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2. Romance histórico: a textualização dos silêncios da História

2.1. Romance histórico ou romance da vida privada

“Move-me sim a vontade de entender o fio condutor que nos transporta ao que hoje somos”

Luísa Beltrão, Os Bem-Aventurados

Esta tetralogia pode, assim, ser classificada como um conjunto de quatro romances históricos, muito embora algumas das características desse género sejam reequacionadas e subvertidas para instaurar a perceção de que a narrativa é ficcional, é

105 Cf. BELTRÃO, Luísa Os Pioneiros Uma História Privada, 7.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2004, pág. 13.

106 Cf. LARIOS, Marco Aurelio – “Espejo de dos rostros. Modernidad y postmodernidad en el tratamiento de la historia” in KOHUT, Karl (ed.) – La invención del pasado: la novella histórica en el marco de la posmodernidad, Frankfurt: Vervuert, 1997, pág. 136.

uma construção do seu autor, pois fala “do que não existe, embora apresentando a sua não-realidade como se existisse realmente”107. Tal desconstruir do conceito de que um romance histórico corresponderia ao relato objetivo e factual da História é evidente não só no subtítulo da obra, mas também na forma como a autora vai doseando a referência a factos reais e aos do foro privado, permitindo detetar na tetralogia a própria evolução do romance histórico ao longo de dois séculos.

Estes romances tornam evidente a mutação dos pressupostos associados à elaboração deste género romanesco e da própria escrita. Nos dois primeiros volumes é notória uma maior proximidade com o romance histórico tradicional – ou não decorresse a diegese no século XIX e início de XX. No entanto, neles aparece a polifonia discursiva108, a reflexão do narrador sobre os comportamentos das personagens (“A virtude do meio termo era custosa, deu percentagens de lucro, não lições de moral.”109, “Foi benéfico para ele o contacto com espíritos superiores, artistas, cientistas, políticos, filósofos, seria a doença que os tornava filósofos ou seriam os espíritos superiores mais atreitos à doença?”110

), alusões ao futuro ou ao presente do narrador, tornando clara a não coincidência entre o tempo da ação e o da escrita (“Mas a questão ibérica manter-se-á por muito tempo e irá fazer correr muita gente, prenúncio de futuras uniões menos polémicas e mais eficientes,”111, “No entanto, não sabia se o havia de oferecer aos Alemães, se aos Aliados e tal problema, que hoje não teria importância nenhuma”112

), a inclusão do pensamento ou do que seria a intervenção da personagem no discurso do narrador sem qualquer tipo de indicação (“A viagem fora longa e aflita. Conhecera a dureza do anonimato, sofrera calado a sordidez rugosa da promiscuidade, passara frio e fome, tivera dúvidas, será que Deus castiga os insensatos?”113, “Pedro sorriu, porque a afirmação era tudo o que havia de mais exacto, mas vinha com uma missão e pelo menos tinha que tentar desempenhá-la, a mania que as pessoas têm de julgar os outros por si próprias”114

), a apresentação do fluir temporal de forma não

107 Cf. ISER, Wolfgang – “A ficcionalização como dimensão antropológica da literatura” (trad. Alexandra Lopes) in BUESCU, Helena, DUARTE, João F. GUSMÃO, Manuel (org.) – Floresta Encantada, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001, pág. 101.

108 As questões relativas à polifonia discursiva serão abordadas no capítulo I, razão pela qual as citações aqui incluídas têm apenas carácter ilustrativo.

109 Cf. BELTRÃO, Luísa – Os Pioneiros Uma História Privada, 7.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2004, pág. 30.

110

Idem – Os Impetuosos Uma História Privada, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, pág. 109. 111 Idem – Os Pioneiros Uma História Privada, 7.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2004, pág. 73. 112 Idem – Os Impetuosos Uma História Privada, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, pág. 203. 113 Idem – Os Pioneiros Uma História Privada, 7.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2004, pág. 21. 114

cronológica, privilegiando uma espécie de amálgama, onde todos os tempos coexistem em simultâneo (“Albertina adorava Lamalou e a convivência, apesar do desgosto, toda a vida ela falou desta convivência que, valorizando o espírito, satisfazia a matéria.”115

