivíduos: (i) a distância social (DS) entre os interlocutores, que consideramos baixa entre amigos ou parentes e alta quando os falantes não se conhecem; (ii) o grau de imposição (GI), isto é, o quanto o ato de fala proposto - no nosso caso, um pedido - é mais ou menos “difícil” de ser realizado por parte do interlocutor, tendo em vista a relação custo-benefício entre o pedido e sua realização.

No seguinte quadro (Quadro 3), descrevemos, em um primeiro momento, apenas as situações de baixo grau de imposição (GI-).

Quadro 3 - Descrição de situações de baixo grau de imposição

Vídeo Situação (GI-) Setting

1 e 2

chegar com sede na cada de um amigo e

pedir d’água

Você acabou de entrar na casa do seu amigo e está com sede. O que você diz?

[Sei appena entrato a casa di un tuo amico/una tua amica e hai sete. Che cosa dici?]

5 e 6

pedir uma caneta emprestada na rua

Você está na rua e quer escrever o número de telefone de um anúncio que vê passando. Você percebe, no entanto, que não tem uma caneta com você. O que você diz?

[Sei per strada e vuoi scrivere il numero di telefono di un annuncio che vedi passando. Ti accorgi, però, di non avere una penna con te... Che cosa dici?]

Cabe notar que as situações “água” e “caneta”, ambas de baixo grau de imposição, variam quanto à distância social, sendo que na primeira a distância social (DS-) é baixa, já que a situação é entre amigos, e na segunda, alta (DS +), sendo que o pedido deve ser feito a um desconhecido.

Já para as situações de alto grau de imposição (GI +), temos a seguinte recapitulação (Quadro 4).

Quadro 4 - Descrição de situações de alto grau de imposição

Vídeo Situação (GI +) Setting

3 e 4

pedir o celular emprestado na

rua

Você está na rua e está atrasado. Você precisa ligar

urgentemente para um amigo seu que fez uma longa viagem para visitá-lo/la. Seu celular, por algum motivo inexplicável, não funciona e não há telefones públicos por perto. Só resta procurar alguém que empreste o celular para uma ligação. O que você diz?

[Sei per strada e sei in ritardo. Devi urgentemente

telefonare a un tuo amico che ha fatto un lungo viaggio per venire a trovarti. Il tuo cellulare per qualche inspiegabile motivo non funziona e non ci sono telefoni pubblici in giro. Non resta che cercare un cellulare in prestito per una telefonata... Che cosa dici?]

7 e 8

pedir uma toalha ou pedir para tomar um banho

na casa de um amigo após um

temporal

Você acabou de entrar na casa do seu amigo encharcado porque está chovendo muito lá fora. Você precisa tomar um banho ou, pelo menos, trocar a roupa molhada. O que você diz?

[Sei appena entrato a casa di un tuo amico/una tua amica bagnato fradicio perché fuori sta piovendo a dirotto. Hai bisogno di farti una doccia o almeno di toglierti i vestiti bagnati... Che cosa dici?]

Também nessas situações a distância social varia e é alta (DS +) nos vídeos 3 e 4, quando os interlocutores não se conhecem, e baixa (DS -), quando os interlocutores são amigos. Assim como no trabalho de Santoro (2013), na nossa pesquisa também foi mantida a distância social real entre os interlocutores e, por isso, os vídeos de falantes nativos foram gravados com 1 dupla de amigos e 1 dupla de pessoas que, de fato, não se conheciam.

Os vídeos gravados por “não atores” foram selecionados do corpus de Santoro (2012) que inclui dois atos de fala: pedidos e pedidos de desculpas. Como dissemos, decidimos variar o grau de imposição e a distância social, mas limitar nossa observação aos pedidos, já que se trata de um dos atos de fala mais frequentes nas interações cotidianas e de um dos mais estudados nas mais diversas perspectivas. Além disso, o pedido é um “ato ameaçador da face” ou Face Threatening Act (FTA), especialmente interessante porque coloca em jogo tanto a face positiva do falante quanto a face negativa do interlocutor (BROWN & LEVINSON, 1987).

Os vídeos utilizados na pesquisa foram todos gravados em Roma, seguindo a modalidade do RP semiaberto descrita no primeiro capítulo (§ 1.1). Os quatro “não atores” são três mulheres e um homem, falantes nativos de italiano, embora, no momento em que foram gravados os RPs, alguns morassem ou tivessem morado também em outros países, como a Alemanha e o Brasil. Tinham entre 39 e 62 anos e possuíam formação superior e as seguintes profissões: tradutora e intérprete, consultora de promoção turística, professora de italiano na Alemanha e aposentado.

Os vídeos dos atores foram gravados especialmente para esta pesquisa, com base nas mesmas situações encenadas pelos “não atores”. Uma dupla era composta por atores profissionais, que atuam em cinema e teatro, e uma por estudantes de teatro da Università degli Studi Roma Tre. Os participantes tinham entre 20 e 30 anos e eram de Roma ou de cidades próximas.