). Os dois últimos (cuja ação percorre a época do Estado Novo até à atualidade) evidenciam uma cada vez maior polifonia discursiva, incluem reflexões sobre a matéria narrada (“Mais tarde diria que fora uma refugiada política, mas isso foi mais tarde, quando o álibi lhe veio parar às mãos. Ou talvez não dissesse. É tão difícil esta história dos álibis! Terá sido Constança que o disse? Não, definitivamente não disse, o seu álibi foi outro, construído por si. Peço desculpa pelo engano.”116

), há hiatos e amálgamas temporais geridos pelo narrador (apresenta acontecimentos do passado não narrados, como se já os tivesse relatado, para só os abordar posteriormente - tal é o caso do incidente nos estúdios de Joinville envolvendo Isabel e Richard)117 , ocorrem intromissões sistemáticas da instância narrativa (“Os ventos de mudança, a autodeterminação dos povos…‘Uma ova’, diria Salazar (Salazar não empregaria calão)”118, “As notas gloriosas do hino, transmitidas pelos altifalantes, ecoaram pela artéria lisboeta e no fim os aplausos saudaram a Pátria e o guia da Pátria, aquele que restituíra o orgulho à Nação, pobre nação que andara em bolandas, sem rumo, sem esperança no futuro”119), aparecem segmentos dialogados apenas com a textualização das intervenções de um dos interlocutores (“Jeanne contou que também trabalhava no Daily Mirror, como secretária, não, não era de Paris e sim da Provença, viera com dezoito anos à procura de uma situação, não, não conhecera Richard no jornal”120

) ou o narrador salienta o facto de eles serem meramente especulativos, desnudando a própria forma como o texto foi construído (“Este diálogo é pura ficção na medida em que tais interlocutores jamais se encontrariam na circunstância propícia ao confronto de opiniões.”121).

Esses estratagemas acabam por fazer colapsar todo o cenário do romance histórico tradicional, culminando na total subversão quando, no fim do último volume, todas as personagens se eclipsam para deixar sozinha a tia Graça (fonte de memória, o

115 Cf. BELTRÃO, Luísa – Os Impetuosos Uma História Privada, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, pág. 109.

116 Idem – Os Mal-Amados Uma História Privada, 2.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1997, pág. 64. 117 Idem – Os Bem-Aventurados Uma História Privada, 3.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1997, pág. 61 e 67.

118 Idem, Ibidem – pág. 264.

119 Idem – Os Mal-Amados Uma História Privada, 2.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1997, pág. 62. 120 Idem – Os Bem-Aventurados Uma História Privada, 3.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1997, pág. 73. 121

útero da tetralogia) e ela constata a não-realidade daqueles seres: uns eram fruto da sua memória, outros da sua imaginação e ela própria tinha sido ficcionalizada, existindo como tia Elisinha.

Subitamente a tia Elisinha sentiu um sopro gelado a percorrer-lhe o corpo e a murchar- lhe a vitalidade espantosa que até aí a animara…

Olhou à sua volta: não havia ninguém. NINGUÉM.

A família que segundos atrás se agrupava para a fotografia histórica, desaparecera, como se tivesse sido misteriosamente arrebatada por força oculta.122

– Becas! Ainda bem que está aqui… Por amor de Deus faça alguma coisa… eles desapareceram todos.

– Não desapareceram, tia, pela simples razão de que nunca existiram.

– Como? Não estou a perceber, oiço pouco… Porque está aí tão calma quando a minha família desapareceu toda?

Becas abraçou-a:

– Ó tia, não se enerve assim, faz-lhe mal – alteava a voz. – Eles eram personagens de romance.”123

Com o intuito de assinalar essa distinção entre o universo da diegese e aquele onde habita a tia Graça, a autora alterna, nestas páginas finais, os fragmentos escritos em itálico (relativos à personagem-real tia Graça) com os escritos em letra normal (idênticos à escrita da própria tetralogia). O uso do advérbio “Subitamente” associado à repetição do pronome indefinido “ninguém” (acentuado pela sua maiusculação na segunda utilização) realça a rapidez do quebrar da ponte estabelecida entre o mundo ficcional e o referencial.

Para recriar/fundamentar a existência desta obra enquanto romance histórico, existe uma “Introdução” no primeiro volume onde, assumindo-se uma primeira pessoa, são explicitados os motivos norteadores da elaboração da tetralogia. Por um lado, porque “Por vezes dá-[lhe] a nostalgia das histórias contadas na [sua] infância.”124

; por outro, visto o universo imaginário do homem moderno estar povoado de pseudo-heróis

122 Cf. BELTRÃO, Luísa – Os Mal-Amados Uma História Privada, 2.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1997, pág. 280.