A escolha de reproduzir as quatro situações também com atores deveu-se à avaliação de que ter as mesmas cenas gravadas por atores e “não atores” possibilitaria comparar a

naturalidade entre RPs de pessoas que não possuem nenhuma familiaridade com a rotina de filmagens e aqueles de pessoas que têm isso em seu cotidiano e em sua profissão. Desse modo, seria possível investigar se o julgamento de falantes confirma a ideia de que todo ser humano não só é capaz de encenar, mas o faz cotidianamente, defendida tanto na arte (BOAL, 2015; PIRANDELLO, 2018 [1927], SHAKESPEARE, 2011 [1908]) quanto em outras áreas (CAFFI, 2009; GOFFMAN, 1975 [1959]).

2.1.2 O formato do teste piloto

O teste piloto foi criado tendo como pressuposto teórico principal a obra de Goffman (1975 [1959]), na qual as interações cotidianas, como aquelas recriadas pelos RPs, são comparadas a representações teatrais. Desse modo, o teste parte da ideia, elucidada por Goffman, segundo a qual representações são parte do cotidiano e busca compreender como são feitas e percebidas tais representações, já que está entre os objetivos da pesquisa discutir perspectivas diferentes a respeito da ação de representar como algo presente na vida e não como uma atividade periférica e destacada da realidade.

Portanto, para averiguar se as encenações e, sobretudo, a língua dos RPs, eliciadas a partir da simulação de situações cotidianas, podem ser vista como fidedignas e verossímeis, o teste piloto foi organizado partindo, por um lado, de uma análise da situação, considerada central em qualquer interação social (CAFFI, 2009; GOFFMAN, 1975 [1959]; HYMES, 1972), e, por outro, dos elementos que, segundo as teorias que utilizamos como referência, são relevantes na composição das representações cotidianas. São eles: (i) o modo como o falante escolhe desenvolver as ações ou elabora os papéis (GOFFMAN, 1975 [1959] 1981; JUCKER, 2018); (ii) as escolhas linguísticas (CAFFI, 2009; CRYSTAL, 1997); (iii) a capacidade de representar (BOAL, 2015).

O teste foi desenvolvido na plataforma Google Forms e organizado em dois blocos de questões. O primeiro propunha uma avaliação quantitativa por meio de cinco perguntas fechadas, que solicitavam a atribuição de uma pontuação. Foi utilizada uma escala Likert com pontuação de 1 a 5, sendo que 1 era o valor mais baixo e 5 o mais alto. Com essa parte do questionário, buscava-se saber qual a percepção dos informantes em relação à verossimilhança e à correspondência dos elementos observados nas cenas do RP, quando comparadas com aquilo que eles consideravam parte de sua realidade de falantes. Sobre o uso da escala Likert, Schutze & Sprouse (2014, p. 33) indicam que “um dos principais benefícios da EL (Escala Likert) é que ela é numérica e intuitiva. (...) Significa que a EL pode ser usada para responder

perguntas sobre o tamanho de uma diferença entre condições, ao possibilitar testes estatísticos inferenciais” [One of the primary benefits of LS (Likert Scale) is that it is both numerical and intuitive. (The former) means that LS can be used to answer questions about the size of a difference between conditions by leveraging inferential statistical tests] (2014, p. 33). Uma vez que, para avaliar modos e usos da língua, bem como a naturalidade com a qual essa língua é empregada, é preciso considerar também os fatores subjetivos dos indivíduos, no nosso caso, a escala Likert se torna um dispositivo bastante profícuo.

Essas perguntas deveriam ser respondidas para cada um dos oito vídeos que compõem o questionário. Para compreender melhor o modo como o teste piloto foi organizado, reproduzimos aqui um exemplo (Figura 1) relativo ao primeiro dos oito vídeos e que se repete, exatamente da mesma maneira, para cada um dos oito vídeos.

Figura 1 - Vídeo 1: perguntas e escala Likert

O segundo bloco do teste era composto por três perguntas abertas, ou seja, por uma avaliação de tipo qualitativo. Tais questões foram criadas para deixar ao informante maior liberdade em suas considerações tanto sobre a naturalidade das ações contidas nos RPs, quanto sobre a possível diferença nas representações de atores profissionais e pessoas comuns. Em uma análise do uso de RPs em contexto específico (a sala de aula de um curso universitário de odontologia em Adelaide, Austrália), estudiosos indicaram que, em um questionário majoritariamente composto por perguntas em escala Likert e finalizado com duas questões abertas, “os comentários abertos dos alunos enriqueceram e explicaram as classificações

positivas” [the students’ open-ended comments enriched and explained the positive ratings] (SKINNER et al., 2012, p. 893) e era exatamente esse também o nosso objetivo.

Considerando tudo isso, a formulação das perguntas abertas do teste piloto foi a que reportamos a seguir (Quadro 5).

Quadro 5- Teste piloto: perguntas abertas Bloco 1: Avaliação quantitativa