123 Idem, Ibidem – pp. 280 – 281. 124

“numa miscelânea apátrida”125

, sem valores e identidade que urge desconstruir e, finalmente, porque foi criada num meio de contadoras de histórias (a avó das histórias terríficas; a dos contos de fadas e a bisavó sofrida e feliz que contava histórias “verdadeiras, vividas por si ou por gente que conheceu”126

). Entre estas, as que mais a fascinavam eram as últimas, visto lhe permitirem ter a perceção do fluir temporal, a forma como vai sendo criada a identidade e o facto de cada elemento ser um elo no devir: essas narrativas “[Levavam-na] a sentir que pertencia a um mundo que vinha de longe e que se continuaria.”127

Posteriormente, no Colóquio da Arrábida em 2002, a autora voltará a enfatizar essa intenção. A tetralogia é o meio ao seu dispor para construir essa linha cronológica entre o passado e o futuro: “O motivo que me levou a escrever esta obra de grande fôlego foi isto mesmo: tecer um fio para uso da memória, um fio orientador no tempo, e com esse fio construir uma teia que permita não confundir o dia em que se nasceu com o começo do mundo, ou os estilos ancestrais como anacrónicas projecções relativizadas por modas consumistas.”128

Tal permite a tomada de consciência da pertença a uma comunidade, a construção de uma identidade individual e, simultaneamente coletiva, como enfatiza Fernando Gil: “Identificamo-nos a nós próprios através da nossa experiência porque cremos descobrir nela uma continuidade que conservamos e que nos conserva. O passado exige ser apercebido como uma linha ininterrupta de existência e não como uma sequência de acontecimentos instantâneos.”129

Com base nestes pressupostos, salienta-se: “as histórias de gente vulgar, passadas aqui na nossa terra e não em Paris ou Londres (…), dava-me [sic] esperanças para o futuro.//Por isso me pareceu importante escrever histórias de gente nossa, corridas ao fio do tempo. E porque tinha ao meu alcance fontes importantes de História viva.”130

. O conceito de “História viva” relaciona-se com os princípios defendidos pelos historiadores do século XX ao valorizarem o tipo de fontes inerentes à elaboração da

125 Cf. BELTRÃO, Luísa – Os Pioneiros Uma História Privada, 7.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2004, pág. 11.

126 Idem, Ibidem – pág. 11. 127

Idem, Ibidem – pág. 11.

128 Idem – “Enredos privados na teia da história” in FERREIRA, Maria Luísa Ribeiro (org.) – As teias que as mulheres tecem, Lisboa: Colibri, 2003, pág. 139.

129

Cf. GIL, Fernando – A convicção (trad. Adelino Cardoso e Marta Lança, rev. da trad. Fernando Gil), Porto: Campo das Letras, 2003, pág. 41.

130 Cf. BELTRÃO, Luísa – Os Pioneiros Uma História Privada, 7.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2004, pp. 11 - 12.

história da vida privada. Neste caso concreto, essa fonte prende-se com a memória da “tia Graça”, apresentada como uma espécie de “coautora” da tetralogia: “Para levar a cabo a minha tarefa de escrita, tive a ajuda preciosa da ‘tia Graça’, uma senhora que ao tempo tinha 99 anos e morreu três anos depois, passando-me um testemunho de vida. A sua memória prodigiosa abria-me os caminhos (…).”131 Concebe, assim, a diegese como “história de gente nossa” e a sua intenção era “contar uma história privada de gente portuguesa.”132

Está, deste modo, criado o cenário base do romance histórico tradicional – aquele que vai relatar a história de um povo, uma família, uma personalidade, … –, muito embora o subjetivismo, a impossibilidade de comprovar a veracidade de grande parte da informação, a hipótese de ela ser distinta da versão oficial surgirem mesclados nesta “Introdução”: a narrativa mistura dois planos, as memórias da tia e a construção ficcional, ou não fosse este um romance pós-moderno a mimetizar a forma como o romance histórico era elaborado no século XIX e inícios de XX.

A procura em criar um cenário verosímil leva à inclusão, em cada um dos volumes, de uma “Nota Prévia”. Nesses textos introdutórios, o autor empírico apresenta os elementos subjacentes ao pacto de leitura a ser estabelecido com o leitor empírico: neles assume-se que os factos narrados, muito embora comuns à generalidade dos portugueses da época, têm como base a história da sua família. Neles rememoram-se os objetivos inerentes à elaboração da tetralogia e salienta-se o facto de a instância criadora do universo ficcional ter consciência de estar a praticar “uma violação: limitava-[se] a captar indícios, como os violadores de túmulos”, de “profanar um mistério que não [lhe] pertence e que teimosamente [tenta] desvendar”:

Quando me dispus a fazer o primeiro volume desta “Saga Familiar”, movia-me o desejo de “erguer figuras vivas” como então escrevi na introdução. (…) Este segundo volume refere-se já a um tempo mais próximo e muita gente há que ainda o viveu. Ao concebê-lo vi-me repentinamente entrando num enorme recinto cheio de gente que falava, sem que eu percebesse o que diziam.133 (…); É este o terceiro volume da tetralogia, Uma História Privada que me propus escrever com o objectivo de recriar épocas ao correr das gerações.134 (…); Com especial incidência neste volume, cuja pesquisa foi orientada sobretudo pelos testemunhos orais,

131

Cf. BELTRÃO, Luísa – “Enredos privados na teia da história” in FERREIRA, Maria Luísa Ribeiro (org.) – As teias que as mulheres tecem, Lisboa: Colibri, 2003, pág. 142.

132 Idem – Os Pioneiros Uma História Privada, 7.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2004, pág. 13. 133 Idem – Os Impetuosos Uma História Privada, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, pág. 11. 134

expresso a minha gratidão para com os que aceitaram falar das suas experiências, sentimentos, opções, permitindo-me compreender melhor o lado privado de uma época que ainda não é história.135

De igual modo, sustenta-se a veracidade do discurso pela inclusão sistemática de datas numa tentativa de tornar tudo “quantificável” e credível. Daí a minudência dessas referências que incluem a referência ao ano, mês, dia e, por vezes, hora da ocorrência do facto relatado (“Corria o dia 7 de Outubro de 1931”136, “No dia vinte e um de Setembro de 1899, a família de Júlio mudava-se para Lisboa”137).

Em todos os volumes surge uma árvore genealógica para facilitar a apreensão das relações familiares, a forma como a “Saga” foi sendo edificada (cria-se, deste modo, a ilusão histórica da árvore genealógica) e, nos dois primeiros volumes (os mais próximos do romance histórico tradicional), cada capítulo é antecedido da reprodução do retrato da(s) personagem(ns) fulcro do capítulo138 e de um relato da tia Graça, no português da época, onde ela assume ser a voz da narrativa, transportando ecos dos antigos contadores de histórias139:

Este pormenor mostra bem as proporções desta fortuna de que falarei mais adeante.140, Cazou em primeiras nupcias com Dona Antonia de Moura Telles, senhora muito baixinha e fragil, tendo trez filhos, de que falarei mais adeante.141, Do conde de Aguim, de quem não me lembro,

135 Cf. BELTRÃO, Luísa – Os Mal-Amados Uma História Privada, 2.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1997, pág. 9. Esses testemunhos orais fazem parte das fontes acessíveis à elaboração da História da Vida Privada, razão pela qual ela é de difícil corroboração factual.

136

Idem – Os Bem-Aventurados Uma História Privada, 4.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1997, pág. 17. 137 Idem – Os Impetuosos Uma História Privada, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, pág. 96. 138 Algumas dessas fotografias dizem respeito à personagem referencial, outras são retratos da época sem qualquer tipo de relação com as personagens ficcionais, salvo a de as associarem a uma época (estas informações foram fornecidas pela própria autora num email de 7 de julho de 2011 e estão também disponíveis num texto de 28 de setembro de 2006 sobre Alçada Batista e a utilização de um retrato de Ana de Jesus para a capa do livro Tia Susana, meu amor (Cf. Anexo – pp. 391 – 392).

139

Este tipo de elementos é apresentado por Fátima Marinho como uma das formas de tentar alcançar a “maximum verisimilitude” (Cf. MARINHO, Maria de Fátima – History and Myth, The Presence of National Myths in Portuguese Literature, München: Martin Meidenbauer Verlagsbuchhandlung, 2008, pág. 23), assim como a “intromissão de supostas memórias de uma pessoa de idade (as memórias da tia Graça na tetralogia de Luísa Beltrão) ” (Cf. Idem – Um poço sem fundo: Novas reflexões sobre literatura e história, Porto: Campo das Letras, 2005, pág. 33). No entanto, neste caso particular, as memórias não são fictícias porque existem esses relatos escritos pela tia. Contudo, a partir deles (de certos excertos, da adaptação/reordenação de algumas das memórias – seguindo as próprias instruções da tia Graça), erigiu- se um universo ficcional profundamente verosímil (Cf. Anexo – pág. 393).

140 Cf. BELTRÃO, Luísa – Os Pioneiros Uma História Privada, 7.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2004, pág. 19.

141

pois morreu no ano em que eu nasci, falarei mais adeante, assim como de meu pae e tios.142, Como já disse atraz, a família de meu pae é complicada.143 (…), Já expliquei atraz (…).144, Mas voltando à vida de meus pães (…)145, Durante mêses tive pezadelos, sempre fui muito nervosa e

atreita a visões e medos, depois contarei algumas delas, para não perder o fio à meada.146, Como já referi, viemos viver para Lisboa por causa da doença de meu pae.147, – O Afonso Costa, de que já falei (…).148,Prefiro voltar a coisas mais alegres.149

No entanto, nos últimos volumes tal estratégia desaparece visto ter sido efetuada outra opção: intensificam-se, ampliam-se as estratégias de desnudamento do processo criativo. Assim, não há o relato da história de uma personagem particular, mas a reprodução do que seria o viver quotidiano de uma família burguesa, com ligações ao centro do poder, detendo determinados privilégios e um status que é abalado/destruído finda a época do Estado Novo. Por isso mesmo, nas mesmas notas prévias, vai-se aludindo à função primordial da imaginação, das memórias e enfatiza-se que esta pode ser a história familiar de qualquer português:

trabalhei com a imaginação, sendo que ela não é mais que um rearranjo da memória. As figuras deste romance são fictícias, movendo-se muito embora num palco temporal histórico.

Respeitei as lembranças da “tia Graça”, porque muito mais que os livros ela me ajudou a recriar a época. Porém, não é esta ‘Saga’ a epopeia da sua família, da minha família, de nenhuma família em especial. É uma história privada de uma qualquer gente portuguesa.150

Aí menciona-se que o primeiro volume foi feito a partir de personagens reais, embora “romanceadas”, o segundo apresenta já um afastamento dessa imbricação mundo real-mundo romanesco dado algumas situações e figuras terem sido inventadas e modificadas para preservar a “privacidade dos mortos e dos vivos”151, o terceiro é “um romance de ficção cujas personagens e enredos são fruto da minha fantasia. É evidente que continua o cenário histórico, muito embora não tenha havido objectivos científicos

142

Cf. BELTRÃO, Luísa – Os Pioneiros Uma História Privada, 7.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2004, pág. 87.

143 Idem, Ibidem – pág. 149. 144

Idem – Os Impetuosos Uma História Privada, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, pág. 17. 145 Idem, Ibidem – pág. 19. 146 Idem, Ibidem – pág. 58. 147 Idem, Ibidem – pág. 101. 148 Idem, Ibidem – pág. 144. 149 Idem, Ibidem – pág. 228.

150 Idem – Os Bem-Aventurados Uma História Privada, 4.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1997, pp. 11 - 12.

151 Algumas dessas alterações prendem-se com a modificação do nome de alguns dos filhos de Albertina e Júlio, a invenção dos descendentes e seu percurso de vida.

de rigor, antes o intuito de reconstruir, com alguma dificuldade, confesso, os ambientes e mentalidades de um certo estrato da sociedade lisboeta deste período”.152

Estes romances apresentam, dessa forma, o novo enfoque dado a este género narrativo. Como salientaMaria Boëchat,

Evidentemente, o que se espera de um romance histórico – contemporâneo ou não – é que ele, distinguindo-se da narrativa histórica (pois, caso contrário, não seria romance) não se proponha a ser história, oferecendo-se como uma versão da ‘história oficial’, mas que ele, mostrando-se como ficcionalização da história, desloque esse discurso, colocando-o em questão153.

Decorrente desse posicionamento, no último volume, é possível identificar a tia Graça com a personagem tia Elisinha, realça-se alguns dos pilares de construção da tetralogia (similares aos apresentados nas notas introdutórias) pela voz de uma personagem aparentemente real, “a Becas”, o elemento humano que (re)liga a tia Graça ao presente, lembrando-lhe quem ela é e o motivo de todas as personagens terem

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